Para Israel, há uma forma infalível de definir um terrorista: é aquele que as suas forças amadas matam. Seja criança, ancião ou simplesmente transeunte com azar. Se morreu, só podia andar de foguete às costas ou de bomba no colete. Isto é o que se infere das recentes declarações de Ehud Olmert ao parlamento israelita, gabando-se dos “300 terroristas” eliminados em Gaza nos últimos três meses. Ora, segundo a organização israelita de direitos humanos B’Tselem, 155 das 294 vítimas palestinianas não eram combatentes, incluindo 61 crianças.
Mas se morreram, alguma devem ter feito, os malandros. Assim o garante Olmert. Eis uma excelente forma de evitar problemas morais, inquéritos tontos e cuidados em excesso na hora de premir o gatilho.
Quando lhe impingirem de novo o cântico “apoio Israel porque é uma democracia como nós”, pergunte que outra democracia é que assumiria, nos dias que correm, uma postura destas. Talvez a Rússia, digo eu.
Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:
Já que este é o dia do Senhor…

…e para que não digam que o ateísmo campeia por aqui sem freio, recomendamos uma visita à Pastoral Portuguesa. Isto apesar de estarmos em condições de confirmar que nada nos move contra a linda cidade de Pisa (mas preferimos San Narciso, claro).
Nesta perseguição por socialistas a Alberto João Jardim há uma coisinha que não bate certa…
Porque é que se incomoda o último governante da república que persiste em executar o keynesianismo nas finanças públicas?
As comadres em exercício de canalhice
Vão-se pondo ao fresco. Não sem que entretanto deixem de ir distribuindo pérolas destas. O odioso? Que sobre para o George.
Descubra as diferenças
“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares reage com excesso de legítima defesa aos abusadores anónimos.”
Início da crónica do Paulo Querido no Expresso Online.
“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares defende os abusadores anónimos.”
Teaser (na verdadeira acepção da palavra) da Única (página 136) para a crónica do Paulo Querido no Expresso Online
DESENHO# 22
EPC e a Blogosfera
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Eduardo Prado Coelho conseguiu escavar um pequeno mas notório nicho nos media tradicionais muito graças a questões de forma, não de substância. No “Público”, as suas colunas quase diárias usam um registo peculiar, onde referências à actualidade se cruzam com alguns morceaux choisis de cultura contemporânea num embrulho estilístico (algo devedor de Jean Baudrillard) semi-poético, semi-factual.
Olhem à vossa volta: não é esta uma boa definição da prosa que encontramos em muitos dos nossos blogues? E, suprema ofensa, tudo à borla, tudo desprovido da chancela do “grande autor”, tudo oferecido numa espécie de feira chunga onde nada é eterno nem merecedor de avenças. Hoje em dia, bastam uns cliques para se encontrar a mesma mescla de observação e reflexão, os mesmos ademanes floridos… ainda por cima com uma enorme variedade de autores e temas. Como é que o EPC poderia dar as boas-vindas a semelhante desgraça?
Esta reacção adversa à inopinada subalternização tem mais casos célebres: Sousa Tavares, com o seu estilo agressivo e de denúncia desabrida, encontra com facilidade dúzias de sósias por esta blogosfera afora; vai daí, trata de declarar tonitruante que a Internet lhe interessa “zero”. Vasco Pulido Valente é um exemplo antípoda: a sua prosa não é mera fancaria cromada, é mesmo the real deal, brilhante, bem recheada, inconfundível.
Em suma: a súbita ira de EPC não é o uivo do dinossauro que se adivinha a um passo da extinção. Muito pelo contrário: é a lamúria do mamífero que acorda um dia num mundo repleto de criaturas igualmente felpudas e adoráveis. Aí, ele sabe-se desvalorizado, banal, redundante.
Não, Fernando: julgo que nunca ele se arriscará a emigrar para a blogosfera. O pedestal faz-lhe falta demais.
Bem-vindo à petição

