Desencalha, Costa da concórdia

O XXI Congresso correu muito bem a Costa, ao PS e ao Governo. No seu conteúdo, o discurso de encerramento exibiu a pujante confiança e cristalizada habilidade com que Costa olha para o seu partido e para a classe política. Até o cerco dos colégios privados foi aproveitado para gerar o momento emocionalmente mais forte do congresso: a longa ovação a Tiago Brandão Rodrigues, qual herói contra os lóbis maus, e a imediata ligação deste conflito presente ao passado do PS quando António Arnaut lançou o Serviço Nacional de Saúde. Também para quem tem achado uma vergonha o alinhamento do PS com a direita a respeito dos idos de Março de 2011, como aconteceu com Seguro, ou a versão ambígua e timorata na leitura do mesmo ciclo político, como acontece com Costa, havia 1 rebuçado para distribuir. Inclusive Assis serviu como prova da liberdade interna e espírito democrático de um grande partido cuja vocação é o poder. E Rui Moreira já sabe que o próximo mandato à frente do Porto está garantido.

Costa está no pico do seu sucesso político. Estes 6 meses foram de diária consagração como líder capaz do milagre de unificar a esquerda portuguesa no Parlamento e de fazer frente à Europa em cima desse improvável, e provavelmente imprevisível, acordo. Temos nele um dos mais valiosos servidores dos valores da República, da defesa do papel do Estado na democratização da sociedade e do ideal da liberdade como fundamento supremo da comunidade. No entanto…

No entanto, apesar da maré alta, o barco do seu carisma continua encalhado. 40 anos de vivência quotidiana do partido, reforçados pelo berço altamente politizado que foi o seu, mais 30 anos de administração pública, não fizeram dele um orador. A forma como discursa é confrangedora para alguém na sua posição. Devia ter aulas de dicção pela mais política das razões: porque o melhor dos líderes usa a sua voz como escudo e como espada. Os seus erros calamitosos na prosódia, a falta de elegância e criatividade na oratória, passam como embaraços irritantes no dia-a-dia, mas ficam como sinal de fragilidade nas ocasiões de confronto com adversários e nas ocasiões solenes onde representa muito mais do que a sua singular pessoa. Não se conseguir controlar na fala, portanto, indicia que não se consegue controlar noutras instâncias do seu psiquismo. Eis o que está na berlinda no que à liderança e ao carisma diz respeito.

43 thoughts on “Desencalha, Costa da concórdia”

  1. O preciosista que é este Valupi cai na injustiça de julgamento e avaliação do Costa.
    Quanto ao resto só se pode subscrever.

  2. Vi um discurso diferente, morno, sem visão de futuro a não ser o reatar de politicas antigas, e até com momentos soviéticos no apagar de José Sócrates das politicas de educação de adultos e outras também emblemáticas. De menino. Também não se chega a saber o que pensa sobre o resgate, só que evita falar disso porque está condicionado. No resto notou-se que o imaginário politico do Congresso anda à volta do PPereira e da Quadratura do círculo (o Lobo Xavier devia ter tido algum impedimento de última hora) como nos recorda todos os dias o Ferro Rodriguez. Pior é a “oposição interna”, que não existe, é só uma pose.
    Oxalá consiga reverter o enorme desequílibrio de poder no País, só isso já valerá a pena. Quanto ao resto no me gusta.

  3. Concordo com a apreciação geral feita, não estou de acordo com a necessidade
    das aulas de dicção, pelo contrário, António Costa deverá ser o mais genuíno
    possível pois, não será por “engolir” algumas silabas que o seu discurso deixa
    de ser percebido pelos auditores … o mais importante serão as ideias e a prática !
    Não o vejo sair dimínuido dos debates na A.R. assim como, não vejo grandes
    oradores ou esgrimistas da língua na actividade política, quanto ao carisma é
    atributo inato que, se vai cultivando … não está ao alcance de muitos!!!

  4. Quanto a dotes oratórios … ai que saudades dos confrontos no Parlamento no tempo de José Sócrates ! Sócrates contra Francisco Louçã e Sócrates contra Paulo Portas. Aliás, Sócrates contra qualquer um ! Irrepetível !

