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A alternativa PS (1) – na orla do buraco negro

Todos os políticos, desde o tempo das cavernas, usam a falácia do “nós ou o abismo”, sendo normalmente uma ameaça relativamente inócua uma vez que por “abismo” entende-se, em condições normais, uma opção politica diferente. No seguimento, o mesmo se poderá dizer das várias ameaças de “eles vão destruir X” ou “desmantelar Y” ou “falir Z”, sendo que X, Y e Z são normalmente coisas que a maioria das pessoas considera pilares da sociedade acima de qualquer tentativa de destruição: o estado social, a segurança no emprego, os cuidados de saúde, etc. E que normalmente estão realmente a salvo. O que uns fazem, outros melhoram ou corrigem de acordo com a sua visão, e por assim em diante.
Em tempos normais, é isto que acontece. Mas não estamos em tempos normais.
Numa recessão à beira de se tornar uma depressão, como estamos, o abismo não é apenas uma hipótese no futuro distante, mas uma realidade que se pode materializar a curto prazo. Para muitos, cada vez mais, já se materializou. E tal como acontece às leis da física junto aos buracos negros, as leis normais da politica não se aplicam da mesma maneira em situações de extrema tensão social, quando um país se vê encostado à parede e o risco de explosão começa a ser real. Demasiado real.
E é aí que as ameaças cada vez menos veladas de Victor Gaspar de cataclismo eminente caso não se concretizem os seus planos entram.
O discurso severo do “temos que cumprir” tem agora mais de um ano. Serviu bem o governo durante esse  período, já que a maioria da população interiorizou que, promessas quebradas ou não,  sacrifícios teriam que ser feitos e que o seu nível de vida teria que baixar temporariamente para pôr a “casa em ordem”. Cumpriram sem reclamar muito, esperando resultados. Mas quando esses resultados foram o oposto daquilo que lhes disseram para esperar, e mais sacrifícios foram pedidos devido a essa falha estrondosa, esse contrato quebrou-se, e as manifestações de 15 de Setembro aconteceram. Há muitas e variadas leituras desse protesto. Para mim, foi um aviso que estamos na orla do buraco negro, e que a partir daqui as regras mudaram. Para pior.
Neste momento, o discurso da chantagem – ou aguentam com tudo o que pedimos ou é o abismo – ainda tem alguma força, sem dúvida. Tal como na Grécia, o medo é uma poderosa arma politica. Mas esse discurso está agora em directa contradição com a realidade que qualquer pessoa vê ou sente na pele. O que nos pedem já não são sacrifícios para ficarmos melhores ou para resolver alguma coisa. O que nos pedem agora são sacrifícios para não ficarmos ainda piores. Ou seja, escolher entre dois males.
É uma proposição muito, muito perigosa. E é perigosa porque extrema posições, tal como já vimos acontecer na Grécia, dando a escolher entre uma via, a da troika e do Euro, que conduz a um empobrecimento intolerável, e ao seu oposto exacto, proposto pela extrema-esquerda, de rejeição de tudo isso, que conduz exactamente ao mesmo resultado mas que se apresenta diferente, que pretende oferecer uma saída que a primeira já não oferece. Ainda não estamos nesta fase, mas já estivemos bem mais longe, e tanto o PSD como BE/PCP cavalgam agora alegremente o extremismo (Deixo um CDS perfeitamente perdido à parte, por agora)
Resta pois o PS, que até agora tem feito uma oposição pontual, excessivamente formalista e muitas vezes oportunista. É fácil ser oposição clássica agora, basta aproveitar as asneiras do governo, e elas são cada vez mais e cada vez mais evidentes. E a oposição clássica é muito menos eficaz nestes tempos e pode conduzir a resultados desastrosos. Para construir uma alternativa que nos faça sair deste ciclo extremista agora em plena preparação, para não ser apenas “outro partido da troika” – e as sondagens são um sério aviso – tem de ser mais, bem mais do que isso. Mas vai ter de o fazer e, mais importante, vai ter de o fazer sozinho. Caso ainda não tenha percebido, é altura de perceber.

Liderança sólida. Como as rochas.