Dias 7 e 8 deste mês, os Reporters Sans Frontières organizam uma cibermanif contra a censura na Internet. Da Tunísia a Cuba, muitas são as paragens onde a auto-estrada da informação está pejada de operações-stop e de desvios para prisões políticas. Pode ser que os ditadores não nos ouçam; mas é certo que alguns dos seus cúmplices irão prestar atenção. Já agora, podem assinar este compromisso promovido pela Amnistia Internacional.
Bem-vindo à perdição
Eu queria pôr aqui uma foto catita de Eduardo Prado Coelho, mas o «Movable Type» emperrou agora por ali. Vai um biografiazinha, sacada ao site dum nosso comum editor portuense, meu e dele (temos dois, ah ganda Porto!).
Nova tentativa. Não, definitivamente, o «upload file» do «Type» só produz barulhos esquisitos, extraterrestres. Vamos ao caso.
Terão reparado no tom de EPC quando fala em «blogues». Há ali uma distância, uma sobranceria. Há ali, sumo requinte, uma estudada ignorância. Aquele (este) não é o mundo dele, nunca o será, Deus o livre.
Não, nada aqui há que se aproveite, que se possa citar, que merecedor seja duma alusão. Como o sabe ele? É questão da mais pura fé. É que EPC não lê blogues. Possivelmente a mágoa é mais vasta ainda. EPC, tudo leva a crê-lo, ignora a Internet. Não me lembro de apanhá-lo cedendo uma «url» à massa leitora. Faz bem, esta aranha interplanetária que nos tem nas penugentas patas não é de recomendar.
Mas o que fere – e ele sabe que fere, porque inteligente é ele – é o alcantilado desprezo que nos vota. Sentimo-nos, a seus olhos, não a minúscula grei de bons selvagens que nos supúnhamos, mas os soturnos diáconos dum culto lúgubre, sórdidos oficiantes de fatais missas negras, diárias para mais, enfim, isto torna-me lírico.
Mas a nossa vingança vai ser terrível. Não tarda, e EPC terá também a sua cela nestas húmidas paragens. Isto, senhor, é um vórtice a que ninguém escapa. Bem-vindo à perdição.
Nem por teima:
Hoje, sábado, no «Público», o magnífico Rui Tavares sai, de mangas arregaçadas, em denodada defesa do nosso convento. Eia, sus! Dá-lhe!
A ler sempre
O impagável Andy no Borowitz Report: Kerry Found With Duct Tape Over Mouth.
Sen. John Kerry (D-Mass), the 2004 Democratic nominee for President, was discovered today in a broom closet at Democratic National Committee headquarters in Washington, his hands bound behind his back and a strip of duct tape over his mouth.
The discovery of Sen. Kerry ended a nationwide manhunt after the former presidential candidate vanished Tuesday afternoon en route to an appearance on CNN’s “The Situation Room” with Wolf Blitzer.
Uma campanha alegre
Enquanto os Republicanos procuram desviar o “circo mediático” para as inabilidades de Kerry – de facto, melhor seria que enviassem o personagem de férias para as galápagos – o pessoal sempre se distrai dos escândalos nas trincheiras republicanas. Há para todos os gostos: sexo com menores; violação de sopeira na forma tentada;contratação de imigrante ilegal; tareia na esposa, and soion and soion. Quem diria, para um partido conservador e presuntivamente respeitável não deixa de divertir.
Trânsfugas
Há uns dias, eu e o Zé Mário passámos em revista o pelotão de desertores da extrema-esquerda que hoje engorda as engravatadas fileiras do liberalismo. Confesso que dedicámos longos minutos à patusca figura de João Carlos Espada, o oxfordiano de obra invisível e famoso amigo póstumo de Karl Popper, antes um assanhado controleiro marxista-leninista-estalinista.
A páginas tantas, pergunta-me o Zé Mário: “será que o inverso também é possível, e muita desta malta que hoje escreve em blogues liberais vai dar em esquerdista daqui a uns anos?”
Por muito que me divertisse a visão do João Miranda de T-shirt do Che ou do Luciano Amaral numa manif de braço dado com a Odete Santos, tive de ser realista: “Não me parece. Aquilo deve oferecer melhores condições que a Esquerda. Pensando bem, é igualzinho ao que se passa com a homossexualidade: os gajos que para lá vão nunca voltam.”
Ironias da política americana

O caramelo que se refugiou no Champagne Squadron, a milhares de quilómetros da guerra, conseguiu fazer passar a ideia de que John Kerry, ex-combatente no Vietname, insultou os soldados americanos.
A equipa de spin doctors dos republicanos continua em forma. Kerry continua a dar provas de que não nasceu para isto da política. Bush, o homem das mil gaffes, continua a gozar de um estatuto único: a ele, todos os deslizes são perdoados com um encolher de ombros.
Diários em Leitura