  5. Valupi,
    Qual destas afirmações vale para analisar o discurso de Costa;
    A forma como discursa é confrangedora.
    A falta de elegância e criatividade na oratória,
    ou
    Não se conseguir controlar na fala,

    O descontrole na fala vai muito para além da fala confrangedora e ainda mais no caso de falar sem elegância e criatividade oratória. Descontrole na fala significa, na prática, falar de mais ou de menos ou dizer disparates embalado num discurso incompreensível. Descontrole na fala é também, como faz passos muitas vezes, iniciar um discurso com ideias e afirmações que passadas umas frases trapalhonas volta a repetir em sentido contraditório ao afirmado inicialmente.
    Não me parece que seja este o caso de Costa. Pode o Costa melhorar a retórica e a elegância oratória do seu discurso? Claro que pode e provavelmente o fará necessariamente com a prática a que é obrigado. Contudo, um político que se queira levar a sério tem, primeiro, de ser ele mesmo e exprimir-se como é de sua natureza que se o fizer com total franqueza e honestidade comprovada todos o entenderão e até lhe gabarão o estilo próprio diferente da estudada e refinada retórica empolada à assis ou bb.
    Um político que se queira levado a sério também não tem nem deve pretender imitar outro político que seja melhor orador ou faça melhor uso da palavra pois surgiria aos olhos do povo como imitador e homem de pouca convicção no valor de si próprio.
    Para mim um político que, à medida de sua notoriedade, vai-se fugindo de si próprio disfarçando-se de cabelo preto, dentes brilhantes, cara de menino sem rugas e utilizando outras tecnologias como disfarce, precisamente, para esconder os sinais que dão ao homem o significado de sério e sábio, como dizia, para mim representa um sinal de falta de auto-confiança e além de revelar ser uma personalidade instável na sua pele compromete a qualidade do seu carácter.

    O Valupi, tendo hoje em dia já pouco que criticar politicamente o valor de Costa, continua agarrado a minudências, mais ou menos subjectivas, para picar o dito Costa. Ok, pronto.
    Costa é Costa e não pode ser Sócrates mas também este não era, como deputado, o mesmo que foi depois como PM e, é hoje, como lutador intrépido contra uma rasca e miserável elite que não perdoa os que se elevam acima da mediocridade reinante.

  6. Cada um tem a sua maneira de vender o peixe.
    Era insuperável o discurso de Guterres 1º ministro,
    Mas é tão sincero, que pensou em calar-se e calou-se.
    Mas são raros…assim! sinceros.

  7. o discurso do costa, o povo entendeu.e os congressistas muito aplaudiram .deu esperança aos portugueses.se diz portugale em vez de portugal,não é por isso que o deficite, vai agravar!

  8. Se perder uns kilitos deixa de suar tanto, respira melhor e a voz sairá mais tranquila.
    Desde Mário Soares que o PS não tinha um príncipe da presença da oratória e da coragem como José Sócrates.
    António Costa tem a virtude de estar de bem com uma rusticidade que faz gala em acentuar.
    Por mim está aceite tal como é desde que convidou o Ex. PM José Sócrates para o Marão e lhe permitiu brilhar como só ele sabe frente às câmaras.
    Mostrem mais a foto dos dois lado a lado nesse dia e ficamos todos mais tranquilos com a forte personalidade de Costa que tem levado à vante tudo a que se propõe, até ter com ele José Sócrates num dia tão bem escolhido.
    Talvez José Sócrates não tivesse visitado a Grécia como ele o fez com desassombro e simplicidade.
    Já entendi o Costa.
    Quanto a recuperar a obra de José Sócrates aí está ele, todos os dias a fazê-lo sem ser necessário nomear quem, provavelmente, ainda não quer ser nomeado.
    E quanto a presença, estilo e fala prefiro Costa a Guterres :
    – sem sombra de dúvida.

  9. O que de mais importante se passou aqundo do Congresso foi a entrevista do Jerónimo a apoiar o acordo, o resto é foguetorio e marketing politico para manter o fervor das hostes clubísticas e alimentar a indústria do comentariado.
    A presença de Guterres serviu para explicar ao Costa os perigos do backseat driving com a carta por pontos. Alias o primeiro aviso não se fez esperar;
    http://expresso.sapo.pt/politica/2016-06-05-PCP-defende-necessidade-de-ir-mais-longe-apos-discurso-de-Costa

  10. casacos foleiros, gravatas pirosas, fraldas a saltar fora, botões a rebentar e ar luzidio de suor é aquilo que distingue o governo costa do panascal anterior, casacos abichanados, pins, abotoamentos à chulo, botões de punho, laca, gel e graxa, enfim reboco sobre papel de cenário. o costa, com má dicção, ouve-se e percebe-se. o massamólas, com voz de tenor, faz sono e não tem sentido.

