
Todos os artigos de Aspirina B
CÃOPILAÇÕES
Angústia da influência
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo.»
Primeira frase do romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
«Devo à subtil persistência da minha mãe a conversão ao ski.»
Primeira frase da crónica O horror capital, de Paulo Portas, na edição de hoje da revista Tabu, inclusa no semanário Sol
CÃOPILAÇÕES
BLOCO#18
CÃOPILAÇÕES
CÃOPILAÇÕES
CÃOPILAÇÕES
Dão-se alvíssaras…
… a quem me faculte mnemónica que me auxilie a distinguir estes dois.
Já tentei de tudo, mas a verdade é que não distingo o Dores do Góis (ou será o Góis do Dores?). Os tipos, para além da insana insistência em mudar de roupa de aparição para aparição, nada têm que os distinga. O sinal do da esquerda costuma saltar para o da direita; o da esquerda nem sempre tem aqueles três deditos no ombro direito (o que seria muito útil); raramente aparecem os dois sozinhos no mesmo sketch e quando tal acontece voltamos ao problema da roupa. Tudo como se inconscientes do problema que os atenta.
Em suma, este é um dos problemas que eu gostaria de resolver ainda em 2007. Daí as alvíssaras!
L’HISTOIRE A BESOIN DE SOINS MÉDICAUX
Permitam-me abusar da hospitalidade desta casa, metendo aqui a minha resposta a um comentário do Valupi ao meu post sobre o Cloreto de Magnésio e o Professor Pierre Delbet. Matei as lêndeas gramaticais que mais feriam os olhos aos puristas amadores que passeiam nesta freguesia e deixei o resto na mesma. Estou convencido que os que estranham a ausência das ricas penas da maioria dos nossos colaboradores compreenderão esta espécie de impertinência que é ao mesmo uma forma simples e airosa de manter o jornal em movimento.
Desculpa a retirada à pressa, mas não podia deixar arrefecer a limonada. O que acontece em casos destes (quando por exemplo eu e outros nos pomos a dizer que andamos a ser mal servidos por uma classe que tem a obrigação de zelar pela nossa saúde ou, se não tem, que o diga com toda a franqueza para ficarmos descansados) é que quase sempre se esbarra contras as paredes do costume. Isto é, se citamos um médico honesto – ou uma dúzia deles, tanto faz – que nos pareceu “revolucionário” ou diferente e a destoar dos poderes estabelecidos nessa área, o argumento predilecto e muito comum é o de que essas ideias diferentes não foram confirmadas pelos maiorais da época nem sujeitas ao escrutínio de estudos científicos. E quanto mais velhas vão ficando essas opiniões discordantes, tanto melhor para aqueles que nunca as aceitarem por razões que só eles sabem. Repara, por exemplo, que só foi há meia dúzia de anos que se tornou pública a oposição muito válida dum dos contemporâneos de Pasteur às ideias sacrossantas deste. Até ai, ninguem ousava arrebitar a cauda ou pôr em questão as suas teorias microbianas.No caso de Pierre Delbet, e de muitos outros médicos franceses que confirmaram na prática que ele estava correcto naquilo que defendia e bastante avançado em relação à escola tradicional, foi utilizada uma outra arma do costume: deixar andar, não fazer muitas ondas, que no fim o pagode vai esquecer e até nem os médicos novos ficarão com porra de ideia de quem foi esse fulano muito respeitado no seu tempo.
Quanto ao aspecto da revitalização, vê se esta passagem dum outro livro sobre a matéria encoraja os curiosos da medicina, porventura distraídos: “Comme le professeur Delbet l’a établi par nombres d’experiences et d’observations faites avec des doses plus faibles, le Chlorure de Magnésie “exalte la VITALITÉ des cellules et leur permettre de triompher, par elles-mêmes, des microbes”. C”est ce qu”il a appelé Cytophylaxie”. O problema agora é entre o que Delbet deixou escrito, que não é sacrossanto, bem entendido, e esses médicos-cientistas de que me falas.