Legislativas 2011
Sondagem Setembro 2012

A coisa é simples de ler: o PSD está a implodir à medida que as pessoas se apercebem do embuste que representa, sendo que a TSU representou o momento em que subitamente os olhos se abriram. Portas também caiu mas está a tentar dar a volta com algum resultado, conseguindo manter o seu eleitorado tradicional. A jogada deve ter minimizado os danos. PC e BE capitalizam o descontentamento e representam já 24% dos eleitores, enquanto nas eleições se ficaram pelos 13%. Ou seja, subiram 11% em pouco mais de um ano, num claro indício de radicalização de uma faixa importante da população.
Resta o principal partido da oposição, que depois de um ano das mais severas medidas de austeridade e dos maiores sacrifícios, justamente no momento em que os eleitores se apercebem que não serviu rigorosamente para nada e pelo contrário, deve ter tornado as coisas ainda piores, esse partido sobe, em relação às anteriores eleições, 2.9%. Dois ponto nove. Ou seja, quem está desiludido com o PSD não vê solução alguma no PS, nada que inspire confiança, que indique um caminho alternativo claro, ou o relato de como foi possível chegarmos a este ponto. Os que ficaram são sensivelmente os mesmos que já em 2011 acreditavam. Os restantes, olharam para a alternativa e decidiram que não valia a pena. É este, em números, o resultado de mais de um ano de liderança de AJ Seguro. Uma sondagem é uma sondagem é uma sondagem. Mas esta diz tudo.

Portas já foi, agora é Passos/Gaspar vs. Cavaco

No meio da gigantesca e deplorável novela política que se instalou à volta da TSU, há factos que me parecem óbvios: 1. independentemente da origem, esta medida é considerada central no OE de 2013 2. Passos não recuou quando os danos seriam menores, e agora está preso à medida. Qualquer recuo será visto como o seu fim. 3. Com as posições tão extremadas,  a única maneira de a evitar será fazer cair o governo. Bluffs e ameaças já foram tentados, tanto por Portas como por Cavaco via MFL. Passos não cedeu, nem vai ceder. 4. Portas pode distanciar-se o que quiser, fazer fitas, saltinhos e mortais invertidos, mas não será ele a abrir uma “crise politica”, ou seja, não tem coragem de pressionar o botão com medo de arcar com as culpas. A aposta pois é provocar o seu parceiro de coligação de modo a serem eles a romper. O que não acontecerá, apesar de provocar um fogo de artifício muito impressionante.
Resta pois Cavaco, que contra sua vontade e com óbvia irritação, vê o menino cair-lhe no colo.
E o que faz o PR? Mantém o absoluto silêncio que lhe permita salvar a face seja qual for a saída, e convoca uma conferência de negociações via conselho de estado. Essa, parece-me, é a chave da presença de Victor Gaspar, permitir a negociação da medida directamente com o responsável e sem intermediários, de modo a que qualquer que seja a solução encontrada esta seja definitiva, sem mais novelas, recuos ou demissões.
Resta pois saber se essa solução é possível. A mim, não me parece. Qualquer cedência ou alteração da medida seria inevitavelmente vista como um sinal de menoridade de Passos, Gaspar é um fanático irredutível que não gosta nada que lhe alterem os “modelos”, e a ajudar à festa, Bruxelas já fez saber que não admite recuos, não vão os países intervencionados pensar que podem ter margem negocial após as negociações. Assinaram, é para cumprir. Não gostam, azar, a caixa de pandora foi aberta e já não se fecha. A TSU é para baixar, embora me pareça que haja margem para decidir como se paga essa redução. Mas alguma coisa vai ter de ficar no OE a dizer “TSU”.
Logo, ou o conselho de estado acaba com umas alterações cosméticas para, por exemplo, “proteger os mais pobres” que inevitavelmente “já estariam previstas”, sendo que a medida avança “por exigência de Bruxelas”, reduzindo Cavaco à sua insignificância, ou para travar isto Cavaco terá que demitir o governo. O que significa que, muito em breve, lhe ouviremos a seguinte expressão:

“…não poderia abrir uma crise politica de consequências dramáticas para o país…”

Bem-vindos à experiência. Espero mesmo, mesmo estar enganado.

