Há qualquer coisa na água do Porto que leva a serem tripeiros os mais pícaros autores da opinião publicada. Alguém podia estudar o assunto, não pode ser um acaso. É o que se passa com Vasco Graça Moura, um fanático e boçal cavaquista que ficou insano com a derrota de Ferreira Leite. Duas das suas últimas crónicas no DN, Mais do mesmo e Levar o mandato até ao fim, conseguem o feito de surpreender pela virulência e descontrolo num caceteiro inveterado, razão para terem o merecido destaque. Mas ficar encandeado pelo desvario emocional, que a prosa deliciosamente exprime, será perder o essencial que se oferece em bandeja: as entranhas da campanha negra.
A campanha negra é feita a partir de grupos económicos que perderam poder ao não conseguirem comprar Sócrates, por um lado, e a partir do estertor de uma geração decadente, a do cavaquismo. Assim, o que o Seven-up escreve desbocadamente corresponde, ipsis verbis, ao que se diz à porta fechada na Lapa e em Belém, locais onde há muito se trocou a realidade pela fantasia. Cercados por conjunturas internacionais assustadoras, e não conseguindo deter a erosão do valor político do PSD, estas pessoas fecharam-se na sala de pânico – também conhecida como Casa Civil. Daí tentaram a golpada, a qual teria sempre de começar com o afastamento de Sócrates. É até neste sentido que se pode interpretar a repetida acusação de ter Sócrates um projecto pessoal de poder – leia-se: como ele não alinhava nas jogadas das clientelas do PSD e fauna congénere, então era porque iria tentar comer o bolo sozinho. Sim, a hermenêutica da pulhice não é um exercício especialmente difícil, tamanha a previsibilidade dos interesses que se movem.

