Arquivo da Categoria: Valupi

A culpa é do lobo mau

A reacção aos atrasos na entrega do Orçamento e documentos anexos é mais um pináculo do ridículo nacional, desta vez arrastando lúcidas figuras geralmente imunes ao contágio dos raivosos e dos decadentes. Que diferença faz, seja para o que for, a entrega acontecer a uma hora ou outra, num dia ou noutro? Aproveitar uma circunstância arbitrária, o limite legal, para atacar o Ministro das Finanças nesta altura de circunstâncias excepcionalmente graves e confusas é próprio de quem só procura o boicote da governação. O facto de serem muitos a fazê-lo, e de dominarem a maior parte da comunicação social, é uma pressão corrosiva. E não vai parar, nem diminuir.

Entretanto, Teixeira dos Santos deu um espectáculo surpreendente. Calmo e sobriamente bem-humorado, despachou em pouco tempo a apresentação do Orçamento mais importante dos últimos 25 anos e tratou dos jornalistas sem esforço. Ficámos a saber que não se fazem omeletas sem galinhas, e que veremos ao longo de 2011 se têm ovo. Também disse que montou algumas armadilhas contra as raposas – mas que a galinha dos ovos de ouro há muito foi comida pelo lobo mau.

Estás avisado

O nosso amigo Eça de Querós registou o email do Aspirina B nas newsletters do Mail Gay, Gay to Z, Gay Life e mais não sei o quê do género. Tratou-se de um gesto de boa vontade, uma simpatia, de alguém que partilha os seus interesses e gostos com um dos seus blogues favoritos. Todavia, agradeço que não voltes a fazer isso, Querós, pois não tenho tempo para as tuas sugestões. Já me custa prestar atenção ao que escreves, quanto mais seguir o que lês.

Deixo-te é um formal aviso: se te der para chapares com o email do Aspirina B nas newsletters do Benfica ou do Porto, acaba-se a brincadeira com a pilinha aqui por estes lados.

Dá o último passo, Passos

Ficarei desiludido e zangado com Passos Coelho se, depois de ter aguentado a titânica pressão, acabar por ceder ao resto do mundo e deixar passar o Orçamento. Seria morrer na praia após a travessia de um vasto e tempestuoso oceano. Não é dessa mariquice que o País precisa, como tantas inteligências com a consistência da laranja têm proclamado.

Do que precisamos é de um Governo a duodécimos para aprender a poupar ou de um Governo demissionário ou de um Governo de iniciativa presidencial tácita. Qualquer um desses três cenários é preferível ao Governo do partido que ganhou as eleições, isso é evidente. E a seguir às presidenciais, rápido e em força para o Governo de Passos e do inevitável Portas. Também queremos a Manela de volta, mas agora para ministra da Economia; ela que acertou em tudo, do abalozinho da crise internacional à profecia do que viria a acontecer na Grécia. E queremos Medina Carreira a ministro das Finanças, porque só ele nos pode salvar com os seus gráficos desenhados à mão. E queremos que Moura Guedes, Zé Manel, arq. Saraiva, Eduardo Cintra Torres, Mário Crespo, Eduardo Dâmaso e António Ribeiro Ferreira formem um conselho para a erradicação da memória de Sócrates da História de Portugal, garantindo-se a destruição de todos os registos audiovisuais e escritos a que deitem os garfos. Ah, e queremos que o Pacheco seja o próximo Procurador-Geral da República, mas com a possibilidade de acumular com o cargo de Presidente do Supremo nos eventuais casos que envolvam primeiros-ministros do PS.

Já chega de humilhações e derrotas, PSD. Mostrem como se põe esta terra na ordem.

Horror ao vácuo

O PSD nega-se a dizer como governaria – onde cortaria, como recuperava a economia, acabava com o desemprego, inventava novas exportações, reduzia a factura energética, aumentava a produtividade, metia a Alemanha na ordem, dominava a selvajaria dos mercados, e tudo isto sem aumentar impostos – declarando que para tal missão é que existe o Governo. Também reclama não conhecer as contas públicas como os Ministros as conhecem, sendo essa mais uma razão para não partilhar as suas brilhantes ideias. Mas, logo a seguir, aparece a criticar e maldizer o Governo por este governar com ideias próprias. A única forma do PSD aplaudir o Executivo implicaria que se copiassem as ideias do PSD – embora tal seja tarefa impossível posto que não há ideias aplicáveis para copiar nesse partido, só gordurosa retórica e demagogia para dar e vender.

