Todos os artigos de Aspirina B

Não ESTA Espanha

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A «Visão» chega-me no dorso dum muar, o mesmo doce animal que me traz os víveres. Eis porque só hoje li a crónica «O fantasma do iberismo», de António Mega Ferreira, de 16 de Novembro.

Eu leria sempre o Mega, mas o tema gritava-me da página. O pretexto: certa indignação colectiva (que metia acção judicial) contra o iberismo de que o ministro Mário Lino se confessara professante. O cronista goza (e tem direito ao prazer, mas não a este) com o atraso do desagravo: o ministro declarara-se em Abril, e já se estava agora no mês que era.

Ignoro quem seja esse actual «grupo de indignados». Mas convém lembrar que este blogue foi o primeiro âmbito português em que se deu o brado. Fizemo-lo aqui, três dias após a confissão de Lino, pormenorizando-lhe os termos segundo o «Faro de Vigo»:

«Soy profundamente “iberista”, convencido de que España y Portugal tienen por delante un futuro en común porque su historia es también común y su lengua, similar. Soy iberista confeso. Tenemos una historia común, una lengua común y una lengua común. Hay unidad histórica y cultural e Iberia es una realidad que persigue tanto el Gobierno español como el portugués». E acrescentávamos, nós, que haveria por ali alguma «lengua» a mais e, quem sabe, alguma «cultura» a menos.

Mega Ferreira, como Sócrates, oferece larga cobertura ao ministro. Começa por reescrever-lhe generosamente a charla. «O ministro disse» – diz-nos o cronista em Novembro – «que a Ibéria é uma ‘nova realidade’ e que Portugal e Espanha têm tudo a ganhar em entenderem-se no quadro de uma estratégia comum de afirmação no espaço europeu e no contexto internacional».

E concretizará, já só por sua conta, adiante: «Na lógica do mundo globalizado, fatalmente hão-de sobreviver (ou viver melhor) as alianças estratégicas que acrescentem dimensão aos diversos particularismos nacionais».

Um iberismo assim entendido é já outra coisa do que o novíssimo, ou mesmo o tradicional. Não é a fusão de Estados, que uma percentagem pouco exigente de portugueses aceitaria em troca de uma ‘hoja de pago’ viçosa. Também não é a sonhada associação de «povos ibéricos», de estatuto igualitário.

É uma proposta que soa séria, essa das «alianças estratégicas que acrescentem dimensão aos diversos particularismos nacionais», com que, creio também, todos lucraríamos.

Só que a Espanha de Mega Ferreira é uma miragem. E com miragens não convém fazer alianças.

Quando o cronista afirma, tranquilizador, que «nem a Espanha de hoje é a dos ‘castelhanos’», causa-nos arrepios. Porque tudo indica que ela o é. Mesmo comandado às claras por um galego como Rajoy (e às escuras por outros indivíduos, o que é de ciência comum), o PP é um partido profundamente «castelhano», centralista até à medula, defensor duma Espanha governada ‘desde la Meseta’. O partido de Zapatero não o é menos. Mas habita nela alguma maior inteligência. O PSOE chega a falar numa ‘España plural’, e em ocasiões de desbunda lírica mesmo numa ‘Nación de Naciones’. Mas, podendo (e pôde), redigiu um novo Estatut catalão, e foi esse o adoptado nas Cortes de Madrid.

Quem estiver precisado de ainda mais calafrios leia esta inacreditável entrevista com Pío Moa numa estranhíssima (mas, aqui, oh tão útil) Alameda Digital.

Esta é a Espanha real, aquela de que convém manter-nos afastados. É por isso que a tirada de Mega Ferreira – «o iberismo contemporâneo parte da constatação da multipolaridade ibérica» – soa como de um mundo estranho, espectral.

Ao sensato Mega falta, quem o diria, só algum cepticismo.

