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Amigo?
É «amigo» quem separa amigos? Ou é-o… exactamente por separá-los?
Tem a publicidade «assumida» que ser, também, correcta? Pisca-se o olho, mas não se dá nas vistas?
Criei o ficheiro para as tuas mensagens
Que envias com a força das montanhas
Vens do lugar entre dois rios selvagens
Entre vinho, azeite, o pão e as castanhas
Quando abro o ecran é logo o primeiro
São quinze as tuas mensagens repetidas
Muito mais do que o espaço do ficheiro
Conta mais o seu lugar nas nossas vidas
Das palavras que nós trocamos à procura
De ir salvar um dia todo nuns momentos
Em que transmitimos gestos de ternura
No meio desta confusão de sentimentos
Quando oiço o teu sinal no verde ecran
Esteja onde estiver fico mesmo ligado
À tua voz doce onde é sempre manhã
E que eu levo comigo para todo o lado
Poema de José Ricardo Nunes, de Apócrifo, volume que a Deriva Editores lançou recentemente
Rebola-se no pátio das traseiras.
Digere a sua presa –
armadilhado o músculo
pela sua própria realidade.
Zelo pela fera clandestina
protegido dos acusadores
olhares piedosos. Também a mim,
diz o Pedro, a natureza não perdoará:
imagem sempre aquém.
Viera a gazela beber.
Ficaram os seus restos
à margem do curso de água
em vão imaginado por condoído tempo
para salvar a gazela do leão,
o leão do leão,
e o autor não se sabe de quê.
O nevoeiro da véspera à noite fez-nos desistir da viagem. Chegámos à hora do almoço, já o sol se tinha tolhido e assomava debaixo do chumbo das nuvens. Ela chegou e avisou que, se fôssemos logo, apanharíamos a procissão e a banda, dali a nada, a passar na casa lá de cima.
Devidamente agasalhados subimos à aldeia, mesmo a tempo. Os miúdos estranham e interessam-se, fazem perguntas. Uma ignorância que me surpreende. Geração alheada dos rituais religiosos, familiares mesmo aos não-crentes da nossa. Como se chamam aqueles homens das igrejas, mãe? Os padres? Isso. Aponta o pálio. Então aquele deve ser um, pelas roupas. Tia, porque estão eles a falar todos ao mesmo tempo? Estão a rezar. Três santos pré-púberes em terilene muito branco, com cordões na cintura, um anjo com asas de peluche e duas nossas senhoras, miniaturas da que vai sobre o andor, concentram as atenções.
Há qualquer coisa nas bandas filarmónicas que me enche os olhos de lágrimas. Nunca percebi se é comoção pela música que une pessoas tão diversas de uma comunidade, oferecida aos estranhos na rua, ou se é porque todas me trazem a esta, que conheci sempre. O meu grande observa os músicos, sorri-me, e propõe que sigamos atrás da procissão.
Texto de José Luiz Tavares, lido no colóquio «Baltasar Lopes e a Claridade», organizado pela Universidade de Coimbra
Meu caro Chiquinho,
Faz agora sessenta anos que o teu criador te pôs no mundo. Nesta horinha da tarde, neste espaço hoje feito território de partilhas, não me cabe dizer do intrincado labirinto de leituras e desleituras, das profundas e subtis revelações que outros mais abalizados hão-de fazer. Venho apenas desfiar contigo os fios dessa rude infância nossa, desconhecidos que somos embora no comum chão da nossa desventura.
Embora sem vocação para o desmando, nunca fui dado às catequeses, teológicas ou outras; se bem que grata a recordação dessas tardes de domingo em que deus não desceu sobre nós em forma de língua de fogo, nem consumidos fomos pelas inextinguíveis chamas do inferno. Isto tudo para te dizer, Chiquinho, que não gosto do literário respeitinho, das dominações que se erguem em sacralidade, tentando sujeitar todo o dizer novo a uma ordem que ele próprio rejeita. Entendo que é no confronto com as práticas discursivas novas, encarnando desígnios que poderão ser opostos aos seus, que a tradição se erige como magma que expele fogos vivificantes, não como mortal cinza que impede a germinação do que pelo seu conseguimento e pela sua centralidade há-de constituir-se como novos modos da tradição.