  11. Apesar dos disfarces ontem foi gritante a falta de poder. Costa não o tem, sabe-o e, se por acaso sofresse de ma memoria, Jerónimo lembrou-lho. Já abdicou do Porto, amanhã abdicará novamente da candidatura de PR, etc…a diferença entre um bom negociador e um bom politico e que um bom negociador busca um win-win um bom politico busca um win.

  12. jose neves, um político representa a comunidade e está ao seu serviço. É isso, e só isso, que está em causa no que escrevo acerca da parte onde Costa se revela mais frágil, e a qual não estará desligada dos seus conspícuos vaipes onde perde a cabeça com jornalistas ou colaboradores.

    Desde os primórdios dos tempos, e especialmente em democracia, que a oralidade é uma dimensão fulcral da liderança. Por razões óbvias.

  13. No entanto, Valupi, ou entretanto deixo-te duas notas.

    1. Imagino que há um comentário no inner circle do PS de António Costa, largamente irónico, se algum assessor do PM vem ao Aspirina B:

    – A falta que tu fazes por aqui, Valupi.

    2. António Costa não precisa de aulas de dicção, essas teve-as o Cavaco Silva com os fracos resultados que se conhecem. Nem precisa da voz nasalada de José Sócrates, nem de uma postura ora negligé com roupa e sapatos de marca internacional, ora ligeiramente snob com o seu quê de sotaque beirão. Idem, não precisa da confusão mental que atravessava os discursos “de pose” de Pedro Passos Coelho (bem desconstruídos pelo Pedro Adão e Silva, ao tempo da SIC N) servida com uma voz de barítono mas que, na hora decisiva, o atraiçoava e dava para o fininho. Nem das frases curtas de Paulo Portas com ou sem Dinintel à Indy, que garantiam o sucesso entre os escribas apesar do seu vazio doutrinário, uma técnica usada por quem tinha prazer e procurava agir sob stress. O que que António Costa tem, isso sim, é uma construção frásica pouco cuidada em que o singular do substantivo esbarra muitas vezes com o plural do que vem mais à frente ou com o seu contrário (exemplo, ontem sobre Marcelo: «ou nos fórum internacional», etc.). Este é um lapso típico do António Costa, um entre vários lapsos, num discurso apoiado num guião que parece ser garatujado e seguido de… improviso (sublinhado, porque este é que é o ponto). Não admira, pois, que este facto propositadamente omitido no teu post faça toda a diferença para ti que acreditavas que giro-giro e muito profissional era um SG do PS, ou um PM polimérico qualquer, a debitar uma K7-tecnológica* que os outros lhe escreviam. Eu por mim registo essa omissão e digo que o tal jogo psíquico mora por aqui, afinal.

    [Ao contrário das últimas postagens, Valupi, noto aí um pingo de inspiração.]

    * Os tais “espelhos” à Obama, é disso que falo.

  14. Ah, o «PM polimérico» é difícil mas entederam (Valupi, Penélope e mesmo, onde as esperanças são nulas, Ignatz)?

  15. 90% dos portugueses, (eu incluido) não se apercebem desses erros no discurso.mais,estão-se cagando para esse tipo de criticas.se soubessem isso, sabiam outras coisas mais importantes,como mandar sempre a direita nas eleições para a puta que os pariu!

  16. Ó “Tozé” tem calma, que 100-90=10% e isso até parece uma cena do BE e não me consta que.

    http://www.esquerda.net

    Nota. Lembro-te que o Valupi até votou no Livre, logo deverias ter escrito que eram 100-99,3=0,7%… Ou seja, que era uma cena valupiana que poderia ter sido postada por meia-dúzia dos portugueses (e “substantivado” pela Edite Estrela em privado ou por mim, coisas), de alguma forma saudosos, seja no Aspirina B ou noutros lugares do estilo.

  17. Prefiro o tio Prosódia à tia Prosápia (Paulo Portas) e ao falso barítono (Passos Coelho).

  18. não há incompatibilidades, já pode receber as comissões das negociatas que fez na america latrina. até o jorge coelho parece um menino do coro ao pé desta corista.

