Arquivo da Categoria: Valupi

Força, força, companheiro Vasco

Há qualquer coisa na água do Porto que leva a serem tripeiros os mais pícaros autores da opinião publicada. Alguém podia estudar o assunto, não pode ser um acaso. É o que se passa com Vasco Graça Moura, um fanático e boçal cavaquista que ficou insano com a derrota de Ferreira Leite. Duas das suas últimas crónicas no DN, Mais do mesmo e Levar o mandato até ao fim, conseguem o feito de surpreender pela virulência e descontrolo num caceteiro inveterado, razão para terem o merecido destaque. Mas ficar encandeado pelo desvario emocional, que a prosa deliciosamente exprime, será perder o essencial que se oferece em bandeja: as entranhas da campanha negra.

A campanha negra é feita a partir de grupos económicos que perderam poder ao não conseguirem comprar Sócrates, por um lado, e a partir do estertor de uma geração decadente, a do cavaquismo. Assim, o que o Seven-up escreve desbocadamente corresponde, ipsis verbis, ao que se diz à porta fechada na Lapa e em Belém, locais onde há muito se trocou a realidade pela fantasia. Cercados por conjunturas internacionais assustadoras, e não conseguindo deter a erosão do valor político do PSD, estas pessoas fecharam-se na sala de pânico – também conhecida como Casa Civil. Daí tentaram a golpada, a qual teria sempre de começar com o afastamento de Sócrates. É até neste sentido que se pode interpretar a repetida acusação de ter Sócrates um projecto pessoal de poder – leia-se: como ele não alinhava nas jogadas das clientelas do PSD e fauna congénere, então era porque iria tentar comer o bolo sozinho. Sim, a hermenêutica da pulhice não é um exercício especialmente difícil, tamanha a previsibilidade dos interesses que se movem.

Continuar a lerForça, força, companheiro Vasco

Malta fraquinha

A nossa. Portugal é uma selecção em grandes apuros, de credo na boca. Neste jogo com Malta, vimos o óbvio: uma equipa nula a perder um jogo, e uma equipa medíocre a jogar futebol medíocre. Os próximos dois jogos serão pura lotaria.

Bosingwa é um dos melhores futebolistas profissionais portugueses. Joga no Chelsea, depois de ter jogado no Porto e no Boavista. É jogador de Selecção desde 2004, tem 27 anos e está na segunda metade da sua carreira. Então, como se explica que tenha entrado numa picardia de agressões com um jogador de Malta, a qual lhe valeu um amarelo? Que descontrolo é este, a este nível e nesta fase? Numa indústria que dispõe de tantos recursos financeiros, que trabalho psicológico é feito de modo a erradicar estas disfunções?

O problema também está em Queiroz. A imagem que passa durante os jogos, e nas declarações, não é de autoridade, é de nervosismo, insegurança. Se ele, o Professor, ele o técnico com currículo internacional de topo, não se dá conta das disfuncões que propaga, o aleatório fica cada vez mais decisivo.

Onde não há fraqueza é em Guimarães. O povo fez a festa, não há festa como a do povo.

Vai ao cinema

the_hurt_locker vai ver este filme

Para ver The Hurt Locker (Estado de Guerra). Deve estar quase a partir (de Lisboa, pelo menos, e a medir pelo número de salas e sessões), talvez esta semana mesmo. Numa daquelas coincidências em que a blogosfera é fértil, dois dias depois de o ter visto saiu este remoque da Ana Vidigal.

Kathryn Bigelow, derivado a umas cenas maradas que acontecerem minutos antes do Big Bang, não veio a casar comigo. Em vez disso, enrolou-se com o James Cameron, um dos realizadores mais brilhantemente americanos do coisa e tal. Mas só durou 3 anos, vá lá. Que têm estas peripécias biográficas a ver com o filme? Não faço ideia. É ir à Internet e pesquisar.