Em menos de 24 horas, recebi de três amigos (sim, isto têm que ser amigos mesmo) a mensagem abaixo. Eu – compreenderão – estou em pulgas para entrar na dança. Fazia-me um jeito do camandro um cashezinho. Mas não queria meter-se assim à aventura, gostaria de consultar alguém primeiro. É que tenho a estranha sensação de que, nos últimos dez anos, já li isto trinta e oito vezes. Há por aí peritos na coisa? Tem alguém uma história tão emocionante (e proveitosa) como a irmã do namorado da pessoa? Digam, digam.
Borla da Microsoft.
Leiam e reencaminhem, vamos lá a ver se é verdade ou não. Não sei se acredito nisto, mas se for verdade, ficamos todos ricos!
Olá a todos!
Tenho recebido esta mensagem de uns amigos franceses e belgas e parece que está a correr sorrateiramente por toda a Europa. Habitualmente, não costumo enviar/reencaminhar este tipo de mensagem do tipo ‘passa a palavra’, mas esta é muito curiosa… A mensagem que recebi é da parte de uma advogada amiga de uns amigos chamada Séverine e ela garante que esta cena é a valer. Pelo sim pelo não, traduzi o mail que recebi e deixo cada um julgar por si… Mas se for verdade, não digam que não sabiam!!! Não há nada a perder.
Eis o que ela me enviou: (mais ou menos…) «Sou advogada e conheço a lei. Não menosprezem a validade desta informação, isto é real. A AOL e a INTEL cumprirão a sua promessa pois temendo de serem processados e pagar posteriormente indemnizações multimilionárias como no recente caso da PEPSI COLA contra a GENERAL ELECTRIC. Aparentemente, Bill Gates está a partilhar uma porção da sua fortuna. O MS WINDOWS continua a ser o sistema operativo mais utilizado, e isto não é mais do que um teste para a Microsoft e a AOL avaliarem isso pelo menos de envios/reenvios deste mail.
Quando reencaminhar este mail, no caso de ser um utilizador de MS Windows, a Microsoft fará um seguimento dos reenvios durante 2 semanas. Quer isto dizer que, por cada pessoa que reenviar este mail, a Microsoft pagar-vos-á 245 EUROS (independentemente do emissor). Mais, por cada pessoa que reencaminhe o mail após vocês lho terem enviado, a Microsoft pagar-vos-á 243EUR. Após a 3S [???] pessoa que receber o mail, a Microsoft pagar-vos-á 241EUR. Em duas semanas, a Microsoft entrará em contacto convosco para confirmação de endereço postal e envio do cheque.»
Ela ainda acrescenta: (LEIAM!) «Eu julgava que isto era uma burla, mas duas semanas após ter recebido e reencaminhado este mail, fui contactada pela Microsoft para dar o meu endereço. Recebi um cheque mo montante de 24.800EUR (!!!). Deve responder antes que este teste termine, pois se alguém se pode permitir isto é bem o Bill Gates. Para ele, trata-se de uma despesa de comercialização/marketing. Provavelmente, não cooperaríamos com eles se não houvesse qualquer compensação…»
Ela conta ainda que a namorada do irmão recebeu um cheque de 4324,44EUR; a tia de uns amigos que trabalha na Intel recebeu mais ou menos o mesmo 4543,23EUR. Diz ainda: «Como vos disse, conheço bem a lei e isto é real. A INTEL e a AOL estão a negociar uma fusão para tornarem-se na companhia mais abrangente do mundo e certificarem-se da continuidade como o sistema operativo mais utilizado.»
Isto é traduzido do francês em calão, mas eu estou vai-não-vai. Esclareçam-me! Segurem-me! Eu sou pobre, mas não queria riscos. Miserável deve ser bem pior.
de Rui Caeiro, Afonso Cautela e Vítor Silva Tavares
Três poetas juntam poemas em livro, com a qualificada ilustração de Luís Miguel Gaspar. É um encontro ao arrepio da literatura triunfante que vende livros em barda e aparece na TV.
Rui Caeiro lê a sua relação com a cidade em «Travessa dos Remolares». Depois de enumerar a paisagem e o povoamento, conclui: «No parco mostruário da Travessa esqueci-me de alguma coisa? / Sim e por sinal do mais importante: a montra com frangos torturados no espeto, / possível antevisão do inferno (como se a própria rua já não bastasse) / ou então resquício dos tempos da Santa Inquisição». A sua ligação ao Mundo revela-se em «Uma certa vontade de chorar»: «Porque não vais ao médico? Tornam, pressurosos, os mais chegados /logo passando a sugerir conhecidos e sonantes nomes de médicos, psicólogos, psicanalistas, tarólogos, há-os que fazem milagres. /Procuro convencê-los de que essa vontade de chorar é qualquer coisa de bom na minha vida.»
