Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Breve retrato de Mário André

Passa o dia a viajar como um cigano
Entre a Lezíria e a Estrada de Pegões
Respira o verde todos os dias do ano
Entre a casa e a Escola de Campeões

Chega a esquecer-se das suas lesões
No esforço de curar quem o procura
No relvado eles correm como leões
Na marquesa sofrem com amargura

Passa o dia a viajar como um cigano
De terra em terra a fazer tratamentos
Os olhos são Atlas do corpo humano
Percebe uma lesão em dois momentos

Tudo o que diz é genuíno e verdadeiro
Tudo o que faz tem o toque dum artista
A sua vida não se esgota no enfermeiro
A sua alma está para lá do massagista

Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

Vinte Linhas 257

«Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»

Esta tempestade num copo de água que por aqui passou no «aspirinab» a propósito dos «posts» sobre a dedicatória rasurada pelo Nobel 98 e o poema «Rosa Luz» leva-me a lembrar duas ou três coisas essenciais nesta matéria. É preciso olhar com distanciação para estas coisas e saber separar bem o percurso das margens. Alguns não perceberam nada e como não estão a par do assunto mas gostam de te opinião, tentaram ver na crítica ao gesto da rasura dos nomes do «Levantado do chão» uma guerra pessoal. Não preciso de dizer que a pessoa em causa não me interessa absolutamente nada. No poema «Rosa Luz» tentaram arranjar um problema sem perceber que eu nunca iria alterar um poema meu por causa da métrica ou das sílabas. Basta pensar que os professores universitários Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco não perderam nenhum tempo com isso quando discutiram a tese de mestrado sobre a minha obra. Falaram apenas de coisas substanciais e importantes que integram a tese de mestrado do escritor Ruy Ventura. Daniel de Sá apenas propôs uma nova redacção para uns versos, nada mais. Não é um drama. Eu naturalmente não a segui porque se a seguisse o poema já era outro. O azar foi ter havido entradas à margem das leis, como se diz no futebol. Mas ele já estava farto depois de incidentes anteriores. Aprendi com o Agostinho da Silva que as críticas ou os louvores são apenas opiniões; quem tem um caminho segue o seu caminho. A malta aqui no Bairro Alto diz de outra maneira: «Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»

Fala de Leonel Pontes a Cristiano Ronaldo

Tu comias uma banana dentro de um pão
E nunca paravas de jogar em toda a Ilha
Nos torneios diários de futebol de salão
Dando às equipas um toque de maravilha

Nas férias eu já não era o teu treinador
Mas o amigo sempre atento e preocupado
Procurando que te alimentasses com rigor
E seguindo os teus passos por todo o lado

Em Lisboa eu era então o teu motorista
E pronto a ir buscar-te a qualquer hora
Tu ligavas mal o avião chegava à pista
E nós ficávamos a falar pela noite fora

Agora tu fazes anúncios de publicidade
Não tens tempo para o treinador antigo
Mas nada destrói a força duma amizade
E nunca deixei de ser muito teu amigo

Rosa Luz

Há uma rosa a arder. Já não é lume
Apenas foco de luz sem combustão
No fósforo mal aceso deste ciúme
Só sobejaram os sinais da tua mão

A tua boca foi o botão anunciado
Os teus dedos o que ficou da haste
Procurei a tua voz em todo o lado
Mas foi na rosa ardida que ficaste

Vinte Linhas 256

Com que então «Digna-se estar presente» o Nobel

A Secretaria Geral do Ministério da Cultura enviou-me um convite no qual José António Pinto Ribeiro, o ministro da cultura, me convida para a inauguração da exposição «José Saramago – A consistência dos sonhos» organizada por Fernando Gomez Aguilera. Até aqui tudo normal. Mas a segunda parte do convite contém uma frase estranha «Digna-se estar presente o escritor José Saramago.» E digo estranha porque assim até parece que ele está num céu demasiado azul e demasiado alto de tal modo que se digna descer até nós. Vindo deste ministro que aparece a defender o acordo ortográfico como se dependesse dele a salvação do Mundo e que ainda há dias vi numa cerimónia protocolar na Biblioteca Nacional a impedir de modo hostil que um fotógrafo trabalhasse (fotografando o ministro) na entrega do espólio de José Cardoso Pires ao Estado Português, cheira um bocado a esturro. Ainda se o Nobel se dignasse estar presente para explicar porque fez desaparecer depois de 1992 os nomes das pessoas do Lavre que lhe contaram as histórias do livro «Levantado do Chão» e sem as quais o livro nunca teria sido escrito por uma pessoa que nunca viveu no campo mas sim na Penha de França… Além do nome da Isabel da Nóbrega, são estes os nomes suprimidos na dedicatória: João Domingos Serra, João Basuga, Mariana Amália Basuga, Elvira Basuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António Catarro, José Francisco Curraleira, Maria Saraiva, António Vinagre, Bernardino Barbas Pires e Ernesto Pinto Ângelo. Mas não. Ele não se digna fazer isso. Tal como eu não vou lá pôr os pés. Safa!