Para os que persistem em encarar “o véu” como um mero exercício inocente da liberdade religiosa

E ainda a propósito do debate de ideias que segue na caixa de comentários do 5 dias, suscitado pelo lúcido post de António Figueira, vale a pena recordar uma entrevista de Ben Greeman a Jane Kramer na New Yorker de 16 de Novembro de 2004. Fica um excerto:

(…) women in North Africa, where most of the families of young Islamic women in France come from, have really been struggling for their rights. But in France, with all its freedoms, so many young women seem to be capitulating to Islamist pressure. It usually starts with the young men who are recruited, and the symbols of successful recruitment are the women in the family. In other words, the women are the symbol of the new identity of the man. When you see a twelve-year-old girl coming to school in a chador, where for two or three generations no one had worn one, you have to look at this as the expression of an enormous pressure from the men in the girl’s family. You’re really dealing with a born-again movement, and the girls get the short end of the stick, because the boys don’t have to change what they study, how they dress, and so forth. The girls are the proof of the new purity of the family. Many French people I know felt that this law was a Pandora’s box, that it was going to be more trouble than it was worth, and that the best thing to do was to continue to try to deal with it in the schools, with teacher-parent conferences and so forth. But it’s hard to do that as the Muslim communities become more extreme. Ten years ago, a Muslim girl who told her family “I’m going out to the movies with friends” might have caused a family fight. These days, she might be shipped off to Algeria to be married.

Venha curar-se aqui!

Será só impressão minha? Pode, claro. Mas vou dizer, ainda assim. Trata-se da caixa de comentários. A nossa. Ou as de outros, onde calho espreitar.

Digamos assim. Quando o blogue é «de causas», quase sempre amáveis, e oportunas, a caixa de comentários é duma respeitabilidade que faria pensar, se não olhássemos para o lado, que o mundo era afinal um oásis, descontraído e estimulante.

Mas quando o blogue não tem causas, como este, está um fulano à mão de semear de uns tipos soturnos, regularmente (mas nem sempre) basto sucintos, que desembestam contra uma novidade que se conta, uma proposta que nos surgiu, uma visão geral do mundo que um conhaque tinha dentro.

Não brilham ali, na intempestiva reacção, um raciocínio, uma chalaça, um cinismo sequer. É só recusa, é só rejeição, é um grito de alma em estado puro.

Constitui, sempre, uma surpresa – e, quase sempre, um susto. Com quando nos fazem uma injustiça, a sensação é esta: «Isto não pode estar a acontecer-me». É a salutar fase da negação, que nos impede a entrada no vórtice do disparate, ali tão convidativo.

Vem, depois, a fase, essa supremamente irónica, da razão. Aquela que nos diz: «Também, meu velho, quem te mandou meter nisto?»

Entretanto, o outro, que até já te esqueceu, está mais perto da cura.

«Faz-me o favor…»

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny
1923-2006

Lisboa 2026?

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À atenção de um ou outro dos 28% de portugueses que se desejariam espanhóis

CARTA DOS DOS DOUS JOVENS ESTUDANTES DA USC [Universidade de Santiago de Compostela] DETIDOS E TORTURADOS EM 21 E 22 DE NOVEMBRO

Ante a gravidade dos factos acontecidos na capital de Galiza entre os dias 21 e 22 de Novembro, Aurélio L. e Iago B., detidos e torturados, queremos relatar o seguinte:

1) Efectivos antidistúrbios coordenados para defender da ira popular internacionalista a charla do ex-ministro dos Asuntos Estrangeiros do Estado de Israel detivérom-nos irregularmente a propósito de presuntos [presumíveis] actos de desobediência e injúrias à autoridade.

Minutos antes de começar a convocatória dumha concentraçom de protesto diante do prédio da Aula socio-cultural da Caixa Galicia onde Shalom Ben-Ami haveria dar umha conferência, dous agentes solicitárom o deslocamento dum carro para a nossa detençom alegando:

a – Ter sido chamados “terroristas” por um de nós. Várias testemunhas presentes defendérom-nos conhecendo que tal feito nunca tivo lugar.

b – Desobediência à autoridade por requerirmos umha justificaçom no momento em que, sem razom algumha, se dirigírom a nós para solicitar-nos identificaçom. Esta petiçom, realizada dum jeito intimidatório e prepotente antes inclusive de ter começado a concentraçom, seria a seguir satisfeita, motivo que nom saciou a sede repressora dos membros da Polícia espanhola.

2) Aproximadamente 20 minutos depois, fomos introduzidos numha carrinha policial compelidos por umha violência desproporcionada em que participárom umha dúzia de efectivos. Estes, arrastando-nos e agredindo-nos com patadas, forçárom-nos sem mediar palavra a penetrar no veículo. Antes de consegui-lo, I.B. foi brutalmente violentado nos seus genitais ao sofrer umha enorme pressom por umha mao policial, enquanto A.L. era espancado e agredido com um cacete com que tentárom forçar-lhe o anus.