Afonso Cautela usa o humor como aproximação ao Mundo no excerto dum poema: «Se é português já se sabe que foi / sempre a queixar-se da perna que lhe dói / Deste chamado rectângulo desta chamada pátria / deste chamado país deste chamado Portugal / Que ficou como novo depois de ser pintado / e ficou à espera de um voto para deputado».
Vítor Silva Tavares usa a ironia para falar do Mundo («Frente à sopa do Sidónio/vejo um velho cor de azia/todo feito num harmónio/por misericordia /Então e aquela velha/que me estende a garra esguia?/Basta: não há telha / para tanta democracia») e conclui com graça um retrato das letras lusas: «Eu queria ser peixoto/de aquário/a voltear/no esgoto/literário. Eu queria ser o mia/a miar pretoguês/ao balcão onde avia/um romance por mês./Eu queria ser antónio/e lobo como ele/a espremer do neurónio/um antunes de fel./Eu queria ser eugénio/lorca no porto/a oxigénio/depois de morto.»
Desenhos de Luís Miguel Gaspar
Editora: Livraria Letra Livre
O Público que se lixe. Eu também paguei para o ler. Ou prometa-me você que, acabando esta história, vai à rua comprar o jornal. É, mais uma vez, do imprenscindível Paulo Moura que se trata.
Lida a história, traduzam-na para inglês, para francês, para swahili. E vão a Lisboa, ao Parque das Nações, lê-la em voz bem alta e bem colocada. Um ouvinte, um só ouvinte, chega. Bom domingo.
*
Mortada era um homem bom. Sei que a frase é má e quem a escreve não é melhor, mas Mortada, esse, era bom. Talvez fosse o último homem bom do planeta, o que, pelo menos, me iliba de estar a usar um lugar-comum. Era sudanês e vivia em Cartum, mas, como não encontrasse emprego na capital, decidiu partir para o Darfur. Disseram-lhe que talvez ali pudesse trabalhar como tradutor, com alguma das organizações humanitárias internacionais.
Chegou a Nyala no mesmo dia que eu, conhecemo-nos no mercado e contratei-o como guia-intérprete. Partimos imediatamente para o mais próximo campo de refugiados.
Mortada era muito organizado e fluente em Inglês. Tinha tudo para ser um excelente guia-intérprete, excepto isto: não fazia ideia do que se passava no Darfur. Nunca tinha ouvido falar da guerra nem de refugiados, muito menos de limpeza étnica ou de genocídio. Simplesmente não sabia. A televisão e os jornais em Cartum ocultavam os acontecimentos da província do Leste.
Fui eu quem explicou ao sudanês Mortada a situação no Darfur. Ele não queria acreditar, mas logo a seguir chegámos ao primeiro campo de refugiados, em Oteich, e viu. Em Oteich, havia 18 mil deslocados. Mas em Asseref, que visitámos no dia seguinte, havia 70 mil. E em Kalma, onde fomos depois, 85 mil.
Mal entrávamos, as pessoas rodeavam-nos, anelantes e desesperadas. Queriam contar as histórias das suas aldeias atacadas pelos janjawid, as casa destruídas, as famílias assassinadas. Mas desfaleciam aos nossos pés, de fome, cansaço e doença. Havia mulheres que tinham perdido os maridos e os filhos, homens feridos de balas e morteiros, crianças desmaiadas de desidratação, ressequidas, cheias de moscas.
E todos queriam falar ao mesmo tempo, empurrando-se, esmagando-se uns contra os outros e contra mim, numa amálgama fétida e mórbida.
O trabalho de Mortada não era fácil. Tinha de conter a turba, manter a ordem, assegurar que falava um de cada vez e traduzir. E fazia tudo isso, mas ao mesmo tempo chorava. As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara no momento em que chegámos ao primeiro campo e nunca mais pararam. Levaria o resto da vida a ajudar os deslocados do Darfur, dizia ele, indignado por nunca lhe terem contado nada.
