Arquivo da Categoria: Valupi

O que importa reter do não-golo do não-Sporting num não-jogo

O que importa reter ― de um golo que nasce da confusão provocada pelo Patrício, o qual leva a bola a bater no ombro dum defesa e ressaltar para trás, aparecendo no segundo imediato um ganda bacano, de seu nome Peter Wisgerhof, a desviá-la, com todo o cuidado e perícia, para o lado mais afastado do seu colega guarda-redes ― é que Vukcevic, o leão mais avançado da equipa nessa jogada, quase que impede a bola de entrar na sua gana de marcar golos.

A decadência do jornal do Zé Manel explicada ao Zé Manel

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Zé Manel, quando o Público foi fundado, em 1990, tinhas 33 anos. Estavas pujante de entusiasmo na antevisão de que o teu nome ficasse na História do jornalismo português, começando por cima num projecto que ambicionava ser a referência máxima de tudo o que já tinha sido feito, e de tudo o que fosse possível fazer, na categoria imprensa de qualidade. Oito anos depois, estavas ao leme da barca, o vasto mar da comunicação social esperando ser atravessado pela quilha do teu génio editorial. E em 3 de Agosto de 2009, às 23.40, a Maria José Oliveira dá à luz do meu monitor esta notícia supra. Eis um possível resumo do teu trajecto, parcial e distraído como qualquer resumo.

Este será o momento para te ajudar: Na prisão e no hospital, vês quem te quer bem e quem te quer mal. Não estás na prisão nem no hospital, mas é igual, ou parecido. Precisas dos amigos. Porque tens amigos, muitos. São muitos os que desejam que o Público sobreviva à tua passagem, porque precisamos de ter um jornal em que possamos confiar, e apoiar, e comprar, e recomendar. Sim, desejar o melhor para o Público é ser teu amigo. Não vais negar, pois não? Pois. Então, olha, ó Zé Manel, ir buscar notícias ao 31 da Armada é tão legítimo como citar o Washington Post, talvez mais barato por não carecer de tradutor, mas há um requisito que nem a social media conseguiu alterar: quando não se tem nada para dizer, o melhor é ficar calado. Esta regra adquire extrema relevância e actualidade no jornalismo, por razões que até pode acontecer que conheças. Já agora, quem é que vai pagar a chamada telefónica para o PS? Que o Belmiro não saiba do despesismo.

Claro que tu dirás que estou a esquecer o impacto do título. E que, nesta era de atenção fragmentada, 247% dos leitores do Público só lê os títulos, adora gordas, vejam só. E mais me dirás que ignoro o impacto da fotografia, o expressionismo, o chiaroscuro que devora uma personagem sinistra envolta em sucessivos e imparáveis escândalos e ilegalidades, muito provavelmente crimes, como este 31 acabadinho de inventar.

Bom, Zé Manel, como teu amigo, tenho de te avisar: a decadência a que conduziste o Público devia ser considerada ilegal. Que a Maria José Oliveira não te apanhe.

Ainda não fostes avisados

Em vésperas de eleições não se discutem assuntos tão sérios e tão importantes para a transparência da vida democrática quanto esse.

Manela being Manela

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O assunto que a Presidente do PSD, e candidata à chefia do Governo, não quer discutir em período eleitoral é só o mais importante para os eleitores e para o presente e futuro dos portugueses: a Justiça que não faz justiça. Porquê? Porque discutir a Justiça traz o risco de se diminuir o poder dos diferentes grupos que ocupam a parte superior da pirâmide social. Mas a senhora não está só. Nenhum partido, à esquerda ou à direita, dos velhos ou dos novos, se propõe discutir a Justiça. É este o maior problema do regime, principal causa do atraso económico e marasmo cívico, e problema que não tem qualquer solução à vista.

Estranho que o MEP, nascido numa tessitura da direita tradicionalista e católica, não tenha agarrado na reforma da Justiça como bandeira principal. É que o território está vago, é de quem o quiser apanhar. Estranho esta cobardia, mas por muito pouco tempo, nem chega à metade de meio minuto. Pois é missão para heróis, isto de assumir a causa da justiça para a Justiça, mete medo ao susto. E teriam sido um pequeno PRD, tantos os portugueses que esperam por quem os represente nesta área, no mínimo obrigariam à entrada do tema no debate eleitoral. Não voltaríamos a ouvir, do maior partido da oposição, uma barbaridade do calibre que a Manela serviu no dia em que o ex-autarca-modelo do PSD, também ex-magistrado do Ministério Público, também ex-ministro, também ex-deputado, também ex-consultor jurídico no Ministério da Justiça, declarou ter sido condenado sem que existissem provas para o condenar.

