Triste sina a dos comentadeiros profissionais

«Ainda nos vamos arrepender de ter tolerado, alguns com bonomia, a alegoria da ‘guerra’ para descrever a resposta à covid-19. Estava-se a ver que a imagética guerreira se iria espalhar sem amanhã, os governantes adoram imaginar-se como Churchill de charuto ou como Eisenhower na sala dos mapas, com tanques miniatura à voz dos chefes (Schwarzkopf na “Tempestade do Deserto” é um mito mais infeliz, melhor ficar com Eisenhower). O problema é que uma guerra que não é guerra conforta governantes que se pensam como um comando militar, permitindo a ideia de que viveremos em exceção permanente. Não faltarão ministros inebriados pelo silêncio no espaço público ou pela vontade de calar oposições. Há um Orbán escondido em cada esquina do poder.»


Francisco Louçã

*_*

Do que fala o Anacleto? As utilizações da semântica militar são de uso corrente, desde sempre e para todo o sempre, nos discursos medicinais e das políticas de saúde. Acaso os antibióticos e as vacinas não são uns dos melhores recursos que os humanos descobriram para “combater” as doenças? Estamos no reino dos clichés mais estafados – mas precisamente porque são úteis, eficazes, bondosos na sua ênfase retórica. No caso da crise da pandemia de coronavírus e suas consequências patológicas, a COVID-19, alguns dirigentes políticos aplicaram em discursos que se pretendiam institucionalmente fortes termos directamente relacionados com as guerras entre povos e nações. Estavam a recorrer a uma analogia de percepção e entendimento imediato para alertarem e prepararem as sociedades para alterações radicais na economia e estilo de vida que, exactamente, só comparam com situações de guerra militar mesmo que esta crise de saúde e de produção e consumo económicos tenha inúmeras e inevitáveis diferenças. O curioso é constatar que quem tal simetria adoptou nas democracias ocidentais não sofre de tiques ditatoriais nem se lhes conhecem pulsões bélicas. Foram precisamente aqueles que entram nesse retrato perigoso e decadente, como Trump e Bolsonaro, quem disparou na direcção oposta, negando durante meses as evidências que vinham da China e alastravam pelo mundo e preferindo o pensamento mágico e uma ignorância científica que não estará longe de ser criminosa.

O comentário deste comentador profissional (nessa condição o faz) é, portanto, absurdo. Não existe qualquer imagética guerreira a espalhar-se seja onde for, especialmente se falarmos da Europa, a não ser nos vulgares discursos mediáticos sobre aqueles que estão “na linha da frente” e a quem se tem reconhecido o justo “heroísmo” com que “lutam” arriscando a sua vida para salvar as nossas. Não existe, e é pena, pois há uma tradição guerreira, que os militares de vocação cultivam, inerente à génese da democracia – portanto, garante da liberdade sobre a qual se erigiu o Estado de direito. A religião e o exército, para um fanático como o Anacleto, podem não passar de excrescências imperialistas que os amanhãs que cantam estão fadados para apagar da História, daí ter carregado de lança em riste contra moinhos. Mas bastaria recordar os inventores atenienses da “política”, recordar Rousseau, recordar o 25 de Abril, para reconhecer que um exército não é mau nem bom, depende. Depende da comunidade.

No vídeo musical à disposição acima, vemos um dos maiores sucessos populares (em visualizações) com cantores portugueses. Os valores de produção da coisa são paupérrimos e a realização é amadora. Contudo, o efeito de mergulho emocional na audiência é imediato e os mecanismos de narrativa presentes (elementos das Forças Armadas Portuguesas, o apoio médico e social à crise, a bandeira nacional, a letra patriótica, a melodia lírica – e os artistas, com a sua semiótica corporal e vocal) despertam um sentimento de ligação colectiva profundamente envolvente. Ninguém de ninguém sai da experiência que o vídeo oferece com vontade de pegar em armas, de culpar chineses ou de abolir direitos cívicos. É precisamente ao contrário, ficamos unidos subjectivamente a qualquer outro ser humano que se encontre a sofrer ou a ajudar quem sofre – independentemente do género, idade, cor da pele, nacionalidade e profissão. Queremos imitá-los, ou saudá-los, agradecer-lhes.

