Por zonas etéreas

Na editora, discute-se a estratégia para segurar o autor do sublime manuscrito. Um autor que vale ouro, muito ouro. Assim prossegue Deus chega no próximo avião. É o capítulo 10.

*

O dr. Cícero Pompeu chamou-me ao gabinete. «Se lhe der jeito…» É a fórmula dele, que ninguém sabe se vem da inverificável fidalguia da família («O meu bisavô foi Par do Reino, sabia?»), se apenas intenta pôr-nos no lugar com um gesto de veludo. Certo é que ninguém na empresa ousaria responder «Bom, por acaso até nem dá.» As consequências ficarão para sempre desconhecidas.

«Antes de passarmos a coisas práticas», e apontou-me o cadeirão, «quero dizer-lhe que apreciei a sua condução da conversa do outro dia.» «Sobre aquele original?» «Exacto, sobre aquele original. Mando vir um café?» Só para fazer a Micas útil, eu assentiria. «Se fizer obséquio.» Premiu o intercomunicador. «Dona Matilde, eram dois cafés.»

«Já viu este jornal de hoje? É só desgraças, o mundo. Veja lá que agora… Olhe, olhe isto.» Procurou uma página, procurou outra. «Está por aqui, está que eu ainda agora estive a ver… Ah, aqui está. Não sei quê, et cétera e tal. Leia você. Isto aqui.» E, ao passar-me o jornal dobrado, quase embateu com a bandeja onde a Micas trazia já os cafés. Procurei o que devesse ler. «Belo cheirinho. Uma artista, a nossa dona Matilde, é ou não, Gildo?» Pousei o jornal, sorri para ambos. «Você engraça, eu sei, com a Matilde», atirou, quando a contabilista saiu. Eu ia tartamudear qualquer coisa, mas ele atalhou: «Sabe que ela, enfim, é casada. Não me estrague o ambiente, que ela faz-me a mim mais jeito do que a você.» Por um segundo, eu percebera outra coisa, «Do que você.»

«Bom, vamos a coisas. Onde mora o nosso homem?» Fiz como se tivesse de pensar. «Em Coimbra.» «Coimbra…» O dr. Cícero pousou a chávena, e desenhou, com a esferográfica entre os dedos, um gesto de decisão. «Você vai dar, hoje é quarta, dá lá um salto amanhã. Telefone-lhe esta manhã, para acertar. Tem o número?» «Devo ter.» Realmente não tinha a certeza. «Diga-lhe, não diga pelo telefone, diga só lá. Que a gente vai publicar-lhe o livro quanto antes, em todo o caso até ao Verão, prometa-lhe numa capa catita, depois veremos quem a faz, com publicidade em grande, fale-lhe em tiragens de… Quanto acha? Três mil? Olhe, faz-se quatro mil e vê-se a recepção dos livreiros. Mas fale-lhe em cinco mil. É preciso agarrá-lo.» E algo longínquo: «Oxalá não tenha ele andado com isto a outros.» Eu ia tomando apontamento. Estas missões nunca foram do meu pelouro, e nelas é necessário, eu sei, é indispensável pisar terreno firme. «Quanto à percentagem…» O doutor percebeu que eu sugeria um tratamento inabitual. «Está bem. Diga-lhe que damos doze, diga doze e meio. Concorda?» Não sabia se era de concordar, que sei eu de direitos, mas tive a noção de que o dr. Cícero estava assistido pelo espírito. «Perfeito, senhor doutor. Eu vou sair-me bem disto.» E também eu me movimentava em zonas etéreas.

Quando, à noite, telefonei ao Diogo, disse-me ele: «Vou contigo.» Achei uma parvoíce e tentei demovê-lo: «Isto não são coisas para a tua idade. E tens as aulas.» Logo tornou: «Amanhã por acaso estou livre. E não percebo que é isso da minha idade.» Eu já procurava qualquer trama de diversão, mas não me deu tempo. «Tu próprio estás um bocado à rasca, diz lá se não.» «São os ossos do ofício, meu caro.» Mas era-me tão ténue a convicção, que acabei a rir-me da própria frase. Ele fez-se desentendido. «Amanhã às dez, estou aí. Era às dez que saías, não? E será melhor irmos no meu carro.» «Okay, como preferires.» «Isto», e falava com empenho, «se não queres falhar, se quiseres assegurar para a tua editora o maior romance, como é que disseste, do decénio? Do século inteiro, já? Até amanhã, e dorme bem.» Tenho este filho empreendedor. E mais: um filho sensível ao meu vacilar, que percebe o melindre desta maluca diligência. E não lhe contei que, desde esta manhã, me pergunto porque não se encarregou disto o próprio patrão. Ainda bem que o não disse. Seria perder ainda mais nível aos olhos do Diogo.

Marquei o encontro, em Coimbra, para o meio-dia e meia. Logo convidei o senhor para almoçar, oferta da casa. Pareceu-me, pelo telefone, pessoa afável, bem-educado, disse-me que é bancário, e que escreve desde há pouco. Não fiz ideia da idade.

7 thoughts on “Por zonas etéreas”

  1. Cá estão eles, os diálogos cinematográficos. Repletos de pormenores que nos colocam mesmo lá, ao lado do Gildo – como esse do jornal quase ter derrubado a bandeja com os cafés. Donaire na faena, passe o castelhano.

  2. Valupi,
    Perdoa-se-te o castelhano. A ti, que tanto cuidas do português.

    Susana,
    Depois deste, so haverá mais dois capítulos. Dois, repito. Porei um amanhã, e o último sexta-feira. Assim terminará a primeira parte (de três) do romance. Sim, depois chapéu. Para já.

    Mas eu tenho in petto remédio para a ressaca. Verás. Veremos.

    Sininho,
    A boleia está combinada. E mete chanfana.

  3. Tenho o coração frágil, amigo Fernando. Não queira acabar, de vez, com ele. E, vá lá saber-se porquê, também comigo. Sou, sabendo que há apenas dois capítulos para degustar, um prisioneiro no corredor da morte. Cabe a si encontrar o recurso que me tire do triste fado da cadeira eléctrica.

    Abraço de coragem e pedinchão.

  4. Confúcio,
    Não tens o direito de amontoar tanto sentimento de culpa sobre os meus fracos ombros. Isso também acaba comigo.

    Numa hipótese lisonjeira para nós – mas trágica para o mundo – a literatura e suas dores matarão dois bloguistas.

    Não acho, apesar de tudo, que a literatura valha tanto.

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