Cuidado, não enfies o sapato neste buraco negro

Nesta notícia do ObservadorAstrónomos detetam o maior buraco negro que está mais próximo da Terra – ficamos a saber que (i) há buracos negros próximos da Terra, que (ii) nesse grupo, alguns são maiores do que outros, que (iii) existe um buraco negro que consegue o feito inconcebível de ser, em concomitância, o maior e o mais próximo, embora possa não ser, em simultâneo, nem o que está mais próximo nem o maior dos que não estão tão próximos.

Percebem? Ajuda a perceber quando olhamos para a autoria do texto e vemos escrito Agência Lusa, talvez a maior fonte de iliteracia científica mais próxima do espaço público, gerando com entusiasmo e consistência aberrações cognitivas que a imprensa, inclusive a mais modernaça, replica sem qualquer tipo de edição. A sandice do artigo continua por ali fora como se a inteligência dos leitores tivesse desaparecido num buraco negro não tão grande mas calhando estar bué mais perto. E chega-se ao ponto de fazer uma revelação que vai obrigar à reescrita de todos os tratados de cosmologia e astrofísica:

«Um dos maiores buracos negros no Universo, o “TON 618”, com uma massa equivalente a 66 mil milhões de vezes a do Sol, está a uma distância muito maior, a 104 mil milhões de anos-luz da Terra.»

Pois é, senhores ouvintes, o ganda TON, depois de ter devorado este universo, e o outro, e ainda o outro a seguir, e mais 6 ou 7, foi descansar e fazer a digestão a uma distância (da Terra, atenção, cuidado) de 104 mil milhões de anos-luz. Como os físicos actuais, famosos por não lerem a imprensa portuguesa, calculam que o Big Bang ocorreu há perto de 14 mil milhões de anos, é só fazer as contas e mandar parar as rotativas.

Mas que importam as datas das cenas astrocósmicas quando o menino Jesus nasceu numa agradável noite de Primavera e tem de gramar com o aniversário no começo do Inverno, nem sequer sabendo ao certo a idade que tem?

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