O elogio de Manuela

Há certamente milhares de maneiras de interpretar negativamente esta extraordinária entrevista de Manuela Ferreira Leite. Que foi enviar recadinhos de um Cavaco demasiado cobarde para falar por ele próprio, sim. Que agora se mostra muito preocupada com os reformados quando antes propunha cortar nos tratamentos, sim. Que chora lágrimas de crocodilo quando apoiou a estratégia de falir o país para expulsar Sócrates, sim. Que fala de uma cátedra que não merece quando foi uma péssima ministra das finanças, sim. Que agora se mostra assustada com a dimensão da crise a que antes chamara um “abalozinho”, sim. Que tem contas internas a ajustar com esta liderança do PSD, sim. Que se perfila para o cargo de primeira-ministra, sim. Que poderá ser o rosto de um governo de iniciativa presidencial, sim. Que é uma figura no geral detestável, sim. Que o PSD é o eterno saco de gatos, sim, sim e sim.
E que me custa, e muito, fazer-lhe aqui o elogio? Sim, também. Mas desta vez é merecido.
Porque acho que a preocupação com o país e com os cidadãos que atravessa toda a entrevista parece sincera, e parece sincera porque corresponde ao que todos sentimos. A um sentido de alarme que despertou por todo o país quando, na ultima sexta-feira, subitamente nos apercebemos que somos governados por loucos fanáticos, e que esses loucos fanáticos têm de ser parados custe o que custar, sob pena da destruição completa de um país e de um modo de vida construído, com avanços e recuos, nos últimos 38 anos. Para uns terá sido uma surpresa, para outros a confirmação dos seus receios. De onde partimos não interessa muito, neste momento, porque creio que se pode afirmar que estamos todos, à esquerda e à direita, na mesma posição de rejeição absoluta deste caminho para onde nos querem levar à força.
Não é preciso concordar com a orientação politica que Manuela Ferreira Leite encarna para se estar em absoluto acordo com tudo o que foi dito. Porque o que está em causa hoje já nem tem relação com diferentes orientações, diferente politicas, diferentes ideologias, diferentes grupos de interesse. O que está em causa hoje é algo que está num nível superior a esse: a rejeição do extremismo. A consciência que acima de tudo aquilo que nos separa, está aquilo que nos une: moderação e prudência na governação. O centro alargado, que vai desde os activistas de sofá à esquerda aos monárquicos conservadores à direita. O que nos une é o simples bom-senso de quem percebe que um país não é uma Fenix que há que colocar a arder na esperança que renasça. Porque um país é feito de cidadãos, é feito de pessoas, e as pessoas queimam-se.
É isto, antes das diferenças, que me une, e a ti, a Ferreira Leite. É isto que importa preservar perante um assalto de loucos irresponsáveis. E foi isto que MFL disse aos deputados do PSD: parem, e vejam bem o que estão a fazer. Porque o PSD pode ser muitas coisas, mas não é isto. Foi esse o sentido da expressão “eu sou social-democrata”. Nesse sentido, eu também sou. Moderado e consciente que um país se mede pela prosperidade da sua classe média.
Assim que esta guerra, porque neste momento é de guerra que tratamos, assim que esta acabar voltaremos aos combates políticos leais e desleais, às campanhas mais ou menos sectárias, às pulhices e demagogia do costume, ao combate de ideias e argumentos, às várias soluções e recriminações desta crise. A tudo, no fundo, o que faz a política fascinante e o país avançar, embora por vezes aos soluços, mas sempre para a frente.
Por agora, no entanto, há uns loucos irresponsáveis a travar, e um desígnio nacional que nos envolve a todos. Todos – foi isto que Manuela Ferreira Leite veio confirmar. Da minha parte, e por muito que me custe, só tenho a dizer: obrigado.

O inexistente

O que o governo se prepara para fazer com a TSU, mais do que tudo o que já tem feito até agora, do “ir além da Troika” que nos conduziu aos resultados desastrosos que estão à vista, entra já no domínio da engenharia social pura, do experimentalismo sobre uma população vulnerável, do testar de teorias académicas em ratinhos de laboratório, na certeira expressão do João Pinto e Castro. É talvez a medida mais grave que foi tomada até agora, já que propõe uma hipótese teórica e fantasiosa, incompleta, mal pensada, mal preparada e que vai afectar o equilíbrio do país nas próximas décadas como um facto consumado, algo que se apresenta de surpresa numa breve e atabalhoada comunicação. Confrontado com o falhanço da sua governação, governo e troika resolveram fazer um double-down da aposta para ver se desta vez é que é. Os americanos chamam a isto um “Hail-Mary pass”, uma jogada improvável nascida do desespero. Acontece que nesta jogada, nesta aposta muito, muito arriscada, as fichas de casino somos nós.