3) Umha vez trasladados à esquadra policial, três policias fechárom o garagem no qual se detivera o veículo, deixando-nos ao “cuidado” de três agentes, entre eles os dous que levavam o carro. Após saírmos do veículo, I.B. foi deliberadamente espancado com dous fortes golpes de cacete no lombo e as nádegas, enquanto transcorria o primeiro “cacheio” a que fomos submetidos. O maior dos polícias presentes tivo de intervir exigindo o seu companheiro que se tranquilizasse.

4) Levados à ante-sala dos calabouços, na qual aguardamos quase 5 horas sem ser informados sobre a nossa situaçom, fomos postos baixo vigiláncia, alternativamente desenvolvida por um ou dous agentes. Passadas duas das 5 horas referidas, o polícia antidisturbios que provocou a nossa detençom no centro de Compostela baixou a “visitar-nos” . Ante esta inesperada e agressiva apariçom e, em previsom do que puder ocorrer, os agentes encarregados de custodiar-nos abandonárom cobarde e cumplicemente a sala.

A “intervençom” desta auténtica besta supujo que A.L. fosse agitado e insultado, trás o qual o agresor se dirigiu a I.B., a quem propinou três punhadas na cabeça com a mao direita, a qual enfundara previamente numha luva de lá, mantendo ao descoberto a mao esquerda, o que pode dar ideia da intençom com que acudiu onda nós. Acompanhando a gesta de horror com insultos e ameaças consistentes em frasses como “enséñame ahora la lengua que te la troceo” ou “esta noche la vais a pasar en los calabozos. Iré a visitaros para meteros un cuerno por el culo. Preparaos”. Ao abandonar o soto, e acreditando a natureza política das agressons, chamou-nos “desgraciados, bobos, terroristas” .

5) Sobre as 22,30 horas, após o sofrimento padecido, e ante os flagrantes danos causados em genitais, costas, nádegas e cabeça, decidimos solicitar atençom médica para I.B. Aliás, solicitamos o Habeas Corpus devido ao intolerável procedimento da detençom seguido pola Polícia espanhola em todo o momento, interpretado ao ritmo de falsidades, insultos, ameaças e agressons. Se a primeira petiçom foi demorada até as 2 da madrugada, a segunda foi denegada polo juíz, que nom achou irregularidades no procedimento.

6) Um de nós, a tratamento médico crónico de dous órgaos vitais, dirigiu-se à polícia com a finalidade de lhe ser facilitada a medicaçom precisa. A reacçom, semelhante às anteriores, foi afirmar que “isso fai-se num momento”. Duas horas depois ninguém perguntara sequer qual era a medicaçom necessária, malia a nossa permanente insistência sobre este aspecto. A medicaçom, solicitada às 22.30 para ser tomada às 23 horas, foi facilitada de jeito incompleto por serviços hospitalários às 03.30 da madrugada.

7) Finalmente informados, por volta das 01.00 horas da madrugada da nossa situaçom de detidos em qualidade de 4 delitos atribuídos (danos, desordens públicas, resitência à autoridade e atentado), fomos internados em calabouços, onde permanecemos a noite toda até às 09.00 da manhá sermos despertados para falar com o advogado e passar a instruçom.

Dito o qual, A.L. e I.B. desejamos pôr em conhecimento de todo democrata galego a detençom irregular de que fomos vítimas e, particularmente, a tortura impingida durante o tempo que estivemos custodiados pola polícia.

Achamos doloroso termos sido sujeitos passivos de violaçons tam brutais mas, ante todo, achamos intolerável que na Galiza do século XXI, uniformados espanhóis se dignem a torturar em dependências da Polícia espanhola jovens galegos pola sua condiçom política. Queremos rematar reconhecendo o trabalho mais importante do processo. É esse trabalho que fixo a gente desde o primeiro momento em que fomos levados polo ar. Ainda agora, escrevendo estas linhas, lembramos com emoçom o momento no qual os concetrados e concentradas rechaçárom a violência empregada e berrárom desde a injustiça contra os armados.

