Arquivo da Categoria: Valupi

Plúvio e o haxixe

A ilusão de verdade é um mecanismo cognitivo descrito cientificamente por psicólogos desde 1977. De lá para cá, o fenómeno não desapareceu nem diminuiu de incidência, aumentou foi a sua literatura e alargou-se o campo experimental, teórico e prático da investigação. Consiste em algo que achamos básico, à disposição do senso comum, assim que tropeçamos na sua descrição: o que nos é familiar parece-nos mais verdadeiro.

Por exemplo, imaginemo-nos a viver numa sociedade onde ouvimos dizer em casa, na escola, no emprego, na rua, que mulheres, etiópicos (ou caucasianos, ou mongólicos), ciganos, homossexuais e judeus (ou muçulmanos, ou cristãos, ou…) são seres inferiores, por isto e por aquilo. E que podem ser ameaçadores, para isto e para aquilo. E que precisamos de fazer qualquer coisa para lidar com a ameaça, diminuir o perigo e garantir a nossa segurança. O que Lynn Hasher, David Goldstein e Thomas Toppino descobriram há 42 anos foi que a frequência com que encontramos certas ideias verbalizadas por terceiros leva-nos – apenas por surgirem mais vezes na cognição – a atribuir-lhes maior verosimilhança. O processo é automático, independente da nossa volição. Parece-nos mais verdadeiro aquilo que conhecemos melhor, e parece-nos que conhecemos melhor o que se repete no nosso mundo social. Espantoso? Ao contrário, perfeitamente lógico numa lógica de sobrevivência para animais sociais. Perfeitamente adequado à vida tribal.

O processo é o mesmo seja qual for o conteúdo da mensagem. As temáticas podem ser inócuas e banais. Como isso de acharmos que conhecemos razoavelmente os vizinhos no prédio, e que só por isso, pela frequência com que nos cruzamos e trocamos palavras de circunstância, eles nos merecem alguma confiança. Exactamente pelo mesmo processo, calhando começarmos a ouvir relatos de que um certo vizinho não é boa rês, que fez ou faz umas coisas terríveis, ou que anda metido com gente do pior, tenderemos a acreditar nos boatos numa relação directa com a quantidade e extensão das ocasiões em que a narrativa se reproduza. Rapidamente, será impossível voltar a olhar para esse vizinho sem a crença de que ele, nalgum grau ou modo, corresponde à imagem espalhada a seu respeito.

Mas não precisa de ser um vizinho, pode ser um colega de escola ou trabalho. Ou uma figura pública. Ou um ex-primeiro-ministro. Imaginemos que um certo político, temido pelo seu carisma e resultados eleitorais, arrastava um histórico de suspeições criminais desde que tinha chegado à liderança de um Governo, suspeições lançadas pelos seus adversários políticos e que se esgotaram na calúnia por nunca ter aparecido sequer indícios, quanto mais provas de ilícitos para oficializar as suspeitas. E que após abandonar a ribalta política partidária se via alvo de uma investigação judicial onde, finalmente, ficava como arguido, preso e acusado de crimes de corrupção que atingiam em cheio as suas decisões executivas como primeiro-ministro e os Governos respectivos como um todo. Não é preciso ter mais de dois neurónios para perceber que o caso irá ser inevitavelmente politizado por todas as razões e mais algumas. Acrescentemos um procurador e um juiz justiceiros, um Presidente da República e um Governo rancorosos e vingativos, uma Procuradora-Geral da República comissária política e uma comunicação social quase totalitária disposta a violar os códigos deontológicos da imprensa e a cometer crimes na ânsia de fazer o linchamento da figura delirantemente odiada até ao desfecho judicial do caso – resolução do mesmo a anos de distância e sendo o auto-de-fé continuamente alimentando pelas violações do segredo de justiça, pela deturpação na apresentação e interpretação dos materiais e dos registos obtidos pelo Ministério Público na investigação, e pelas declarações dos inúmeros protagonistas e comentadores. Neste contexto, a resposta normal das inteligências normais, independentemente da preferência partidária ou ideológica, é a de acreditar no que se ouve a respeito desse famoso e importantíssimo político, no que se lê, no que é repetido de forma sistemática – e báquica – à nossa volta desde 22 de Novembro de 2014. Papa-se tudo, há sangue e fúria, o espectáculo não pode parar. Anormal será manter o espírito crítico.

