13 thoughts on “MEC”

  1. Magnífica, a entrevista. Eu ia justamente escrever uma laracha sobre ela, mas retive-me, por felicidade.

    Direi, só, que era a conversa que hoje, e já desde há muito tempo, importava ter com MEC. Pelo menos desde o tempo em que (há-de haver uns dez anos) eu próprio também longamente o entrevistei, na altura para o JL.

    E tenho a certeza – isso lê-se sem estar lá escrito – de que o ZM teve a mesma sensação: a de estar com alguém que modificou definitivamente a imprensa deste país, mas que continua a simpleza e a afabilidade em pessoa. Em pessoa inteira.

    Parabéns.

  2. Li a entrevista e guardei. Fiquei a pensar que muita coisa ficou por dizer, e que poderia ter sido suscitado por perguntas mais interessantes.

    Dá a ideia de uma reverência que se poderia escusar, no caso, pois prejudicou algumas perguntas e respostas a condizer.

    Mesmo assim, valeu a pena, ler o que o MEC disse, ficando espaço e tempo para outra conversa quando puder ser.
    Por outro lado, parece-me que estas entrevistas apenas surgem quando há pretextos práticos, no caso, a publicidade a livro publicado.

    Será mesmo assim?

  3. Não, não é assim. Haver o pretexto de um livro que saiu agora não equivale a fazer “publicidade”. Tratou-se apenas do tratamento jornalístico de um facto: a publicação de um volume de crónicas do MEC, cinco anos depois do último. E onde viu reverência houve apenas talvez, admito, cumplicidade.
    Já agora, que perguntas mais interessantes é que lhe faria?

  4. Perguntas interessantes? Por exemplo, estas:

    Quando o MEC respondeu ao que era feito do MEC, tendo obtido a resposta que “esteve retirado”, vindo a saber-se que teria sido por causa de “pisar o risco” quantas perguntas não poderiam ter sido feitas! Quantas!Como se pode ler, o MEC estava por todas, depois dessas perguntas sobre o lado “hedonista”, passado e repassado. E seria aí que deveriam passar-se as coisas. Não é todos os dias que se depara com alguém que admiramos em certa altura e se nos oferece o privilégio de poder saber como é que se entra tão depressa “nessa noite escura”. Não se viu luz, na entrevista, sobre isso. A não ser a revelação, tipo “candid interview” sobre o consumo de cocaína.

    Depois dessas que faltam, a tónica no meu modesto entender e que seria a guideline da entrevista, seria o seu trabalho escrito. Como é uma entrevista de “vida” , nada melhor do que começar pelo início. Perguntar, por exemplo, quando começou a escrever para jornais, onde e como? Por exemplo, guardo um artigo assinado por MEC, sobre cinema, acompanhado da crítica ao Brandos Costumes de Seixas Santos, publicado no O Jornal de 5.9.75, tinha o meco cerca de 20 anos. Só lendo se acredita como é que o crítico MEC alguma vez se considerou conservador! É ler…e ver como se desbastam termos como “fascismo se manteve”; “Salazar era o pai”; “os mecanismos políticos do fascismo”, etc. etc. Eu tinha ido por aí fora e perguntado ao MEC como fez a sua evolução política até chegar ao Independente.
    Sobre esta fase do Independente, quantas perguntas! Quantas, caro José Mário Silva!
    O MEC saberia dizer por exemplo, quem são os mais importantes violadores do segredo de justiça nos processos que mediou para a opiniáo pública. Saberia dizer como é possível o aparecimento de um jornalismo trash misturado com a seriedade da novidade acelerada e falsificada para vender jornais. Saberia explicar como é que o primeiro caderno do I ndependente se fazia realmente e porque é que Paulo Portas e ele mesmo fugiram do jornal e “abandonaram o barco”. Não lhe colocou essa pergunta…como não colocou as que se relacionam com o período áureo do cavaquismo e das grandes obras que geraram os grandes títulos do jornal.
    Enfim, poderia prosseguir, mas o comentário já vai longo.
    Mesmo assim, foi um bom furo.