Livros, gravuras, postais antigos

A porta que se abre na manhã fria
Vai revelar o mundo concentrado
Na altura das estantes da livraria
É possível viajar por todo o lado

Entre autores e títulos há viagens
Num mundo interior que perdura
Outros querem a luz das paisagens
Entre a cor e a sombra da gravura

Entre um livro raro e outro antigo
Entre a segunda mão e a novidade
Acabo por encontrar o que persigo
Para um texto sobre a minha cidade

Há muitos anos que Lisboa é minha
Quarenta e dois para ser mais exacto
Na livraria na estante mais sozinha
O teu olhar faz comigo um contrato

Sem notário ou registo de escritura
Sem cartório e testemunhas a assinar
No tempo de ansiedade e de procura
O teu olhar acende a bússola do lugar

Sonho de mulher na cidade de cimento

Teu corpo é uma planície pequenina
Onde eu sou um lavrador à procura
De fazer com a língua na tua vagina
Sementeiras de paixão e de ternura

Faço dos meus lábios uma charrua
Bem levada pela força dum tractor
E à noite quando vem a luz da Lua
Teu corpo é uma seara só de amor

Na tua boca-vulcão sugas o lume
Aceso na pele dos meus sentidos
Enlouqueço a pensar no perfume
Nos dias longe de ti tão perdidos

A tua boca é uma oitava maravilha
Pois concentra como em ninguém
A força impetuosa de uma filha
E a serena sabedoria de uma mãe

Continuar a lerSonho de mulher na cidade de cimento

O livro da minha vida – Dia Mundial do Livro

«Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira

Ler «Uma abelha na chuva» em 1969 numa Lisboa temerosa, vagarosa e desenhada a preto-e-branco foi, para mim, a descoberta de um escritor e de um mundo. Carlos de Oliveira escrevia romances como quem escrevia poemas, sem excessos palavrosos, com uma carpintaria essencial. As personagens movem-se na Gândara, a região onde o autor viveu a sua meninice: «terra areenta, infértil, dunas, lagoas pantanosas, pinhais, casas de adobe». As duas figuras-chave do livro continuam ainda hoje para mim inesquecíveis – Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre. E o conflito entre a aristocracia decadente e a burguesia em ascensão: amor e desprezo, ciúme e prazer, ódio e ternura. Notável é neste livro de 1953 como o autor pressente (mais de vinte anos antes…) o regresso dos «retornados» e os seus conflitos pessoais e sociais. Eu tinha dezoito anos e a minha paixão pela literatura nascera no Ciclo Preparatório em Vila Franca de Xira com os poemas de Cesário Verde e com os contos de D. João da Câmara e de José Loureiro Botas. O primeiro dava-me o Mundo, o segundo dava-me a Cidade, o terceiro dava-me o Campo no Inverno e a Praia no Verão. Mais tarde as fotografias de Augusto Cabrita e o filme de Fernando Lopes com Laura Soveral e João Guedes nos principais papéis vieram dar outra visibilidade ao livro em cujas páginas a morte duma abelha pode ser também a metáfora da morte dum certo tempo português. E este romance é a perfeita memória descritiva dessa mesma morte. Porque tudo aqui funciona em harmonia, o tempo interior das personagens, seus sonhos e angústias, mistura-se de forma feliz, acertada e completa com o tempo geográfico, uma aldeia perto das lagoas pantanosas mas a dois passos do mar onde as ondas das marés vivas levarão de noite o corpo do cocheiro assassinado. «Uma abelha na chuva» é um excelente ponto de partida para alguém descobrir o autor de uma das mais importantes obras de poesia e romance do século XX. Ainda me lembro, tantos anos depois, das últimas palavras do romance depois de alguém num grupo de mulheres chamar o Dr. Neto porque a Clara em desespero se tinha atirado ao poço da olaria: «A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»
Nota final – Só o facto de pensar que estas palavras possam vir a ser traduzidas para brasilês deixa-me, desde já, arrepiado.

