Os 10 Mandamentos Liberais

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Com a recente confissão de Pedro Arroja — “O liberalismo é um produto do cristianismo e não é viável sem ele” — confirma-se algo de que sempre desconfiei: a versão do liberalismo professada por alguns nossos amiguinhos de folguedos é mais uma questão de fé que de razão. Aliás, bastava ler as suas reacções ao relatório Stern e os remédios que apontam para as alterações antropogénicas do clima (esquentadores inteligentes e SUVs híbridos, p. ex.) para topar que tanto fervor evangélico, tanta cegueira voluntária, só podia mesmo brotar de obsessões religiosas, não de pensamento sóbrio.
Depois desta revelação, os nossos intrépidos repórteres puseram-se em campo. Penetrando com ousadia na sede lusa do Grande Templo Liberal, apoderaram-se de um draft espantoso. Trata-se, nem mais nem menos, dos 10 Mandamentos Liberais, como constavam nas tábuas que o ressuscitado e venerando profeta Arroja trouxe da sua última visita a Chicago. Leiam e ponderem.

1. Amar o Mercado sobre todas as coisas.
2. Usar o nome da Liberdade sempre que possível; clamando, acima de tudo, que as ideias dos outros (leia-se “a Esquerda”) a ofendem.
3. Nunca, mesmo em momentos de fraqueza, não rir ao mencionar o “Aquecimento Global”.
4. Honrar qualquer governo dos EUA, desde que Republicano. Idem para Israel, mas independentemente do seu governo.
5. Abjurar a ideia de que a sociedade deve proteger os mais fracos; trata-se de uma tirania insuportável sobre os mais fortes e ricos.
6. Reconhecer na Iniciativa Privada infindas virtudes miraculosas e lutar quotidianamente para que mais e mais aspectos das nossas vidas sejam entregues aos iluminados desígnios dos Empresários.
7. Denunciar a incapacidade total do Estado para fazer seja o que for sem meter água.
8. Recusar um só tostão dos contribuintes à Cultura. Quem precisa de Brecht se pode ter La Féria? A quem interessará Emanuel Nunes quando anda por aí a lucrativa Ruth Marlene?
9. Atribuir aos madraços dos trabalhadores as culpas em qualquer conflito laboral ou em qualquer coisa que nos corra genericamente mal.
10. Acusar quem não acate qualquer um dos Mandamentos supra de iliteracia económica, corrupção científica, má-fé, ateísmo ou mesmo — t’arrenego! — comunismo.

8 thoughts on “Os 10 Mandamentos Liberais”

  1. Caro Luís,
    este comentário vem tarde, mas é o que se pode fazer. Quando fala nos nos esquentadores e nos SUV’s ou “remédios” (a diminuição das emissões e do consumo de energia)como o faz posso presumir que para si, a solução é regressar à Idade da Pedra. Seria abusivo e desonesto se o fizesse, não lhe parece?
    Descontando a demasiado óbvia ironia do seu post, garanto-lhe que revela a mais profunda ignorância (preconceito?)sobre o que pensam os liberais do Blasfémias e do Insurgente, desde logo quando escreve “Chicago”. Falhou por muitos milhares de quilómetros.
    Acho no entanto que o seu ponto 7 dos 10 mandamentos anda perto. Está errado, mas por pouco, porque o Luís parece não distinguir Estado da organização burocrática que gere o interesse comum.
    Se me permite, sendo que o Luís é óbviamente mais culto e inteligente que eu e a minha indulgência seria até uma ofensa, leia-nos sem ma-fé. E alguns livros já agora. Por mim, também já li Marx, Gramsci e Chomsky. Sem preconceitos e se calhar por isso é que me assustei.
    Um abraço

    helder

  2. Helder,

    A bem da verdade, quem apresentou esses “remédios” como provas de que “o capitalismo é fixe” foi você.
    “Quioto não era mais que uma cidade japonesa e já os capitalistas predadores criavam coisas que reduzem consumo de energia. Como o esquentador inteligente Vulcano. Sem histeria, sem sacrifícios, sem necessidade de aumento de impostos e hoje é baratíssimo.”
    Coisa bizarra, para dizer o mínimo. A mim, não me ouviu falar da idade da pedra, pois não?
    Mas nada disto é estranho em quem se sai com tiradas do calibre de “proteger os direitos é positivo no sentido em que é acção, não violar é negativo no sentido em que é um impedimento da acção.” Assim, vai desculpar-me, mas fica mesmo difícil entender-vos.
    Quanto a Chicago, mencionei tal cidade a propósito de Pedro Arroja, não da turba toda, como por certo reparou.

