Arquivo da Categoria: Valupi

Qualquer um pode dar uma notícia, e dá

Os tempos da espera ansiosa pelo vespertino (o meu caso), e depois da sua leitura voraz, num percurso de secções idiossincrático, há muito que acabaram. O alívio por encontrar o ardina, o prazer de comprar o jornal no quiosque, o ritual de ir à papelaria buscar o diário religiosamente guardado, não voltam. A digitalização matou o papel sarapintado de notícias e informações quotidianas. Os que cresceram nesse mundo foram desistindo e vão desaparecendo. Os que nasceram a partir dos anos 90, já não apanharam esse mundo.

Significa que o jornalismo perdeu a sua função social, cultural e política? Não. Até se pode elaborar o argumento simétrico: numa crescente e imparável fragmentação mediática, onde a informação é ubíqua e há oferta de conteúdos gratuitos, o papel do jornalismo torna-se ainda mais importante do que no passado. Porque aparece como oásis de epistemologia e práxis da racionalidade democrática. Só que para isso é preciso que os propalados jornalistas sejam veramente feitores de jornalismo.

O valor do jornal em papel estava menos na sua componente informativa enquanto versão autêntica dos factos e mais na fiação de um espaço para a comunhão comunitária. Os suportes digitais que se pretendem réplicas do papel são incapazes de criar efeito semelhante porque o ecossistema actual atomizou os receptores. No meu telemóvel tenho toda a Internet, não só não preciso como não tenho mais disponibilidade para agregados informativos cuja actualidade se esgota ainda antes de estarem prontos para publicação. Mas o espaço para a comunhão comunitária continua a ser de necessidade fundamental.

Para o jornalismo fazer dinheiro tem de abandonar o mercado das notícias. Renascer no mercado das muralhas da cidade.

Mário Soares na gaveta

Comovente o entusiasmo de Vieira da Silva apelando ao partido para honrar o que de mais importante Mário Soares deu a Portugal: a defesa intransigente da liberdade — ou seja, do Estado de direito democrático e respectiva Constituição.

Acontece que Vieira da Silva, como Ferro Rodrigues e António Vitorino que também foram vocais no congresso do PS a respeito de questões judiciais, fala em nome pessoal. A denúncia de termos um Ministério Público politizado, ou mesmo como ameaça à legalidade, esboroa-se e desaparece de imediato na voracidade da agenda mediática. Aos procuradores criminosos basta esperar sentados, com a certeza absoluta de estarem numa posição blindada e inexpugnável. Ninguém os vai investigar, jamais um político ou partido com ambições de vitória eleitoral iniciará um movimento de exposição e responsabilização dos seus abusos. Dos seus objectivos, indeléveis e públicos crimes.

Comovente mas grito rouco na tempestade da actualidade. Vieira da Silva também deixa saudades, foi um magnífico governante, é um exemplar cidadão. Só que o seu partido já não é o de Mário Soares desde (pelo menos) 22 de Novembro de 2014.

O que não existe não pode acabar

«Como se, e esse é outro ponto, em tudo o que nos diz respeito, incluindo a propriedade e a gestão dos meios de comunicação, dos títulos em que trabalhamos, fosse melhor não mexer, não perguntar, não escrutinar.

Nunca percebi isso. Por que motivo os jornalistas dizem “não somos notícia”. Somos tão notícia como todos os outros, caso haja notícia no que somos ou no que estamos a passar. Nunca entendi por que é que os jornalistas acham que não devem escrever, reportar, sobre jornalismo e jornalistas. E nunca percebi por que motivo os jornais, como as rádios e as TV, quando têm problemas, sejam eles quais forem — deontológicos, laborais, económicos, o que seja, se inibem, evitam, fogem de falar deles.»

Crónica de uma jornalista sem salário

Este texto da Fernanda Câncio, na oportunidade relativo à situação salarial nos títulos da Global Media, é uma rara (única até agora?) reflexão sobre a endémica cobardia dos profissionais que constituem a dita “imprensa” em Portugal. Nas palavras acima citadas, vindas de uma praticante de verdadeiro jornalismo, fica o retrato de uma classe dúplice, conivente com abusos e deturpações dos seus patrões para não perder o emprego ou a carreira ambicionada. Daí não levantarem cabelo, não largarem um pio, não agitarem as águas paradas se na berlinda estiverem os chefes, os administradores, os sócios que pagam as contas e os salários.

