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9/11 research reveals effective strategies to cope with COVID-19 stress
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Republicans more inclined to share fake news on social media
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They remember: Communities of microbes found to have working memory
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Why smartphones are digital truth serum
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Economic Damage Could Be Worse Without Lockdown and Social Distancing – Study
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep2)

Armando Vara transportou desde o caso da Fundação para a Prevenção e Segurança Rodoviária, ocorrido no ano 2000 e acabando por ser arquivado, o odor a corrupção. Embora apenas os caçadores de socráticos se lembrem do episódio, sendo quase nenhuns os bípedes implumes que saibam o que realmente aconteceu, Vara passaria a ser atacado politicamente sem descanso por causa dessa brecha no seu prestígio. O objectivo político e mediático era o de transformar uma nódoa no seu currículo numa ferida mortal no seu bom nome. A sua amizade pessoal e companheirismo político com Sócrates tornava esse calcanhar de Aquiles no alvo obsessivo para tentar atingir dois inimigos com uma calúnia só.

A crise económica internacional de 2008, a qual veio transformar num cataclismo homérico o terramoto que já estava a acontecer no império bancário da oligarquia portuguesa desde 2007 com a guerra intestina no BCP entre Jardim Gonçalves e o seu delfim Paulo Teixeira Pinto e a anunciada queda no abismo do BPN e do BPP, conduziu a banca para um período de selvajaria accionista própria de tempos desesperados que, imprevisivelmente, acabou por levar Vara a trocar a CGD pelo BCP – onde entraria por cima para escândalo e rancor da direita decadente. Quem perder 1 minuto a recordar aqueles que acompanhavam Vara na nova equipa de gestão, e quem o apoiou na assembleia geral que votou e aprovou por enorme maioria o seu nome, não mais perderá metade de meio nanosegundo dando crédito à teoria da conspiração e à calúnia do “assalto ao BCP”. Porém, as circunstâncias eram tão graves para os antigos donos do poder financeiro português – e para Cavaco, a quem a oligarquia exigia acção decisiva contra um Sócrates sem medo dela – que uma inaudita e implacável golpada-vingança foi montada com recurso aos instrumentos da Justiça e das polícias e usando o embuste do Sócrates tirano, bandido e louco, capaz de corromper tudo e todos (menos a gente séria que o ia apanhar e enfiar na cadeia, claro) e de meter o regime no bolso, como capa das violências que estavam dispostos a cometer. A operação “Face Oculta”, com a sua audaciosa e ilegal ambição, não existiu por causa de um reles sucateiro e suas trafulhices sucateiras. O prémio cobiçado era outro, um que continua ainda hoje a render adrenalina no tribalismo político e gera ódio para dar e vender na indústria da calúnia.

Virgílio Macedo teve meses para se preparar. Seria o primeiro a entrar na arena, o primeiro a mostrar serviço. Apareceu frente a Vara depois de ter combinado com o grupo parlamentar a estratégia para dar cabo do bicho. E não vinha sozinho, trazia pelo menos mais três deputados que lhe foram dando ajudas ao longo do interrogatório, um deles sendo o soberbo estadista e fascinante talento tribunício de seu nome Duarte Marques. A situação era comparável à de vermos o exército de Aníbal perante um singelo rato (pun intended). Frente ao Virgílio imperial e castigador prostrava-se um presidiário enterrado para a política e para o mundo profissional, e de novo enterrado no mais importante processo judicial do Portugal democrático, a “Operação Marquês”. O palco era a Assembleia da República, o mandato equiparado ao das autoridades judiciais. Virgílio sorria impante de confiança, ia triturar o patife sem demora.

Quem tiver visto o vídeo (Ep1) pode constatar: aos 6 minutos da audição, o rato deixou os elefantes de Aníbal assarapantados, sem saberem para onde fugir. 6 minutos é quanto basta para ficarmos com um sumário executivo do que foram as restantes 5 horas e 24 minutos. O pulha não se preparou para um confronto com a honestidade intelectual.