Muito obrigado a todas as pessoas que saírom o mesmo dia dos feitos à rua a denunciar o acontecido, a quem se concentrou até a nossa posta em liberdade, a todas as organizaçons e colectivos que tirárom comunicados, e a todas as pessoas que se interessárom por nós. Agora mais do que nunca decatamo-nos do importante de construirmos um movimento social que ante estes feitos nom tem mais regras das que a democracia. Por todo isto, apelamos a massa galega comprometida com os direitos fundamentais, a tomar nota do relatado e agir em conseqüência.

CONTRA A REPRESSOM, MOBILIZAÇOM!
NENGUMHA AGRESSOM SEM RESPOSTA!
TORTURAS NA GALIZA NUNCA MAIS!
FORA AS FORÇAS DE OCUPAÇOM!!

Isto é Santiago de Compostela em 2006. Você anseia por isto em Lisboa em 2026? Faz-lhe muita falta uma Polícia de Choque espanhola? Óptimo. Avise-nos já. São vinte belos anos para nos livrarmos de você.

A tristeza toda em meia dúzia de linhas

A notícia já começou a passar nas televisões: quatro portugueses morreram no sul do Chile, quando a avioneta em que seguiam se despenhou perto de Coyhaique, na Patagónia. Desses quatro portugueses, três são jornalistas: dois do Record e uma do Diário de Notícias. A Maria José Margarido. A Zé. A rapariga porreira que eu via todas as tardes, na escada, ao pé da máquina do café. Mais nova do que eu um ano. Trinta e três, 33, trinta-e-três. TRINTA E TRÊS ANOS. Foda-se.
Lembro-me agora da sua presença discreta, das suas reportagens invulgarmente bem escritas, das qualidades humanas sempre mais nítidas à luz da morte súbita, escandalosa, inexplicável. Mas não me apetece escrever essas coisas que se escrevem nestes momentos. Só quero dizer deste nó na garganta, desta tristeza que não passa, do café que já não sou capaz de tomar junto à máquina a que ela nunca mais se encostará.

TLEBS, a fatal

A nova Terminologia Gramatical, a soturna TLEBS, é um caso banal e entediante de correcção política. Como qualquer outra, também esta provém duma grande insegurança interior. A fim de acalmar os demónios, o indivíduo aumenta a precisão formulativa, uma mesma, sem tirar nem pôr, que faz dum «surdo» um «ouvinte alternativo».

Num artigo no «Expresso» de hoje, Miguel Sousa Tavares atira-se aos linguistas. Errado, errado. A Tlebs nada tem a ver com a linguística. É, como afloração do politicamente correcto, o mais puro «eduquês». O tal. O de sempre.

Ó excelso Ministério! Mas isto, o mando dos ayatolas, não vai parar nunca?

«A carrinha dos afectos»

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Não me lembro de aqui, alguma vez, falar do sítio onde nasci. Não tem importância. Não foi na Avenida de Roma, e pudera bem ter sido. Foi num sítio mais tranquilo, e sobretudo bem mais bonito. Fica ali em baixo, na fotografia, ali onde o Guadiana recebe a ribeira que chega da direita. (A legenda acima é para ignorar, neste caso. Mas não tenho, em carteira, vista melhor).

Nunca falei, pois, dessa terra. Mas é um prazer ver outros fazerem-no. Sobretudo quando o fazem tão bem. Foi o caso, hoje, de Fernando Madrinha, no «Expresso». Leiam. Dá gosto saber que há disto no mundo.

A CARRINHA DOS AFECTOS

Não é a primeira vez que se ouve falar de Mértola a propósito de prémios de excelência – e não só pelo extraordinário trabalho de Claúdio Torres (Prémio Pessoa 91) enquanto primeiro responsável pelo campo arqueológico. Há uns anos, a C+S de Mértola foi declarada pela OCDE “estabelecimento escolar exemplar a nível mundial”, num grupo de 24 escolas de cidades tão diferentes da pequena e bela vila de Mértola como Helsínquia, Tóquio ou Melbourne.

De um dos concelhos mais votados ao abandono e ao esquecimento, é extraordinário que cheguem com esta frequência notícias de pessoas, realidades e iniciativas exemplares. Todos sabemos que a necessidade aguça o engenho, mas isso não só não desmerece, como valoriza ainda mais o trabalho dos responsáveis por essas iniciativas. É o caso da carrinha que percorre aldeias e montes ao encontro dos velhos que os habitam, para lhes dar assistência médica e um pouco de atenção. Chega a cada uma das localidades uma vez por mês, resolve pequenos achaques, rastreia doenças mais graves e, acima de tudo, leva um pouco de humanidade a quem dela precisa e já desesperou de a encontrar.

