Chico Mota e a corrupção abençoada

«Em Portugal, o problema que se coloca não é o de saber se vamos ter a delação premiada, mas sim se vamos manter um regime de corrupção abençoada. O actual regime legal de combate ao crime de corrupção tem como objectivo dissuadir os arguidos de colaborarem com a Justiça. Será possível mudarmos esta realidade e criarmos um regime que concretize o princípio anticorrupção que é constitucionalmente estruturante? Pessoalmente, não acredito.»


Chico Mota

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Em Portugal, há fulanos a ganhar dinheiro às pazadas para dizer que os partidos são corruptos, os representantes políticos são corruptos, os deputados são corruptos, os governantes são corruptos. Com tanto corrupto e tanta corrupção à solta, o argumento igualmente estabelece que os polícias são corruptos, os procuradores são corruptos, os juízes são corruptos – caso não o fossem, e conhecendo estes agentes do poder supremo ainda melhor o que os evangelistas profissionais da corrupção apocalíptica revelam, então já teriam metido no chilindró este mundo e o outro. O corolário dos sistemáticos, diários, maníacos anúncios de ser a corrupção o mal supremo a combater é este: espalhar a decadência cívica e civilizacional onde se passa a acreditar que o Estado é corrupto, que a democracia é corrupta, que não é com a liberdade que vamos conseguir matar a besta diabólica.

Quando a guerra santa contra a corrupção nacional conta com os préstimos de um advogado que representa, no jornal onde recebe dinheiro pelo que escreve, uma autoridade em Direito e seus princípios e aplicações, quando nesse mesmo jornal há um caluniador profissional exactamente com a mesma retórica que se viu elevado a condestável de um Presidente da República, e quando o director do meio em causa partilha da mesmíssima visão sobre os mesmíssimos assuntos ao ponto de lançar notícias falsas, podemos aproveitar para colocar uma singela pergunta: qual deles, nestes longos anos no activo, introduziu no espaço público algum dado objectivo sobre a corrupção em Portugal que permita aferir da sua tipologia, dimensão, gravidade e comparativo com países terceiros? Resposta: nem metade de um. A tentativa de quantificar o fenómeno da corrupção em Portugal, para além de ser metodologicamente dificílima, impediria o sensacionalismo e a calúnia de que se faz a motivação política, mais a sua lógica venal e deletéria, de quem só pretende usá-la como bandeira, tropo.

Mas sigamos o cherne. O Chico Mota escreve no Público que o PS e o PSD (pelo menos, mas aposto que igualmente consegue meter neste saco o CDS – e até o BE e o PCP, de quem nunca ouvimos alarme sequer remotamente aproximado) fazem leis cujo propósito é proteger e fomentar a corrupção. E que a não ser ele, mais os seus amigos na indústria respectiva, o resto da população fecha os olhos face ao regabofe quotidiano. Ora, essa prática de usar o Parlamento para institucionalizar o crime confunde-se com o próprio regime nascido do 25 de Abril, deixa presumido esta inteligência. Pelo que o racional assim proposto se estende para lá do plano político e, ainda com muito mais facilidade, atinge, envolve e preenche as dimensões económicas e sociais da nossa comunidade deste 1974. Se os políticos criam leis para impossibilitar o combate à corrupção, então os empresários, os funcionários e a arraia-miúda, em qualquer sector do Estado ou da actividade privada, vão dedicar-se ao crime com devoção e paixão. Daí partilhar connosco o seu desalento, coitado deste coitado que já não tem ilusões.

Sim? Se sim, o dinheiro da Sonae veio e vem da corrupção pelo simples e incontornável facto, estabelecido nas premissas anteriores, de a roleta existencial nos ter feito aparecer e permanecer num regime estruturalmente corrupto. Se sim, quem paga ao Chico Mota é inevitável e retintamente corrupto e/ou corruptor. Se sim, quem trabalha ao serviço de corruptos, quem mete no bolso dinheiro corrupto para fingir que combate a corrupção, talvez deva passar a ser visto como um colaborador da corrupção abençoada.