O melhor discurso de Marcelo continua a ser o de 17 de Outubro de 2017

O Presidente da República foi à Assembleia da dita comemorar solenemente o 25 de Abril com um discurso de 16 minutos e 38 segundos onde fez uma exposição didáctica sobre a efeméride. O registo foi paternalzinho, parecia estar a falar para um filho muito querido e muito estarolas, contextualizado pelas actuais crises na saúde, na economia e na vida social. Alguns à esquerda e na direita decente vocalizaram alto o seu aplauso, carimbando o discurso com adjectivação encomiasta, senão ditirâmbica, em reconhecimento da inequívoca defesa do simbolismo abrilista – o simbolismo da liberdade e da democracia adentro de um Estado de direito como a ideologia fundadora e reguladora da Constituição. Mas talvez estes emocionados ouvintes apenas estivessem em desforço por causa do folclore de ocasião da direita decadente; decadente porque, lá está, continua a depender de fanáticos e pulhas para fazer prova de vida. Talvez o discurso em causa mereça o que já está a ter nem uma semana ainda lhe passou por cima: completa indiferença, fatal esquecimento.

Comparemos com os 11 minutos e 33 segundos de Outubro de 2017. Começa por ter laivos de improviso, embora surja após aviso prévio e no dia imediatamente a seguir à solitária comunicação ao País de Costa, esta feita na residência oficial em São Bento para lhe conferir dignidade institucional. Por contraste, e com um significado que foi explorado por todas as palavras, todos os silêncios, todas as expressões de rosto e de voz, Marcelo falava ao povo a partir do povo, na fustigada Oliveira do Hospital. E tinha muito para contar. Começou em estilo fotojornalista, qual Fernão Lopes presidencial, descrevendo os variegados sofrimentos que os incêndios causaram com recurso a ilustrações anedóticas e bucólicas, colmeias e sinos a rebate. A indisfarçável pantomima ocupou um terço do discurso, consistindo na pintura de um fresco do seu abraço às vítimas, o mural do seu personalismo gloriosamente católico. Esta primeira parte foi invocada como o suporte para a mudança de papel: a pessoa igual às outras pessoas, a pessoa do coração misericordioso, era também o Presidente da República. E estava na hora de o Presidente distribuir tau-tau, puxar orelhas, tomar conta disto. Entrávamos no segundo acto, onde a mensagem foi a tal que ouvíamos de manhã à noite desde Pedrógão e o assalto a Tancos pela boca e dedos do editorialismo, do comentariado e do passismo: o Estado falhou… por culpa exclusiva do PS. Estava o cenário montado para a conclusão e epílogo. Marcelo declarou que o seu presente mandato e o eventual seguinte acabavam de ficar ligados umbilicalmente aos incêndios de 2017. As fichas foram postas todas na mesa, cabendo ao adversário mostrar se ia a jogo ou desistia. Ir a jogo implicava não acreditar no bluff marcelista, isso de ter ameaçado abrir uma crise política e dissolver a Assembleia caso o Governo insistisse em governar sem depender de Belém. Desistir implicava que Costa entregasse a cabeça de Constança Urbano de Sousa numa bandeja e participasse no logro de se fingir que a Presidência da República tem mais legitimidade política do que a Assembleia da República.

O discurso de 17 de Outubro de 2017 saiu perfeito no conteúdo, na forma e na execução. O seu à-vontade permitiu-lhe brincar aos padrecos, gozando o prato de estar a dar um sermão aos governantes socialistas e demais deputados. Chegou ao ponto de largar esta maravilha de teologia demagógica ou vice-versa:

Se falei aos portugueses primeiro como pessoa foi para tornar bem claro que sempre, e mais ainda em tempos como estes, olhar para os dramas de pessoas de carne e osso com a distância das teorias, dos sistemas ou das estruturas, por muito necessário que possa ser, é passar ao lado do fundamental, na vida como na política. E o fundamental é o que vai na alma de cada uma e de cada um dos portugueses.

Marcelo estava no pico da forma e sabia que não podia perder. Ia espancar e chantagear um Governo derrotado por calamidades naturais e disfunções públicas que calhavam acontecer em cima umas das outras para felicidade dos pulhas e dos broncos. E ia aumentar com esse oportunismo o seu apoio popular, o principal objectivo da encenação. Sabemos que Marcelo foi sofisticada e superiormente cínico porque o seu domínio sobre os códigos populistas merece estudo académico. Todas as vítimas por ele referidas, com tanto gosto que até sorrisos lhe escapavam incontroladamente ao listar desgraças, esses mortos usados como palanque, foram carne para o seu canhão eleitoralista.