Não estranho a estupidez desta forma convencional de fazer oposição, estranho é que não surjam novos partidos à direita e no centro para ocupar tanto espaço livre.

É que já são 14 anos, fora o resto

Quem quiser ser presidente tem que ter a certeza absoluta de que vai para vencer e não vai só para ser candidato. Basta observar que os dirigentes das principais associações, que à luz dos actuais estatutos são preponderantes na eleição da direcção da FPF, estavam na Islândia com a selecção nacional. Isto quer dizer alguma coisa e algo importante. Tem a ver com a recandidatura de Gilberto Madaíl. Os sinais são esses. São as associações que têm preponderância na eleição do presidente e vendo que estavam na Islândia, com a selecção, isto quererá dizer algo importante. Madaíl é a aposta na continuidade de quem manda no futebol português.

Vítor Baía

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Caso Baía tenha razão e Madaíl continue presidente da FPF, previsivelmente alegando que só pretende concluir o processo da candidatura ibérica ao Mundial de 2018/2022, a entidade política que der um murro na mesa e lhe corte as vazas vai ter o favor popular. Até os Verdes ganhariam votos se encabeçassem essa revolta.

Esforço, dedicação, devoção e glória

1 minuto e 12 segundos após a chegada da sopa de nabiças, 3 minutos e 48 segundos depois de me ter sentado, colocavam-me 2 besugos grelhados em cima da mesa. Ia a meio da quarta colherada. Nunca tal estouvada rapidez me havia acontecido – nem a qualquer dos meus familiares, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos e terceiros não identificados – entre o caldo e o conduto. Mas havia uma leonina explicação: estava a jantar no Núcleo Sportinguista da Figueira da Foz. E, de imediato, como bom sportinguista com as quotas em dia, culpei Bettencourt e Costinha pelo mau resultado do serviço.

Ter ido a este restaurante foi um puro acaso. Momentos antes de o encontrar tinha passado pela Casa do Benfica, o que me deixou apreensivo e receoso. É que já passava das 9 da noite, ansiava por uma casa de pasto. Tinha feito mais de 30 quilómetros à procura de um restaurante decente, daqueles com pessoas dentro a comer e palrar. Ver-me a atravessar território lampião, tomado pela fraqueza, deixava-me em cuidados acrescidos.

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Notícias que marcam o dia

Continua a operação de resgate de Passos Coelho, agora com a abertura de um novo túnel pelos maiores banqueiros nacionais. Já é o quinquagésimo túnel escavado nas duas últimas semanas, e são cada vez mais largos – será desta? O líder dos sociais-democratas está preso numa gruta desde 15 de Agosto, altura em que foi ao Pontal chantagear o Governo com a data de 9 de Setembro. Assim que proferiu essas palavras, abriu-se um buraco debaixo dos seus pés e não voltou a ser visto. Num acto de enorme coragem, uma dezena de garimpeiros que lhe são próximos saltou para o abismo e ficaram todos juntos num ambiente de completa escuridão. Alimentam-se de tubérculos e pequenos roedores. Para desanuviarem, jogam à macaca e cantam ao desafio.

De acordo com uma fonte do partido, Passos Coelho terá dito que aqui na superfície estávamos bem enganados, pois ele tinha a certeza de que o espaço não era uma gruta natural, antes uma mina. Os especialistas dividem-se quanto à possibilidade da mina continuar a ser explorada.

Já nem na comunidade internacional se pode confiar

Dias atrás, Paulo Rangel foi à porqueira dizer que o Conselho da Europa rejeitou a candidatura de Portugal a um lugar no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, alegando falta de qualidade nos nomes propostos, apenas porque o País tinha perdido a credibilidade internacional. Causa? As finanças públicas. Responsável? Sócrates.

Paulo Rangel chegará ao poleiro do PSD logo antes ou logo depois de Rui Rio. Vai ser um vendaval de bacoradas, o homem é capaz de largar as maiores enormidades a um ritmo sem paralelo nos bípedes actualmente identificados pela ciência. Entretanto, haja alguém que lhe pergunte onde foi que a comunidade internacional falhou para ter eleito Portugal membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, superando o Canadá.

O medo é muito mau conselheiro

A Internet é um imparável e desvairado laboratório de ciência política. Temos agora acesso à privacidade de alguns agentes políticos como nunca antes, apenas porque os próprios – e, particularmente, aqueles com quem privam – se expõem muito mais, tanto nas ocasiões como na extensão da informação veiculada. As conversas de almoçaradas e jantaradas, as tonteiras dos copos e das raivas, aparecem agora impressas nos ecrãs a cru, sem filtros temporais a mediarem e arrefecerem os ânimos. A interioridade destes bravos surge disponível para diagnósticos vários.