Saltemos para o Plúvio, personalidade blogueira que ficará soterrada no esquecimento com a marca de ter sido mais uma das vítimas do diabólico engenheiro. Dotado de um impulso anal que o faz coleccionar calinadas das figuras públicas (ou nem por isso), cultor folclórico da língua portuguesa (e nada contra, antes pelo contrário) e usando o HTML para produzir boa diversão com laivos eruditos (foi exactamente para isso que o Al Gore inventou a Internet), borrou completamente a pintura quando entrou em modo Clara Ferreira Alves e desatou a tentar arrancar a mão que, in illo tempore, deu um bacalhau a Sócrates. Nesse seu transe, é possível assistir via blogue ao mecanismo da radicalização social e política comum a milhares e a milhões. Está em causa a sua identidade, a qual ele (tal como a Clara Ferreira Alves a respeito da sua) considera maculada por se ter pronunciado favoravelmente sobre Sócrates algures no tempo – ou assim achar que os outros pensam e não se esquecem. É o que volta a explicar aqui – José Sócrates – à mistura com a promoção de José António Saraiva e do blogue “Porta da Loja”, escória patologicamente fanática. O narcisismo ferido faz exóticos companheiros de cama. Contudo, só trago este relambório chuvoso porque o ladino Plúvio resolveu convocar o grande Valupi, alguém que o deixa confuso e desesperado porque lhe aparece como um defensor desse Sócrates infame criminoso já condenado e executado no seu augado bestunto de fulano que escreve coisas para outros lerem. É assim que nasce o maniqueísmo, esse atrofio bestial, e sumamente estúpido, do “quem não é por mim é contra mim”. Daí não ser capaz de conceber que Sócrates merece um julgamento justo, e que os tribunais existem para nossa segurança colectiva e não para servirem objectivos sectários.

Porém, o que verdadeiramente me interessou no patético exercício de bílis e péssima consciência foi o remoque acerca da palavra assassinato, em que o implacável caçador de desvios gramáticos vai buscar o seu critério punitivo a uma entrada de 1997 no Ciberdúvidas. Ora, tenho uma outra referência de autoridade para a troca: Assassínio ou assassinato é sempre crime.

COROLÁRIO
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Ganza-te à vontade, Plúvio, mas, se a ideia for a de ires teclar a seguir, então mete mais tabaco nisso.

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Revolution through evolution

Progressive Gender Beliefs in Teen Boys May Be Protective Against Violence
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Chimpanzees More Likely to Share Tools, Teach Skills When Task Is Complex
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Proton therapy lowers risk of side effects in cancer compared to traditional radiation
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Intermittent fasting: Live ‘fast,’ live longer?
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Egg whites and whey protein boost testosterone
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Questions to ask before surgery
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Capturing CO2 from trucks and reducing their emissions by 90%

Manuel Soares e os juízos de merda

Manuel Soares, presidente da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, é pago para dizer coisas. No seu último artigo num pasquim de preferência, a propósito de um episódio extraordinário na magistratura portuguesa, diz coisas como estas:

«A decisão do CSM, de não esperar anos e anos pelo desfecho do processo-crime, foi tomada para preservar o valor fundamental da confiança na integridade dos juízes que administram a Justiça. Independentemente da legítima discussão jurídica sobre as subtilezas da interpretação da lei, para qualquer pessoa que olhe para as coisas à luz dos critérios da normalidade e razoabilidade parece inconcebível que um juiz sobre o qual recaiam fundadas suspeitas de actos de extrema gravidade, que o tornem inequivocamente inapto para o exercício da função, possa continuar a julgar nos tribunais. Se for válido o princípio de que aquilo que a todos parece absurdo não pode estar certo, então o sistema tem de ter soluções que afastem o absurdo e harmonizem de forma proporcional todos os interesses em conflito.»