Esse mini-consultório ambulante para todas as especialidades, em particular para os males da solidão, é uma invenção da Câmara Municipal dirigida por Jorge Pulido Valente e responde pelo nome de unidade médico-social. A autarquia decidiu candidatar o projecto a um prémio de ‘boas práticas’ instituído pela ONU. E o resultado aí está: foi a primeira candidatura portuguesa a chegar à última fase de escolha, com outras 47 finalistas de todo o mundo.

Num país onde tanta gente e tantas instituições com orçamentos de milhões se queixam da falta de meios, a carrinha de Mértola dá que pensar. Há quem tenha muito pouco mas conheça a arte de fazer escolhas acertadas e perceba o que é essencial. Para os velhos e os pobres do concelho – condições que, por todo o Alentejo, em geral se acumulam – a unidade médico-social é um milagre acontecido. Infelizmente não ganhou o prémio da ONU, o qual, sendo em dinheiro ( menos de 2500 euros…), teria a grande utilidade de permitir melhorar o serviço. E como? Isabel Soares, responsável pela carrinha dos afectos, explica na TSF: poderíamos, por exemplo, passar a visitar os habitantes mais necessitados das aldeias e dos montes de Mértola não uma, mas… duas vezes por mês. Tão pouco. E tanto.

Peixoto, o bom

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O Grande Contador de Desgraças está de novo ao ataque. Peixoto, ele, o próprio. Um excerto do seu recente, e terceiro, romance está à disposição. E é novamente terrível, e mortificante, e bom.

Depois dum segundo romance de desgraças de pacotilha (o termo é cediço, mas exacto), parece chegar-nos aí o velho José Luís Peixoto.

Preparai a recolha aos ninhos, ó harpias.

A amarga vitória da esquerda… ou talvez não?

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Jan Peter BALKENENDE e Wouter BOS

Amanhã, um destes dois homens acordará primeiro-monistro holandês. Um, o cristão-democrata Balkenende, já o é há quatro anos. O outro, o socialista Bos, deseja-o há pelo menos tanto tempo.

As sondagens dão a vitória, mesmo se renhida, aos cristãos-democratas. Eles governaram com a direita, o Partido Liberal, e não foram mansos para os pobres. Sim, neste país de 16 milhões, dez por cento anda no rendimento mínimo, mais ou menos garantido.

É sobretudo em nome dos párias que a esquerda se veio levantando. E tem, nas sondagens, um avanço espectacular. Mas… essa esquerda pode nem sequer – e mais uma vez – entrar no governo. E Wouter Bos, o líder trabalhista, morrerá, de novo, à vista da praia.

E porquê? Porque um segundo partido de esquerda, tão socialista que se chama isso mesmo, Partido Socialista, e até hoje com escassa representação parlamentar, pode bem aproximar-se da percentagem trabalhista (e até, segundo uma das sondagens, ultrapassá-la, tornando-se o segundo partido do país), mas, por isso mesmo, fazendo afastar do governo a esquerda inteira.

Dentro de três horas encerram as urnas. Restam três horas para votar útil.

Votar útil. Há-de tê-lo feito o eleitorado da direita, esquecendo liberais e até ultras, para assegurarem a Belkenende a vitória, e o lugar de primeiro-ministro. Há-de tê-lo feito a esquerda, também. Dos eleitores socialistas-socialistas aos encantadores verdes, muitos terão talvez votado Bos, para assim tirarem a direita do poder.

Não se diga que a Holanda é um país monótono, mesmo com toda esta planura sob o nível do mar.

Só mais uma coisa: os sorrisos dos senhores protagonistas. Nada que se compare com a cerimónia portuguesa. Não se está a ver, pois não, José Sócrates, Marques Mendes e Francisco Louçã, na noite anterior às eleições, num talk show televisivo, tratando-se naturalmente por tu (como quase todos aqui se tratam, no governo ou no parlamento), em distendida cavaqueira… Enfim, e não acredita você em universos paralelos.

Mas, também nestes baixos países, o poder não brinca. Primeiro-ministro, mesmo sorridente, haverá só um.

Amsterdão, já caída a noite.