Dessa forma, basta ler o que escrevem as figuras menores do PSD e CDS para se estar sentado junto aos líderes respectivos a ouvir as conversas com os conselheiros. Inevitavelmente, uns repetem os outros. E o espírito de manada a todos conduz para um único ponto no horizonte: Sócrates.

Para além do culto de personalidade a contrario donde não conseguem sair, afastam-se cada vez mais do eleitorado com as narrativas simplistas e desmioladas que fazem do PS o partido de um homem só. Não são apenas as ofensas que atingem milhares de portugueses de cada vez que se pinta Sócrates como um super-bandido que estranhamente ninguém consegue apanhar, nem sequer o Pacheco, é o próprio futuro da direita portuguesa que se esboroa na estupidez de uma caça ao homem.

Claro, o pavor é enorme, por isso eles saem para os campos com cães e tochas. Não têm é cabecinha para perceber que a Cidade tem mais o que fazer do que aturá-los.

Os blogues são caixotes de fruta no meio do parque

Azeredo Lopes brindou-me com uma resposta directa, a qual tem o mérito de resolver a questão. E basta citá-lo:

Evidentemente, o alargamento colossal (embora menos infinito do que, piamente, alguns crêem) da possibilidade “pública” da expressão e circulação de opiniões e informações – por exemplo, através da blogosfera e das redes sociais – porá em crise a liberdade de imprensa “tradicional” nas suas diferentes dimensões e afecta o seu peso social, se o cidadão deixar de poder distinguir, com clareza, aquilo que é a função jornalística, e a sua especial responsabilidade, por um lado, e a expressão de opinião e até da informação fornecida por um cidadão (no seu blogue, por exemplo).

Até por isso, tenho defendido que o mito do “cidadão-jornalista” é desafiante para o jornalismo. Também pela mesma razão, aliás, detesto a ideia de poder perder, por diluição, acesso a conteúdos balisados pelo conjunto de exigências éticas, deontológicas e legais que definem o jornalismo, tal como o concebo.

Quer isto dizer que, segundo o próprio Azeredo, os blogues não produzem jornalismo. Ou seja, que não fazem parte da imprensa. Portanto, que não podem ser objecto de um direito de resposta pensado para se aplicar à comunicação social implícita no texto constitucional.

Como curiosidade final, dizer que a sua contra-argumentação inicial inverte o sentido do meu raciocínio, omitindo que se discorria apenas a respeito da regulação para efeitos de garantia do direito de resposta, não para efeitos de regulação da liberdade de expressão. É nesse intento primeiro que o art. 39º aparece, como especificidade só compreensível à luz dos artigos anteriores. Mas isto é discussão para se ter em Bizâncio, com muita calma.

As boas e as más acções

Ana Paula Fitas ficou indignada com o fiasco em que resultou a manifestação contra a pena de morte, marcada para este domingo passado no Largo Camões. O seu protesto tem a acrescida autoridade de quem esteve presente.

Ora, há uma inevitável embriaguez nos agrupamentos de rua. Os participantes entram num estado de fusão com a mole, sentem-se seguros e poderosos. Este estado tende a ser alucinatório e potencialmente violento, como se viu ainda recentemente nas manifestações de professores. Apareciam frente às câmaras insuspeitas personagens de olhos revirados, de ambos os sexos, extasiadas com o poder da rua. Elas eram sinceras, viviam esse poder. Algumas, se apanhassem a ministra pela frente, tratariam logo de resolver o conflito com recurso aos materiais com que se faz a heróica rua: paralelepípedos e alcatrão.

Num outro plano de encantamento, as manifestações são organizadas para se transformarem em material visual difundido pela comunicação social. O critério é básico e brutal: números. Como não há máquinas para contar manifestantes, os organizadores e aproveitadores inventam à toa, mas preferindo números redondos, daqueles com muitos zeros ou zeros suficientes para evitar uma vergonha. Na hora do telejornal, e mesmo que as imagens não suportem a megalomania, importa é que o locutor repita os números da sorte.

Dito isto, é impossível não simpatizar com o lamento da Ana Paula Fitas. Mas igualmente me parece impossível ignorar que essa manifestação só interessava aos que nela participaram. As boas e as más acções ficam para quem as pratica, como ensinavam os medievais.