Vinte Linhas 255

Atirados ao chão na Juventude da Galiza

No passado dia 3 o poeta Adalberto Alves apresentou o seu mais recente livro «No Vértice da Noite» no palacete da Juventude da Galiza ali ao Torel. Falou o editor enquanto por cima de nós uma gaita-de-foles não parava de tocar. Falou Elsa Rodrigues dos Santos e a gaita continuou. O actor João d´Ávila leu poemas do livro e a gaita não parou. O autor do livro agradeceu e a gaita subiu de tom. Luísa Amaro e António Eustáquio tocaram três pequenas peças (guitarra portuguesa e guitolão) e não tocaram mais porque a gaita-de-foles não parava de fazer barulho por cima de nós. Quando no Verão passado o José Saramago se saiu com aquela do «mais cedo ou mais tarde vamos ser integrados na Espanha» muita malta não percebeu o alcance. É que ele já estava integrado desde 1992 quando a espanhola o obrigou a apagar a dedicatória às pessoas do Lavre que lhe contaram as histórias do livro «Levantado do chão». Como essas pessoas foram apresentadas ao Nobel porque Isabel da Nóbrega apareceu no Lavre com uma forguneta cheia de livros (alguns da RDA e da Bulgária…) para a cooperativa local, a espanhola mandou apagar não só o nome da Isabel mas também o das pessoas que o escritor lá conheceu através da Isabel. Esta cena horripilante vivida na Juventude da Galiza com as gaitas-de-foles por cima das nossas palavras é um terrível exemplo da dita «integração» na Espanha avançada pelo Saramago. O poeta João Rui de Sousa a quem saudei na sala ficou quase apagado perante a barulheira da gaita-de-foles. Quando desci a calçada do Lavra direito aos Restauradores com os amigos Fernanda, Patrícia e Eduardo, a gaita-de-foles da Juventude da Galiza ainda não se tinha calado. Integração? Safa!

Dona Viola Minha Dama

Viola da Terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria uma voz divina
Na humana condição

Viola de cinco parcelas
Nas mãos de José Elmiro
Traz a luz das estrelas
Até ao ar que eu respiro

Volta o som das trindades
Júlia, David, José Beirão
Um ciclone de saudades
Sai de dentro do violão

Viola regional Terceirense
Por ela a Terra tem voz
Assim a morte se vence
Nas festas de todos nós
Continuar a lerDona Viola Minha Dama

Vinte Linhas 254

Uma livraria com livros e muita música

Na passada quinta-feira (27 de Março) aconteceu música nova numa jovem livraria (Trama) na Rua S. Filipe Nery ao pé dos CTT do Rato. Estava frio e sair de casa não é fácil pois tudo nos envolve na chamada «cultura de apartamento». As pessoas são convidadas a comprar filmes e CDs evitando assim idas ao cinema e aos concertos. Mas foi bom, foi positivo ter decidido sair às 21h 30m de casa para ouvir a música do novo grupo, tão novo que deu na quinta-feira a sua primeira audição pública. O nome do grupo é «Bruno Pernadas Emsemble» e integra os seguintes elementos: Ricardo Ribeiro (clarinete baixo, clarinete soprano e sax alto), Pedro Pinto (contrabaixo), João Correia (bateria e percussões) e Bruno Pernadas (piano, guitarra, ukelele e samples). O concerto constou de oito peças musicais e um encore. Oscilando entre o registo do jazz e da música experimental com passagens pelo tipo de música conhecida por «Indie» mas cuja definição é um pouco difícil, foi um ponto de encontro feliz numa livraria onde em vez das palavras nos serviram notas musicais articuladas de modo a percebermos que só pode improvisar quem tem uma boa cultura musical de base. Os músicos todos eles surgiram a interpretar ora melodias com princípio, meio e fim ora discursos musicais integrando outros sons como por exemplo um boletim meteorológico. Lembrei-me logo dos Simon & Garfunkel que uma vez colocaram a voz do locutor de noticiários da NBC sobre a guerra no Vietname em sobreposição com a célebre canção «Silent Night». Não se trata de comparar mas apenas de perguntar: teremos assistido ao nascimento de um grupo musical com muita música a fazer no futuro? Espero muito sinceramente que sim.