Marcelo serviu-se gulosamente de acontecimentos que nenhum outro Governo poderia ter evitado para com eles obter ganhos sectários e pessoais. De lá para cá muito se passou e ele é agora um líder gravemente fragilizado precisamente por ter falhado numa crise onde não havia bodes expiatórios nem hipótese de usar os impérios mediáticos da direita para a baixa política. Não é com o Marcelo que queremos ir para a guerra, ficámos todos a saber quando desapareceu do comando após ter andado a beijocar o seu povo.

Triste sina a dos comentadeiros profissionais

«Ainda nos vamos arrepender de ter tolerado, alguns com bonomia, a alegoria da ‘guerra’ para descrever a resposta à covid-19. Estava-se a ver que a imagética guerreira se iria espalhar sem amanhã, os governantes adoram imaginar-se como Churchill de charuto ou como Eisenhower na sala dos mapas, com tanques miniatura à voz dos chefes (Schwarzkopf na “Tempestade do Deserto” é um mito mais infeliz, melhor ficar com Eisenhower). O problema é que uma guerra que não é guerra conforta governantes que se pensam como um comando militar, permitindo a ideia de que viveremos em exceção permanente. Não faltarão ministros inebriados pelo silêncio no espaço público ou pela vontade de calar oposições. Há um Orbán escondido em cada esquina do poder.»


Francisco Louçã

*_*

Do que fala o Anacleto? As utilizações da semântica militar são de uso corrente, desde sempre e para todo o sempre, nos discursos medicinais e das políticas de saúde. Acaso os antibióticos e as vacinas não são uns dos melhores recursos que os humanos descobriram para “combater” as doenças? Estamos no reino dos clichés mais estafados – mas precisamente porque são úteis, eficazes, bondosos na sua ênfase retórica. No caso da crise da pandemia de coronavírus e suas consequências patológicas, a COVID-19, alguns dirigentes políticos aplicaram em discursos que se pretendiam institucionalmente fortes termos directamente relacionados com as guerras entre povos e nações. Estavam a recorrer a uma analogia de percepção e entendimento imediato para alertarem e prepararem as sociedades para alterações radicais na economia e estilo de vida que, exactamente, só comparam com situações de guerra militar mesmo que esta crise de saúde e de produção e consumo económicos tenha inúmeras e inevitáveis diferenças. O curioso é constatar que quem tal simetria adoptou nas democracias ocidentais não sofre de tiques ditatoriais nem se lhes conhecem pulsões bélicas. Foram precisamente aqueles que entram nesse retrato perigoso e decadente, como Trump e Bolsonaro, quem disparou na direcção oposta, negando durante meses as evidências que vinham da China e alastravam pelo mundo e preferindo o pensamento mágico e uma ignorância científica que não estará longe de ser criminosa.

O comentário deste comentador profissional (nessa condição o faz) é, portanto, absurdo. Não existe qualquer imagética guerreira a espalhar-se seja onde for, especialmente se falarmos da Europa, a não ser nos vulgares discursos mediáticos sobre aqueles que estão “na linha da frente” e a quem se tem reconhecido o justo “heroísmo” com que “lutam” arriscando a sua vida para salvar as nossas. Não existe, e é pena, pois há uma tradição guerreira, que os militares de vocação cultivam, inerente à génese da democracia – portanto, garante da liberdade sobre a qual se erigiu o Estado de direito. A religião e o exército, para um fanático como o Anacleto, podem não passar de excrescências imperialistas que os amanhãs que cantam estão fadados para apagar da História, daí ter carregado de lança em riste contra moinhos. Mas bastaria recordar os inventores atenienses da “política”, recordar Rousseau, recordar o 25 de Abril, para reconhecer que um exército não é mau nem bom, depende. Depende da comunidade.

No vídeo musical à disposição acima, vemos um dos maiores sucessos populares (em visualizações) com cantores portugueses. Os valores de produção da coisa são paupérrimos e a realização é amadora. Contudo, o efeito de mergulho emocional na audiência é imediato e os mecanismos de narrativa presentes (elementos das Forças Armadas Portuguesas, o apoio médico e social à crise, a bandeira nacional, a letra patriótica, a melodia lírica – e os artistas, com a sua semiótica corporal e vocal) despertam um sentimento de ligação colectiva profundamente envolvente. Ninguém de ninguém sai da experiência que o vídeo oferece com vontade de pegar em armas, de culpar chineses ou de abolir direitos cívicos. É precisamente ao contrário, ficamos unidos subjectivamente a qualquer outro ser humano que se encontre a sofrer ou a ajudar quem sofre – independentemente do género, idade, cor da pele, nacionalidade e profissão. Queremos imitá-los, ou saudá-los, agradecer-lhes.

