Durante as jornadas parlamentares do CDS-PP, que decorrem hoje e terça-feira nos Açores, o líder da bancada democrata-cristã referiu, contudo, que “é justamente em nome da liberdade, neste caso da liberdade política, da liberdade financeira”, que o Governo “está obrigado a cumprir um programa de assistência financeira muitíssimo difícil, com medidas muitíssimo exigentes, com grandes sacrifícios” provocado por “sete anos de desvario público do Partido Socialista”.
“É uma opinião, como tantas outras, mas, de facto, a democracia plena e a soberania plena ficou muito afectada, para não dizer parte dela perdida, quando fomos obrigados a pedir dinheiro a instituições internacionais para pagar salários de polícias, de enfermeiros, de médicos, de professores”, argumentou.
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Estive na semana passada a ouvir umas horas seguidas de discussão parlamentar e confirmei que existe uma obsessiva cassete do PSD e CDS, a qual se mantém inalterada desde que formaram a coligação: o PS/Sócrates é o culpado pelo acordo com a troika, tanto pela sua necessidade como pelo seu conteúdo – por isso, comam e calem. O modo como os agentes laranja e os Jacintos Capelos Regos repetem a lengalenga oscila entre o fanatismo bronco e o deboche prestes a explodir em gargalhada.
Esta cassete é tão ou mais básica do que as cassetes do PCP e do frei Anacleto, e, tal como a desses fósseis vermelhos, reduz a realidade a uma caricatura que parece desenhada por um gorila bêbado. Eis aqueles que passaram um ano e meio em campanha pela vinda do FMI a dizerem que a responsabilidade pela realização do seu desejo é daqueles que tudo fizeram para evitar a ruína do empréstimo de emergência. Eis aqueles que anunciaram ufanos a gula de irem ainda mais longe do que a troika a dizerem que a responsabilidade pela sua vontade é daqueles que alertaram contra esses abusos e violências a caminho. Eis aqueles que condicionaram o programa de assistência impondo condições e metas durante a sua 1ª negociação a dizerem que a responsabilidade pelas suas alterações posteriores é daqueles que já não foram tidos nem achados desde que saíram do Governo. Eis, pasmai gentes, aqueles que boicotaram e anularam uma solução que evitava a presente situação de imposição política externa a dizerem que a responsabilidade por essa perda de soberania – que o actual Governo explora entusiasticamente – é daqueles que tinham o acordo da Europa para manterem o domínio sobre as contas e protegerem o País dessa armadilha ideológica.
As lideranças do PSD e CDS instruíram tudo o que é dirigente, deputado e publicista para repetirem à exaustão esta cassete rasca, tonta, canalha. Isso significa que eles a consideram suficiente para conservarem o domínio político da situação, algo que as sucessivas sondagens confirmam para surpresa de alguns. E também significa que a estratégia de Seguro é intencionalmente cúmplice desta cassete, pois o PS não desmonta as falácias, nem sequer as mais grosseiras e obscenas. Só individualmente, por fogachos, aparecem ex-ministros socialistas a chaparem com os factos por elementar decência ou já para defesa da honra. O PCP e o BE, por sua vez, servem de coro à cassete, pois nem para protegerem causas comuns com o PS estão disponíveis; tirando singulares excepções à regra nas ocasiões em que o silêncio do PS, como nas questões da Parque Escolar por exemplo, é incómodo até para um sectário de vocação e destino.
Que fazer? Já que nenhum partido político os afronta, nenhuma organização cívica tem algo a dizer acerca da colossal estupidez que se despeja no espaço público, nenhuma personalidade de referência na sociedade se mostra especialmente preocupada com a indecência reinante, é deixá-los a tocar essa cassete sozinhos. Que os felizes votantes em Passos-Relvas continuem em festa, gozando a facilidade com que esta merda é toda deles. E, um dia destes, com sorte, talvez surjam dois cidadãos, ou três, ou quatro, ou mais que muitos, que comecem a criar pensamentos originais, inteligência de improviso, contra a cassete dos piratas.