Vinte Linhas 253

Dinis Machado na mais velha estação de comboios do Mundo

A fotografia belíssima da estação do Rossio que Fernando Venâncio colocou no «aspirinab» levou-me a recordar algumas memórias. Um dia na Veiga Beirão fui com Dinis Machado falar numa turma de Português. A pedido do professor escrevi estas palavras: «Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar: estamos no largo do Carmo, perto da mais velha estação de comboios do Mundo, chama-se Rossio, podia chamar-se memória, particular ou colectiva. Afinal todos nós ficámos uma vez de nariz espetado no vidro, afogados em malas, recados e solidão. Todos nós já fomos ao país dos tios, gente de poucas palavras, calos nas mãos e um amor silencioso e sábio, só para nós. Todos nós tivemos uma tia Henriqueta, a despedir-se com sacos da nossa comida com lágrimas no rosto e mãos engelhadas, vestida de preto, numa noite sem luz. Dinis Machado andou por aqui ouvindo a banda da Guarda Nacional Republicana (que foi feito do palanque?) em concertos dominicais, um jovem muito jovem ao pé dos mais velhos que já falavam de empregos, de negócios, de futebol, de fazendas da Covilhã e da reforma quando ele sentia o fato apertado, respirava o ar puro das manhãs e metia ao dedos debaixo do colarinho da camisa para dar uma folga ao pescoço. Dinis Machado atravessou este largo com livros da livraria «Barateira», em circulação no seu grupo de amigos, resmungando a uma pergunta («O livro do Malraux é da Barateira?») com uma resposta irónica – «Donde é que querias que fosse? Da Universidade de Coimbra?». Mais tarde, no café, há-de rematar um desejo dum companheiro («Gostava de ler um livro leve!») com uma frase sábia: «Mão há livros leves. Todos pesam toneladas.»

Vinte linhas 252

«Não é uma boa prosa que ambiciono» (Miguel Torga)

Isto de escrever em público e para o público, tem que se lhe diga. Não é fácil, não é como nos «Morangos com açúcar» onde acontece tudo e ninguém paga nada, desde a prancha de surf ao copo de água tónica. Outro dia falando com o director-geral de um jornal sobre as suas crónicas e lendo alguns dos meus textos e dos outros participantes deste Blog lembrei-me logo das palavras de Miguel Torga. Aqui vai a transcrição: «Não é uma boa prosa que ambiciono mas sim uma claridade gráfica. Gostaria de restituir às palavras a alma que lhes roubaram e que a língua tivesse, nas minhas mãos, além da graça possível, uma dignidade insofismável. Que cada frase, em vez dum habilidoso disfarce, fosse uma sedução e um acto. Uma sedução sem condescendências. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades, na porfiada esperança de que a sua claridade se veja e se entenda ao mesmo tempo. E a vejam e a entendam, sobretudo, os que não são profissionais da literatura. Muito mais do que o juízo da crítica encartada interessa-me principalmente a opinião do leitor comum.»
O texto é de Fevereiro de 1958 mas continua válido e actual.

Balada da Ericeira

Um Tê Zero na Ericeira
Pôr-do-sol de encantar
Vou logo à segunda-feira
Mais tempo a ver-o-mar

Livro feito por Fernanda
Mistério, Ilha Terceira
Uma aventura comanda
Estas tardes da Ericeira

Alto da Forca, moinho
Não faz farinha, é ruína
Num escritório vizinho
As traduções de Regina

Na Brincosa, Anabela
Com aulas e o mestrado
Não pode estar à janela
Tem o seu tempo ocupado

Loja da Berta, enxoval
Lençóis, camisas, toalhas
É o mapa de Portugal
Num desenho sem falhas

Continuar a lerBalada da Ericeira

Vinte Linhas 251

«Não é preciso revisor; os computadores fazem isso!»