O mal não se fica por aí, acrescento eu. Ao estarem dessa forma a violar a missão que supostamente fizeram sua ao obterem a carteira de jornalistas – a qual vem com direitos e deveres que o cidadão comum não tem – estes profissionais passam igualmente a ser coniventes com culturas editoriais de agendamento e engajamento políticos. Dou só um exemplo que ilustra na perfeição este modus operandi: Filipe Santos Costa. Enquanto esteve no Expresso, foi um leal servidor da propaganda pró-PSD e anti-PS disfarçada de jornalismo político. Assim que saiu e mudou de horizontes profissionais, por razões que ignoro mas que associo à hipótese de sentir que não era dos favoritos para também ir ocupar a cadeira de director do pasquim, passou a criticar abertamente a casa do antigo patrão. Igualmente o seu sectarismo contra o PS reduziu-se para um nível próximo do zero. Deixo de fora os casos dos pseudo-jornalistas, também directores, que passam a ter interesses accionistas, ou que se sentam na mesa da administração, e que transformam os órgãos de comunicação social em ostensivos projectos políticos ao serviço do patronato em causa.

Assim, não reconheço que exista imprensa em Portugal. Temos exemplos individuais de pessoas que realmente produzem jornalismo, não temos um único órgão onde o jornalismo como ideal seja a cultura editorial. Nem sequer na RTP, sem que isso escandalize alguém. Não admira, portanto, que o debate político em Portugal seja paupérrimo. Os profissionais que o cobrem e muitas vezes dirigem, que opinam sobre ele maníaca e febrilmente, são os primeiros a abjurar a deontologia jornalística.

Aliança Decadente

O apagamento estalinista do nome de Freitas do Amaral na propaganda da AD do Montenegro, Melo e Pereira, não é uma ofensa ao censurado e ostracizado mesmo depois de morto. O próprio estaria aliviado por não ficar em tão decadente companhia, e teria compaixão para a miséria moral assim assumida pelos infelizes trastes. A ofensa é só para a nobre memória do PSD de Sá Carneiro e de um CDS que teve a coragem de se constituir numa conjuntura particularmente hostil para o seu posicionamento político, onde foi conotado com o regime salazarista pelo sectarismo de um PCP então à beira de impor uma nova ditadura.

O tempo veio a mostrar que as figuras odiadas na retórica da esquerda nos idos de 70 e princípios de 80 — Freitas do Amaral, Basílio Horta, Adriano Moreira, Lucas Pires, Narana Coissoró, outros — eram cidadãos verdadeiramente democratas e patriotas. Freitas do Amaral teve uma carreira política que honrou o melhor que se pode conceber na dimensão política: foi livre em tudo o que fez. Livre quando emulou Marcelo Caetano na academia nos anos 60, livre quando aceitou ser o primeiro líder do CDS em 74, livre quando triunfou com a AD em 1979 e 1980, livre quando dignificou a vitória de Mário Soares em 1986, livre quando abandonou o CDS em 1992, livre quando conquistou o lugar de Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas em 1995, livre quando foi ministro num Governo socialista em 2005, livre ao deixar vasta e relevante obra jurídica.

Naturalmente, logicamente, obviamente, uma figura que viveu a liberdade com esta magnanimidade tem de ser alvo de vinganças de calhordas imprestáveis. Não lhe perdoam a sua exemplar decência e infinita superioridade civilizacional.

Revolution through evolution

Sniffing women’s tears reduces aggressive behavior in men
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The (wrong) reason we keep secrets
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Hearing aids may help people live longer
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Better mental, physical health in older people tied to living near nature
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Ants recognize infected wounds and treat them with antibiotics
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Humans can tell if chickens are excited or displeased, just by the sound of their clucks
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Could we have psi abilities if our brains didn’t inhibit them?
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Continuar a lerRevolution through evolution

Dominguice

António Costa e Pedro Nuno Santos fizeram dois excelentes discursos no congresso do PS. Excelência não só como peças oratórias autónomas mas também na comparação com a concorrência. Costa sai e deixa saudades, o sr. Santos aparece e parece ir ganhar. O PS mostra-se cheio de força e, cada vez mais, o singular esteio do regime democrático nascido de Abril. Pois estas duas tão prendadas criaturas, nesta altura do campeonato, conseguiram a vexante façanha de não terem feito uma singular referência à Justiça. Há mil razões para isso, todas lógicas, todas válidas. E PNS poderá, no discurso de encerramento, tocar na matéria, ignoro. Seja como for, não o fez ao elencar os sucessos da governação socialista, o que significa o que significa.