Actualizado nos comentários.

Ena Pá Independentes!

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Recebi da editora Esfera dos Livros a informação de que o historiador espanhol Rafael Valladares irá a Lisboa, nos dias 23 e 24 de Novembro, «explicar como foi o reaparecimento de Portugal como país independente e, como se deu a ruptura entre Portugal e Espanha». Há uma vírgula ali perdida, mas vamos ao assunto.

O interessante, o perturbador, é que o livro – que suponho tradução do seu La Rebelión de Portugal. 1640-1680, de 1998 – tenha como título portguês A Independência de Portugal.

Num artigo, António Manuel Hespanha já o apodou de «castelhanista» e de «preconcebido». Não custa crer. Mas, à parte ter sido «A Rebelião de Portugal» um título fabuloso, o título adoptado grita, da capa, o maior disparate da nossa História según España, que é esse de chamar «Independência» à nossa Restauração. E muito bom espanhol (estará Valladares entre eles?) crê que Portugal data de 1640… Até aí esteve séculos a hesitar, vai-não-vai, a engonhar, quero ser Espanha, não quero ser Espanha, até que apanhou com um Rei espanhol, que até era legítimo cá, para só depois, tarde e a más horas, aproveitar a balbúrdia castelhana na Catalunha para – pumba, catrapuz! – defenestrar um fulano e proclamar a… Independência.

Como cidadão, protesto, ó nobre Esfera dos Livros.

O jovem que sobe à capital

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Impagável, a crónica de VPV hoje no Público, «Cavaco e Sócrates». É mais um daqueles paralelos arrepiantes que ele constrói com malvadez, embora este não arrepie tanto como o que ele fez, um dia, entre Cavaco e Eanes, e muito menos ainda do que aquele que traçou entre Cavaco e…Salazar.

Leia-se. Aqui vai o início do texto:

«O dr. Cavaco e o eng.º Sócrates são de certa maneira muito parecidos. Saíram os dois de um obscuro canto da província (um de Boliqueime, o outro da Beira) e em Lisboa, no Governo e, no caso de Cavaco, até em Belém, nunca verdadeiramente se adaptaram à cultura urbana. Vem neles sempre à superfície o constrangimento do estranho, uma certa reserva de quem não está em casa e uma atávica desconfiança da volubilidade e das maneiras de uma classe média e de uma burguesia com uma educação mais sofisticada e cosmopolita. Não “pertencem”. Mas, por isso mesmo, têm uma enorme vontade de poder, servida por uma enorme paciência e disciplina. É a velha história, que encheu dois séculos de literatura, do jovem que sobe à capital para a dominar, na sua variante moderna e portuguesa».

O resto é melhor ainda.

PS. A – encantadora – ilustração foi tirada de Imagens do Kaos graças aos bons serviços do Google Imagens.

A voz

Nas carruagens do metropolitano de certa cidade europeia, sai dos altifalantes, já desde há muitos anos, uma voz de homem, timbrada, envolvente, daquelas que transmitem tranquilidade (muito práticas em documentários), daquelas que inspiram confiança (muito práticas em anúncios de seguradoras). Mas pouca gente sabe – e é bom que assim seja – que o dono daquela voz… já não está no mundo dos vivos.

Arrepiante? Não. Pelo contrário, há aqui – como diríamos – certa mensagem de perenidade. De que o fim, parecendo-o, nunca é bem o fim.

Pessoalmente, isto toca-me. Existem centenas, talvez milhares de portugueses, que me ouvem, a mim, nos seus carros, quando querem saber o caminho mais exacto de A para B. Figuro ali, é verdade, com outro nome. Mas isso não muda nada. Mesmo com o meu nome próprio, eu ser-lhes-ia um desconhecido. Espero, sim, que a voz inspire confiança, e, já agora, transmita tranquilidade.

E também isto, bom, também isto me faz pensar no futuro. Um futuro que eu, ainda assim, desejo, se me permitem, um tanto distante.

Ena, ena!

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O Luis, e com ele o Aspirina, ascendeu ao «Diz-se», no Espaço público do «Público». Assim:

“Seria simpático que Santana, como qualquer cadáver político que se preze, se dedicasse mais à decomposição e menos à composição destas rábulas grotescas.”
Luís Rainha

aspirinab.weblog.com.pt, 14-11-06

Nem mais.
Nem menos.