Desde a comunicação na última sexta-feira que um país completamente apanhado de surpresa entrou num debate (por assim dizer) como já não via há muito tempo, parecendo despertar do torpor do último ano. É uma questão que, por uma vez, uniu todos os sectores da sociedade na discussão furiosa e na rejeição quase unânime. Todas as forças vivas da sociedade, de constitucionalistas a sindicatos, de associações empresariais às pessoas na rua, todos têm alguma coisa a dizer, a criticar, a perguntar, a contribuir, numa dinâmica que tão depressa não se deverá esgotar.

E perante uma situação desta dimensão e gravidade, que faz António José Seguro, líder do principal partido da oposição? Aquilo que faz melhor: desaparece num passe mágico de irrelevância.

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Do uso magistral de 49 minutos

Este discurso, proferido ontem na convenção do Democratas, tem 49 minutos. Mais de três quartos de hora a falar, o que seria suficiente para testar a paciência de qualquer espectador. E a razão porque é tão longo, o mais longo que Bill Clinton já deu (descontando uns 10 minutos dedicados aos salamaleques e elogios obrigatórios), é porque foi o tempo necessário para explicar o que se passa com uma economia ainda muito fraca, o que se passa com um país ainda a recuperar da beira do abismo onde esteve, e a desconstruir as sucessivas mentiras, distorções, ódios e toda uma narrativa alternativa que o Partido Republicano meticulosamente construiu ao longo dos últimos quatro anos perante um país onde a incerteza e o desespero foram mato para demagogos e vendedores da banha da cobra.
Este é então um discurso sobretudo dedicado a uma das coisas mais chatas que existem em política: falar de política. Explicar as políticas seguidas e as politicas a seguir. Em detalhe. Uma por uma. Expô-las, justificá-las e defendê-las dos ataques e propaganda de que são alvo.
E isso deu 49 minutos de discurso, porque os temas são muitos e complexos. Normalmente, seria uma seca insuportável a que apenas os jornalistas e os delegados assistiriam em pleno, em ambos os casos por obrigação. Acontece que Clinton não é um politico qualquer, e pegou nos temas considerados chatos e deu-nos 49 minutos de um dos melhores discursos que já vi em toda a minha vida, Obama incluído. Simples mas denso. Baseados em factos e números sem ser professoral. Falando de temas sérios com graça. Trabalhando a multidão como um mestre. Aliás, adorando a multidão que por sua vez o adora de volta. É a oratória, em resumo, de um mestre feliz por o ser.
Este discurso devia ser de visionamento obrigatório para todo o político que alguma vez chegue ao pé de um pódio e de um microfone com a intenção de abrir a boca. E creio que, daqui em diante, o será. Mais de que politica americana, mais do que politica espectáculo, isto é sobretudo política no seu melhor.  Na palavra.

A sucessão de D. Francisco, Rei da esquerda

Lisboa, Agosto de 2012
Chegou ao nosso conhecimento uma notícia que nos enche de pesar. SAR D. Francisco Louçã, Rei da esquerda e Coordenador-mor do reino, acaba de indicar o seu profundo cansaço e a sua vontade de não prolongar o mandato para além do mandato. A sua vontade foi comunicada ao seus súbitos, o “povo do bloco” como sua magnificiência gosta de se lhes referir, recusando o medonho “cidadãos”, numa sentida nota no Facebook em que SAR demonstra mais uma vez o seu à-vontade entre os simples tratando-os por tu e procurando explicar as suas razões para mais um gesto que o cobre de glória e nobreza.
Fazemos notar que, no entanto, a resignação de SAR era já esperada desde há mais de um ano, uma vez que todo o reino comentava a débil saúde de SAR após os graves ferimentos que sofreu na ínfame “batalha de Junho”, em que embora demonstrando a bravura que lhe é habitual, SAR não conseguiu evitar que no rescaldo da batalha contra o inimigo jurado, o traidor Sócrates, as tropas da direita tomassem de assalto o parlamento e lá se instalassem. Dizem as más-línguas que SAR resistiria a debruçar-se sobre o premente assunto da sucessão. Nada mais falso! Como se prova na missiva, o findo ano foi dedicado a demoradas e complexas negociações entre os nobres da corte de modo a resolver tão delicada questão, que se fosse tratada com ligeireza – eleições entre o povo, como alguns incautos ousam sugerir – poderia descambar numa guerra civil entre as várias facções com resultados certamente desastrosos. Pois para que serve a nobreza senão para representar o povo, senhores, e os livrar de tais preocupações?
Eis pois o tão esperado anuncio, e observamos maravilhados como SAR, num gesto final de grande visão,  impulsiona o reino em direcção à modernidade tão em voga no estrangeiro com uma brilhante sugestão para a sua sucessão: o reino será doravante liderado por um casal, caindo tão pesada responsabilidade sobre os ombros do Duque João Semedo e da Baronesa Catarina Martins. Será assim satisfeita a pretensão do povo de ver representado tanto o belo sexo como o sexo forte na condução dos aspectos reais, uma ideia que não hesitamos em rotular de bíblica. Poderão contar com a plena colaboração de SAR, que assumirá doravante a posição de mero conselheiro-regente.
Desejamos a SAR uma agradável e merecida reforma, onde certamente se dedicará a prazeres mais mundanos como o o seu yatch, as caçadas de Purdey com o poeta-mor Manuel Alegre, a literatura e a escrita. E que passe bem da sua importante saúde.