O Portugal do Isaltino Morais, do Valentim Loureiro, do João Jardim, do Dias Loureiro, do Oliveira Costa, do Cavaco Silva, daqueles todos que nestes se apoiaram para as carreiras e os negócios, pensa o mesmo que a Manela: os assuntos sérios e importantes discutem-se à porta fechada entre gente séria e importante. Mas, então, despachem-se ― é que esse Portugal já acabou, vós é que ainda não fostes avisados.

Mentiras transparentes, verdades opacas

O Primeiro-Ministro, o Ministro do Trabalho e o porta-voz do PS desmentiram totalmente que tivesse havido um convite a Joana Amaral Dias. Esse convite existiu – e foi um membro do Governo! Que o Governo não goste da verdade… mas, enfim, não me confunda com as suas trapalhices… Eu utilizo critérios, e se o Engenheiro Sócrates ou o seu Governo não gosta desses critérios, o problema é deles. Insultem-me todos os dias, estão à vontade, cá estou para resolver esses insultos.

O critério é: é preciso transparência e é preciso verdade. O Governo fez um convite, desmentiu o convite, negou o convite. E agora, o que é que quer?… Foi apanhado com a boca na botija, e portanto tem que responder por isso. E o assunto em si tem pouca importância. Qualquer convite responde-se com a consciência de cada um. Eu não dou nenhuma importância a esse assunto, o Primeiro-Ministro é que se empolgou com essa matéria.

Mas há uma questão a que eu dou importância: é que tem de haver uma diferença entre o Partido e o Governo.

Pastor Anacleto

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A expressão tráfico de influências designa um tipo de corrupção, crime punível com prisão até 5 anos. Quando, em 25 de Julho, Francisco Louçã afirmou que José Sócrates decidiu convidar Joana Amaral Dias para as listas do PS e, subsequentemente, para um eventual lugar de Estado, disse que estávamos perante um caso de tráfico de influências. Portanto, disse que Sócrates era criminoso, aos seus olhos. Não sei o que se passa contigo que lês este texto, mas para mim esta situação não pode ser deixada assim, encerrada e esquecida como mais um desaforo corrente. Quando o chefe de um partido com representação parlamentar declara que o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS é criminoso, tem de haver consequências políticas e/ou legais correspondentes para o acusador ou para o acusado. Contudo, após os desmentidos de três responsáveis do Governo e do PS, Louçã mantém a acusação. Mais: após o último relato de Joana Amaral Dias, que não contradiz Paulo Campos quanto à ausência de um convite formal nem confirma a oferta dos lugares, Louçã envolve todo o Governo num aliciamento criminoso. Pergunta: já estamos numa esquizofrenia generalizada ou ele tem razão e ninguém se importa?

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Lembretes

– A jurisprudência é uma disciplina na dependência da lógica formal, da gramática e da retórica. Quando um tribunal decide, tanto pode expressar uma necessidade lógica ou histórica, como pode instituir uma interpretação possível entre outras, igualmente legítimas a partir do mesmo texto base. Isto acontece em qualquer sistema de Justiça, seja onde e quando for, porque as leis são objectos constituídos exclusivamente pela linguagem natural ― contêm inevitáveis e intrínsecas ambiguidades semânticas e sintácticas, a que se juntam as complexidades hermenêuticas e relativismos axiológicos inerentes aos processos cognitivos e volitivos dos sujeitos decisores (ena, quanta complicação nisto de sermos humanos, falantes e civilizados…). Por não ser uma matemática, a jurisprudência permite aos advogados ganharem a vida explorando as incertezas dos códigos, para o bem como para o mal. Assim, quem apareceu a fingir-se indignado com as decisões do Tribunal Constitucional quanto ao Estatuto dos Açores, exclamando ser grave o número de inconstitucionalidades estabelecidas, ou é ignorante ou demagogo. Provavelmente, demagogo porque ignorante.

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Portugal, uma sonda espacial

Em Julho de 2009, alguém propõe este retrato:

31% dos eleitores vai votar num partido que não tem programa nem inteligência para governar.

10% dos eleitores vai votar num partido que se recusa a governar.

9,4% dos eleitores vai votar num partido que só se sabe governar.

8,5% dos eleitores vai votar num partido que não se imagina a governar.

Ou seja, 58,9% dos eleitores habita algures no espaço cósmico, bem longe da gravidade terráquea. E se esta é a clarividência que revelam em matérias políticas, como será noutras áreas da sua vida pessoal e nossa existência colectiva?

