O XXI Congresso correu muito bem a Costa, ao PS e ao Governo. No seu conteúdo, o discurso de encerramento exibiu a pujante confiança e cristalizada habilidade com que Costa olha para o seu partido e para a classe política. Até o cerco dos colégios privados foi aproveitado para gerar o momento emocionalmente mais forte do congresso: a longa ovação a Tiago Brandão Rodrigues, qual herói contra os lóbis maus, e a imediata ligação deste conflito presente ao passado do PS quando António Arnaut lançou o Serviço Nacional de Saúde. Também para quem tem achado uma vergonha o alinhamento do PS com a direita a respeito dos idos de Março de 2011, como aconteceu com Seguro, ou a versão ambígua e timorata na leitura do mesmo ciclo político, como acontece com Costa, havia 1 rebuçado para distribuir. Inclusive Assis serviu como prova da liberdade interna e espírito democrático de um grande partido cuja vocação é o poder. E Rui Moreira já sabe que o próximo mandato à frente do Porto está garantido.
Costa está no pico do seu sucesso político. Estes 6 meses foram de diária consagração como líder capaz do milagre de unificar a esquerda portuguesa no Parlamento e de fazer frente à Europa em cima desse improvável, e provavelmente imprevisível, acordo. Temos nele um dos mais valiosos servidores dos valores da República, da defesa do papel do Estado na democratização da sociedade e do ideal da liberdade como fundamento supremo da comunidade. No entanto…
No entanto, apesar da maré alta, o barco do seu carisma continua encalhado. 40 anos de vivência quotidiana do partido, reforçados pelo berço altamente politizado que foi o seu, mais 30 anos de administração pública, não fizeram dele um orador. A forma como discursa é confrangedora para alguém na sua posição. Devia ter aulas de dicção pela mais política das razões: porque o melhor dos líderes usa a sua voz como escudo e como espada. Os seus erros calamitosos na prosódia, a falta de elegância e criatividade na oratória, passam como embaraços irritantes no dia-a-dia, mas ficam como sinal de fragilidade nas ocasiões de confronto com adversários e nas ocasiões solenes onde representa muito mais do que a sua singular pessoa. Não se conseguir controlar na fala, portanto, indicia que não se consegue controlar noutras instâncias do seu psiquismo. Eis o que está na berlinda no que à liderança e ao carisma diz respeito.