Certos procuradores do Ministério Público, e certos juízes, não desfrutam de poderes exclusivos e supremos para se substituírem ao Parlamento, ao Governo e à Constituição. Os crimes que cometem, com a cumplicidade da indústria da calúnia, o proveito de certos políticos e o beneplácito da sociedade, são crimes. Crimes cometidos por agentes da Justiça a operar com os instrumentos e protecções ao dispor dos agentes da Justiça. O PS não se pode vangloriar de ser o partido da liberdade, herdeiro da coragem de Mário Soares, se continuar com medo desses criminosos.

Resoluções

Não as minhas, as do Pedro Marques Lopes. Aposto os 10 euros que tenho no bolso em como ele daria um excelente presidente do PSD. Aposta sem risco algum, basta comparar com a galeria de horrores após Rui Machete. E cravo mais 10 euros à minha vizinha do 4º andar para apostar 20 euros em como PML daria um excelente, magnífico e imprescindível director de um grupo de comunicação que praticasse um jornalismo de serviço público.

Intuo que nem sob ameaça de arma aceitaria concorrer à liderança do PSD, o seu rico tempo livre sendo muito mais valioso do que a tirania partidária. E acho altamente provável que não conseguisse ser eleito mesmo que tentasse, pois não corresponde à tipologia demagógica e cínica que o aparelho e os barões preferem. Mas para se lançar como empresário na comunicação social tem, aparentemente, tudo a favor. É um celebrado e veterano comentador político, conhece por dentro a indústria comunicacional e suas gentes. Acima e antes de tudo, tem sido irrepreensível na defesa do Estado de direito democrático, sem medo das corporações da Justiça, da matilha dos pseudo-jornalistas e da turbamulta dos broncos e pulhas. Não é pouco, é raríssimo — aliás, caso único no seu nível de exposição mediática como mero cidadão.

Ver os títulos JN, DN e TSF na iminência de acabarem será para PML, por todas as razões sociais, políticas, culturais e pessoais, uma dor lancinante. Há profissionais admiráveis nesses órgãos, há autênticos e apaixonados jornalistas. Têm estado sujeitos a direcções politicamente agendadas e, mesmo assim, mantiveram a capacidade de afirmar a sua vocação para representarem uma imprensa militantemente independente, veramente liberal. Se reunidos sob a direcção de quem os conhece, compreende e ama como são, que serviços poderiam oferecer à comunidade? Quaisquer que fossem, seriam trabalhos de comunicação preciosos.

Há mercado para noticiários e espaços de comentário político com tolerância zero para o sensacionalismo, a difamação, o alarmismo, a suspeição, o assassinato de carácter, o linchamento, o apelo ao ódio, a calúnia, o narcisismo dos verdugos vedetas. Há mercado para noticiários e espaços de comentário político onde se prefira a responsabilidade, a decência, a inteligência, a curiosidade, a generosidade, o cuidado, os direitos humanos, os direitos de personalidade, o respeito pela Constituição, a aplicação intransigente do código deontológico do jornalista, a humildade, a coragem, a liberdade. Há mercado mas falta um modelo de negócio. O Pedro poderia gastar algumas horas a pensar num. Se essa fosse uma das suas resoluções para anos novos na imprensa portuguesa.

Pois claro

O discurso Mensagem de Ano Novo 2024 do Presidente da República concorre para ser um dos piores actos presidenciais de que tenho memória; a par do arrazoado de Cavaco, em 2009, quando finalmente teve de falar institucionalmente a respeito da Inventona de Belém, e colado ao número decadente e sórdido deste mesmo Marcelo quando reagiu à defesa da Constituição levada a cabo por Costa ao não ceder à chantagem para demitir Galamba.

O que choca nesta peça de 2024 é a degradação do módico respeito pela lógica argumentativa. Ao se promover a profeta — “Há um ano, eu disse-Vos que 2023 poderia ser decisivo no Mundo, na Europa e em Portugal. E foi.” — nem ele, nem ninguém com ele, teve noção do absurdo em que se enfiava. É que nada foi decisivo no Mundo, na Europa e em Portugal, excepção para a sua própria conduta de permanente boicote à estabilidade política e, por fim, à continuidade de uma maioria parlamentar absoluta que acabou por sua decisiva responsabilidade.