Joana, come a papa

Paulo Campos é um bronco. Dizer que não sabia o que é o IDT faz duvidar da sua sanidade mental. Porque ninguém acredita. E deixa-se de acreditar no que seja dito a seguir. Mas se está a dizer a verdade, então ainda é pior. Por não saber o que é o IDT. E por não saber que não podia dizer não saber nesta situação. Em qualquer dos casos, é um bronco. Um bronco que na mesma noite consegue superar-se a si mesmo ao dizer que não percebeu, durante os primeiros dias da polémica, ser o ataque de Louçã a Sócrates uma consequência da sua conversa com a Joana. Obviamente, este melro brinca com a tropa.

A Joana disse algo incontornável: que o seu apoio ao PS era impensável. E assim parece. O seu discurso é de um fanatismo tão monótono que chegou a tornar interessante a cassete do Carvalhas nas manhãs da TSF, algo que cálculos em supercomputadores tinham previsto não ser possível de acontecer. E esse dado leva a que o caso esteja longe de estar fechado. Para quem se permitiu ficar calada durante uma semana, as justificações que deu cheiram muito mal. Primeiro, disse que o silêncio decorria de estar no seu período de férias, argumento ridículo e mentiroso. Depois, disse que ao partir tinha confirmado o convite, pelo que competia à imprensa investigar e descobrir quem o tinha feito, ela nada mais teria que dizer. Este será um argumento a la Paulo Campos, bronquite mental. Ficou-se pelas evasivas quanto à oferta de um lugar no IDT, ou algo equivalente, apenas realçando que não se vendia. E, finalmente, nada disse quanto às declarações de Louçã, o qual acusou Sócrates de ter feito o convite e a proposta.

Esta caso está longe do fim. Assim, Paulo Campos deve apresentar provas dos dois telefonemas referidos, um feito por si, outro feito pela Joana. Igualmente deve identificar quem lhe disse estar a Joana disponível para entrar nas listas do PS. A Joana deve esclarecer se recebeu a sugestão dos lugares em institutos por parte do Campos ou de outra personagem ainda não nomeada. E Louçã deve ser confrontado com o desenvolvimento do caso para que faça a confirmação da acusação a Sócrates ou a sua retractação.

O PS também é feito por material do calibre deste Paulo. Mas não são estas figurinhas que fazem o PS. Já o BE é cada vez mais uma papa onde a ética se desfaz como bolacha Maria e tem sabor a banana.

O mercantilismo sabe bem

Fui jantar ao restaurante 560 e estava vazio. Ter sido a uma segunda-feira do final de Julho pode ter contado, mas é fraca desculpa e alguém tem de avisar os concidadãos. É que este restaurante surge estratégico para a salvação da economia portuguesa: todos os produtos que põe na mesa dos clientes, das entradas aos postres, são nados e criados cá na terrinha. Ou assim eles o dizem (daí o nome, 560, código dos produtos portugueses). Isto é, ir lá comer é o mesmo que estar a apoiar a nossa agricultura, pecuária, pesca e fruticultura. Saímos de barriga cheia e com o sentimento do dever governativo cumprido: salvámos postos de trabalho, aumentámos a riqueza nacional.

Deste conceito nacionalista podia esperar-se uma parolada qualquer, ou um espaço folclórico mais ou menos bem conseguido. Todavia, o caminho seguido foi outro, como se pode ver, e rever ainda melhor. Se as iguarias fossem da culinária japonesa, a decoração não teria de ser alterada nem sequer nos azulejos.

O meu plano é simples: voltar lá daqui a uns tempos e reclamar que o aumento de clientela a mim se deve, pelo que eles me devem qualquer coisinha como recompensa pela publicidade. Talvez achem graça à tanga e consiga cravar o café.

O futuro e a Futura

Paulo Querido tem feito um exaustivo trabalho de explicitação da BlogConf com Sócrates, desmontando a má-fé e desonestidade intelectual que eram fatais após o evento e suas peripécias. No #BlogConf 6, oferece-nos um retrato privilegiado de organizador contemplativo. Olha para o cenário com a cumplicidade e distanciamento do encenador. Trata-se de uma reportagem introspectiva, onde descreve o encontro com Sócrates a partir do diálogo secreto consigo próprio. É um registo raro, soberanamente subjectivo, também por isso recompensador.

Mas não lhe perdoo a grave falha de ter dito que a Futura é uma má escolha de caneta.