Portugal teve uma guerra colonial que causou milhares de mortos, feridos, mutilados e traumatizados. Quando o regime mudou, esta gente foi alvo de esquecimento, desprezo e mesmo ostracismo. A um sofrimento indizível, o combate onde se pode morrer de um momento para o outro, seguiu-se um sofrimento inefável, a morte lenta na pobreza, na dor e na impotência. A cegueira ideológica à esquerda nunca se preocupou com eles e a cegueira ideológica à direita apenas os explorou oportunisticamente. E, apesar dos pesares, nos militares está depositada a arte da guerra sem a qual não teríamos sobrevivido como espécie e não nos teríamos civilizado.

A cegueira ideológica, ou egocêntrica, é um combustível inesgotável para os nossos comentadores profissionais.

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Children Who Hold “Benevolent” Sexist Views are Also Likely to Possess “Hostile” Ones
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From watching reruns to relationships, there are many ways of feeling connected
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Infant temperament predicts personality more than 20 years later
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From Voldemort to Vader, fictional villains may draw us to darker versions of ourselves
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People may know the best decision – and not make it
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In Epidemics, the Wealthy Have Always Fled
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‘Disease triangle’ indicates COVID-19 peak isn’t the end
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep1)

Foi o pulha certo para a pulhice do momento. Quando André Ventura declarou que o estado de emergência iria trazer de volta a “cultura da impunidade” estava a usar uma senha criada por Paula Teixeira da Cruz enquanto ministra da Justiça – “o tempo da impunidade“/ “o fim da impunidade” – a qual foi explorada à outrance por uma maioria parlamentar, um Governo, um Presidente da República, uma procuradora-geral da República, um procurador e um juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal como capa de perseguições políticas contra Sócrates e qualquer outro cidadão, com ou sem ligação ao PS, que pudesse ser apanhado e carimbado pelo Ministério Público como “cúmplice socrático”, num frenesim mediático-judicial que ainda hoje continua e continuará durante décadas na direita decadente.

Ventura apontou os holofotes para Armando Vara. Era o exemplo que tinha para dar do iminente, eminente e assustador perigo do estado de emergência, ver-se um fulano que foi condenado a 5 anos de prisão por causa de supostos crimes pecuniários tentados que nunca se realizaram, e por causa de 25 mil euros que nunca se descobriram na sua posse nem há prova de lhe terem sido entregues, a sair de um estabelecimento prisional por questões de saúde e ir para prisão domiciliária durante o período da pandemia. Acontece que Ventura estava a acertar em cheio no sentimento nacional, daí o silêncio com que a sua expressão de ódio desumano e violência cívica foi recebida. O regime e a comunidade concordam com o Ventura nesta matéria. Vara não merece perdão nem misericórdia.

Este blogue nasceu em Novembro de 2005 e, in illo tempore, eu não tencionava escrever sobre política corrente. Havia quem o fizesse sistemática e apaixonadamente no grupo inicial, o qual rapidamente cresceu com outras vedetas de igual calibre e vocação. Mas o balão rapidamente esvaziou e, apenas 6 meses depois, o blogue sofreu uma debandada quase geral e esteve para desaparecer ainda antes do Verão de 2006. Três malucos aguentaram o barco e eu aceitei manter a herança do posicionamento inicial, começando a dizer disparates sobre o quotidiano da governação e dos partidos. Factores imprevistos levaram a que o Aspirina B ganhasse uma notoriedade na então “blogosfera política” que ultrapassou a mais fantasiosa capacidade de previsão que tivesse alguma vez tido. Quando vi o Pacheco Pereira na Sábado (portanto, a troco de dinheiro) a garantir que este e mais dois blogues davam guarida a membros do Governo de Sócrates que neles escreviam sob anonimato – isto ao mesmo tempo que acusava esses blogues de lançarem calúnias, para ao mal não faltar a caramunha – não tive apenas uma experiência de pasmo hilariante, igualmente recebi uma profunda lição de antropologia.