Na berlinda, o juiz Rui Rangel. Expulso da magistratura pelas razões aludidas no parágrafo após avaliação dos factos descobertos na investigação judicial onde é arguido. Todavia, o discurso mediatizado pelo juiz Manuel Soares, na sua brevidade e síntese em três frases, podia ser usado como texto inicial num curso de introdução ao Estado de direito democrático tal a importância e complexidade dos pressupostos. Por exemplo, em que consiste a “integridade dos juízes que administram a Justiça”? Em que consistem “as subtilezas da interpretação da lei”? Em que consistem os “critérios da normalidade e razoabilidade”? Em que consistem os “actos de extrema gravidade” que levem um juiz a ser considerado “inequivocamente inapto para o exercício da função”? Em que consiste, onde se fundamenta, e como se aplica, o totalitário princípio de que o “que a todos parece absurdo não pode estar certo”?

Podemos adivinhar as respostas que o autor daria se questionado implacavelmente acerca das suas declarações. De imediato, invocaria a impossibilidade de responder num artigo de opinião tal a vastidão, a minúcia, a ciência jurídica em causa nessas problemáticas. Depois, se quem o interrogasse insistisse, começaria a despachar brocardos avulsos, na ânsia de afastar o moscardo a golpes de latinagem. Daqui saltaria para o argumento de autoridade, isso de o Conselho Superior da Magistratura ser um conclave de sábios para quem estas matérias são canja. Finalmente, calhando a curiosidade superar a cagança, imitaria o juiz Potter Stewart e o seu celebérrimo “I know it when I see it” com que definiu o que era a pornografia nos anos 60.

Na verdade verdadinha, quando se invocam “critérios da normalidade e razoabilidade” só se deixa confundir ou enganar quem quiser. O que seja a normalidade e a razoabilidade não será nunca objecto de definição embora tenha sistemática e fundamental aplicação nas sentenças proferidas pelos tribunais – por incontornáveis e bondosas razões, os códigos não passam de papéis pintados com tinta que estabelecem abstracções verbais para serem aplicadas a casos concretos por concretas subjectividades. Vede como o Tribunal da Relação de Lisboa justifica com a figura do “cidadão médio” uma sentença que obriga João Araújo a pagar oito mil euros de indemnização a uma jornalista que emporcalha o espaço público com crimes cometidos no órgão de informação onde trabalha:

«Os juízes desembargadores Abrunhosa de Carvalho e Maria Leonor Botelho dão como provado que João Araújo quis atingir a jornalista na sua honra. "Para o cidadão médio as expressões 'A senhora devia tomar mais banho, cheira mal' e 'Aquela jornalista com mau aspeto' são ofensivas, porque nelas 'não avulta em primeiro plano a discussão objetiva das questões mas antes o enxovalho das pessoas', isto é, não correspondem a qualquer crítica ao desempenho profissional da assistente, que era o que estava em causa, mas são meramente depreciativas da sua pessoa, pelo que são ofensivas da honra e consideração." Pelo que mantiveram a condenação sem alterações.» <-> FONTE