  19. Pois é Rocha, tudo coincide ( no caso do coiso, cu-incide ) e tudo encaixa ( melhor dizendo, em caixa, $$$ ) .

    Nunca me cheirou bem, aquela treta do admirador do Maquiavel, de instigar os diplomatas ( embaixadores ) a promotores económicos, de repente, assim travestidos em empenhadissimos promotores de negócios, a bem da salvação da Nação … Claro …
    Agora, vê-se melhor a “picture” .
    Mas o ceguinho, não vê nada . Obcecado(s) com Sócrates, deixam fugir peixe de todo o tipo e calibre . Enquanto que o Fisco tem uma rede tão fina e tão apertada, que apanha o peixe miúdo, e deixa passar o peixe graúdo, a malha da Máquina da Justiça, essa é tão esquisita e tão mal amanhada, que nem sabe o que apanha, nem o que deixa fugir …

  20. Porra que este ignatz, seja ele quem for, conhece toda a gente.
    Sou contra, mas sou fã do ignatz, cum caraças!

  21. Conhece, conhece… deita-se cedo e começa a atacar logo pela fresquinha.
    Hoje estás numa de LGBT por aqui, ó Ignatz?

    … dizer cum quando o Ignatz anda a dar no Paulo Portas e a imaginar trios com o Pedro e o Lorenzo é inapropriado.

  22. já tou a ver a paulette a desfilar com a cricas no arraial de orgulho transformista, largo do caldas, 29 de junho, dia dos sãos pedro & paulo. entrada grátis, reserva já o teu lancil de passeio, não faltes.

  23. “Desde os primórdios dos tempos, e especialmente em democracia, que a oralidade é uma dimensão fulcral da liderança. Por razões óbvias.”
    Valupi,
    Eu conheço razoavelmente essa história “especialmente em democracia” pois foi debatida há 2400 anos, com pleno fundamento filosófico, por Platão acerca dos sofistas, nos respectivos diálogos “Protágoras” e “Górgias” assim como, de caminho, em outros diálogos.
    E para um estudo mais detalhado desta questão, da retórica e da sofística que falta a Costa(?), foi recentemente publicado o livro “Sofistas, Testemunhos e Fragmentos” traduzidos directamente do grego.

    Contudo, continuo convencido que mais forte do que qualquer “arte política” adquirida escolarmente para persuadir e convencer audiências, é ser-se genuíno e usar anexo uma fala e uma prática honesta consistente.
    Pode levar tempo mas, uma vez ganha a confiança dos ouvintes, esta será sempre melhor compreendida e por conseguinte mais firme e inabalável. Costa é mais deste género.

  24. José Neves, o que o Valupi (não) referiu era a K7 moderna que agora estará no sótão do prédio da Gomes Teixeira (acho eu…).
    .
    [E tu, afinal, eruditas ou hibernas?]

  25. Em resposta à preocupação do Valupi com as limitações retóricas de António Costa, a maioria parece achar que o importante é ser-se “genuíno”, para “ganhar a confiança das pessoas”. Que o PM seja quase sempre incapaz de dizer uma frase complexa sem uma argolada gramatical pelo meio não preocupa quem o ouve. Ora não consigo deixar de pensar que se António Costa tivesse um discurso mais articulado teria sido mais capaz de expressar ideias relativamente complexas de forma clara durante a campanha de 2015. A sua tarefa era simples (na definição, as dificuldades eram óbvias, mas de outra ordem): desmontar uma historieta moralista e simplista sobre a crise. Até números havia para sustentar os argumentos. Dir-me-á talvez o Valupi que um discurso pouco claro espelha ideias pouco claras. Não creio que seja necessariamente esse o caso, mas acompanho-o no resto.

  26. M. Azevedo, concordo muito contigo. E aproveito para pegar nessa questão da genuinidade, suposta marca de “honestidade”, que o jose neves trouxe para dizer que tal raciocínio ou é fatalmente ingénuo ou letalmente falacioso. Isto porque a política é sempre um teatro onde os actores são simultaneamente autores dos seus papéis e símbolos da soberania (isto é, da comunidade).

    São, aliás, os populistas quem mais explora a suposta natureza “genuína” e “honesta” que se oporia à restante classe política composta por “mentirosos e corruptos”. Foi, e ainda recentemente entre nós, a prática de um Cavaco, o discurso de um Fernando Nobre, a campanha de um Paulo Morais.

    É, na verdade, algo que aconteceu logo nos alvores da democracia na Grécia. Uma velhíssima história que se repete desde aí.