De imediato mergulhando de cabeça num espampanante non sequitur, repetiu 14 vezes a expressão “ficou claro” a carimbar vácuas banalidades. Aparentemente, iria ficar claro que o homem tinha acertado no ano anterior a respeito de quão decisivo tinha sido 2023. Uma forma sonsa, infantilóide, de lavar as mãos pelo seu papel na golpada do parágrafo. Porém, no texto, não se encontra uma única situação que remeta para um desfecho decisivo acerca seja do que for. Notável o desconchavo expositivo a que chegou. É por isso, e aqui com supina lógica, que acaba a proclamar que 2024 será “afinal, ainda mais decisivo do que o ano de 2023“. Pudera, pois se é o mesmo profeta a garanti-lo, como não? E quanto a 2025 e seguintes, preparem-se. Vamos ter de conquistar Marrocos para encontrar espaço onde arrumar anos sucessivamente mais decisivos do que os anteriores.

Eis um Presidente da República que, a semanas de completar oito anos da sua primeira vitória eleitoral, revela conviver tranquilo com “injustiças” e “corrupção“. Quais? De quem? Nicles batatóides, é mais uma vez o registo Octávio Machado para gaúdio do Ventura. Um Presidente da República que chuta para os “próximos 50 anos” uma lunática exigência que o próprio nem sequer conseguiria começar a explicar em que consiste se questionado para tal. Um Presidente da República que enche a boca e a pose com as rosas de “o Povo é quem mais ordena“, logo depois de ter atraiçoado a vontade soberana que elegeu uma maioria absoluta ainda nem dois anos estão passados.

Ficou claro, verdade. Ficou claro que o seu segundo mandato começou desastrado e prossegue em tragédia, manifestando potencial para ainda vir a provocar uma catástrofe no regime.

Ontologia da estupidez

Na estupidez que consiste em tentar encontrar padrões significativos e relevantes acerca do comportamento humano no aleatório de se começar a análise no dia 1 de Janeiro e terminá-la no dia 31 de Dezembro de um qualquer ano, pode-se considerar 2023 um período triunfal para os estúpidos.

Os estúpidos continuaram a destruir e matar na Ucrânia, sob o estúpido pretexto de se sentirem ameaçados por uma organização defensiva chamada NATO e por estupidamente alegarem irem desnazificar não sei quê.

Os estúpidos planearam com pleno sucesso o massacre e rapto de centenas de civis em Israel, assim dando azo a que a Faixa de Gaza se tornasse o palco de uma estúpida devastação que nada irá resolver naquele conflito, só consegue aumentar o sofrimento para níveis de horror inumano.

Os estúpidos colocam o estúpido do Trump à frente nas sondagens para as eleições presidenciais nos EUA, e isto apesar das caudalosas informações que expõem a evidência e gravidade dos seus actos insurreccionistas, fora o resto da degradação de um ogre megalómano.

Os estúpidos portugueses descobriram que podem derrubar Governos de maioria absoluta recorrendo à publicação de estúpidos parágrafos e contando com a decisiva colaboração de um Presidente da República estupidificado e estupidificante.

Há muito mais estupidezes passíveis de menção, óbvio, mas eu seria ainda mais estúpido do que já sou se continuasse a perder o meu rico tempo com elas. Venham novas para o ano, e que continuemos com a capacidade de vê-las como elas são: a prova de que este universo foi uma cena feita assim um bocado à pressa.

Dominguice

Famílias, escolas, religiões, locais de trabalho, cidadania, Estado. Desde que nascemos, e até para morrer, somos moldados para aceitar e nos adaptarmos a regras, leis, obrigações. Explicam-nos que elas têm razão de ser. E têm. Impõem-nos penalizações caso não as cumpramos, caso experimentemos desobedecer. E isso faz sentido. A maior parte da energia gasta na actividade política consiste em descobrir ou inventar algo a respeito de os principais adversários não cumprirem regras, leis e/ou obrigações. Na nossa vida pessoal, no espaço social como no íntimo, por vezes fazemos o mesmo aos nossos principais acompanhantes quotidianos. Por excelentes motivos, claro.