Portugal teve uma guerra colonial que causou milhares de mortos, feridos, mutilados e traumatizados. Quando o regime mudou, esta gente foi alvo de esquecimento, desprezo e mesmo ostracismo. A um sofrimento indizível, o combate onde se pode morrer de um momento para o outro, seguiu-se um sofrimento inefável, a morte lenta na pobreza, na dor e na impotência. A cegueira ideológica à esquerda nunca se preocupou com eles e a cegueira ideológica à direita apenas os explorou oportunisticamente. E, apesar dos pesares, nos militares está depositada a arte da guerra sem a qual não teríamos sobrevivido como espécie e não nos teríamos civilizado.

A cegueira ideológica, ou egocêntrica, é um combustível inesgotável para os nossos comentadores profissionais.

15 thoughts on “Triste sina a dos comentadeiros profissionais”

  1. O Anancleto, “aka” Francisco Louçã, desperta em mim um sentimento idêntico ao causado pelo Marques Mendes: rejeição e repulsa imediata só de olhar e vê-los.
    Preconceito? Admito que sim mas não consigo ultrapassar o facto de eles serem “gémeos”.

  2. Louçã é um tipo perigoso! A sua visão da politica e do poder conduziria a sociedade ao caos dos USA ou do Brasil…a direita radical deve-lhe muito…

  3. « mortos, feridos, mutilados e traumatizados. Quando o regime mudou, esta gente foi alvo de esquecimento, desprezo e mesmo ostracismo»
    Nada disso, foram sim bem e em ‘aproveitados’ da Esqª à Dirª.
    Relevo ao Manipulador Excelentíssimo,
    com votos dos enganados com uma pensão especial a antigos combatentes.
    Com estes, ignorantes sem perceber onde é que o patriota Paulo iria buscar
    uma miserável esmola que vai agora em 50 euros ano.
    Multiplicado por 300 a 400 mil, um dos ‘crimes’ económicos em que os imitadores de Ali Babá são peritos.

  4. o beato loução é tolo. essa coisa da guerra é um exagero , evidente, mas que dentro da histeria global criada pelos merda e pelos homens hipocondríaco, , lá que o Pm está a manter a cena dentro do controle , mostrando-se bastante sensato, lá isso está. parabéns.

  5. A muito contragosto fui ler o têsto do beato Louça ( realmente tem facies de clérigo e passa a vida a fazer sermões, deve pensar que lhe eleva o estatuto de conselheiro de Estado, ) – curiosamente, – e segundo notícia de 15 de Novembro de 2019 – indicado pelo PS, que também indicou Domingos Abrantes, do PC, e Carlos César, do próprio .
    Não sei por que é que o próprio não indicou elementos só do próprio, devem ser coisas do regimento ( voilá mais um termo do meio militar ) ou da mise en scene parlamentar .
    Eu calculava que ele estivesse a referir-se a pessoas do calibre de Viktor Orban, porventura Erdogan, e outros do género, por esses uzbequistões fora . E realmente, após leitura, vi que menciona Orban .
    Só que nem Orban consegue em definitivo o intuito que lhe aponta – porque a União Europeia não o consentiria, – como é manifestamente exagerado dizer que, existe um Orban em cada esquina.
    Portanto, em suma, um erro orbanístico .

  6. Mas bastaria recordar os inventores atenienses da “política”, recordar Rousseau, recordar o 25 de Abril, para reconhecer que um exército não é mau nem bom, depende. Depende da comunidade.
    Explêndido texto , concordo de princípio a fim .
    Há quem ainda não evolucionou dos clichés estereotipados de leninistas e imperialistas. O mundo é amplo, pula e afortunadamente muda tanto nas pessoas como nas opiniões. O problema da olhada de Louça tem o seu paradigma na Espanha, na que , por causas varias, muitos ainda misturam alhos com bugalhos o falarem de uniformados.