Nestes quinze anos de acompanhamento diário da política nacional e de introdução à ciência política tenho sido um inveterado aprendiz. As minhas opiniões não ultrapassam a banalidade descuidada e não me recomendo a ninguém, antes sugiro a quem passa que gaste a ligação à Internet, ou o corpinho, com actividades que não provoquem remorso pelo inevitável desperdício dos preciosos neurónios. Porém, cumpro-me ao revelar neste dia comemorativo da liberdade e da democracia nacionais que a mais importante aprendizagem sobre Portugal, até à hora em que teclo, foi obtida ao ver a totalidade das audições da II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco. Motivava-me o retrato que Marques Mendes e Manuela Moura Guedes, para dar só os referentes mais espectacularmente doentios, fizeram na televisão a respeito de um indivíduo de seu nome Armando Vara. Disseram que ele era, em simultâneo, o maior dos incompetentes e o mais sofisticado dos ladrões. Acusaram-no de ter sido o singular arquitecto ou o sabujo verdugo da ruína de bancos e do Estado. Cuspiram-se para a câmara no desvario bacante de o assassinarem simbolicamente.

Ora, não se concebe situação de maior fragilidade política do que essa de já se estar acusado, condenado e preso e ainda ter de sair da cadeia para enfrentar um tribunal só de políticos. Um tribunal político onde todos os intervenientes, à excepção do inquirido, trabalham para a acusação. O único advogado de defesa permitido tratando-se de Armando Vara, o primeiro e único preso na História de Portugal por crime de tráfico de influências à data, só podia ser o próprio. O próprio contra todos, sem condições de se preparar para o embate e carregando a certeza de ir ser alvo de insultos, ofensas, humilhações e desprezo odiento durante o tempo da sua exposição na Assembleia da República. Parecia-me uma ocasião imperdível para, finalmente, ficar a conhecer os podres dessa figura que representa por antonomásia a corrupção e o alarme público, como agitou o Ventura há dias. Como é que ser tão desprovido de competências bancárias e tão manifestamente criminoso conseguiria resistir à avalanche de factos, de argumentação litigante e retórica letal que foi lançada contra a sua desgraçada pessoa por impolutos e ferozes deputados?

O que encontrei dividi em 12 episódios. Cada vídeo apresenta uma intervenção por partido que se reproduz na íntegra, mantendo a ordem sequencial da sessão. Acrescentei o vídeo da ronda final, em que todos os partidos lançam perguntas para Vara responder em conjunto e onde também deixa a sua última declaração, e ainda o vídeo da sua declaração inicial, prévia às intervenções dos deputados, a terminar a série.

Se alguém fizer o que fiz, ouvir as partes com sagrada curiosidade, vai ter um hercúleo trabalho para não se comover com o linchamento que nós todos estamos a fazer, ou a deixar fazer, a este cidadão, a este português, a esta pessoa.

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Coisas do Carvalho

«A austeridade aplicada em Portugal na crise do euro foi cega, excessiva e causou traumas na memória dos cidadãos e destruição desnecessária no tecido económico. Mas vale a pena recordar que essa política não resultou de uma deliberação consciente do Governo de Passos Coelho; foi imposta por agentes externos como condição para resgatarem as finanças públicas – mesmo que se possa sublinhar que Passos e os seus ministros a aceitaram com excesso de condescendência e, em alguns momentos, até com simpatia por acreditarem no seu poder para regenerar o país.»

21 – Abril – 20

Como é que pensa um fanático? Exactamente como um não fanático, a única diferença estando na amplitude, detalhe, ângulo da visão mental. Como neste paradigmático trecho sectário acima citado. Aparentemente, o Carvalho do pasquim acha que a austeridade entre 2011-2015 foi uma coisa assim a modos que milagrosa porque conseguiu destruir a economia sem ter causado danos sociais. É ele quem o diz – ou melhor, é ele que o não diz, quem recusa a visão sobre as consequência sociais e individuais de tanto erro junto.