  27. M. Azevedo, as «limitações retóricas de António Costa» só se podem aferir em relação a outrem. Ora, algures nesta conversa eu lembrei que tinha sido omitido, propositadamente, que as típicas “argoladas” no discurso pouco cuidado de António Costa se devem a que ele os profere de improviso (já lá irei).

    Como o Valupi é um rapaz novo, para quem o Big Bang irrompeu em 2005 e para quem a realidade só é condescendente perante personagens menores como Cavaco Silva, Fernando Nobre e Paulo Morais (quem?), lembro que os dotes oratórios eram largamente ensaiados pelos melhores parlamentares dos fins da Monarquia Constitucional e da Primeira República. As performances ainda hoje ecoam nos alfarrábios, pois a retórica era uma peça de arte no debate político. António Costa e nenhum dos políticos contemporâneos portugueses (nem os mais fogosos) são herdeiros dessa tradição, ponto final.

    De regresso ao meu ponto de partida, e à falta de melhor, linko para aqui finalmente um exemplar da K7-tecnológica em que uma personagem importante debita um discurso previamente escrito por outros (vide os espelhos laterais, no caso de Obama). Digamos que, por comparação com a arte retórica do passado, ao púlpito do presente parece ter sido adicionado um adereço artístico para uso e usufruto dos PR’s e PM’s poliméricos (José Sócrates é, obviamente, o outrem valupiano). Mas isto é claramente outra coisa, certo?

    http://f.i.uol.com.br/fotografia/2015/09/28/553724-970×600-1.jpeg

    Nota. António Costa rompeu e bem com esse passado recente, seja no PS ou nas funções de PM. Não é sempre giro-giro nem muito profissional, mas como diz o outro funciona… estão a ver?

  28. Eric, Não estou certa de o estar a ler como deve ser porque a ideia com que fico é a de que não vê vantagem em que um político se apresente em público, em ocasiões mais ou menos solenes – o Obama está a discursar na AG da ONU e foi o discurso de encerramento do Congresso do PS que deu azo ao texto do Valupi – com um discurso preparado (o que muitas vezes equivale, sim, a ter sido escrito a várias mãos). Não percebo bem como se pode argumentar a favor do “improviso” à la Costa neste tipo de situações, mas sei que não está sozinho porque ouço muita gente impressionada com a ausência dos papéis e do teleponto. Aliás, preocupa-me que Costa fale assim mesmo de improviso. Ouça o Obama a responder aos jornalistas: não conheço outro político que fique tanto tempo em silêncio entre frases – entre ideias – sem que a sala fique nervosa. Fico com a sensação de que faz equivaler um discurso desarticulado a uma ausência de calculismo que lhe parece louvável. A mim soa a irresponsabilidade, sobretudo porque, mesmo quando não acho que tal signifique necessariamente que Costa “pensa” mal, não consigo deixar de acreditar que esses problemas de expressão ferem a eficácia da mensagem, o que é essencial em política. E ferem sobretudo em contextos de debate político. Por isso não aceito a ideia de que “funciona”, só me parece que as pessoas não estão preocupadas com isso agora, mas, como dizia no comentário anterior, não acho que os resultados eleitorais sejam alheios a isto. Não é da ordem da relação, não preciso de comparar Costa a Sócrates para lhe notar falhas no discurso, só preciso de ter noções simples de construção frásica.

    Valupi, de acordo, ainda que Nobre e Morais sejam exemplos do que não me parece estar tanto em causa no caso de Costa: o discurso não destoa das ideias básicas. Nesse sentido, seria curioso perceber como reagem as pessoas à expressão mais elaborada do populismo em que cai de vez em quando Louçã e em que vive Portas, que não creio que sejam famosos por explorarem a lógica do eu-genuíno vs. os-políticos. Cavaco é um exemplo mais complexo, obrigaria a começar pelos problemas de articulação mandibular e não sei onde acabaria.

  29. M. Azevedo, li na diagonal mas respondo quando der.

    Bom FDS, o que inclui até o Valupi e a Penélope
    (para o Ignatz, porém, ficam apenas os ossos…
    Grrrrrr, calma! e tem cuidado com as/os senhoras/es crescidos).

