Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 377

«Todas as nossas filarmónicas perdidas…»

Hoje domingo dia 12 de Julho de 2009 pelas 11 horas da manhã aconteceu uma coisa quase mágica. Debaixo daquela árvore do Príncipe Real que dá muita sombra e onde gostavam de parar dois que a Terra da Verdade já lá tem (Agostinho da Silva e Eduardo Guerra Carneiro) surgiu a Filarmónica Frazoeirense de Ferreira do Zêzere para tocar durante 30 minutos várias peças musicais debaixo daquela sombra.

Nasci perto de uma «casa do ensaio» e sou bisneto, neto, sobrinho, sobrinho-neto e primo de filarmónicos rurais. Lembro-me bem de ver grupos de homens chegarem dos trabalhos do campo e, depois de comerem em casa qualquer coisa à pressa, irem para a «casa do ensaio» ás vezes com o pó da terra preso aos vincos das calças. E lembro-me bem de achar (já nessa altura) quase mágico esse encontro luminoso entre o pó da terra e a pureza perseguida dos sons lidos nas linhas das pautas nas estantes de madeira.

(Tantas estantes de madeira que o meu avô fez para malta amiga com bocados que sobejavam das portas e das janelas, ainda hoje devem servir e ele já morreu em 1979…)

Depois passei a tarde no Rossio onde as doze filarmónicas foram chegando via Rua Augusta para tocarem o hino respectivo e depois uma peça em conjunto – «Lisboa à noite». Por fim um grupo formado com elementos das mais diversas paragens do país (de Vila Real de Santo António a Crestuma, de Seia a Alcácer do Sal) foi dirigido pelo maestro Délio Gonçalves. Diz um poeta meu amigo (e tem um livro com um título assim) que a nossa vida é as Filarmónica que vamos perdendo. Esse poeta chama-se Mário Machado Fraião e está certo. Hoje foi um dia mágico: as filarmónicas vieram de novo.

Gruppo Musicale Assurd ou A voz da Terra

Uma concertina e três pandeiretas fazem do quadrado negro do palco o redondo branco de uma eira.

A luz do campo na noite da cidade.

A voz das mulheres precipita o resto: faz subir do rés do pó a força da voz da Terra.

Essa mesma Terra que, a exemplo das mulheres, multiplica a vida numa sucessão de sementeiras e colheitas.

Neste palco negro os bailarinos e as vozes das mulheres do grande Sul lembram que a vida nasce de uma apoteose líquida de lágrimas, de água e de sangue.

Chegam de Itália e talvez não saibam que Fernando Pessoa nasceu neste largo de São Carlos, que os sinos da Basílica dos Mártires são os sinos da sua aldeia e que nos seus poemas as ceifeiras cantam, as pobres ceifeiras.

Os rapazes parecem recém-chegados de uma viagem breve ao outro lado do Adriático – uma cidade croata onde o preço da carne é mais baixo.

Depois entram na aldeia e apaixonam-se por aquelas raparigas da planície, levantam-nas no ar como quem segura uma bandeira, um pendão, uma imagem sagrada, todos os dias repetida na grande procissão da vida.

Entre cereais invisíveis, entre gestos de trabalho transparente, entre casamentos sonhados, a única verdade é a do amor. A única certeza é a dum vendaval de dúvidas. A única medida é amar sem medida.

A chuva de aplausos no final não veio apagar a memórias desses sons belos e terríveis, gritados em força, altura, extensão e timbre.

Eles, esses sons inesquecíveis, seguem lado a lado no eléctrico com os passageiros atónitos pela dádiva de uma alegria aqui tão orgulhosamente convocada.

É a voz da Terra para sempre guardada na memória de quem viveu estes momentos de canto e dança, entre uma concertina e três pandeiretas, numa eira recriada num palco negro no largo de São Carlos.

Vinte Linhas 375

O erro crasso do plumitivo ou destaque pelas piores razões

Um amigo meu, moço escritor, rapaz dado a blogues e filósofo do quotidiano, costuma dizer que os jornais oferecidos devem ser lidos de outra maneira. Na verdade eles são especiais em tudo: não nos custam nada, são entregues em mão com um sorriso à porta do Metropolitano e, por isso, não se devem comentar os seus erros por mais crassos que sejam. Mas eu, que costumo ouvir as advertências do meu amigo, neste caso sou incapaz de resistir a um olhar igual embora eles sejam diferentes.

Desta vez é este o caso. Hoje, dia 9 de Julho de 2009, foi publicada uma local no «Destak» onde se anuncia: «Cascais Cool Jazz Fest – Joshua Redman abre hoje as hostes». Nada mais errado… Uma hoste é uma força armada embora também se possa considerar uma multidão, um bando ou uma chusma. Mas neste caso o que o plumitivo queria dizer e escrever era «abre hoje as hostilidades». E isto porque «abrir as hostilidades» é um assalto ou um ataque e, num certo sentido, os músicos atacam as notas da pauta. Foi isso que o plumitivo do «Destak» pretendeu dizer mas falhou redondamente. Hostes não são hostilidades. Tal como ameixas não são abrunhos. Diz o povo e tem razão. Tem sempre razão.

Mas também existe a expressão «animar as hostes». Está no «Dicionário de Expressões correntes» (Editorial Notícias) do meu amigo Orlando Neves e que significa «diz-se de alguém que transforma uma situação aborrecida em alegre». Antes do concerto há silêncio; o início do concerto anima as pessoas, logo as hostes, a multidão, a chusma. Mas é outra coisa – Hostes não são hostilidades. Abrir não é animar. Ponto final.