Quem será este “cidadão médio”? À luz da jurisprudência citada, é o tal cidadão que reage com indiferença, ou até com aplauso, aos crimes cometidos por magistrados e jornalistas para atacarem alvos políticos e alimentarem a indústria da calúnia. Nesse estado de espírito, do alto dessa pirâmide axiológica, o cidadão médio fica furibundo é com expressões descorteses contra senhoras da Cofina. Porrada no mulherio, até com mocas de pregos, vá que não vá (até porque muitas das vezes os coitados dos agressores nem sabem ao certo por que estão a sovar as vadias, mas nada se perde pois elas não são nenhumas santas e, lá no fundo, aceitam a justiça que as atinge ao soco e ao pontapé). Agora, um causídico sair de um tribunal, ser perseguido de microfone na mão por quem usa um órgão de comunicação social para mentir, difamar e caluniar, e, nessas circunstâncias, ter o desplante de reagir com uma metáfora moral que a antropologia explica e a psicologia evolutiva valida, isso deixa o cidadão médio com ganas de pegar no cordame, na forquilha e tratar do assunto pelas suas próprias mãos.

O que seria lindo de ver, e que fica como impossível de alguma vez ser visto, seria o magnífico juiz Manuel Soares a comentar a que se referem os desembargadores Abrunhosa de Carvalho e Maria Leonor Botelho quando aludem à “discussão objectiva das questões”. É que, aplicando aqui à padeiro o tal princípio do que a todos pareça absurdo não poder estar certo, até o famigerado cidadão médio concorda que esperar de João Araújo, naquela situação, um qualquer ensaio de discussão objectiva com Tânia Laranjo ficaria como um monumento ao absurdo. À luz dos critérios da normalidade e razoabilidade parece inconcebível que uma jornalista sobre a qual recaem fundadas suspeitas de actos de extrema gravidade, que a tornam inequivocamente inapta para o exercício da função dado não respeitar os códigos deontológicos e legais respectivos, possa continuar a assediar um advogado à porta do tribunal. Donde, uma forma ajuizada de ter soluções que afastem o absurdo e harmonizem de forma proporcional todos os interesses em conflito consiste, precisa e exactamente, em chamar merda ao que merda é.

Cuidado, não enfies o sapato neste buraco negro

Nesta notícia do ObservadorAstrónomos detetam o maior buraco negro que está mais próximo da Terra – ficamos a saber que (i) há buracos negros próximos da Terra, que (ii) nesse grupo, alguns são maiores do que outros, que (iii) existe um buraco negro que consegue o feito inconcebível de ser, em concomitância, o maior e o mais próximo, embora possa não ser, em simultâneo, nem o que está mais próximo nem o maior dos que não estão tão próximos.

Percebem? Ajuda a perceber quando olhamos para a autoria do texto e vemos escrito Agência Lusa, talvez a maior fonte de iliteracia científica mais próxima do espaço público, gerando com entusiasmo e consistência aberrações cognitivas que a imprensa, inclusive a mais modernaça, replica sem qualquer tipo de edição. A sandice do artigo continua por ali fora como se a inteligência dos leitores tivesse desaparecido num buraco negro não tão grande mas calhando estar bué mais perto. E chega-se ao ponto de fazer uma revelação que vai obrigar à reescrita de todos os tratados de cosmologia e astrofísica:

«Um dos maiores buracos negros no Universo, o “TON 618”, com uma massa equivalente a 66 mil milhões de vezes a do Sol, está a uma distância muito maior, a 104 mil milhões de anos-luz da Terra.»

Pois é, senhores ouvintes, o ganda TON, depois de ter devorado este universo, e o outro, e ainda o outro a seguir, e mais 6 ou 7, foi descansar e fazer a digestão a uma distância (da Terra, atenção, cuidado) de 104 mil milhões de anos-luz. Como os físicos actuais, famosos por não lerem a imprensa portuguesa, calculam que o Big Bang ocorreu há perto de 14 mil milhões de anos, é só fazer as contas e mandar parar as rotativas.

Mas que importam as datas das cenas astrocósmicas quando o menino Jesus nasceu numa agradável noite de Primavera e tem de gramar com o aniversário no começo do Inverno, nem sequer sabendo ao certo a idade que tem?