  30. […]

    «Ali estava X3, torrado e cansado, a desmentir-se em directo. “Nós levamos a sério a política”, garantiu ele. Não. Mentira. Se X3 os levasse a sério a política, ele escrevia os seus discursos — ou algum dos seus assessores por ele —; trabalhava os textos até ao mais ínfimo pormenor; e, no final, quando já estivesse tudo aprontado e vistoso, lia os discursos em dois bonitos telepontos transparentes, como fazem os políticos profissionais. Cada vez que o vejo subir a um palanque com uns papelinhos na mão — atenção: X5 faz o mesmo — fico nervoso. Mas o que é aquilo? Improvisos? O jazz aplicado à política? Não, não, senhores que mandam no PSD. Se eu quiser ouvir bons improvisos ponho a tocar John Coltrane. Não quero improvisos de um primeiro-ministro, de um Presidente da República ou de um líder partidário. Improvisos em datas oficiais, seja o 25 de Abril, o 10 de Junho ou a festa do Pontal [LOLOL], não são improvisos — é puro amadorismo.

    […] Um terço do país gosta dele. Metade do país não o pode ver. E sobra um sexto do país, que X1 precisa desesperadamente reconquistar, ou tão depressa não voltará a pôr os pés em X2. Esse mesmo X1 está a preparar a rentrée política num ano crucial, em que muitos acham que o governo talvez aguente, mas o país não. E o que faz X3? Rabisca uns papelinhos. Precisa de um discurso motivador, empolgante, surpreendente, que anime as plateias e dê alguma esperança ao país. E ele? Rabisca mais uns papelinhos. X4, o novo oráculo laranja, tinha acabado de lhe enfiar violentas caneladas na SIC, dizendo que são precisas caras frescas no X1 para que não haja “uma indesejável crise interna”. E X3, o que faz? Lê os seus papelinhos rabiscados durante trinta horríveis minutos. Assim, de facto, é difícil. E desnecessário. E não se pode fazer.»

    Valupi, só para apimentar um pouco uma conversa antiga tida aqui no Aspirina B. Quem escreveu isto, quem se preocupa com o quê e porque o faz (nota, importante: se nos lembrarmos dos artigos de António Guerreiro no ípsilon, nomeadamente sobre o actual predomínio do «entretenimento» no panorama mediático português, reconheça-se que qualquer comparação que se estabeleça entre um outro alguém [eu, tu, ele, nós, vós, eles] com a dita personagem é de todo indesejável mas enfim)? Ou poder-se-á dizer que se trata de uma espécie de plágio, em que no fundo as mesmas ideias ou, o que é pior, a mesma construção cultural está ou estão ali, se formos mesmo muito maus? E porquê, se dissermos sim ou não?

    Ó Passos, escreve os discursos! – PÚBLICO
    https://www.publico.pt/politica/noticia/o-passos-escreve-os-discursos-1741411

    [Segue em duplex, ali em cima.]

  31. Valupi, uma rectificação antes de tudo. Quando garantiste que ias fazer uma papinha, eram 16:30 de uma quente segunda-feira, deverias ter dito que ias preparar o Chá das 5 acompanhado por umas bolachinhas que sempre é um lanchinho mais apropriado para os adultos até porque deverias saber que, àquelas horas, as criancinhas degustam apenas um iogurte ou similar. Como hoje são 14:35, mais coisa menos coisa, passada a hora da tua papinha portanto, descasco-te agora uma maçã para a sobremesa que é uma cena sempre engraçada para dar na boquinha (isto constituiu também uma lição fordiana parental, parece-me que será importante para ti no futuro).

    Dito isto, só para te dizer que acabei mesmo por imprimir o teu post e fiz o mesmo no artigo aparentado do parente JMT (sobre o António Costa no congresso do PS e o Pedro Passos Coelho na festa do Pontal, respectivamente). Assim, e à segunda vista, parece confirmar-se que eles têm bastantes pontos em comum (um certo ritual oficial, cerimonioso, um vago sentido de comunidade ou de “comunidade dos crentes”, de sentido antropológico, a necessidade do carisma do líder e a falta dele, e, principalmente, aquilo que eu anteriormente chamei por «construção cultural», apropriando-me do que vem sugerindo o António Guerreiro). Enfim e vendo bem, passados uns dias, não é assim uma grande vergonha para ambos.

    Se e quando puder, pois, recuperarei o teu post e os comentários do J. Madeira, J. Neves, meus, teus e M. Azevedo que dão outras pistas e me parecem os mais interessantes. Até lá, pico ambos os posts para surgirem no “contador” mas ficam tu, Valupi, e o JMT em banho-maria ou em banho-manel.

    {Segue também em duplex, ali em cima.]

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