Chanfana à casa

Aqui vai o penúltimo capítulo do que, de momento, existe de Deus chega no próximo avião. O resto está ainda no segredo dos deuses. E nunca esta expressão foi tão impiedosa.

*

«Aqui, fazem favor. Maurício Peres.» Daquele canto do restaurante, numa ruela à Praça do Comércio, sugestão dele próprio, tinha-nos reconhecido. «Hermenegildo Vilena.» Apontei: «Diogo Vilena.» «Irmãos?» Mas gracejava, via-se-lho nos olhos. Tinha vinte e cinco, vinte e sete anos.

Contou como lhe agradara ouvir que queriam publicar-lhe o romance. «É o primeiro?», quis eu saber. Olhou-me. «Fiz uns rascunhos, umas chalaças. Depois, sentei-me ao computador e saiu aquilo. O senhor gostou?» Assim, sem ensaio. A resposta surgiu-me complicada, como a quem prepara uma mentira. «Gostei… Claro, achei mesmo…» Quanto mais fugidiamente o olhava, quantos mais gaguejos produzia, mais suspeito me ia tornando, e mais evidente lhe era que caíra nas mãos de um incapaz.

«Maurício», ouvi o Diogo dizer, «o seu livro é extraordinário.» «Leu-o também?» O embevecimento despontava no rosto ao autor. «Não, leu-o o meu pai. E poucas pessoas sabem apreciar livros tão bem como ele.» Eu olhava o meu filho, e não o reconhecia. Nunca o vira tão tranquilo, tão autoconfiante, sem um traço de hesitação, como quem age assim no acaso dos dias.

«Já escolheu?», lancei. Era uma saída desajeitada, mas sem desastre de maior. «Não», disse Maurício, «mas posso recomendar a chanfana da casa. Na zona, acreditem, não se faz melhor.» Alinhei de imediato. E levantei-me para ir lavar as mãos, deixando-o a explicar ao Diogo o que era a chanfana.

Ali estava então eu, pindérico, uma nulidade. Deixava estatelada, à primeira, a missão que trouxera. Perguntava-me que imagem se criara, na mente do moço, daquela empresa que lhe desejava a obra. Para quem eu tinha, bons céus, de lha arrancar das mãos. Abençoado Diogo. Mas teria ele afastado o revés?

Fui achá-los num descontraído entretém. Um deles desconhecia Coimbra, outro mal pusera pé em Lisboa. As ocupações descoincidiam, os hábitos não seriam os mais semelhantes. E, todavia, era ouvi-los conversar, num à vontade ditoso. O que pode a afinidade etária. ‘Não são coisas para a tua idade’. Estupidez.

Falou-se de tudo, menos de livros e edições. A chanfana veio celestial, e o vinho da casa, outra insistência do Maurício, nada menos que primoroso. «Precisam de vir cá noutra altura.» Sim, tínhamos de ir conhecer Penacova, Lorvão, Montemor-o-Velho. Havia de mostrar-nos um cerro, a oito, dez quilómetros da cidade, de onde se avistava, dizia, toda a província. «E ir até à Figueira, claro.» Que perdoássemos o tom de guia turístico, mas é que aquela região, enfim…

O nosso autor teria de regressar às duas ao banco. Havia, portanto, que atender rapidamente às minudências. Procurei não desfazer o encanto, e assentar com ele rapidamente no essencial: tiragens, percentagens, prazos, futilidades. Maurício Peres tudo ouviu, tudo aceitou. Não, O Bom, o malvado e quem fica de fora não fora enviado a mais editora nenhuma, nem nisso pensara. Prometi que a publicação, pela Água Líquida, se daria em Maio, Junho o mais tardar. Não se assinou nada, nada se escreveu, estava-se ali entre cavalheiros. «Eu mantenho-o ao corrente», prometi. «O meu pai não falha», determinou o Diogo.

Oferecemo-nos a ir depô-lo à porta do banco, mas ele tinha ainda sete minutos, e chegava lá mais depressa andando, disse. Despedimo-nos. Subiu as escadas rumo à Ferreira Borges, enquanto eu cingia os ombros do meu filho. A literatura pátria estava salva.

4 thoughts on “Chanfana à casa”

  1. bem, agora que o lembras, enquanto deus não chega a coisa continua. mas também será bom que nada o faça desistir de se pôr a caminho. em trânsito, é como eu o imagino. com greve não há tráfego aéreo.

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