E Passos, deixa passar este claro apelo à guerra?

Lembrando que existe uma crise de dívidas soberanas na Europa, que não afeta apenas Portugal, Passos Coelho sublinhou que “se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente esse seria um péssimo sinal”. No seu entender, tal atuação faria passar a mensagem de que não seria necessário rigor nem disciplina orçamental, porque o BCE imprimiria mais moeda.

“Na Europa isso já aconteceu há largas dezenas de anos e a Europa viveu uma guerra muito forte por causa disso”, afirmou

Passos Coelho, preocupado com a guerra em Novembro de 2011

(1) A situação excecional e de verdadeira emergência a que chegámos reclama do Banco Central Europeu (BCE) uma intervenção ampla e previsível no mercado da dívida soberana dos países solventes que enfrentam problemas de liquidez e a disponibilidade para uma intervenção ilimitada no mercado secundário;

(…)

E porque não o BCE começar a aplicar já aos títulos da dívida pública da Irlanda e de Portugal a orientação anunciada pelo seu Presidente?

Cavaco Silva, disposto a arriscar a guerra para salvar o governo PSD em Agosto de 2012

 

Luzes no Atlântico Norte

Do realizador Bernardo Nascimento vem esta pequena pérola de bem filmar,  e sobretudo de muito bem contar uma história simples tornada por isso interessante. Está, com todo o mérito, entre os 10 finalistas do festival Youtube em Veneza. Para quem, como eu, está há muito zangado com o bastas vezes ridículo, dramático e pedante cinema português, é uma revelação. 15 minutos não é muito, mas é um começo. Haja esperança.

Não há dinheiro e não há mensagem

Andámos a viver acima das nossas possibilidades

Homem honrado paga o que deve

Numa casa, não se deve gastar mais do que se ganha. Qualquer dona de casa explica isso.

Não vamos deixar as dívidas para os nossos filhos pagarem

Não há dinheiro, qual é a parte que não perceberam? Não há dinheiro.

A economia andou a viver do crédito fácil, agora acabou.

Temos que aprender a viver de acordo com as nossas posses

Não vão ser os outros a pagar os nossos gastos

 

Todos os dias, uma ou várias das frases acima e respectivas variantes entram pelas nossas casas dentro. Via jornais, rádio, televisão, sobretudo pelos comentadores sérios e importantes, com muitos títulos (normalmente não relacionados com economia), que têm a missão de explicar a crise aos restantes cidadãos. A seu favor, uma enorme vantagem: têm toda a razão no que afirmam. Não há nenhuma daquelas frases com a qual discorde. Nem uma só..

A razão para não discordar é que tudo o que ali está escrito é do mais elementar senso-comum. Afinal, ninguém gosta de ter dívidas, e a primeira coisa que qualquer um faria caso ganhasse o Euromilhões, a primeira de todas, era pagá-las todas até ao ultimo tostão. Libertarmo-nos desse peso, poder dizer com incontida satisfação “não devo nada a ninguém”. É uma questão visceral para a grande maioria das pessoas. Outra coisa igualmente visceral é o sentimento de protecção dos filhos, o não querer deixar-lhes um fardo. E dentro do mesmo tipo de sentimentos, ter folga no fim do mês, ou seja, não gastar mais do que se ganha. E caso o dinheiro acabe, cortar tudo o que não seja essencial. Tendo em vista que face a essa situação, o próprio conceito de essencial muda. Casa, comida e roupa. Tudo a partir daí passa a ser luxo sujeito a ser posto em questão. Quando não há dinheiro, não há dinheiro. Ponto final.

Como disse, isto é uma questão do mais elementar senso-comum, e quando alguém diz uma frase destas concordo imediatamente com ele.