Filme de acção? Dois pares de túbaros? Pois. Contudo, Kathryn é nome só aplicável a representantes do gajedo. E nós sabemos, e bem, que o gajedo tem um conjunto de interesses muito limitado: gatos, supermercados, discussões na cozinha e putos. Ou seja, o amor. É disso que este filme trata. Mesmo que o tenha embrulhado num fato de protecção feito das melhores explosões de guerra que já se filmaram.

__

Vai ao cinema, tu precisas e mereces.

Mas tu não és parvo como a Maitê, tu és parvo como só tu consegues ser

Maitê fez uma peça de humor em Portugal, convencional para os códigos brasileiros e do programa onde foi emitida. E fê-la de forma amadora, iconoclasta, feminina. Amorosa, brincando com os estereótipos, mas até cultural e politicamente relevante. Em 2007.

Alguém faria um valiosíssimo serviço à comunidade se recolhesse as reacções bácoras, como esta, que exibem o pior dos portugueses. Estes parvalhões merecem ser ridicularizados sem piedade.

Solução madura

Era o filho pródigo do Regime.
Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico.
Estava talhado, calibrado, destinado.
Não era um acidente – era uma raça.
Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam, com um olhar terno.
Era Marcello.
Era Rebello.
Era de Souza.
E, excessivamente, Nuno.

*

Portela Filho, Janeiro de 1974

Guerra ao Nobel da Paz III

Uma antiga questão académica, subitamente actual, desafiava a que se escolhesse o mais filantropo destes dois homens: Albert Schweitzer ou Louis Pasteur. O primeiro largou uma vida de conforto e prestígio, tendo ido para África tratar dos absolutamente miseráveis. As condições em que começou a exercer medicina e a educar foram heróicas, ele nem sequer a língua nativa dominava. E o destino reservava-lhe outros martírios. Ficou como um dos maiores testemunhos de entrega ao próximo, aos mais necessitados. Foi Nobel da Paz em 1952. O segundo passou a vida fechado numa sala a olhar para um microscópio.

Que pensas, qual deles fez mais para acabar com a miséria, as guerras, o sofrimento da Humanidade?

A fonte e a nascente

O Prós e Contras de 12 de Outubro vale por uma licenciatura em jornalismo. Abençoado situacionismo, e completa asfixia democrática na RTP, que permitiram momento tão clarividente e cru. Parabéns a todos os intervenientes, em especial a José Manuel Fernandes. Digo-o sem um grama de cinismo ou ironia, pois sem ele não teria sido possível a produção daquele espectáculo.

A figura da noite, contudo, é Henrique Monteiro. Ele representa a decadência portuguesa. Explicou que o Expresso não quis publicar o mesmo email divulgado no DN porque essa publicação era exactamente o que a fonte do material pretendia – naquela que foi a primeira das suas grandes revelações, isso das fontes terem desejos e vontades. Depois, detalhou: como a sua fonte era um político, ter feito notícia implicava estar a fazer política. E ele isso não fazia, apenas jornalismo. Tivesse a fonte sido um carvoeiro, talvez o problema fosse o mesmo, pois ele também não andava ao carvão. E por aí fora, consta haver outras áreas de actividade profissional passíveis de multiplicar os exemplos, mas a falta de tempo impede que sejam agora recordadas.

Continuar a lerA fonte e a nascente

António Costa vintage

A seguir à decisão de ter abandonado o Governo para concorrer em Lisboa, o discurso de vitória nestas Autárquicas é o melhor momento na carreira de António Costa, para mim. Estava feliz. Orgulhoso, claro. Ou seja, embriagado de alegria. Revelou ter muito bom vinho, mantendo-se focado no essencial e sabiamente contido. Pose de Estado, mas descontraída. Castigador, mas não violento. Modo festina lente.