Esta frase é célebre e foi ouvida numa redacção nos anos 90 a um «engenheiro» que administra jornais como poderia administrar supermercados ou lojas de bricolage. Hoje lembrei-me dessa frase pois caíram na minha mesa de trabalho três exemplos de como ele está profundamente errado. Vejamos o primeiro caso: no «Diário de Notícias» de ontem (15-3-2008) aparece a palavra crisóstomo para definir a lampreia quando deveria ter sido empregue a palavra ciclóstomo. Sim, o «ciclóstomo» é que é «a ordem dos peixes que compreende as lampreias e formas vizinhas». A Revista «Guias Convida» dedicada ao Bairro de Santos apresenta uma entrevista a Raul Solnado sobre a Sociedade Guilherme Cossoul que, num texto assinado por Isabel Lindim, terá dito: «Iam lá muitos poetas. O Possidónio Muralha, por exemplo, que uma vez jogou pingue-pongue comigo.» Claro que não disse; o nome do poeta é Sidónio Muralha, Possidónio Cachapa é outro autor, muito mais moderno. Entretanto a Revista do Círculo de Leitores no seu nº 176 apresenta Anabela Natário, jornalista que eu conheço desde os tempos em que ela trabalhava no «Correio da Manhã» em 1982, como tendo nascido na Foz do Douro em 1942, licenciada em Direito e advogada no Porto entre 1966 e 1983. Não, não pode ser. Estes dados pertencem a outra pessoa, por acaso do sexo masculino, chamado Vasco Rebordão da Graça Moura, primo do escritor António Rebordão Navarro. Coitada da Anabela Natário, assim de repente promovida a «mais velha» – uma coisa que em África até tem muito prestígio mas que aqui na Europa nem por isso. Fiquemos por aqui. Mais uma vez se prova que os computadores podem fazer muita coisa na ortografia mas só uma pessoa pode perceber os erros de sentido. O «engenheiro» não tem razão, os computadores não fazem isso…

Vinte Linhas 250

«Prix Nationale Blaise Cendrars» para um poeta português

Liberto Cruz, com o poema «Partir», foi o vencedor do Prémio Nacional Blaise Cendrars de 2008. O júri, presidido por Miriam Cendrars, atribui o prémio com o nome de seu pai ao poema que veio de Lisboa destacando-o como o melhor entre 415 participantes. Para os leitores do nosso Blog aqui fica em primeira mão o poema de Liberto Cruz:

«São idênticas as águas / de nossas terras e gentes / e um sopro de memória / nos habita e conduz.
Por cá ou por lá correndo / é por líquidos caminhos / de mares e oceanos / que nossa vida jogamos.
Partimos para voltar / e só vacila quem quer. / Se perdemos ou achamos / não importa. Nosso lema / é seguir. Nossa viagem / é terra já inventada. / Todo o espaço é / como tempo já vivido.
Por toda a parte soubemos / raízes distribuir / O exílio não vence / quem nasceu para lutar. / São nosso companheiros / o sonho e a coragem / mais a raiva e o luto / com desejo de partir.
A saudade é a nossa / arma. Dela nos servimos / dia a dia. Traiçoeira, / é difícil enfrentá-la: / ora súbito nos mata / ora não deixa morrer.»

(notícia elaborada por José do Carmo Francisco)

«A Terceira Atlântida» de Fernanda Durão Ferreira

A história começa em 26-7-1880, quando o súbdito britânico Gordon Mason, viajando de Southamptom para o Rio de Janeiro, em escala técnica na Ilha Terceira, assiste com o imediato do navio «Santa Helena» a uma tourada na Vila Nova. Depois da tourada o lanche, depois do lanche a conversa e, chegada a noite, o amigo terceirense do imediato do navio emprestou dois cavalos e cedeu um criado para os acompanhar até Angra do Heroísmo.

No caminho, encontraram dez homens da «Justiça da Noite» que se dedicavam a derrubar um muro e um portão com marretas e cordas. Passado o susto inicial, com a preciosa ajuda do criado, o viajante (e o imediato) seguiram viagem e, já a caminho do Rio de Janeiro, ouviu a bordo um professor de História afirmar: «Esses e outros costumes são quase tão antigos como a própria Ilha. Ilha que há muitos, muitos séculos tinha um outro nome e possuía outra cultura.»