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Men think they’re better liars
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Mothers’ and babies’ brains ‘more in tune’ when mother is happy
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Home hospital reduces costs, improves care
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Study Suggests Early-Life Exposure to Dogs May Lessen Risk of Developing Schizophrenia
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Your DNA is not your destiny – or a good predictor of your health
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Neuroscientists reveal the basis of confirmation bias
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Black Teens Face Racial Discrimination Multiple Times Daily, Suffer Depressive Symptoms as a Result
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Lapidar

Delatores e quejandos

Bufos, chibos e delatores pertencem a uma mesma realidade subterrânea, ainda que delator se queira agora fazer passar por palavra redentora. É da história que nunca o serem bufos, chibos ou delatores lhes trouxe dignidade, e, muito menos, à justiça quando desta foram apaniguados.
Nas páginas digitais do Conselho de Prevenção da Corrupção e da Procuradoria-Geral da República existem espaços em que qualquer cidadão, mesmo de forma anónima, pode denunciar o que lhe aprouver. Lamentavelmente, não se sabe para que têm servido ao longo dos anos. A opacidade que rodeia estes pretensos instrumentos de combate à corrupção e crimes afins permitem ajuizar da sua irrelevância. Presumo que sejam sustentados por delatores morais, em tudo idênticos àqueles justiceiros que vagueiam pelas caixas de comentários dos média.
A justiça tem um preço ético e não é quando se abdica dele que se torna mais eficaz. Todas as reformas que cedem à demagogia da eficácia serão sempre passos para novas cedências.


A.R.

Metáforas

«O planeta 'HD 45652b', agora designado como Viriato, que liderou o povo lusitano contra o domínio do Império Romano na Península Ibérica, foi descoberto em 2008 e é constituído maioritariamente por gás, estando localizado na constelação Monoceros (Unicórnio).

A sua estrela, a 'HD 45652', batizada como Lusitânia, que era uma das três províncias romanas da Península Ibérica onde vivia o povo lusitano e que coincidia na sua maior parte com o território português atual, é uma anã laranja, que o seu planeta leva 44,1 dias a completar uma órbita.»


Fonte

Serviço Público

"O jornalismo é a arte de chegar demasiado tarde, logo que possível."

Este sarcasmo certeiro do escritor sueco Stig Dagerman sobre uma profissão que foi também a dele vem-me muitas vezes à mente. Veio, por exemplo, a propósito da tentativa que fiz de compreender o que se passou com Sara Furtado, a jovem sem-abrigo que confessou ter colocado num ecoponto o bebé que deu à luz na madrugada de 4 para 5 de novembro.

[...]

As minhas questões eram simples: que era suposto ter acontecido a esta mulher quando foi detetada na rua, e porque não aconteceu? Porque não quis, fugiu, recusou, ou porque não lhe foi proposto? E quem tem a obrigação de responder a isto?

[...]

Ora sabe-se que Sara vivia na rua desde pelo menos julho e que desde essa altura estava credenciada. E que quer isto, credenciada, dizer? Que tinha sido "entrevistada" por um técnico de apoio social de uma instituição pertencente ao NPISA, o qual escrevera uma "carta de encaminhamento" na qual se atestava o estado de necessidade de Sara e constava obrigatoriamente o seu nome e idade, assim como o tipo de serviços a que devia ter acesso: alimentação, por exemplo.

[...]

A primeira questão é pois: que instituição credenciou Sara, e o que foi feito a partir daí? Foi-lhe atribuído, como é suposto, um "gestor de processo", para tentar criar com ela uma alternativa para sair da rua? E, nesse âmbito, que lhe foi proposto, se alguma coisa? Por outro lado, se foi referenciada, como é que a Santa Casa não a encontra no sistema?

Estas perguntas deveriam ter sido feitas desde o início, desde o momento em que Sara foi detida. Mas a maioria dos jornalistas, como eu, nada sabia das regras do apoio aos sem-abrigo, de como é suposto as coisas acontecerem ou até da existência de uma coordenação.