Enquanto no PSD se recorre invariavelmente ao truque de meter os putos da JSD – grupos que consistem tão-só nos excitados filhos dos dirigentes e amigos de ocasião – a berrar a cada 30 segundos, acreditando-se que chega para enganar o patego televisivo, no PS tal deboche não existe. Pelo contrário, sente-se um genuíno sentimento de realização colectiva nos momentos de celebração. Nesta noite, foi comovente a lembrança de Armando Rafael e Raul Solnado. E comoventes os cumprimentos a Roseta e Sá Fernandes, especialmente ao choramingas do Carlos do Carmo. Só faltou que Sócrates, o qual deixou todo o espaço livre para Costa brilhar, tivesse dado o abraço no palco onde se discursou e estava a equipa vencedora, em vez de ter sido dado depois de acabar o momento e quando a grande confusão já estava instalada. Todavia, essa falha só vem em abono de Sócrates e não fica em desabono de Costa. O PS tem mais o que fazer do que andar a brincar ao poder.

O Zé, afinal, fazia-lhes falta

Votei Bloco para eleger o Sá Fernandes, no passado. Tal como votei Alegre para as Presidenciais. Depois vi os meus votos serem agitados no ar longo tempo após essas eleições, como se pertencessem a Louçã e Alegre. Ainda hoje os vejo com os meus votos na mão, os cabrões.

Fazenda, um tipo impecável e trabalhador que calha ser também um retinto imbecil no que à ideologia diz respeito, avançou para as Autárquicas com o lema Lisboa não é negócio. Os carolas do BE tinham decidido continuar a usar a manha que tão bons resultados produzira nas Europeias e Legislativas: difamar o PS, chamar bandidos aos socialistas. Era este o programa, nada mais. Sempre que o Fazenda se descosia, falava dos contentores, da Mota Engil e do Coelhone. Acontece que não havia professores a votar em Lisboa num número suficiente para sequer eleger 1 vereador, pois essa fauna habita em tocas nos subúrbios, e o BE fodeu-se.

Que bom, ver a pulhice castigada.

The one-man show

Santana não sabe perder. As derrotas derrotam-no. Ora, quem não sabe perder também não sabe ganhar. E Santana tem mostrado isso ao longo da sua carreira. Uma carreira feita de simulacros: o de ser brilhante, de representar o espírito fundador de Sá Carneiro, de ser o futuro do PSD, de vir a ser o líder máximo em Portugal, de dar a volta a qualquer audiência assim que abre a boca, de resistir a qualquer desaire. Por isso, vê-lo a desculpar-se com asininas teorias de conspiração, repetir comentários acabadinhos de ouvir aos politólogos, fazer ele próprio de politólogo à maneira de Cavaco, invocar o apoio do Pacheco, lançar um ataque populista e bronco contra as sondagens e gozar com os lisboetas que votaram nele deixando no ar a possibilidade de assumir o cargo de vereador, é ver o sentido único da figurinha: eu, eu, eu.

Santana a trabalhar na Câmara, manhãs e tardes preocupado com Lisboa e seus cidadãos, procurando ajudar no que puder e dando um magnífico exemplo de responsabilidade e generosidade? Mas desde quando é que um artista prefere os bastidores ao palco? Neste momento, aposto que Santana já está a ser disputado pelas televisões. The show must go on e there’s no business like show business, etc.

Peripateta

Santana tinha a certeza de ir perder. Se calhar, por muitos votos. Na sua criatividade, descobriu uma forma de anular o dramatismo e dissipar a angústia: saturar as televisões com a sua presença. Começou logo com a originalidade de assistir em público ao anúncio das primeiras sondagens após o fecho das urnas. Continuou com o adiamento do discurso de derrota. E teve um golpe de génio nas saídas à rua, andando feito louco de um lado para o outro entre dois prédios, como se ainda não tivessem inventado o telefone e ele tivesse sido abandonado pela equipa da candidatura.

Um repórter da SIC quis consagrar a genialidade do momento com uma pergunta bem canalizada, perguntou-lhe se as constantes andanças se deviam à necessidade de ir à casa de banho. Cheirava-lhe a candidato borrado?