Porquê? Que leva o fanático a ser obsessivamente selectivo na análise? Algo muito importante para todo e qualquer fanático, a moral. No caso, ele está preocupado em limpar moralmente os agentes dessa cegueira excessiva, traumática, destruidora e, afinal – como agora até um fanático tem de dizer depois do próprio FMI ter reconhecido o mesmo – desnecessária. Daí o “vale a pena recordar que” o pobre coitado do Passos, tão bom rapaz, não foi o culpado. Uns terríveis “agentes externos” obrigaram a gente séria a fazer umas coisas desagradáveis. E essa gente séria, inocente e ingénua, acreditou nos senhores estrangeiros e ficou com o coração cheio de simpatia e esperança. Eles só queriam “regenerar o país”, tem isso algum mal? Nenhum, devemos é ficar agradecidos.

«É por isso importante e interessante para o país pegar na experiência real de Passos Coelho e reproduzi-la no sistema de ensino. Só não entende isto quem for incapaz de separar Passos Coelho da sua condição social ou do seu passado político. Ser um outsider das oligarquias, não é pecado. Ser defensor (mais nas palavras do que nos actos) de uma ida “além da troika” para chegar a um neoliberalismo feroz não é um crime. [...]

[...] Passos prestou um serviço público ao gerir o país nos anos de chumbo da troika, ou ao ter coragem para afrontar os donos disto tudo. [...] há em Passos Coelho uma aura de coragem cívica e uma imagem de dignidade na forma como resistiu à troika que não justificam o quase ódio ou o ostracismo a que tantos o querem votar.»

7 – Março – 18

Passos fez-nos um favor, afirma o fanático. Passos não só deve ensinar como deve ser ensinado, reclama o fanático. Passos é um outsider das oligarquias, debocha o fanático. Passos é a estátua viva da resistência à troika, delira o fanático. O fanático não é apenas fanático, portanto mentiroso e bronco; antes e depois da sua monomania o fanático é um lírico descompensado a ladrar a quem passa.

«O seu tempo [de Passos Coelho] esgota-se. Talvez cedo de mais. Talvez injustamente. Talvez um dia volte a ser reconhecido pelo que fez por deliberação e teve de fazer por imposição da troika. Para o conseguir, terá de recuperar o capital político que perdeu este ano. Um período de pousio talvez lhe faça bem.»

14 – Dezembro – 16

Os editoriais deste fanático, actual director de um pasquim onde não só se calunia de boca cheia como se fazem manchetes com notícias falsas sem disso haver qualquer responsabilização ou arrependimento, um pasquim que foi o braço público de um dos maiores e mais abafados escândalos do regime, não têm qualquer influência sobre algum átomo com importância para a política e a sociedade. Se os seus patrões gostam da forma e do conteúdo, que sejam todos muito felizes até o Inferno gelar.

Acho é piada que o Público me peça dinheiro para sustentar o comité de apoio ao regresso de Passos Coelho à arena política. Só mesmo um fanático para ter essa lata.

Serviço público

A santa casa do jornalismo

NOTA

Quando se compara o que está aprovado pela classe no Código Deontológico do Jornalista, nos Estatutos do Sindicato dos Jornalistas, no Estatuto do Jornalista e no Regulamento da Carteira Profissional de Jornalista com o que a Cofina pratica no seu modelo de negócio só podemos tirar uma conclusão se só uma conclusão for o que nos importa tirar para começo de conversa: há uma aldeia habitada por irredutíveis caluniadores profissionais que resiste ainda e sempre ao Estado de direito.

Rapidamente se percebe que não estamos apenas perante uma aldeia, antes se trata de uma província densamente povoada. Há nela muitas aldeias e até cidades, com as suas vias de comunicação rápida onde os caluniadores e as respectivas mercadorias transitam de dia e, especialmente, de noite – até porque as mais valiosas saem directamente dos cofres do Ministério Público e dos tribunais. Faz-se a veniaga de noite para as indecências e as perseguições estarem frescas pela matina nos mercados onde o bom povo as vai buscar para a sua alimentação diária. Os vendilhões gritam alto, debochados e furiosos. Sabem-se blindados, impunes. É que aquilo que eles vendem, como não se cansam de repetir à gargalhada, é que é o verdadeiro “jornalismo”, o autêntico respeito pelo “interesse público”: dar ao seu público o que lhe interessa. Ai de quem se queixe que será logo corrido à pedrada ou acordará mergulhado no esgoto a céu aberto. A “liberdade” para estes “jornalistas” é o equivalente a ter uma licença de porte de arma e muita facilidade em descobrir inimigos prontos a abater em “legítima defesa”.

