Num cinema, perto de mim

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7 de Janeiro de 2007. Domingo. Na Gulbenkian o povo quer Amadeo, aparecem bichas sinuosas. O povo também quer cinema, cinema belo.

Chávenas e copos e pratos ao longo do balcão e na bancada interior do bar. Duas empregadas aturdidas com os incessantes pedidos. Atropelos selvagens dos consumidores de alta cultura na conquista de um cafezinho, aquela fatia de bolo de maça. São seis e meia da tarde, vai começar Au Hasard Balthazar. Bresson.

Shubert interrompido por um zurro. Estamos ainda no genérico. No final, um burro deixa-nos calados. Com os olhos muito abertos. Nós. Muito.

As três e meia da tarde antecipam-se às seis e meia dessa mesma tarde, e isto dura desde o tempo em que há registos do tempo. Neste domingo, na Gulbenkian, não houve excepção à regra do jogo. Quem foi descobrir-se no The River, de Jean Renoir, teve de atravessar os cordões souza-cardosianos. Teve de entrar numa sala que ficou cheia de velhos com espírito jovem e de jovens com gosto de velhos. Teve de rir por ter nascido uma menina. No final do filme, teve de ouvir aplausos.

Quantas vezes se ouvem aplausos num cinema? Não sei. Sei que foi belo. É.

5 thoughts on “Num cinema, perto de mim”

  1. Excelente realizador, Valupi. Um dos meus favoritos a preto e branco. Lembrando que o homem andou metido em cerâmicas quase até aos trinta, até admira os russos dessa altura não o terem convidado para assinar o propagandístico e revolucionário Pot(emkin).

    E não te surpreendas com as palmas, essa malta aí bate-as por tudo e por nada quando não usa os lenços para enxugar lágrimas. Eu, por exemplo, lembro-me de gente da época salazarona aplaudir, num cinema qualquer da Av. da Liberdade, uma cena do filme as Canhonhaças de Navarona, uma das aventuras mais ridiculas e aldrabonas sobre a última guerra mundial. E vá lá, vá lá, que o Renoir só foi convencido pela máfia celuloica desse tempo, e que ainda por lá anda, a realizar um filme anti-nazi.

    Estes teus apontamentos cinéfilos são sem dúvida excelentes para interromper os sonos aos velhos esquecidos da mona como eu, e também porque dão a esta folha um ar de revista mensal para pessoas satisfeitas com os salários que lhes pagam e, sobretudo, pela delícia de os enfeitares com as tuas visitas de bom observador aos bares, nos intervalos, a pretexto de beberes um café repleto de nicotinamida, muito boa para a circulação.

    TT

  2. Fui das que neste domingo dia 7, também procurei o belo na Gulbenkian. Na exposição de Souza Cardoso. Fugi às filas sinuosas porque ainda tive tempo de passear pelos belos e húmidos jardins da Fundação, antes das portas abrirem.

  3. Há uns anos atrás também se podia assistir a cenas dessas na Casa das Artes do Porto. Vi lá quase todos os grandes clássicos do cinema francês antes da Nouvelle Vague. Agora, a cidade está a desgraça que toda a gente sabe.

  4. TT

    Podias contar-nos alguns episódios dessas tuas aventuras cinéfilas. Tenho a certeza de serem pedaços muito saborosos da tua vida e respectivas épocas.

    Karla

    Censuraste-me as “bichas sinuosas”… Questão estética ou moral?

    Primo

    Tens de ser tu a revitalizar a cidade, carago!

    Anonymous

    Isso era o que eu gostava de saber.

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