  5. Sou amigo e colega de blogue do Zé Mário, mas, convenhamos — e correndo o risco de ferir a sua susceptibilidade e afectar melindres supostos e explícitos —, tenho de lhe dizer que a sua entrevista ao MEC é… histórica. Ou seja, para futuros sociólogos, antropólogos, historiadores e literatos de desvairada agenda, esta entrevista marca o fim de uma geração cujo mais notável representante é o MEC. 20 anos de trajecto pessoal são alegoria do País ainda e sempre cantado pelo Miguel. Sim, também Portugal tem saúde debilitada, causada por álcoois político-culturais que nos deixaram com maus fígados e nos trazem a morte para a frente dos olhos ou para o travo da boca. Tal como a maldita cocaína mediática em que Portugal tem esfregado as narinas noéticas acaba a impedir o mesmíssimo processo de que começa por ser estímulo: pensar.

    Quanto ao remoque do José, ele é estimulante demais para eu lhe resistir. Agora que a entrevista foi publicada, qualquer maduro encontra questões alternativas e complementares. É a dinâmica inevitável do jornalista de bancada, e mal não terá o fenómeno (como mal não tem que chova, mesmo que incomode o incauto).

    Então, porque não fazermos aqui as perguntas que ficarem agitadas na cachimónia após a leitura da entrevista? Nem importa que tenham resposta (embora até possam vir a ter!). O simples facto de lavrarmos as questões é homenagem ao homem, à sua lucidez, aos seus adamastores, a nós próprios que crescemos com ele e por causa dele ficámos mais inteligentes, mais espertalhões, mais atrevidos, mais gozões e mais portugueses. Foda-se que não haja quem tome o seu lugar, hoje.

    Por exemplo: Miguel, estás cheio de medo de morrer. Que queres mais da vida para além da saúde, para além das laranjas?

  6. O meu remoque não desvaloriza a entrevista, de todo em todo.
    Apenas lamenta que não se tenha ido mais longe e não é agora que se poderá lá ir, porque uma entrevista dessas, com um dinamismo desses, não se repete muitas vezes, acho eu.
    Assim, as perguntas a fazer, seriam as resultantes do momento e da inspiração da altura.
    Perdeu-se a ocasião, mas talvez ainda haja outras.
    Pela minha parte, já as tive, mas não me apeteceu perguntar nada disso.
    Aliás, algumas das respostas já as sei: tenho sensivelmente a mesma idade que o MEC. Menos um ano, somente, e por isso, acompanho as preocupações que vêm com a idade.
    Essas e outras. O que gostaria que o MEC dissesse, era algo sobre a experiência profissional, para além da pessoal.

  7. José

    Entrei em diálogo lateral contigo porque não vejo como é que a entrevista pode ser desvalorizada. E também porque achei o teu comentário simultaneamente escusado e legítimo. Claro, qualquer obra intelectual pode ser “melhorada”, indefinidamente ou consoante o critério de quem a avalie. Mas nesta entrevista é notória uma condução subtil que privilegia o testemunho em detrimento do oportunismo. Que me importa a mim saber do actual MEC a sua versão complacente ou fotográfica do que aconteceu ao Independente ou do que o Portas terá feito e dito na ocasião?! Nada, não me interessa rigorosamente nada quando se é convidado para contemplar um voo rasante sobre o fundo do abismo. Obrigado, então, Zé Mário, pela transparência e crueza que a sessão registou.

  8. Valupi:

    Nestas caixas de comentários, os diálogos laterais não são bem vindos? Penso que são. Ora, quanto ao assunto da entrevista glosada, já me repito se disse que não a desvalorizo de todo. Só disse que gostaria de ler outras perguntas e respostas que me interessavam a mim, leitor da 6ª enquanto o interesse se mantiver. Hoje por exemplo, folheei ( folheio) e o que vejo?