Emocionava-se com cada história que ouvíamos, e lembro-me de que, numa delas, se abraçou a uma mulher grávida, prometendo ajudá-la. Chamava-se Rasha Adam Ateib, tinha 25 anos e contou que vira o marido morrer, juntamente com toda a população da sua aldeia. Única sobrevivente, gravemente ferida, acabava de chegar ao campo, não conhecia ninguém e ignorava como chamar a atenção dos demasiado ocupados médicos noruegueses. O bebé, Mohamed, ou Mariam, ia nascer e ela precisava de ajuda. Mortada prometeu avisar os médicos.
Várias horas e muitas histórias depois, falaríamos com a equipa médica. Fizemos perguntas, discutimos problemas, mas Mortada esqueceu-se de Rasha. O dia fora demasiado longo. Aquela história perdeu-se na sua mente de homem bom.
Quando, antes de adormecer, se apercebeu da falta, era tarde. Chorou ainda mais, apertando a cabeça entre as mãos, com um olhar de louco. Mas era impossível voltar atrás ou encontrar de novo aquela mulher. O bebé ia nascer e provavelmente morrer a seguir, juntamente com a mãe, porque Mortada se esqueceu deles. Mortada, o homem bom.
Acabei, finalmente, Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares. Fecho o livro, e logo abro o ante-rosto. Assusto-me. Tem uma dedicatória, com data de «Out. 2004». Só pode ter sido no dia da entrega do prémio Ler, no Teatro São Carlos. Nunca antes, nem depois, encontrei o autor.
Por uma vez «livro de cabeceira» não foi força de expressão. Tenho um montinho deles, onde este andou a descer e a subir. Acompanhou-me em insónias, ou fui eu que arranjei insónias que ele acompanhasse.
Agora que o acabei, tenho a incómoda sensação de que deveria não gostar dele. Mas gosto. O que é incompreensível. Ele tem tudo o que eu detesto na ficção: desordem, secura, solavancos. É isso, é um solavanco do princípio ao fim. Passa-se, para mais, em parte incerta, algures numa Mittel-Europa com que não tenho a mais ténue das afinidades. Vive-se época indefinida, onde há cabine telefonónica na rua, mas quase nada mais como referência.
E todavia sei que acabo de ler um dos grandes romances desta nossa literatura. Um romance de que gerações hão-de falar, e onde decerto descobrirão os exactos traços do nosso tempo, esses traços que, por definição, nos são indecifráveis.
Engano meu, esse futuro para o livro? Numa coisa não me engano. Por alguma razão – obscura mas não ignorável – aquela rude, rugosa e estranhíssima escrita me terá encantado anos a fio, quando outras se me perderam, irrecuperavelmente, de vista.
E essa razão hei-de desenterrá-la.
Deus não chegou ainda (embora a sombra dele bata algures), mas o texto disponível chegou ao fim. Aqui vai o capítulo 12, último da primeira parte, de Deus chega no próximo avião. Este será, daqui em diante, e por muito tempo, um livro em que se pegou, mas depois esquecido na estante, ou no comboio, ou – acontece aos melhores – no avião. Um dia a gente dá de novo com ele. E tem de relê-lo do princípio… Obrigado pelo bocadinho.
*
Dormi esta noite como, parece-me, há anos não acontecia. Nem mesmo aqui, na Foz do Lizandro, onde os sons do mar chegam temperados, embora actuantes. Calhou-me um sono profundo, uma ausência sem margens. E hoje amanheceu este sábado calmo. Ou sou eu que não ouço nada, depois da ventania de ontem à noite, à vinda. O carro abanava, fazendo ameaços de sair da estrada. Foi fazer o jantar, ver alguma televisão, e cama connosco. Vínhamos, eu e a Noémia, estoirados da semana. Só pela madrugada nos vieram as forças, e a gana, para o que, há sete tão longos dias, trazíamos no sentido.
Ainda estou por saber quando, e porquê, este ritmo semanal se impôs. Podíamos tranquilamente ir dormir, em Lisboa, a casa um do outro nos dias de trabalho, pelo menos jantar juntos. Mas não. Telefonamo-nos, trocamos alguma notícia mais inadiável, e guardamos para sexta à noite, já aqui, as peripécias, o estômago, os braços e o mais. Só de longe em longe nos aventuramos a algum excesso – sim, tem um parvo sabor de excesso –, como irmos tomar uma bica a Cascais, ao «Amor aos Pedaços», o café com o nome mais lindo do país, diz ela, que foi, cá por coisas, também onde nos vimos. Ou a Sesimbra, comer um peixe fresco, o sítio dessa tarde em que fizemos a declaração. Declaração. Só o termo já é infantil, mas o amor tem firmes propensões lamechas. E, num sítio ou no outro, sublinhamos sempre com qualquer pieguice o fortuito dessas entrevistas.