A boa educação não é essa, não é para isso. A boa educação consiste em ensinar aos gaiatos e aos maduros que as regras, leis e obrigações são um reflexo da liberdade.

RTP ao ataque

Presidente da Assembleia da República lança ataque à PGR

É com este título que na RTP — repito: na empresa pública Rádio e Televisão de Portugal, S.A. — se faz uma notícia a respeito de declarações de Augusto Santos Silva num programa de rádio cuja temática foi “sobre o direito a discordar e o dever de escutar quem está em desacordo“. A meio do programa, o presidente da Assembleia da República ilustrou a sua opinião referindo-se a um dos casos mais polémicos da actualidade política: o comportamento e atitude da procuradora-geral da República face às críticas que choveram sobre o Ministério Público após terem lançado a golpada que derrubou um Governo de maioria absoluta por motivos enigmáticos, e isso no meio de crimes de violação do segredo de justiça e erros crassos e inacreditáveis na investigação. A tese do Augusto é simples, numa democracia a Justiça também pode e deve ser criticada. Tal não é um ataque, como Lucília Gago agitou para não ter de responder às questões nascidas do processo “Influencer”. Tal não é um ataque, pois e portanto, porque a discórdia é a razão mesma de se preferir um regime democrático a uma tirania. Sendo o Parlamento o mais nobre e consequente palco da discórdia democrática.

Ora, quem escreveu a notícia, e quem a aprovou antes de ser publicada (se alguém), tomou a decisão de transformar o exemplo dado por Santos Silva num ataque político. Não numa divergência, não numa crítica, não numa advertência devidamente contextualizada. Com isso assumiu a estratégia de vitimização da própria PGR que precisamente fazia parte da situação ilustrada, a manha de se tomar qualquer discórdia a respeito de si ou do MP como um “ataque”. Sem surpresa, as duas únicas forças políticas a reproduzirem esta lógica foram o sindicato do MP e o Ventura.

O que seria isso de vermos um presidente da Assembleia da República a realmente “atacar” um procurador-geral da República? Não fazemos ideia, pois nunca aconteceu nem acontecerá neste milénio. Era suposto que os jornalistas da RTP respeitassem a mínima deontologia de não querer alimentar as agendas dos inimigos da democracia. Mas eles alimentam porque querem e podem.

O melhor do PCP

«O antigo militante comunista Carlos Brito entende que a queda do governo de António Costa foi um "golpe de estado judicial".

Em entrevista à jornalista da Antena 1, Cristina Santos, um dos rostos históricos do PCP, que entretanto rompeu com o partido, não poupa nas palavras e classifica o processo que levou à saída de António Costa como um "golpe de estado judicial" que teve por trás objetivos políticos.»

Fonte

Num golpe de Estado, uma facção política derruba o poder vigente recorrendo a meios ilícitos. E depois ocupa o poder. Aqui, no 7 de Novembro, uma facção da Justiça derrubou o Governo com a colaboração decisiva do Presidente da República. Essa facção da Justiça não precisa de ocupar o poder porque já detém um poder exclusivo. Trata-se do poder máximo em democracia: o uso de várias formas de violência, desde a espionagem à coerção física, passando pela ameaça ao património e à reputação. Nenhuma autoridade política pode fazer a esta facção o que ela faz a quem quiser, do anónimo ao primeiro-ministro.

Carlos Brito e Vital Moreira “não poupam nas palavras” ao denunciarem o gravíssimo abuso de poder da procuradora-geral da República e demais procuradores envolvidos na golpada. Por frete ao PS? Só broncos e pulhas o dirão. Para quem veja a República a ser atacada por quem possui os instrumentos policiais, eles estão nas muralhas da cidade. Estes dois probos cidadãos saíram do PCP, por preferirem a liberdade ao fanatismo, mas o melhor do PCP não saiu deles.

Os jornalistas são acéfalos?

Pergunta a Penélope aqui em baixo. É uma boa pergunta, pois o conceito de acefalia também remete para a carência de chefia, não só de inteligência.

Para mim, os jornalistas não são acéfalos. Mas também não são jornalistas. Isto é, há jornalistas jornalistas, o que implica necessariamente uma robusta e fértil inteligência ao serviço de um bem público, e há jornalistas que não são jornalistas. Estes últimos, preenchem quase todos os lugares disponíveis no chamado jornalismo político.

Torna-se simples de entender, depois do desgosto de aceitar.