Agora perde um pouco de tempo, se quizeres, e vê se me encontras algum dos vários livros escritos por Delbet ou pelos seus seguidores à venda na Internet ou nalgum alfarrabista ai no teu bairro ou no resto dos bairros. Se encontrares, diz-me, que terei muito gosto em comprá-los e oferecer-te um charuto. Nos últimos anos tenho aprendido que a maior parte do papel impresso ainda a cheirar a tinta fresca raramente nos conta a verdade. Quem quizer saber dessa rapariga terá que procurá-la em sótãos e atrás de móveis. O único inconveniente é o de nos enfarruscarmos a sacudir-lhe o pó. Muito obrigado pelo interesse e um abraço. TT
As silenciosas salas da memória
Fosse pelo que fosse, a verdade é que nesta passagem do ano lembrei-me muito do jornal O Século. Quando se é novo, um ano representa muito pouco na percentagem do vivido. Um miúdo com dez anos, se pensa num ano, esse ano representa um décimo da sua idade. Mas o mesmo miúdo quando chega aos cinquenta já percebe que um ano é apenas um cinquenta avos da sua existência e tudo é mais veloz e fraccionado.
É um facto que a minha casa é muito perto da Rua de O Século, mas se não fosse essa aproximação eu lembrava-me na mesma. Porque quando eu era jovem pensava que o majestoso parque gráfico do jornal O Século nunca iria parar nem, muito menos, morrer. É que, além do jornal propriamente dito, havia as revistas O Século Ilustrado, Vida Mundial e Modas e Bordados – esta, uma revista para senhoras que muitos homens não dispensavam, pois nela escreviam escritoras importantes como Maria Lamas, Maria Ondina Braga ou Maria Judite de Carvalho. E como era assim, eu pensava que tudo aquilo nunca ia acabar. O Século era um mundo que fazia parte da minha vida, mas um dia, de um dia para o outro, deixou de fazer.
Esta fragilidade das coisas fortes, esta inesperada morte de um império de palavras, tudo isto me veio à memória no momento em que um ano mais se despede e um ano novo se apresenta na nossa vida. Agora só existe uma maneira de recuperar essas palavras perdidas. É nas prateleiras da Hemeroteca de Lisboa que as palavras do jornal O Século não morrem e vivem de novo sempre que alguém as recupera do sono do esquecimento. E projectam um pouco de vida e de alegria num lugar onde só a morte e a tristeza dominam as enormes e silenciosas salas da memória.
José do Carmo Francisco
Riso amarelo
NO IRAQUE TUDO PODE ACONTECER
Para aqueles para quem o “enforcamento” de Saddam Hussein possa servir de tópico em conversações à volta das caras de bacalhau com couve esta noite, segue este conselho: não acreditem, por enquanto, no que os vossos olhos viram, nessa fotografia dum corpo inerte pronto para mortalha e enterro.Eu pelo menos tenho as minhas dúvidas de que o homem fosse o mesmo que colaborou activamente com a Central durante umas dezenas de anos. Porquê? Pelo seguinte.
Primeiro, porque a ridícula saga dum Bin Laden, que só aparece em videos mas nunca a mostrar-nos como é que se amanha com relimpezas ao sangue, necessárias devido a insuficiência renal, é uma montagem que pode ser duplicada com pequenas alterações e com a ajuda do departmento de props da Central; segundo, porque não me lembro de ter lido em quatro anos uma única verdade sobre a guerra do Iraque saída das bocas dos governos americano ou inglês ou dos xiitas do governo responsáveis por grande parte do terrorismo que dizem andar a combater; terceiro, porque tanto a amante como a mulher de Sadam Hussein desmentiram que o homem que temos visto nas noticias é o mesmo que costumava dormir com elas; quarto, porque não vi a tradicional queda no alçapão, como costumamos ver nos filmes de cowboys do Clint Eastwood; quinto porque um dos chorosos acompanhantes no funeral the Saddam declarou: “He did not die. I can hear him speaking to me” (querem melhor prova do que esta?); e sexto, porque adoro teorias da conspiração e esta apresenta-se tão verosímil como outra qualquer.