Teremos descoberto, ela e eu, nos nossos casamentos, que a distância preserva? E será isso tão evidente que só o formulá-lo já desmereceria? Living apart together: tem a sua graça. Às vezes penso que, se gostássemos um do outro como deve ser, não conseguiríamos aguentar esta rotina, este refinamento de organização. Que, se estivéssemos mesmo apanhadinhos, também algum de nós, ela ou eu, haveria de quebrar este contrato, vendo bem, idiota. Ora, em quatro anos, nunca isso sucedeu. E, todavia, eu sei que, confessasse-me a Noémia, alguma vez, «Esta semana não me apetece ir», eu entraria em puro pânico.
Foi agora à aldeia, buscar o pão e o leite. Nem dei por ela sair. Deixou aberta para mim a janela: sabe como adoro acordar com um quadrado deste céu e a presença adivinhada do mar. Em momentos assim, é como se o Universo inteiro batesse certo. Não bate, cretino. Mas um homem não sobreviveria sem estes momentos de evasão. Só não sei é como se evadem os outros, como sobrevivem. Também nunca o saberei. Nunca com exactidão saberemos nada de ninguém. Vou fazer um café.
Pois é isto, pôs-se uma manhã esplêndida. Curioso como um dia assim vem sorrateiro. Se os estores ainda estão corridos, imaginamos, talvez por contiguidade, um céu baixo, encoberto. E a chuva, essa, simplesmente ouve-se. É isso, um dia de sol não é audível. E por isso surpreende. É de pôr poética uma pessoa.
Não sei ainda, nem interessa muito, em que vou ocupar-me hoje. Obriguei-me sempre a não trazer programa. Deixo em casa originais, apontamentos, o lap top, a própria agenda. Trouxe só aqueles dois livrinhos da concorrência, um romance, O Exemplar Perfeito, e um volume de contos, O Último Pôr-do-sol do Século Vinte, insistentemente recomendados por crítica de diversa plumagem. Levo-os, se calhar, para a praia, logo. Ainda não serão tempos de banho, mas a areia deve estar uma delícia. E depois já sei, desencaminha-se-me a atenção, e a leitura fica à espera.
Gostava de uma vida exactamente assim. Sem obrigações, tépida e ronceira. Da cama para a praia, da praia para a mesa, da mesa para a… Mas, depois, até essa regularidade matava o melhor numa pessoa. É isso: a existência ideal teria de ser imprevisível, uma surpresa perdurável, uma serena expectativa sem descanso nem desfecho. Enfim, o café a borbulhar, e eu derivando.
Vejo ao longe o carro da Noémia, fazendo a curva dos sobreiros. Dentro de cinco minutos está aqui. Trará quatro carcaças, ainda quentinhas e estaladiças, e talvez uns bolos frescos, de impacientar salivas. Este café, está visto, não vai chegar.
O projecto deste livro é um regresso: «Mudar de sol – regressar / à pele interior do ar.» Nascido
A poesia deste livro surge da memória de um tempo passado. Para o fazer viver de novo o poeta canta no presente: «Loengueiro não se planta – nasce: / sortilégio da terra, / no meio do mato, / pelas terras todas / do Huambo – até ao mar.» O poema não só nomeia o espaço e o tempo; inscreve-se como espaço e tempo: «Churiungo / é das palavras mais antigas – a voz, / fruto bilingue / da infância.» O poema tem a forma da cabaça porque a cabaça tem a forma de poema: «Crescem ao rés da terra / sob a manta longa / de frescura e sombra – para lugares de repouso / fermentação da quissângua e da capata – as cabaças. / Crescem ao rés da terra / imputrescíveis, / esculturados poemas – as cabaças.» O poema surge como uma ponte entre as terras do fim da Europa e as terras do fim do Mundo: «No Cutato as montanhas dançam – de gente / e de caminhos do mato / ao meio-dia em ponto. / No Cutato / entre Vila da Ponte / e o Chilandangombe / a caminho de Menongue / ou do Chitembo / abrem-se as portas das terras do fim do Mundo».