Até que as usam para explicar a presente crise. Ou seja, até que mentem. Porque a crise não se explica com estas frases, os estados não se governam como uma economia doméstica, e dívidas publicas são mecanismos benéficos na maior parte dos casos. E sim, as dívidas gerem-se. E gerem-se por períodos de tempo multigeracionais. Os estados, ao contrário das pessoas lá em casa, têm uma certa tendência para não morrerem. Eu construo uma auto-estrada, os meus filhos e netos acabam de a pagar, porque todos beneficiamos. Todos juntos, somos o estado em existência contínua. Imagine-se se não tivéssemos construído a ponte 25 de Abril “para não deixar encargos aos filhos”? Quando é que ficou finalmente paga, recordem-me lá?

Nada disto, no entanto, impede que estas parábolas continuem a ser usadas, e são usadas pela mesma razão que são usadas, para referir o exemplo mais famoso, nos Evangelhos: são terrivelmente eficazes a passar a mensagem, de traduzir conceitos complexos em ideias simples susceptíveis de serem entendidos por quem não percebe nada de economia, finanças e de “como chegámos aqui”. E de como sair.

E esta batalha de ideias e conceitos está a ser ganha em toda a linha pela direita, pelos moralistas, e por todos os que odeiam o próprio conceito de estado social e querem aproveitar a crise para o colocar nos mínimos, ou mesmo acabar com ele.

Agora, não sou economista mas gosto de política, e como ultimamente toda a politica se resume à economia e finanças, tenho procurado saber o máximo possível. Ler jornais económicos, artigos de especialistas, discutir com gente que sabe muito mais do que eu. Adquirir, no fundo, os conhecimentos necessários para não ser completamente passado a ferro quando se discute a crise. E não é fácil, mesmo para quem gosta de ler e aprender. É perfeitamente natural que a grande maioria das pessoas tenha mais que fazer do que andar a ler e aprender estas coisas.

O que se aprende nestas discussões e leituras é também outra coisa: a direita explica a crise e as opções à nossa frente com muito recurso a estes exemplos simples e desonestos, enquanto a esquerda tem tendência a ser mais rigorosa, académica e muito, mas muito menos eficaz. Ou para colocar as coisas de outra maneira: pode ser muito correcto e honesto contrapor cenários macroeconómicos e politica monetária do BCE quando alguém diz que andámos a viver do crédito fácil, mas no fim do dia o que as pessoas interiorizaram foi precisamente a ideia do crédito fácil. Aquilo que compreendem, que experimentam, que conhecem. A direita desonesta passa a mensagem, a esquerda passa a ideia de serem teóricos desligados do mundo real. Os tais que querem “continuar a gastar à tripa-forra”.

Por exemplo, o governo embandeirou em arco com o saldo positivo da balança de pagamentos, com prova que estamos finalmente no bom caminho. Para a maior parte das pessoas, exportar mais do que se importa é uma coisa boa, apesar de na realidade reflectir sobretudo o nosso empobrecimento acelerado. Agora contraponham essa ideia simples com, por exemplo, este artigo mais rigoroso do João Pinto e Castro;

A ausência de política monetária e cambial própria decorrente da integração do país no sistema monetário europeu tornou mais difícil o ajustamento, porque nem as famílias, nem as empresas, nem o próprio estado tinham incentivos para reajustarem os seus comportamentos às novas circunstâncias. Não se alterando os padrões de despesa, foi-se prolongando até hoje o excesso de importação.

Qual é que, na mente do público, consegue passar mais claramente a mensagem? (Estou, claro, a descartar aqui o facto de ser uma publicação económica, virada para quem percebe um pouco mais.)

Isto é algo em que a esquerda, e todos os que se opõem a este caminho têm de mudar, e mudar urgentemente. Bons conceitos têm de ser bem explicados, e por bem explicados entende-se por construir a mensagem de modo a chegar ao maior número possível de pessoas de maneira que estes entendam. Se algum rigor se perde, compensa-se em eficácia. Porque estamos a falar para o público, não para o Victor Gaspar. Por cada exemplo de dona de casa que tem de cortar nos gastos, contrapor o conceito do empresário de transportes a quem dizem que para salvar a empresa tem que cortar no gasóleo. Por cada argumento de “quanto mais austeridade, menos tempo”, lançar a imagem do doente a quem  dizem que é melhor tomar a caixa de comprimidos toda de uma vez. E depois perguntar que raio de médicos são estes. Conceitos simples, curtos e eficazes para explicar porque é que o caminho está errado e o nosso correcto.