Sanguinários

Ranhosos e imbecis voltam a juntar forças contra o inimigo comum: PS. Vale tudo, até a abjecta exploração de uma tragédia:

Helena Matos diz que a Lusa está ao serviço dos matadores de cônjuges dos candidatos pelo PSD. Na caixa de comentários, João Miranda goza o prato.

Pedro Sales diz que o PS candidata homicidas. E goza o prato.

Isto foi feito com as urnas abertas. As famílias e amigos dos atingidos pelo acto tresloucado, tanto do lado da vítima como do responsável pelo disparo, foram lançados para a vala comum deste ódio.

Locals only

Ontem, num casamento, ouvi uma explicação taxativa para o sucesso de Moita Flores: Santarém passou a ser cenário de telenovelas.

Quem não perceba nada de política – nem de economia, nem de psicologia, nem de antropologia, nem de História – que mande a primeira piada.

Delenda Cavaco

Conspurcou as Legislativas, abafou as Autárquicas e baralhou as Presidenciais. Mas não interfere na Madeira, até porque na Madeira mandam os madeirenses. E também acha que alguém devia falar verdade aos portugueses. Alguém com tempo e vagar para essas coisas verdadeiras. Alguém que não tivesse de passar os dias a fingir ser Presidente de todos os portugueses.

Guerra ao Nobel da Paz II

A cada protesto contra a escolha de Obama para Nobel da Paz, mais acertada realmente fica a decisão. Desconfio que os pacíficos noruegueses não esperavam tamanho sucesso mediático. Talvez estejam como o próprio laureado, também surpresos e humildes. De facto, não há memória recente de se ter dado tanta importância ao prémio como na presente edição, pese o longuíssimo historial de polémicas que esta categoria regista. Eis a força da marca Obama a suscitar crises de urticária. O resultado do bruaá, contudo, é desconcertante: estamos todos a falar da paz como se ela fosse um assunto importante para as nossas vidas, mas não é.

Que é isso, a paz nobelizada em 2009? Os cínicos, eternamente distraídos e sempiternamente distractores, são alérgicos às vanguardas. Tudo o que é novo ameaça a sua inesgotável capacidade de repetição. Aliás, a tarefa quotidiana de um cínico consiste na destruição das novidades. E que poderia ser mais inovador do que dar um Nobel a quem não tem obra? Acaso Obama acabou com alguma guerra, sequer uma discussão doméstica, e a CNN esqueceu-se de nos informar? Este critério, porém, se aplicado desde 1901, teria poupado uma colossal fortuna gasta com lobos em pele de cordeiro ou com palhaços tristes. Só que os cínicos não querem perder tempo a pensar, há muita falácia para despachar. E a principal é essa de nada ter feito. Mas nada de nadinha de nada, mesmo nada?

Obama foi eleito Presidente da democracia militarmente mais poderosa no Mundo, tendo inscrito a ambição de fazer a paz à cabeça das suas promessas. Chocando os belicistas alucinados, e apesar de estar em campanha eleitoral, declarou estar disposto a encontrar-se com qualquer inimigo que queira a paz, seja ele quem for. E ainda garantiu ter sido leitor de Tucídides, revelando a ambição de manter a América como uma superpotência militar sem rival. É que a paz, uma paz que seja pacificadora, não se define como ausência de guerra. Essa será uma definição negativa, pacifista, perigosa. Pelo contrário, a paz, para nações livres, é um implacável combate contra as tiranias. Assim, dizer que Obama ainda nada fez equivale a dizer que o acontecimento do ano de 2008 não aconteceu. Será o mesmo que apagar a esperança com que milhares de milhões acompanharam as eleições americanas, dedicando-lhes mais atenção e afecto do que às eleições dos seus países.

No que talvez os cínicos tenham razão é nisso de, à luz do que mais importa, o Nobel da Paz dever passar a chamar-se Nobel da Esperança.