É que quase todo o jornalismo que se faz sobre sem-abrigo se ocupa sobretudo das "histórias humanas", quer dos sem-abrigo quer das "equipas de rua", muitas vezes compostas de voluntários, e passa ao lado do resto.

[...]

Mas aqui estou, atrasada mas logo que possível, a pedir contas. Sara está detida há mais de um mês, como mais de um mês de vida tem o bebé salvo do lixo. E ainda não vi, não vimos, um comunicado, um esclarecimento, qualquer coisa - de esquerda, já agora - do NPISA e da Câmara de Lisboa sobre o assunto. Não vimos um anúncio de inquérito sobre o caso, como se fosse possível algo assim acontecer e não haver uma averiguação formal, um apuramento de responsabilidades.

Como se, à partida, se decidisse que não há nem pode haver responsáveis; que o que sucedeu é normal, que não havia nada a fazer e não vale a pena perder tempo com o que lá vai. Como se à partida o NPISA nos estivesse a dizer que não serve para nada, que isto da intervenção junto dos sem-abrigo é uma completa treta da qual não podemos esperar mais do que carrinhas a distribuir sopa.

Como se aquele bebé no lixo fosse um gesto radical performativo, espelho brutal do nosso não querer saber.


Jornalista

Lapidar

«Além de assentar num princípio sinistro e que, entre nós, tem ressonância histórica — a bufaria —, a delação premiada tem o condão de ser, ao mesmo tempo, moralmente errada e processualmente ineficaz.

Mesmo face ao entusiasmo das hordas de justicialistas que se desdobram pelos espaços de opinião, caixas de comentários e submundo justicialista das redes sociais, a verdade é que não se encontra um penalista que defenda a legalidade do princípio. O mesmo é verdade em relação a toda a jurisprudência. Por bons motivos.

Desde logo porque a promessa a um arguido (quem? em que fase? no inquérito?) de uma vantagem na sentença como contrapartida da sua colaboração na denúncia implica por definição algum tipo de coação. Perante a escolha entre incriminar alguém para aliviar a sua própria sentença e rejeitar fazê-lo, as margens de liberdade são escassas. Ora, a obtenção de prova com coação moral apresenta apenas uma diferença de grau face à obtenção de prova com coação física. Em sociedades dignas, uma e outra são uma abjeção. Na mesma medida, a aceitação de que o Estado firme um acordo com alguém que reconhecidamente praticou um crime é uma ideia moralmente corrosiva.

Depois, como é sabido, não há árvore má que dê bom fruto. Um fundamento civilizacional de reminiscências bíblicas que está convertido no direito penal. Se alguém incrimina outro para se defender ou dividir a sua responsabilidade, a probabilidade de com isso deturpar a verdade é significativa. É por isso mesmo que as provas assim obtidas são e devem permanecer nulas, até porque tendem a ser pouco credíveis.

Para alguns, a delação premiada é encarada como uma inovação exaltante, capaz de redimir todos os males da justiça. De facto, representa apenas um passo funesto no sentido de uma justiça que secundariza o papel do juiz e atribui maior centralidade a quem acusa (o Ministério Público), que poderia até passar a contratualizar a natureza da acusação com os arguidos. Sabemos como estas coisas começam e, infelizmente, também como acabam.»


O bufo, a árvore envenenada e o Estado de direito

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Advertising continues to assume mothers only use knowledge for domestic caring
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Have you found meaning in life? Answer determines health and well-being
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Scientists say you can change your personality
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You create your own false information, study finds
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Justified and unjustified movie violence evokes different brain responses
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Medical Errors Remain Problem 20 Years after Critical Report on Patient Safety
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The Songwriter Is Creative – the Singer, Not So Much
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Chico Mota e a corrupção abençoada

«Em Portugal, o problema que se coloca não é o de saber se vamos ter a delação premiada, mas sim se vamos manter um regime de corrupção abençoada. O actual regime legal de combate ao crime de corrupção tem como objectivo dissuadir os arguidos de colaborarem com a Justiça. Será possível mudarmos esta realidade e criarmos um regime que concretize o princípio anticorrupção que é constitucionalmente estruturante? Pessoalmente, não acredito.»