  3. “Assim, vai desculpar-me, mas fica mesmo difícil entender-vos.”

    Caro Luís, é fácil explicar-lhe esteja ou não de acordo. A liberdade como a vejo é como Berlin a enunciou, a liberdade negativa. Julgo que sabe o que é.

    Quanto aos remédios, falta de talento meu concerteza, reduz-se a que enquanto media, ONG’s, políticos e outros se entretêm em tentar provar que o Apocalipse é para amanhã, as empresas já agem, lançando produtos que reduzem emissões, por exemplo. Se você comparar a acção de Tony Blair ou da Greenpeace com a da Toyota, fácilmente concluirá que a segunda faz muito mais pelos objectivos de redução de emissões que os primeiros. E isso tem um nome: capitalismo. É como a água, feche-lhe a porta e ele entra pela janela.
    Quanto a Chicago, devia informar-se melhor e procurar, sei lá, na Áustria por exemplo. Mesmo no caso do Pedro Arroja. E não é turba, há quem lhe chame fauna.
    Um abraço

  4. Este post até pode ser engraçado enquanto caricatura, mas verdade seja dita, com algumas modificações podia ser tão verdadeiro para a esquerda como para os liberais:

    1. Amar o Estado sobre todas as coisas.

    2. Usar o nome da Liberdade sempre que possível; clamando, acima de tudo, que as ideias dos outros (leia-se “a Direita”) a ofendem porque são fascistas ou quase-fascistas.

    3. Nunca, mesmo em momentos de fraqueza, esquecer a indignação ao mencionar o “Aquecimento Global” ou o ambiente (esquecer que muitos dos maiores crimes ambientais foram cometidos na antiga terra dos amanhãs que cantam perante o maior dos silêncios, «ai que saudades!!!»)

    4. Injuriar de imperialista qualquer governo dos EUA e culpá-lo de 90% dos males do Mundo. Culpar Israel,sempre que um qualquer palestiniano oprimido resolve fazer-se explodir num autocarro escolar cheio de crianças (culpá-lo dos restantes 10% dos males do mundo).

    5. Abjurar a ideia de que os ricos têm qualquer mérito em sê-lo; tratá-los sempre por privilegiados, independentemente da origem da sua riqueza;

    6. Reconhecer na Acção do Estado infindas virtudes miraculosas e lutar quotidianamente para que mais e mais aspectos das nossas vidas continuem entregues aos iluminados e bem intencionados desígnios dos funcionários e burocratas públicos.

    7. Denunciar a incapacidade total dos empresários para fazer seja o que for sem ofender os direitos dos trabalhadores, destruir o ambiente ou procurar destruir o «Estado Social».

    8 Não Recusar um só tostão dos contribuintes à Cultura. Considerar sempre que a qualidade de um produto cultural é inversamente proporcional à sua capacidade de atrair público.

    9. Atribuir aos malvados dos «patrões» as culpas em qualquer conflito laboral ou em qualquer coisa que nos corra genericamente mal, seguidamente. Se se tratar de um problema internacional ver ponto 4.

    10. Acusar quem não acate qualquer um dos Mandamentos supra de insensibilidade social, corrupção científica, má-fé,rato de sacristia ou mesmo – Marx nos valha – neocon ou fascista.

    Cumprimentos.

  5. Nuno Costa,
    Piada tem; mas erra o alvo por aqui.
    Eu também pertenço à corja dos empresários.
    Aliás, julgo que sou mesmo mais liberal que muitos Blasfemos e Insurgentes: coloco nas mãos do mercado, há 20 anos, a minha sorte e a dos colaboradores que têm a desdita de por aqui trabalhar.

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