As touradas à corda são hoje uma prática igual à que foi descrita por Platão com os dez pastores a serem a memória dos dez reis da Atlântida. A «Justiça da Noite» que funcionou até à segunda metade do século XX é a memória da justiça dos dez reis da Atlântida, pois nesse tempo, como escreveu Platão, «o rei não era senhor de condenar à morte sem o assentimento de mais de metade dos dez reis.»

O próprio rei D. Afonso V, numa carta de mercê ao cavaleiro Fernão Teles de 10-11-1475, escreve o seguinte: «Faço mercê de quaisquer ilhas que achar, ilhas despovoadas, ilhas povoadas e ilhas povoadas que ao presente não são navegadas nem achadas nem tratadas por meus naturais.» Como se percebe pelas citações, este livro tem muito que se lhe diga sobre as raízes da tradição Atlante nos Açores. Mas ficamos por aqui, lembrando só o que Vitorino Nemésio escreveu um dia: «A Geografia para nós vale tanto como a História».

Editora: Zéfiro
Prefácio: José Fonseca e Costa

As mulheres de 53 anos aparentam 35

Uma das memórias mais doces e mais permanentes da minha infância é a das quadras das cantigas de roda da escola primária no Montijo. As meninas cantavam assim:

Fui lavar ao Rio Lima
Cheguei lá sem o sabão
Lavei a roupa com rosas
Ficou-me o cheiro na mão

Um dia destes, uma querida amiga (que aprendi a conhecer melhor numa revista literária onde ambos fizemos tarimba jornalística) fez 53 anos. Logo me lembrei de lhe dedicar uma quadra de sabor popular sugerindo uma estrondosa troca de algarismos. Foi assim:

Trinta e cinco na verdade
São os anos que respiras
O bilhete de identidade
É um poço de mentiras

A resposta via SMS foi um longo «Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!» seguido de um «Bom dia!»

Também me lembrei de uma quadra famosa do João de Deus feita a pedido de um vizinho que, perante a morte de um cunhado, se deslocou a casa do poeta com o irmão do falecido pedindo um epitáfio, mas onde eles constassem. O poeta fez num instante a vontade aos dois vizinhos. Assim:

Aqui jaz João Morgado
Homem honrado e benquisto
Seu irmão e seu cunhado
Mandaram aqui pôr isto

Tudo isto para dizer que fica sempre bem dizer a uma senhora de 53 anos que na verdade tem 35, e que o erro é do BI.

«O império dos pardais» continua no Rossio

Depois de ter escrito a biografia do rei D. Manuel I, o historiador João Paulo Oliveira e Costa acaba de fazer um livro em tudo diferente. Chama-se O império dos pardais é uma edição Círculo de Leitores e faz do Rossio o palco privilegiado para as personagens se misturarem, se envolverem e se defrontarem. Este Rossio que ainda hoje continua a fervilhar de gente das mais desvairadas caras, raças, cores, credos e nomes.

Hoje, como no tempo do romance, os pardais continuam a aproveitar os bocadinhos de pão que sobejam da luta entre as gaivotas e os pombos. No romance as potências da Europa são a França, o Império Alemão e a Inglaterra. Como hoje, afinal.

Para além das descrições vivíssimas da zona portuária do Tejo, para além da importância decisiva da Irmandade de Moura, o grupo dos amigos do então duque de Beja, para além das peripécias dos serviços de espionagem e de contra-informação, a mim fascinou-me em particular a morte de um marinheiro, «mestre» Felício, em Beja. O rei D. Manuel I visita-o no leito de morte para garantir que está ali por gratidão e respeito para lhe agradecer as viagens de exploração pelo oceano que não foram registadas pelos cronistas nem tiveram direito a diário de bordo.

Na história continua a haver tempos nebulosos e personagens difíceis que nunca vão sair dos subterrâneos do esquecimento. São pessoas que deram tudo por uma causa mas não foi conveniente divulgar os seus nomes, os seus trabalhos e os seus dias.

Este livro deixa-me reconciliado com uma certa ideia de Portugal. E não falta um estrangeiro (um dinamarquês) para nos dizer lucidamente aquilo que nós não somos capazes de descobrir. Até nesse pormenor este é um livro profundamente português.