Chico Mota

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Em Portugal, há fulanos a ganhar dinheiro às pazadas para dizer que os partidos são corruptos, os representantes políticos são corruptos, os deputados são corruptos, os governantes são corruptos. Com tanto corrupto e tanta corrupção à solta, o argumento igualmente estabelece que os polícias são corruptos, os procuradores são corruptos, os juízes são corruptos – caso não o fossem, e conhecendo estes agentes do poder supremo ainda melhor o que os evangelistas profissionais da corrupção apocalíptica revelam, então já teriam metido no chilindró este mundo e o outro. O corolário dos sistemáticos, diários, maníacos anúncios de ser a corrupção o mal supremo a combater é este: espalhar a decadência cívica e civilizacional onde se passa a acreditar que o Estado é corrupto, que a democracia é corrupta, que não é com a liberdade que vamos conseguir matar a besta diabólica.

Quando a guerra santa contra a corrupção nacional conta com os préstimos de um advogado que representa, no jornal onde recebe dinheiro pelo que escreve, uma autoridade em Direito e seus princípios e aplicações, quando nesse mesmo jornal há um caluniador profissional exactamente com a mesma retórica que se viu elevado a condestável de um Presidente da República, e quando o director do meio em causa partilha da mesmíssima visão sobre os mesmíssimos assuntos ao ponto de lançar notícias falsas, podemos aproveitar para colocar uma singela pergunta: qual deles, nestes longos anos no activo, introduziu no espaço público algum dado objectivo sobre a corrupção em Portugal que permita aferir da sua tipologia, dimensão, gravidade e comparativo com países terceiros? Resposta: nem metade de um. A tentativa de quantificar o fenómeno da corrupção em Portugal, para além de ser metodologicamente dificílima, impediria o sensacionalismo e a calúnia de que se faz a motivação política, mais a sua lógica venal e deletéria, de quem só pretende usá-la como bandeira, tropo.

Mas sigamos o cherne. O Chico Mota escreve no Público que o PS e o PSD (pelo menos, mas aposto que igualmente consegue meter neste saco o CDS – e até o BE e o PCP, de quem nunca ouvimos alarme sequer remotamente aproximado) fazem leis cujo propósito é proteger e fomentar a corrupção. E que a não ser ele, mais os seus amigos na indústria respectiva, o resto da população fecha os olhos face ao regabofe quotidiano. Ora, essa prática de usar o Parlamento para institucionalizar o crime confunde-se com o próprio regime nascido do 25 de Abril, deixa presumido esta inteligência. Pelo que o racional assim proposto se estende para lá do plano político e, ainda com muito mais facilidade, atinge, envolve e preenche as dimensões económicas e sociais da nossa comunidade deste 1974. Se os políticos criam leis para impossibilitar o combate à corrupção, então os empresários, os funcionários e a arraia-miúda, em qualquer sector do Estado ou da actividade privada, vão dedicar-se ao crime com devoção e paixão. Daí partilhar connosco o seu desalento, coitado deste coitado que já não tem ilusões.

Sim? Se sim, o dinheiro da Sonae veio e vem da corrupção pelo simples e incontornável facto, estabelecido nas premissas anteriores, de a roleta existencial nos ter feito aparecer e permanecer num regime estruturalmente corrupto. Se sim, quem paga ao Chico Mota é inevitável e retintamente corrupto e/ou corruptor. Se sim, quem trabalha ao serviço de corruptos, quem mete no bolso dinheiro corrupto para fingir que combate a corrupção, talvez deva passar a ser visto como um colaborador da corrupção abençoada.