8 thoughts on “Chico Mota e a corrupção abençoada”

  1. “…. O actual regime legal de combate ao crime de corrupção tem como objectivo dissuadir os arguidos de colaborarem com a Justiça.”….
    Sim leram bem, este “intocável e digníssimo” advogado escreve que a legislação em vigor para combater a corrupção em Portugal visa apenas dissuadir os arguidos de colaborar com a Justiça!….
    Oh, Valupi!…. Como diz e resumindo – para ele, isto está tudo corrompido… e é desde Abril de 1974….!!!
    …. Tenhamos paciência, a caravana passa, e nada podem os “Francisco Mota do Restelo”…

  2. Para combater a corrupção e os corruptos há muitos meios,provados,testados, generosamente louvados,porém nunca conseguiram acabar com ela,fosse lá onde fosse. Não é razão para parar de a combater: não é pela morte ser certa e a doença sempre acompanhar a Humanidade que vamos deixar de cuidar,quanto podemos, da Saúde!
    Na delação premiada,{já ouvi falar da felação premiada!}, antes da futura prenda ao criminoso delator, há que provar o que este afirma. E aqui surge um meio infalível,largamente utilizado através dos tempos e que é a tortura! Tortura sim,pois se vale tudo para se atingirem os fins que queremos, não vamos empandeirar de mão beijada um meio sobejamente utilizado por muitas das grandes figuras da História…
    No cavalete, no waterboarding,na fogueira,no fuzilamento simulado ou na decapitação ( sim, no que é que os fundamentalistas são mais que nós?}, a verdade verdadinha vai ser como o azeite,vai vir ao de cima!O delator vai mostrar o que vale !
    E então,na solenidade tão veneranda dos Tribunais Plenários, todas as dúvidas serão dissipadas!

  3. ora bem, vim aqui de passagem brindar à vitória do bojo e rir um pouco dos vossos melões, porque rir faz bem e não gosto de beber muito. voltarei quando o trump for reeleito. até lá, continuarei a rir, nomeadamente do desesperado ferro rodrigues.

  4. Nem mais, incognitus Markus, e desde já proponho um crowdfunding para aquisição de naifas e alicates q.b. E elixir bucal para gargarejos, como material de apoio à felação premiada.

  5. Portugal não é um país onde a corrupção esteja mais enraizada, pelo contrário, tem estado sempre, nas últimas décadas, entre os 30 países onde é menor o “índice de percepção da corrupção” (não há outra medida internacional do fenómeno), de um total mundial de 180 países.
    Nesse aspecto, Portugal, 29º em 2017, está muito melhor do que os outros países do Sul da Europa com que habitualmente é comparado: Espanha, Itália e Grécia, respectivamente em 47º, 54º e 59º lugar.
    Estamos apenas uns cinco ou seis lugares abaixo da França, mas à frente de quase todos os países ex-comunistas, com a excepção da Estónia. Já nem falo das ex-colónias portuguesas, por exemplo, Angola, um dos países mais corruptos do mundo, que em 2017 ocupava o 167º lugar, ainda assim à frente da Venezuela (169º).
    A China (77º), o Brasil (96º) e a Rússia (135º) são paraísos da corrupção.
    Curiosamente, os países onde há menos corrupção são também aqueles onde os contribuintes são mais cumpridores, isto é, fogem menos ao fisco.
    A conversa fiada e o alarido sobre corrupção em Portugal obedecem a evidentes propósitos políticos de maledicência demagógica, oriunda quase sempre da direita ou da extrema direita anti-partidos. Jornalistas, advogados e magistrados profundamente corruptos são os que mais alarido fazem e mais apontam o dedo acusador aos políticos… de quem não gostam.

  6. Vagem Sexagenária: tás cheia de piquinho nesse cú para seres enrabada por um caralho de grande torque, sua puta-velho, vai-te mas é foder-to.

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