O regime não só convive passivo com esta gente (que é a nossa, claro) como a protege e apoia. O actual Presidente da República, o actual primeiro-ministro, o actual presidente da Câmara de Lisboa, para dar três exemplos à prova de estúpidos, já colaboraram ou ainda colaboram com os donos e as vedetas da indústria da calúnia, a qual é bem maior do que apenas o empório cofiniano. A última coisa que estes ilustres (e pelas melhores razões) representantes da República quereriam ter nos seus currículos e carreiras era a leve suspeita de terem beliscado o privilégio desta gente (que é a nossa, que somos nós) de emporcalhar e violentar o Estado e os nossos direitos.

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Self-Efficacy to Cope with Coronavirus
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A democracia não é para meninos

«Our greatest primary task is to put people to work. This is no unsolvable problem if we face it wisely and courageously. It can be accomplished in part by direct recruiting by the Government itself, treating the task as we would treat the emergency of a war, but at the same time, through this employment, accomplishing greatly needed projects to stimulate and reorganize the use of our great natural resources.

[...]

If I read the temper of our people correctly, we now realize as we have never realized before our interdependence on each other; that we can not merely take but we must give as well; that if we are to go forward, we must move as a trained and loyal army willing to sacrifice for the good of a common discipline, because without such discipline no progress can be made, no leadership becomes effective. We are, I know, ready and willing to submit our lives and our property to such discipline, because it makes possible a leadership which aims at the larger good. This I propose to offer, pledging that the larger purposes will bind upon us, bind upon us all as a sacred obligation with a unity of duty hitherto evoked only in times of armed strife.

[...]

But in the event that the Congress shall fail to take one of these two courses, in the event that the national emergency is still critical, I shall not evade the clear course of duty that will then confront me. I shall ask the Congress for the one remaining instrument to meet the crisis - broad Executive power to wage a war against the emergency, as great as the power that would be given to me if we were in fact invaded by a foreign foe.

For the trust reposed in me, I will return the courage and the devotion that befit the time. I can do no less.

We face the arduous days that lie before us in the warm courage of national unity; with the clear consciousness of seeking old and precious moral values; with the clean satisfaction that comes from the stern performance of duty by old and young alike. We aim at the assurance of a rounded, a permanent national life.

We do not distrust the future of essential democracy. The people of the United States have not failed. In their need they have registered a mandate that they want direct, vigorous action. They have asked for discipline and direction under leadership. They have made me the present instrument of their wishes. In the spirit of the gift I take it.»

Franklin D. Roosevelt – 4 de Março de 1933

Ler é só para quem pode

No início do recolhimento geral, há um mês, de imediato apareceram sugestões de ocupação do acrescido tempo de lazer dentro da residência que a enorme maioria da população iria forçosamente gozar. Séries televisivas e jogos, ginástica e culinária, a ordem é opcional e idiossincrática, foram as propostas mais populares. Num segundo nível, mas inevitavelmente, a leitura desse objecto cada vez mais vanguardista chamado “livro”.

Ora, a leitura tem características que permitem um envolvimento e fruição de prazer análogos, e em certas condições leva a experiências de profundidade afectiva e intensidade emocional superiores, aos que se desfrutam nas propostas audiovisuais, lúdicas, corporais e gastronómicas. Acresce poder ser uma actividade gratuita, bastando ter acesso à Internet, ou vizinhos com livros nas estantes, para preencher o calendário literário de uma vida e ficar de fora quase tudo do que ainda restará para ler. Proposta ganhadora? Nada disso.

Só lê quem pode, não basta saber ler. A ubíqua disponibilidade exterior não encontra correspondência na periclitante e volúvel disponibilidade interior. Quem cresce sem exemplos de paixão pela leitura, paixão pela aventura nos reinos da imaginação, paixão pelas descobertas intelectuais, paixão pela magia da alteridade que vence os limites do espaço e do tempo, não vai trocar a influência do meio e dos meios tangíveis pela influência dos fins e princípios intangíveis. Mas basta estar-se ansioso, porque realmente se está a passar mal por razões de saúde e/ou financeiras, ou simplesmente pela obsessão com que se reage às alterações e retórica mediática da pandemia, para igualmente não haver capacidade para ir ao encontro daqueles que nos esperam nos livros. Tão iguais a nós no que mais importa.