Portanto, abaixo a intriga imperialista muito espertalhona e vão enfiar o garruço a outro.
TT
MEC
A pedido de várias famílias informo: a entrevista que fiz ao Miguel Esteves Cardoso (no suplemento 6.ª do Diário de Notícias) está, na íntegra, aqui.
Grande arte, pequenas formas
A «pequena história» é uma arte. Direi mais: não se a julgue uma arte menor. Cada vez que dou com mais um bom cultor dela, vários alarmes soam em mim.
Foi o caso de João Leal, de que conheci o grande talento na matéria, graças a um comentário há dias deixado num «post» abaixo. O seu blogue, Transmissão Especial contém vários contos brevíssimos.
Leia-se o espectacular «A primeira vez» e pasme-se.
Você é fantasma? Eu pago.

Foi ao ler, na Origem das Espécies, o blogue (um dos) do caro Viegas, este texto da Lusa sobre «escritores-fantasma» que as ideias me vieram em catadupa. Costuma acontecer-me debaixo do chuveiro, com a dificuldade de apontá-las que se imagina, quanto mais de dar-lhes logo seguimento. Desta vez foi a seco.
Parece que há por aí vários e activos «ghost-writers». Nos estudos universitários, na ficção. Devo acrescentar que desconfio, de há muito, de certo e conhecido cronista, de muito imitável estilo. Cada semana, mais me convenço de que anda ali «negro» na costa.
Mas ao que íamos.
Eu tenho um romance, o meu terceiro, parado há vários anos. Há-de chamar-se Deus chega no próximo avião. Falei nele a amigos, e a revista da APE publicou dele, até, as primeiras páginas.
A paragem já deu pretexto a um conto (um gajo tem que continuar nas bocas do mundo), o conto «Um romance perdido», que saiu no Magazine Artes e que a Luísa Costa Gomes disponibilizou aqui. Digo tudo isto porque, se alguém tiver a boa ideia de ler o conto, saberá que o romance anda à volta dum, exacto, dum «escritor-fantasma».
Ora bem, e eu só posso chamar genial ao meu cruzamento, hoje, das duas ideias. É isto: como não consigo achar tempo para prosseguir e acabar o meu romance, já que mil outras coisas importantes me tomam o escasso tempo deste peregrinar pelo vale de lágrimas, eu peço, mas peço instantemente, a algum «fantasma» disponível que tome contacto comigo.
De prazos, de pormenores, de tarifas, essas coisas rasteiras, trataremos depois. Envie já currículo para o email do blogue. Currículo completo, entende-se, sendo indispensável a indicação de actividades anteriores no ramo. Ah, e use pseudónimo. Eu não quero saber quem você é. Escusado acrescentar que nunca nos falaremos, menos ainda veremos.
A literatura nacional lhe ficará grata. Eu não. Pago, calo e recolho os louros.
Coisas que não se desejam a ninguém (2)
Não querendo desfazer, menos ainda comparar…
Mas esta, li-a eu hoje de manhã, num intervalo da publicidade nos ecrãs dos eléctricos cá da aldeia. Contava-se que certo cidadão britânico vai exigir do patrão uma indemnização por certo acidente de trabalho (não especificava) que o tornara viciado em sexo, o que já conduzira ao desentendimento definitivo com a mulher.
Não sei porquê, essa notícia ficou-me. As outras, algumas catastróficas também, esqueci-as.
11 de que mês?
E tu, Castro?
A TLEBS virada do avesso

A discussão sobre a nova Terminologia Linguística chegou a um clímax (mas esperam-se outros) com o artigo, ontem, de João Andrade Peres, no Expresso.
A versão completa do estudo está no site do professor e investigador.
É um exemplo de competência, de frontalidade e de nitidez. Um exemplo, sem mais.