    Por exemplo, uma introdução de Nuno Galopim, cuja escrita não me desperta interesse de maior e menos ainda sobre música.
    Gostaria de dizer que não há actualmente críticos de música, que valham esse nome.Um crítico de música, ás vezes não escreve sobre a música, cuja essência é intangível numa pauta em que se expõe.
    Se assim fosse, os críticos analisavam a estrutura da composição, os acordes, a tonalidade, a sequência rítmica e as pausas, etc etc.
    Na música, pode escrever-se como Lester Bangs o fazia na Creem, com desvario literário. Pode ainda escrever-se como Phillipe Manoeuvre ainda o faz por vezes, na Rock & Folk, com tentativas de imitação que já criaram um estilo.
    E pode fazer como um Greil Marcus ou um Dave Marsh o faziam na Rolling Stone.
    Aqui em Portugal nos sessenta soturnos e nos setenta revolucionários, havia nada disso. Havia literatos que escrevinhavam umas coisas no Expresso( Pedro Pyrrait) e nos jornais de época, Capital, Diário de Lisboa e assim. Mário Castrim era um modelo de escrita crítica.
    Quando aparece em finais dos setenta, um indivíduo que assinava o nome todo por extenso e a escrever em tonalidade inovadora para o burgo, foi uma revelação.
    É isso que MEC representa: uma inovação na arte de escrever sobre música e sobre temas sociais.
    Mas…parou aí! E nem sequer passou da franja de uma visão algo distorcida pelo excesso de educação urbana.
    Se MEC viesse das berças e tivesse acesso ao meio rural e percebesse as suas idiossincrasias, escreveria de modo diferente.
    Quanto a mim, a MEC, falta-lhe uma certa substância na escrita, seja lá isso o que for. Uma substância cultural abrangente e que não se confina aos muros de uma cidade.
    Sendo o estilo MEC, inovador para a época e para o burgo, a densidade que empresta qualidade profunda aos verdadeiros escritores, falta-lhe de modo avassalador.
    MEC nunca seria um grande escritor por isso mesmo.
    É a minha opinião.
    Como também é minha opinião que tal carência vos afecta enquanto críticos da minha crítica.

    As perguntas que eu gostava de ler, postas ao MEC eram perguntas que me interessavam a mim e certamente a outros.
    Se não vos interessam a vós, paciência.
    Talvez por isso mesmo, o 6ª, seja um suplemente fracote, embora com estilo e grafismo interessantes.

    Permitam-me esta pequena arrogância que se contrapõe à vossa:

    a humildade em tentar perceber os outros para quem dirigimos a atenção, parece-me importante. Muito mais se, com isso, procuramos levar a vida e nos ocupamos profissionalmente.

    Mas não levem a mal o remoque. Quem vai à guerra…

  9. Sugestão de pergunta:talvez fosse interessante ouvi-lo falar sobre a paternidade.Há tempos vi as filhas(duas) na tv(Sic Radical) e pareceram-me umas patetas pegadas.Que diria o MEC sobre isso?

  10. José

    Medras em dois equívocos: (i) não tenho nada contra os diálogos laterais, e até fico perplexo com a mera possibilidade de vir a ter, tão absurda seria a situação; (ii) não entendo o uso do pronome na segunda pessoa do plural, pois não há aqui nenhum comité de defesa das entrevistas do Zé Mário (mas podemos pensar em fundá-lo, o futuro CDEZM, difícil de pronunciar e ainda mais difícil de rebater). Aliás, os teus comentários são interessantes, oportunos e bem-educados. Apenas não estão imunes ao contraditório, é só isso. E eu agradeço-te a participação aqui nas caixas onde, por vezes, se encontram excelentes ideias embrulhadas em muita palha.

  11. Obrigado, pá. É sempre uma alegria poder tratar assim (tutear como pá, epá, e coisas assim, sem preconceitos) alguém que não se conhece, mas que se adivinha capaz de um diálogo minimamente interessante.

    Aliás, este blog é uma lufada de ar fresco relativamente a alguns em que predominam certas idiossincrasias que não me agradam de todo. Estou a referir-me ao Blasfémias, por exemplo.
    E até eu que me reivindico da não esquerda e que nem gosto de me situar na direita, encontro por aqui o limbo dos que não se ficam apenas pelas taxionomias ( ou taxinomias).
    Enfim, bom Natal, tempo de paz.

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