Eu, pela minha parte, estou bastante farto de ver a esquerda engasgar-se cada vez que alguém da direita diz, com ar superior, “pois, mas não há dinheiro”. Estou farto de ver a esquerda perder a guerra da mensagem enquanto a direita lança alegremente as culpas para cima de nós. Com as contas públicas em descalabro, a ideia do “não havia nem há alternativa”, mais o discurso da culpa de quem “se endividou” vai ser usada à exaustão. É altura de contra-atacar.

Liberal wonderland

Para se perceber bem o que pensam os chamados liberais da nossa praça, os puros e verdadeiros, é olhar para este naco de pensamento no Blasfémias. Diz assim:

promover uma reforma profunda do estado, retirando-o da saúde, da educação, da segurança social, onde ele desempenha funções principais e não subsidiárias, reestruturando a justiça, as forças armadas e de segurança (a GNR e a PSP ainda existem?), que têm gente a mais e produtividade a menos, e acabando, de vez, com o sector público do estado

Ou seja, o que os nossos liberais querem é saúde exclusivamente privada, porque funciona tão bem, por exemplo, nos EUA , educação exclusivamente privada, quem puder pagar estuda, quem não puder, bom, azar, pelo menos é o que se depreende de “retirar o estado” (a não ser que esteja a falar de subsídios aos privados, pelo que a expressão “funções subsidiarias” é certeira) e, pasme-se, da Segurança Social. O que trocado por miúdos significa que quem quiser reformas pode ser responsável e investir o que entender e quanto entender em produtos dos bancos, esses paradigmas de estabilidade e solidez, ao contrário do volátil estado.

Retirado este dessas áreas absolutamente não-essenciais a um país moderno, resta “reformar” a justiça, forças armadas e polícia, começando pela “gente a mais“. Portanto, suponho que a proposta seja menos juízes, menos militares e menos polícias. O que será muito produtivo, já que menos polícias significam menos detenções, o que exige menos juízes. Ou pôr os juízes a fazer mais, porque 4000 processos/juiz é coisa para 2 ou 3 meses bem produtivos. Quanto aos militares, o melhor é acabar com eles de uma vez. Também não fazem nem servem para nada.

Isto, nas palavras do autor, é absolutamente necessário para “mudar o paradigma que nos tem empobrecido“. O empobrecimento, suponho eu, é este aqui em baixo:

 

Tem razão o autor em querer mudar tão vil paradigma, e em exortar o governo a introduzir as reformas necessárias para acabar com ele, sem pensar um minuto em “reformar esse paradigma para o tornar viável“, porque um paradigma inviável não pode ser viável e seria, por alguma razão, uma má notícia que conduziria a mais empobrecimento, ou nas palavras do autor (ou do PCP, isto confunde-se um bocado) “enfraquecem progressivamente o tecido social e a economia, aumentam o desemprego real (o que resulta da falta da iniciativa privada e não da falta de serviços públicos), provocam falências, impedem o crescimento da economia e incentivam a emigração“.

Mudem pois o paradigma e destruam a economia antiga, e apesar do sofrimento a “curto, médio prazo“, a longo prazo os amanhãs cantarão. Estaremos é todos mortos.

Pró-social, pró-família e pró-natalidade, era isso não era? Era.

O CDS-PP está contra as mudanças nos apoios às grávidas e abonos de família e insiste na revogação destas medidas que considera serem «anti-sociais».

Para Pedro Mota Soares, as novas medidas de apoio às famílias e grávidas são «anti-sociais, anti-família e anti-natalidade».

Partido das famílias, em Novembro de 2010

 

Os subsídios de Natal e de férias vão deixar de ser considerados no cálculo dos apoios à maternidade, passando a considerar-se apenas as remunerações auferidas mensalmente durante o período da gravidez.

Com esta alteração, apesar de a fórmula de cálculo se tornar mais equitativa, haverá casos de cortes significativos nos apoios a receber, mas não só na maternidade. Também os subsídios destinados à gravidez de risco, à interrupção da gravidez, à adopção e ao apoio de filhos deficientes serão estimados de acordo com estas novas regras, que entram em vigor a partir de segunda-feira.