Este é um livro de quem conhece bem a terra, seus ritmos («Criança come goiaba – vai no mato: nasce goiabeira. / Quatro luas e uma chuva depois.») e seus desígnios: «a Terra que tudo dá, tudo, tudo devora!»
Editora: Bonecos Rebeldes
Finda, encrave no nó
Forno encena vinda
Vendo cana, inferno
Forno na neve cinda
Ninfa cor de novena
Dança fé no inverno
Cone, nervo, fornada
Vença nona ferindo
E CNN fode nirvana
Rança veneno findo
Vendo fino na carne
Rane, fane convindo
Neva, condeno finar
Venci nora, nefando
Na nave conferindo
Neve fina cornando
Vinca fenda no Reno
E finca nervo, Nando
Aqui vai o penúltimo capítulo do que, de momento, existe de Deus chega no próximo avião. O resto está ainda no segredo dos deuses. E nunca esta expressão foi tão impiedosa.
*
«Aqui, fazem favor. Maurício Peres.» Daquele canto do restaurante, numa ruela à Praça do Comércio, sugestão dele próprio, tinha-nos reconhecido. «Hermenegildo Vilena.» Apontei: «Diogo Vilena.» «Irmãos?» Mas gracejava, via-se-lho nos olhos. Tinha vinte e cinco, vinte e sete anos.
Contou como lhe agradara ouvir que queriam publicar-lhe o romance. «É o primeiro?», quis eu saber. Olhou-me. «Fiz uns rascunhos, umas chalaças. Depois, sentei-me ao computador e saiu aquilo. O senhor gostou?» Assim, sem ensaio. A resposta surgiu-me complicada, como a quem prepara uma mentira. «Gostei… Claro, achei mesmo…» Quanto mais fugidiamente o olhava, quantos mais gaguejos produzia, mais suspeito me ia tornando, e mais evidente lhe era que caíra nas mãos de um incapaz.
«Maurício», ouvi o Diogo dizer, «o seu livro é extraordinário.» «Leu-o também?» O embevecimento despontava no rosto ao autor. «Não, leu-o o meu pai. E poucas pessoas sabem apreciar livros tão bem como ele.» Eu olhava o meu filho, e não o reconhecia. Nunca o vira tão tranquilo, tão autoconfiante, sem um traço de hesitação, como quem age assim no acaso dos dias.
«Já escolheu?», lancei. Era uma saída desajeitada, mas sem desastre de maior. «Não», disse Maurício, «mas posso recomendar a chanfana da casa. Na zona, acreditem, não se faz melhor.» Alinhei de imediato. E levantei-me para ir lavar as mãos, deixando-o a explicar ao Diogo o que era a chanfana.
Ali estava então eu, pindérico, uma nulidade. Deixava estatelada, à primeira, a missão que trouxera. Perguntava-me que imagem se criara, na mente do moço, daquela empresa que lhe desejava a obra. Para quem eu tinha, bons céus, de lha arrancar das mãos. Abençoado Diogo. Mas teria ele afastado o revés?
Fui achá-los num descontraído entretém. Um deles desconhecia Coimbra, outro mal pusera pé em Lisboa. As ocupações descoincidiam, os hábitos não seriam os mais semelhantes. E, todavia, era ouvi-los conversar, num à vontade ditoso. O que pode a afinidade etária. ‘Não são coisas para a tua idade’. Estupidez.
Falou-se de tudo, menos de livros e edições. A chanfana veio celestial, e o vinho da casa, outra insistência do Maurício, nada menos que primoroso. «Precisam de vir cá noutra altura.» Sim, tínhamos de ir conhecer Penacova, Lorvão, Montemor-o-Velho. Havia de mostrar-nos um cerro, a oito, dez quilómetros da cidade, de onde se avistava, dizia, toda a província. «E ir até à Figueira, claro.» Que perdoássemos o tom de guia turístico, mas é que aquela região, enfim…
O nosso autor teria de regressar às duas ao banco. Havia, portanto, que atender rapidamente às minudências. Procurei não desfazer o encanto, e assentar com ele rapidamente no essencial: tiragens, percentagens, prazos, futilidades. Maurício Peres tudo ouviu, tudo aceitou. Não, O Bom, o malvado e quem fica de fora não fora enviado a mais editora nenhuma, nem nisso pensara. Prometi que a publicação, pela Água Líquida, se daria em Maio, Junho o mais tardar. Não se assinou nada, nada se escreveu, estava-se ali entre cavalheiros. «Eu mantenho-o ao corrente», prometi. «O meu pai não falha», determinou o Diogo.
