Como não frequento o meio político, nem o seu círculo social, desconhecia que Maria José Nogueira Pinto estivesse doente, muito menos supondo-a em estado terminal. Foi uma péssima surpresa a notícia da morte, pois, tendo tão viva a sua continuada presença mediática e parlamentar. Mas à tristeza, o desaparecimento de uma das figuras que mais contribuia para o confronto de ideias e a dinâmica da cidadania, seguiu-se uma boníssima surpresa: Nada me faltará
Esse texto é raro, senão único, nisso de ter sido intencionado como um epílogo post mortem para divulgação pública num jornal adentro da tipologia de uma mera secção editorial. Realço estes detalhes da forma, e do meio, por me parecerem parte intrínseca do seu significado último. As mesmas palavras destinadas a uma carta, mesmo que aberta, não teriam este cunho de essencial humildade que é o horizonte idealista da actividade jornalística e a fonte, hoje esquecida, da força da imprensa ao serviço da justiça e da liberdade no simbolismo do 4º Poder.
Ideológica e politicamente, MJNP era vulgar. A morte trouxe consensuais elogios à independência, ilustrada com a referência ao “caso da pala” e à sua saída do CDS, mas a sua prática não outorga decisivo relevo aos episódicos conflitos internos no seu trajecto. A verdade é a de que sempre se moveu no mundo oligárquico da direita, e nele assumiu um aristocrático verniz que as raízes familiares permitiam e promoviam. A paleta de crenças e hierarquias sociais que assumia, um mundo onde a existência de pobres e arrivistas estava prevista e era necessária, explica tanto a sua apetência para as obras de misericórdia como aquela explosão de sobranceria senhorial com que fustigou Ricardo Gonçalves no Parlamento chamando-lhe “palhaço” e “deputado inimputável”. Também o seu apoio a Cavaco Silva, e as opiniões que proferiu acerca de Sócrates ao longo do tempo, foram manifestações de uma postura que nada deve à independência – ou mera honestidade intelectual, ou virtuosa exemplaridade ética – antes à defesa guerreira do clã.
Todas estas características passam a secundárias face ao último texto que nos legou. É uma rigorosa lição de política disfarçada de biografia. Ou melhor, será a orgulhosa biografia de uma cidadã. A primeira frase é de antologia e subsume o principal:
Acho que descobri a política – como amor da cidade e do seu bem – em casa.
A casa é a primeira cidade. Porque é o lugar do primeiro encontro com o outro. Esse outro para sempre estranho, mesmo que seja o mais próximo pelo sangue, mas cuja estranheza faremos nossa ao descobrirmos que precisamos uns dos outros para a sobrevivência e para a realização. MJNP constrói a partir desta porta, com o rigor de um fio de prumo, o edifício do seu percurso. O que lhe aconteceu privadamente explica o que escolheu publicamente, e o que lhe aconteceu publicamente moldou o que escolheu privadamente, conta serena e espalhando confiança. Porque se procurou a si própria na sua identidade, cumpriu-se plenamente. Sim, claro, se pudesse, se fosse ela ainda a escolher, continuaria viva por 10, 20, 30 ou mais anos. Mas não para ser diferente, não para se arrepender, antes para continuar a fazer da cidade a sua casa.
Este seu derradeiro testemunho é um aristocrático hino à democracia.