Os blogues são caixotes de fruta no meio do parque

Azeredo Lopes brindou-me com uma resposta directa, a qual tem o mérito de resolver a questão. E basta citá-lo:

Evidentemente, o alargamento colossal (embora menos infinito do que, piamente, alguns crêem) da possibilidade “pública” da expressão e circulação de opiniões e informações – por exemplo, através da blogosfera e das redes sociais – porá em crise a liberdade de imprensa “tradicional” nas suas diferentes dimensões e afecta o seu peso social, se o cidadão deixar de poder distinguir, com clareza, aquilo que é a função jornalística, e a sua especial responsabilidade, por um lado, e a expressão de opinião e até da informação fornecida por um cidadão (no seu blogue, por exemplo).

Até por isso, tenho defendido que o mito do “cidadão-jornalista” é desafiante para o jornalismo. Também pela mesma razão, aliás, detesto a ideia de poder perder, por diluição, acesso a conteúdos balisados pelo conjunto de exigências éticas, deontológicas e legais que definem o jornalismo, tal como o concebo.

Quer isto dizer que, segundo o próprio Azeredo, os blogues não produzem jornalismo. Ou seja, que não fazem parte da imprensa. Portanto, que não podem ser objecto de um direito de resposta pensado para se aplicar à comunicação social implícita no texto constitucional.

Como curiosidade final, dizer que a sua contra-argumentação inicial inverte o sentido do meu raciocínio, omitindo que se discorria apenas a respeito da regulação para efeitos de garantia do direito de resposta, não para efeitos de regulação da liberdade de expressão. É nesse intento primeiro que o art. 39º aparece, como especificidade só compreensível à luz dos artigos anteriores. Mas isto é discussão para se ter em Bizâncio, com muita calma.

2 thoughts on “Os blogues são caixotes de fruta no meio do parque”

  1. A blogosfera é conversa de café, conversa entre amigos, conversa em familia ao serão, discussão de esquina das opiniões contrárias. A isto vou chamar liberdade de expressão no sentido lato. Na ditadura tudo isto configurava crime e o cidadão tanto podia ser preso pela conversa ao serão de familia como na conversa de mesa do café.
    A outra é a liberdade de expressão institucional e, como tal, devidamente regulamentada.
    O que está a acontecer, neste momento, é a confusão entre os dois planos e quem está a escorrregar para o abismo é a liberadde de expressão regulamentada. Na conversa informal, ao café ou em familia ou no blog, fala-se como se respira e cada um só se responsabiliza a si mesmo pelo que diz ou escreve. Na expressão regulamentada quem fala ou escreve também responsabiliza uma classe inteira e os órgãos que utiliza para se expressar. Por isso é que tem de cumprir as regras feitas para o rigor e a isenção.
    Infelizmente está a confundir-se jornalismo com conversa de café ou escrita de blog. E os reguladores dizem que é tudo «liberdade de expressão». Isto está lindo, senhores jornalistas, senhores reguladores, senhores legisladores e senhores juizes!!!

  2. Tenho sempre uma dificuldade enorme em entender o transporte e decalque de lógicas e raciocínios de uma realidade para outra, como se sentido, objectivo, contexto, história e sei lá que mais, não ditassem especificidades a necessitarem de um olhar particular.
    Mas isto seu eu e as minhas limitações.

    :)))

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