  7. O Louçã deste texto é o mesmo e igual desde que chegou à ribalta da política. Contudo neste texto deu-lhe para explicar com maior evidência o que é, como é e o que pensa e projecta nos outros.
    Filho de comandante militar e amante emprenhado de Trotsky, chefe político e estratega militar do Exército Vermelho Revolucionário, tal dá-lhe basta teoria ideológica para, com mais ou menos psicologia manhosa, conceptualizar nos políticos actuais precisamente aquilo que ele seria se estivesse no lugar deles. A “imagética guerreira” do nosso Louçã não nasce de qualquer acção ou facto externo acontecido que indicie tal mas sim a partir de dentro de si.
    Esta imagética guerreira é, pura e simplesmente, de lavra anacleteana e idologicamente de origem retintamente trotskista. E é a mesma lógica que o levou ao desastrado slogan de “que correr com Sócrates é o primeiro passo para resolver todos os problemas do país” com o qual justificou o seu e de suas pupilas e pupilos levantar ao alto as mãozinhas brancas e lustrosas no ar naquele célebre dia na AR.
    E esse, talvez, não seja o menor mal introduzido na política pelo Anacleto mas sim o facto de ter feito escola no Bloco.
    Por lá, nota-se, mal abrem a boca o estilo e tiques à maneira da imagética anacleta.

  8. Sr. Neves:
    Nota-se a pouca familiaridade sua,e do Anacleto,com as coisas castrenses. Terá pouca importância ao nível da intelectualidade, mas dá jeito saber qual a sua mão direita. Ou saber rastejar,em dias de pontaria baixa e sem máscara praticável… Familiaridade com Trotsky, isso então é o cabo dos trabalhos… A Revolução Permanente,ali, no Conselho de Estado? Ao lado do Lobo Xavier e do Marcelo ? E dos outros gerontes? Ná,se lhe nota arremetida pronta terá de ir procurar,no bom Louçã, outra costela,outro aguilhão que não o da vítima de Ramón Mercader.
    Aquilo é mais uma coisa para que dígamos… a caravana passa e quem está no palanque está,e quem não está, estivesse!
    A vida não é isto,Neves! A vida é sangue,sangue!

  9. Se querem ver o Francisco Louçã a rasgar as vestes,a espojar-se no chão e a consumir-se num fogo ardente,
    falem-lhe no RBI …

  10. de que falará?
    só se o valupi não tiver lido o resto do artigo lhe pode ter passado ao lado a refrencia à guerra entre a china e os usa, económica, por enquanto.
    mas também começa a ser um pouco habitual, num artigo que aponta baterias (também sei fazer) à lógica capitalista por trás da manufactura e distribuição de medicamentos e como ela nos trouxe a esta situação e promete prolongá-la, o valupi prefere fazer “fogo amigo”.
    serão certamente os amanhãs que cantam que contaram ao valupi enquanto jovem que o capitalismo inevitavelmente traria e que tardam em chegar, a razão deste quixotesco post.

  11. li agora o comentário do melhor psicanalista à distância do mundo, josé neves.
    quando puder faça a minha carta astral, por favor.
    desde já obrigado

  12. Conversa fiada a vossa. O que se passa é que não perdoam ao FL (a quem chamam Anacleto tal como o MRPP chamava ao AC Barradinhas Cunhal), o ter votado contra o PEC 4.

  13. exactamente ò mickey, só a direita aplaude cenas dessas. alguma vez o passos tinha chegado a presidente sem a ajuda do intelecto do anacleto e dos comunas arrependidos? claro que não, mas também lhes garante umas gorjetas e presença comentadeira nas televisões direitolhas.

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