
Durante quase todo o ano de 2004, o documentarista Eric Steel filmou a Golden Gate Bridge, em S. Francisco, não perdendo um minuto de luz diurna. E capturando 23 dos 24 suicídios que ali ocorreram.
O resultado é “The Bridge”, um documentário já estreado no Tribeca Film Festival e fonte de polémica instantânea. Além das imagens de mergulhos para a morte, Steel integrou na sua obra entrevistas com familiares de suicidas, autores de tentativas frustradas e até mesmo sobreviventes à queda de 67 metros.
Esta icónica ponte, a mais longa do seu tipo, é uma das obras de engenharia mais famosas do mundo. A sua beleza suspensa atrai turistas, produtores de posters… e gente em busca de morte rápida e certa. Trata-se do local em todo o planeta onde ocorrem mais suicídios. Em média, cada quinzena traz mais um salto letal; a contagem oficial foi interrompida em 1995, pouco antes do milhar, para que não eclodisse uma corrida à celebridade póstuma (não resultou, diga-se: Eric Atkinson, de 23 anos, foi o infeliz vencedor).
A polémica surgiu, para além do óbvio choque de ver mortes filmadas como se num documentário sobre espécies em vias de extinção, porque o autor falseou a descrição da sua obra ao pedir as licenças necessárias. Para impedir que as notícias das filmagens atraíssem suicidas em busca de estrelato, defendeu-se Steel; evitando recusas mais que certas, contrapõem os críticos. Enfim, teremos de ver o filme para decidir se terá valido a pena mentir para o poder realizar. Note-se entretanto que a equipa de filmagens salvou várias pessoas, alertando em diversas ocasiões as forças de segurança para a presença na ponte de transeuntes suspeitos.
Ao procurar informações sobre o documentário, dei com este fabuloso artigo de Tad Friend, na New Yorker. Só depois descobri que tinha sido a inspiração inicial de Eric Steel. Leiam, que vale bem a pena. A prosa oscila entre o informativo e o pungente, como esta passagem de uma carta de suicídio: “vou caminhar até à ponte. Se uma pessoa me sorrir pelo caminho, não salto”. Mas o testemunho mais relevante para quem esteja a contemplar uma saída antecipada deste mundo é-nos dado por um sobrevivente à queda: “percebi naquele instante que tudo na minha vida que eu via como não tendo remédio era totalmente remediável — excepto o salto que tinha acabado de dar”. Acabou por ter direito a uma segunda oportunidade; algo que nenhuma das “estrelas” involuntárias de “The Bridge” conseguiu.
PS: Este filme sempre serviu para ajudar uma boa causa: depois de anos e anos de discussão, parece que vai por fim ser instalada na ponte uma barreira anti-suicídio.