Oferecemo-nos a ir depô-lo à porta do banco, mas ele tinha ainda sete minutos, e chegava lá mais depressa andando, disse. Despedimo-nos. Subiu as escadas rumo à Ferreira Borges, enquanto eu cingia os ombros do meu filho. A literatura pátria estava salva.
Digo… Não digo… Afinal vou dizer. Fui citado. Fomos citados. No Diário de Notícias. Ao tempo que isso foi, a 25 de Novembro. Transacto. Para falar chique. Mas é como se fosse ontem.
Na página de opinião do diário, nas secção «Blogues», vinha o excerto:
«Hoje sei que o cronista Tavares permitiu a existência do romancista Tavares, e lhe deu carta branca para a banalidade e a frouxidão. Ele venderá os 100.000 já impressos, e mais, muitos mais. Mas o grande prosador de Sul e de David Crockett terá entrado, definitivamente, na prateleira light.»
Tal como eu o tinha disto aqui. Só faltavam os itálicos dos títulos, mas isso… E agora força. A trabalhar em mais uma frase citável. Vendo bem, os epigramas são sempre o que sobra dos fazedores de opinião. Às vezes, nem isso.
.
Saiu finalmente, na Assírio & Alvim, a grande edição dos BILHETES DE COLARES de José Cutileiro. São mais de 200 crónicas, publicadas entre 1982 e 1998, no jornal A Tarde, no Semanário, no magazine Visão e por fim no Independente. Atribuídas a um britânico a viver entre nós, elas são uma cerrada, e por vezes violenta, crítica à sociedade portuguesa: os seus desleixos, as suas manias, as suas hipocrisias, as suas suficiências.
José Cutileiro, embaixador e eminência parda na gestão de conflitos internacionais, disfarça-se em «A.B. Kotter» para fazer ouvir o que a actuação pública lhe proibiria.
A edição foi preparada por este vosso servidor, que, num extenso posfácio, expõe pormenores e reflecte sobre o conjunto. O livro tem 350 páginas e anda pelos €20. Na belíssima capa, o Castelo da Pena olhado de Colares.
Para as longas noites de inverno. Deste e dos próximos. Um livro para a vida.
Já o astro doce poda
Dojo e prosa cotada
O poder a jacto, soda
A corda tesa do pojo
Cose topo, já rodada
Cospe-a toda, dá rojo
Tapa e jocoso dardo
Soco de topo, rajada
Já aposto dê o cardo
Tojo só, pedra coada
Na editora, discute-se a estratégia para segurar o autor do sublime manuscrito. Um autor que vale ouro, muito ouro. Assim prossegue Deus chega no próximo avião. É o capítulo 10.
*
O dr. Cícero Pompeu chamou-me ao gabinete. «Se lhe der jeito…» É a fórmula dele, que ninguém sabe se vem da inverificável fidalguia da família («O meu bisavô foi Par do Reino, sabia?»), se apenas intenta pôr-nos no lugar com um gesto de veludo. Certo é que ninguém na empresa ousaria responder «Bom, por acaso até nem dá.» As consequências ficarão para sempre desconhecidas.
«Antes de passarmos a coisas práticas», e apontou-me o cadeirão, «quero dizer-lhe que apreciei a sua condução da conversa do outro dia.» «Sobre aquele original?» «Exacto, sobre aquele original. Mando vir um café?» Só para fazer a Micas útil, eu assentiria. «Se fizer obséquio.» Premiu o intercomunicador. «Dona Matilde, eram dois cafés.»