Sir Alan Frederick “Tommy” Dascelles. Secretário particular de quatro Monarcas. Jorge V. A abdicação de Eduardo VIII. A Segunda Guerra Mundial e Winston Churchill. Jorge VI e Isabel II. Alguns episódios sobre Eduardo:
Dascelles demite-se
When, about the middle of December, we got home, the King was still very ill and one evening I sent the Prince a note saying that I wished to resign. When he asked me why I wanted to leave, I told him what I thought of him and his whole scheme of life, foretelling, with an accuracy that might have surprised me at the time, that he would lose the throne. He heard me with scarcely an interruption, and when we parted, said: “Well, goodnight, Tommy, and thank you for the talk. I suppose the fact of the matter is that I’m quite the wrong sort of person to be Prince of Wales” — which was so pathetically true that it almost melted me.
Aprendiz de Calígula
Ulick Alexander (Keeper of the Privy Purse) has told me that, in the May of that year, he at last induced the King, Edward VIII, to go round his immense kitchen garden and glasshouses at Windsor. The particular pride of the old Scottish gardener was the peach-house, at that time a mass of blossom, promising a record crop of peaches. The King passed no comment till his tour of inspection was ended; he then turned to the gardener, and told him to cut all the blossom on the following day, and to send it to Mrs Simpson, and to one or two other ladies, to embellish their drawing-rooms in London. Caligula himself can never have done anything more wanton.
Espiões em Lisboa
The whole Windsor problem has recently been complicated by the discovery among the German Foreign Office archives at Marburg of a set of top-secret telegrams between Ribbentrop and Stohrer (German Ambassador in Madrid), regarding certain alleged overtures made to the Windsors by German agents when they were marooned in Portugal in May 1940. If the Windsors’ reactions were as implied in this correspondence the result is, to say the least, highly damaging to themselves.
Churchill
A few years ago, when Winston was still compos mentis, Jock asked him what he really felt about the Abdication, looking back on it after quarter of a century. (…) “Yes, but were you really prepared to accept Mrs Simpson as your queen?” — to which Winston, after a slight pause, replied: “ Never for one moment did I contemplate such a dreadful possibility.” Jock went on to say that Winston and Max Beaverbrook decided early in the Abdication crisis that “Cutie” (their private name for Mrs S) must leave the country as soon as possible. “It must have been fairly easy to persuade her,” said Jock, “when people started throwing bricks through the windows of her flat, and threatening to throw vitriol at her.”
“Max,” said Winston with one of his deepest chuckles, “Max arranged all that.”
A little later Jock found himself next to Beaverbrook after dinner. He put to him the same question that he had asked Winston. B, with his gargoyle smile, answered: “I thought it was all great fun.”
[King’s Counsellor.Abdication and War: the Diaries of Sir Alan Lascelles § Orion Books]
O Movable Type está tipo imóvel
Momento Bandarra
Algumas expressões que vamos ouvir muitas vezes no futuro próximo:Read/Write Web; WebOS; Parakey.
DESENHO #21
Os 10 Mandamentos Liberais

Com a recente confissão de Pedro Arroja — “O liberalismo é um produto do cristianismo e não é viável sem ele” — confirma-se algo de que sempre desconfiei: a versão do liberalismo professada por alguns nossos amiguinhos de folguedos é mais uma questão de fé que de razão. Aliás, bastava ler as suas reacções ao relatório Stern e os remédios que apontam para as alterações antropogénicas do clima (esquentadores inteligentes e SUVs híbridos, p. ex.) para topar que tanto fervor evangélico, tanta cegueira voluntária, só podia mesmo brotar de obsessões religiosas, não de pensamento sóbrio.
Depois desta revelação, os nossos intrépidos repórteres puseram-se em campo. Penetrando com ousadia na sede lusa do Grande Templo Liberal, apoderaram-se de um draft espantoso. Trata-se, nem mais nem menos, dos 10 Mandamentos Liberais, como constavam nas tábuas que o ressuscitado e venerando profeta Arroja trouxe da sua última visita a Chicago. Leiam e ponderem.
1. Amar o Mercado sobre todas as coisas.
2. Usar o nome da Liberdade sempre que possível; clamando, acima de tudo, que as ideias dos outros (leia-se “a Esquerda”) a ofendem.
3. Nunca, mesmo em momentos de fraqueza, não rir ao mencionar o “Aquecimento Global”.
4. Honrar qualquer governo dos EUA, desde que Republicano. Idem para Israel, mas independentemente do seu governo.
5. Abjurar a ideia de que a sociedade deve proteger os mais fracos; trata-se de uma tirania insuportável sobre os mais fortes e ricos.
6. Reconhecer na Iniciativa Privada infindas virtudes miraculosas e lutar quotidianamente para que mais e mais aspectos das nossas vidas sejam entregues aos iluminados desígnios dos Empresários.
7. Denunciar a incapacidade total do Estado para fazer seja o que for sem meter água.
8. Recusar um só tostão dos contribuintes à Cultura. Quem precisa de Brecht se pode ter La Féria? A quem interessará Emanuel Nunes quando anda por aí a lucrativa Ruth Marlene?
9. Atribuir aos madraços dos trabalhadores as culpas em qualquer conflito laboral ou em qualquer coisa que nos corra genericamente mal.
10. Acusar quem não acate qualquer um dos Mandamentos supra de iliteracia económica, corrupção científica, má-fé, ateísmo ou mesmo — t’arrenego! — comunismo.
É da minha vista…
Uma noite no football
Pela primeira vez num quarto de século, fui assistir a uma partida de futebol profissional. Ficou-me na retentiva o simpático rapaz vestido de verde que fez o primeiro golo do SLB e a assistência para o segundo. Imune a essas desventuras, a claque do Celtic acabou o jogo com palmas e cânticos; afinal, e ao contrário do que pensam os tugas, futebol é festa, não drama e depressão. Mas também eu cantaria se soubesse que estava prestes a regressar a um país civilizado. Cá fora, os adeptos do Benfica agradeciam a visita dos irlandeses com simpáticos “Celtic go home”. Enfim; a tristeza do costume.