A lista que segue não pretende convencer ninguém. Fica tão-somente como ilustração do que é possível encontrar à distância da curiosidade. Mantive a sequência pela qual tenho estado a ler, ou a reler, algumas obras. Criei o hábito de ler trechos em sequência desta lista, apreciando a juliana de temáticas e estilos, mas não recomendo o método como preferível a outro qualquer.

Cá vai alho:

Dom CasmurroMachado de Assis

Escrever para viver o que foi vivido, talvez não haja mais universal motivação para deixar à vista as “inquietas sombras”.

Leal conselheiro, o qual fez dom Duarte. Seguido do livro da ensinança de bem cavalgar toda sella.

Para além de ser uma primeira e transparente exposição de um estado patologicamente depressivo em língua portuguesa, e quiçá por causa disso, o texto deste rei português é um autêntico manual de “mindfulness” séculos antes de o termo entrar nos meandros da psicologia e da cultura pop. Ainda não cheguei ao “bem cavalgar”.

CaçaEduardo Montufar Barreiros

Deliciosos retratos do Portugal oitocentista pelas memórias de fim de vida de um queque cujos melhores momentos da sua existência foram passados a caçar. A sério, o homem era mesmo maluquinho pelo tiro à passarada e deixou este livro para o provar e nos dar a provar.

Novelas do MinhoCamilo Castelo Branco

Apetece ir buscar a sequência inicial do Blue Velvet, o filme de David Lynch. Para lá do espectáculo de um quotidiano plastificado, logo ao lado no jardim e na rega, só um bocado mais abaixo na selva do relvado, há bebés e cães a brincar com mortos e monstros horripilantes num frenesim de voragem insana.

As pupilas do Senhor ReitorJúlio Dinis

Joaquim Guilherme Gomes Coelho foi médico. Neste romance, põe uma personagem também com essa profissão, “Daniel”, a ter um ataque de tesão apontado à noiva do seu irmão enquanto os dois cuidam de um velhinho prestes a bater a bota nos meandros diegéticos onde toda esta gente habita e fala. Tesão bem recebida pela sua destinatária, ou assim pareceu aos olhos dos dois médicos, personagem e autor. Não sei mas algo me diz que se devia começar a promover no ensino secundário a leitura desta prosa tão luminosa precisamente chamando a atenção dos interessados para o citado episódio prenhe de sugestões e interpretações.

Photographias de LisboaAlberto Pimentel

Do autor já tinha lido, devorado por razões bairristas, “A Estremadura Portuguesa – Primeira Parte – O Ribatejo”, que recomendo aos amantes da paisagem e da oligarquia portuguesas. Estas “photographias” nunca ultrapassam o nível de um olhar social que nem sequer chega a ser sociológico. São como uma viagem de charrete do Chiado a Belém e volta.

A cidade e as serrasEça de Queiroz

Entre outras tantas coisas fascinantes à disposição do afortunado leitor, esta é a obra em que Eça se confessa um putanheiro. Honi soit qui mal y pense.

Viagens na minha terraAlmeida Garrett

É possível encontrar camonianos. É possível encontrar pessoanos. É possível encontrar queirosianos. É possível encontrar saramaguianos. Raios, é até possível encontrar alçada-baptistianos. Há disso ao pontapé na imprensa, na academia, nos Cus de Judas. Só não encontro garrettianos. Cadê? Talvez seja uma raça extinta. Talvez apenas tenha de contar comigo, e com este monumento à arte de viver que grita “Amo a charneca”.

A correspondência de Fradique MendesEça de Queiroz

Entrar neste livro é o equivalente a entrar num templo da antiguidade, quando a antiguidade estava novinha a estrear. Ficar em silêncio durante e depois da sua leitura poderá ser a atitude mais apropriada. Porque sabemos que estamos, parágrafo atrás de parágrafo, aos pés de um deus. O deus do cinismo mais sofisticado e exaltante que a língua portuguesa conheceu até hoje.

Lisboa modernaZacharias d’Aça

Um português de lei, este Zacharias. Dá vontade de abraçá-lo e ir almoçar com ele. E depois ainda passar o tempo até ao jantar a ouvi-lo contar as suas memórias.