«Já viu este jornal de hoje? É só desgraças, o mundo. Veja lá que agora… Olhe, olhe isto.» Procurou uma página, procurou outra. «Está por aqui, está que eu ainda agora estive a ver… Ah, aqui está. Não sei quê, et cétera e tal. Leia você. Isto aqui.» E, ao passar-me o jornal dobrado, quase embateu com a bandeja onde a Micas trazia já os cafés. Procurei o que devesse ler. «Belo cheirinho. Uma artista, a nossa dona Matilde, é ou não, Gildo?» Pousei o jornal, sorri para ambos. «Você engraça, eu sei, com a Matilde», atirou, quando a contabilista saiu. Eu ia tartamudear qualquer coisa, mas ele atalhou: «Sabe que ela, enfim, é casada. Não me estrague o ambiente, que ela faz-me a mim mais jeito do que a você.» Por um segundo, eu percebera outra coisa, «Do que você.»
«Bom, vamos a coisas. Onde mora o nosso homem?» Fiz como se tivesse de pensar. «Em Coimbra.» «Coimbra…» O dr. Cícero pousou a chávena, e desenhou, com a esferográfica entre os dedos, um gesto de decisão. «Você vai dar, hoje é quarta, dá lá um salto amanhã. Telefone-lhe esta manhã, para acertar. Tem o número?» «Devo ter.» Realmente não tinha a certeza. «Diga-lhe, não diga pelo telefone, diga só lá. Que a gente vai publicar-lhe o livro quanto antes, em todo o caso até ao Verão, prometa-lhe numa capa catita, depois veremos quem a faz, com publicidade em grande, fale-lhe em tiragens de… Quanto acha? Três mil? Olhe, faz-se quatro mil e vê-se a recepção dos livreiros. Mas fale-lhe em cinco mil. É preciso agarrá-lo.» E algo longínquo: «Oxalá não tenha ele andado com isto a outros.» Eu ia tomando apontamento. Estas missões nunca foram do meu pelouro, e nelas é necessário, eu sei, é indispensável pisar terreno firme. «Quanto à percentagem…» O doutor percebeu que eu sugeria um tratamento inabitual. «Está bem. Diga-lhe que damos doze, diga doze e meio. Concorda?» Não sabia se era de concordar, que sei eu de direitos, mas tive a noção de que o dr. Cícero estava assistido pelo espírito. «Perfeito, senhor doutor. Eu vou sair-me bem disto.» E também eu me movimentava em zonas etéreas.
Quando, à noite, telefonei ao Diogo, disse-me ele: «Vou contigo.» Achei uma parvoíce e tentei demovê-lo: «Isto não são coisas para a tua idade. E tens as aulas.» Logo tornou: «Amanhã por acaso estou livre. E não percebo que é isso da minha idade.» Eu já procurava qualquer trama de diversão, mas não me deu tempo. «Tu próprio estás um bocado à rasca, diz lá se não.» «São os ossos do ofício, meu caro.» Mas era-me tão ténue a convicção, que acabei a rir-me da própria frase. Ele fez-se desentendido. «Amanhã às dez, estou aí. Era às dez que saías, não? E será melhor irmos no meu carro.» «Okay, como preferires.» «Isto», e falava com empenho, «se não queres falhar, se quiseres assegurar para a tua editora o maior romance, como é que disseste, do decénio? Do século inteiro, já? Até amanhã, e dorme bem.» Tenho este filho empreendedor. E mais: um filho sensível ao meu vacilar, que percebe o melindre desta maluca diligência. E não lhe contei que, desde esta manhã, me pergunto porque não se encarregou disto o próprio patrão. Ainda bem que o não disse. Seria perder ainda mais nível aos olhos do Diogo.
Marquei o encontro, em Coimbra, para o meio-dia e meia. Logo convidei o senhor para almoçar, oferta da casa. Pareceu-me, pelo telefone, pessoa afável, bem-educado, disse-me que é bancário, e que escreve desde há pouco. Não fiz ideia da idade.
É nos olhos de Fernanda que tudo principia
Empurram a neblina no combro da calçada
Projectam muita luz na escuridão da livraria
E dão o calor do fogo ao frio da madrugada
Por acaso no trânsito tão hostil desta cidade
Um eléctrico com turistas parou em frente
Uma estrangeira fixou-se com curiosidade
Nas velhas gravuras feitas de cor e de gente
Não havia táxis, ambulâncias ou pizzarias
Só as lareiras para enfrentar os vendavais
As pessoas iam pois aos cafés e livrarias
Á procura da saúde, não iam aos hospitais
A caminho dos Fanqueiros passou Cesário
Sorriu para Bocage ali à porta da livraria
Fruto do momento surgido do imaginário
Fernanda quebrou então a sua monotonia