Partido das famílias, em Junho de 2012

Ricardo e os sacanas

Sobre Ricardo Rodrigues, vamos aos factos, primeiro a quente: o deputado, confrontado com uma insinuação canalha de envolvimento num caso de pedofilia, teve uma reacção intempestiva que, para muitos, eu incluído, foi até bastante contida. A tentação de pegar nos gravadores, atirá-los às trombas dos dois trastes que tentavam, na própria cara do deputado, colar-lhe uma das piores difamações que hoje existe, e correr com eles à pancada do gabinete seria para muitos irresistível, e se calhar até lhe mereceria maior respeito por parte daquelas almas simples que hoje gritam “ladrão”. Quem não sente não é filho de boa gente, segundo dizem.

Dito isto, ou melhor, tirando isto do peito, vamos aos factos, agora a frio: o deputado, confrontado por dois jornalistas com perguntas que não lhe agradavam, resolveu usar os meios que entendeu usar de modo a tentar impedi-los de fazer o seu trabalho, ou seja, tomou acções cujo objectivo era impedi-los de publicar uma história.

E na minha opinião,  entre as duas interpretações dos factos, por muito compreensível que nos seja a primeira, a segunda é a que tem maior peso. É a que em último caso vale. E vale pelo mesmo princípio que vale a igual protecção da lei para todos  – o princípio que diz que uma lei que protege os facínoras é a maior garantia que protegerá também os que não o são. Neste caso em particular, o mesmo se aplica aos jornalistas. Por muito desagradáveis e insultuosas que tivessem sido as perguntas, eles têm o direito de as fazer sem que esteja em causa a realização do seu trabalho, até porque mesmo estando num caso extremo de perguntas ofensivas à honra, elas não são em princípio diferentes de outras perguntas que também podem ter essa interpretação. É por estar garantido que um jornalista sem escrúpulos possa fazer esse tipo de perguntas a Ricardo Rodrigues que está igualmente garantido que outro jornalista mais idóneo possa fazer perguntas sobre submarinos a Paulo Portas. Num caso, a pergunta pressupõe pedofilia, no outro pressupõe corrupção. Ambas podem ser consideradas ofensivas pelos visados. Vamos deixar então a um critério pessoal dos visados se os jornalistas podem ou não publicar uma história? Não me parece. Caso se sinta ofendido no seu bom nome e reputação por uma publicação, há tribunais para isso mesmo. Caso considere as perguntas ofensivas ao extremo, ou sinta que lhe estão a preparar uma armadilha, pode apenas recusar-se a responder, ou abandonar a entrevista. Não pode é confiscar as ferramentas de trabalho, tal como não poderia fechar os jornalistas na cave até prometerem não publicar, ou ameaçá-los de difamação como fez Relvas.

Logo, se agiu irreflectidamente, a quente, até pode ter toda a minha compreensão, já que estar naquela posição não é fácil. Mas um deputado tem de ser, até pelo exemplo, um dos garantes do funcionamento da democracia, incluindo o regular e livre funcionamento da imprensa, por muito desagradável que esta possa ser. Uma das funções de um deputado é a de comunicar com os eleitores através de uma imprensa livre de condicionamentos, tal como uma das funções de um jornalista é fazer perguntas incómodas. Que alguns abusem, e certamente abusam, não cabe ao deputado julgar sumariamente. Cabe aos tribunais se o visado entender. E sendo assim, o deputado falhou numa das suas funções essenciais. Foi provocado, certamente, mas caiu na provocação e falhou. E isso tem de ter consequências para além da simples demissão de algumas funções. Porque se um deputado impede um jornalista de fazer o seu trabalho, até pode ter toda a razão do mundo. Mas abre um precedente para todos os outros. sobretudo os menos honestos e os que têm realmente alguma coisa a esconder. Se o justo faz, porque não fará o pecador?

Para responder à pertinente pergunta acima do Paulo Pedroso, não, não tenho a certeza que não faria o mesmo, ou até pior. Mas, porque teria falhado numa das minhas funções essenciais, haveria que sofrer as consequências. De preferência, de minha livre vontade.

Sermão de Domingo de tolos

Gaspar 11:12  – E a austeridade excessiva gerou recessão, que gerou menos receita, que gerou mais défice, que gerou mais austeridade, que gerou mais recessão, que gerou menos receita, que gerou mais défice, que gerou mais austeridade, que gerou mais recessão, que gerou menos receita, que gerou mais défice. E Gaspar olhou para a  devastação que tinha causado na terra dos ímpios, e viu que era que a receita era boa. Pois era a palavra dos senhores, e estes expressavam júbilo em cada visita.