Balada triste do Bairro Alto

Meu Bairro, terra queimada

Campo de batalha perdida

Minha lágrima tão isolada

A quem não respeita a vida

Viver era uma aventura

Hoje o medo é distribuído

Sacos cheios de amargura

Passam, não deixam ruído

São Bombeiros Sapadores

Câmara, Junta e E.M.E.L.

Que se curvam os senhores

Para nos darem taças de fel

Quando os dísticos trocados

Veio a E.M.E.L. ao lugar

E fomos todos burlados

Passar não é estacionar

Bairro Alto é Tarrafal

Onde a vida amaldiçoa

E a Polícia Municipal

Devia ser de Lisboa

E não de certos senhores

Que ocupam um espaço

Comos se fossem favores

Nascidos no velho abraço

Quando passa a carrinha

Em frente a este lugar

Fecham os olhos em linha

Só pensam em bloquear

Nos muros dos Calafates

Há lugares não há vontade

Sapadores dos disparates

E bombeiros sem verdade

Irmãzinhas do Convento

Que vivem do outro lado

Os lugares são o tormento

Se fica tudo bloqueado

Rua dos Mouros mentira

Há espaço e ainda sobeja

O bombeiro ainda retira

Um lugar que se deseja

Junto a um respirador

Onde não vive ninguém

Para o pobre sapador

O lugar é mais além

Travessa da Boa Hora

Perdemos oito lugares

Ninguém veio rua fora

Compensar os populares

Meu Bairro, terra queimada

Mapa dos tristes sarilhos

Ali viveu despreocupada

A geração dos meus filhos

EMEL, Bombeiros e Junta

Mais Câmara Municipal

São origem da marabunta

Numa cidade só de mal

Onde o bem era o preceito

Sardinheiras na varanda

Agora queimam a eito

A vida de quem cá anda

Vinte Linhas 374

«Guia dos direitos da Criança» em 3º edição

Dezanove anos depois da primeira, surge a terceira edição deste «Guia» (Temas e Debates / Círculo de Leitores) de Ana Perdigão e Ana Pinto com o apoio de Cristina Andrade e José Soares. O pano de fundo é o Instituo de Apoio à Criança.

Trata-se de um livro de 372 páginas que reúne textos legislativos de modo organizado e permitindo a todos os profissionais que trabalham nas áreas da infância e da juventude estarem mais habilitados a decidir sempre de acordo com o superior interesse da criança. No que diz respeito aos juízes sociais reafirma o óbvio (participação dos cidadãos na administração da justiça) e explica a sua inserção (o julgamento é feito por um juiz que preside e por dois juízes sociais) mas nada diz (nem talvez fosse da sua conta) sobre o pagamento que os mesmos juízes sociais recebem: 3,99 euros por audiência de julgamento ou por qualquer outra diligência. O Governo actualizou há pouco os honorários das defesas oficiosas (21 unidades de conta a 25,50 euros cada) o que dá grosso modo 530 euros mas os juízes sociais (afinal tão importantes para colocarem um pouco de bom senso nas decisões dos tribunais) continuam a receber 3,99 euros. Ora como para irem ao Tribunal de Menores no Parque EXPO gastam 3,16 euros. Sobejam apenas 83 cêntimos o que é simplesmente uma afronta. Uma vergonha mas não para os juízes sociais porque ao colocarem a fasquia tão baixa os senhores do «direito» (que nada tem a ver com «justiça») estão a desejar que os juízes sociais se afastem, deixando o terreno livre a juízes jovens e sem experiência de vida. E quem perde são sempre as crianças. E o seu superior interesse que nada nem ninguém deve armadilhar.

Vinte Linhas 373

José Cid não merecia uma maldade destas

Ontem fui ao Coliseu dos Recreios assistir à Gala dos 511 anos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e tive que passar pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara onde havia dezenas de turistas e um quiosque (esplanada) vazio. Alguém na Câmara Municipal resolveu colocar a licitação do espaço em 2.500,00 euros. Por mês… Ora só um louco é que pode imaginar que a vender cafés, galões e pastéis de nata se pode ganhar para pagar esse balúrdio à Câmara sem esquecer o pagamento do ordenado aos empregados.

Quanto ao espectáculo marcado para as 17 horas só começou às 17 e 40 o que originou que a actuação de José Cid, o ponto alto da festa (sem desprimor para os outros artistas), só terminasse às 20 horas e quarenta já com largas dezenas de pessoas a abandonarem a sala depois de olharem para o relógio. Muita gente idosa tem que comer a horas porque senão o pâncreas desata a fazer das suas. Foi uma tristeza. Muita gente saiu a dizer «Agora que isto estava no melhor…» mas os 40 minutos do atraso inicial não foram recuperados. Curioso que os apresentadores nem sequer pediram desculpa aos espectadores pelo atraso.

Estes dois episódios separados por um curto espaço de tempo são a prova de que a arte de ser português permanece intocada e intocável. Nem o «25 de Abril» nem a prática das eleições nem a liberdade de imprensa e as liberdades em geral motivaram os portugueses para deixarem de ser «artistas»: uns a pedirem preços malucos para uma esplanada num miradouro único no país e no Mundo, outros atrasam 40 minutos uma festa com prejuízo do último artista a actuar. José Cid não merecia uma maldade assim.

Um livro por semana 126

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A corte Luso-Brasileira no jornalismo português (1807-1821)

Ernesto Rodrigues (n. 1956) é poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor mas tem uma paixão pelo jornalismo: assinou «Mágico Folhetim – Literatura e jornalismo em Portugal» (Editorial Notícias) de 1998 e «Crónica Jornalística do século XIX» (Círculo de Leitores) de 2004. No bicentenário da chegada da corte joanina ao Brasil, reúne neste livro textos significativos de 109 jornais da época com nomes tão insólitos como A abelha portuguesa, O amigo do Povo, o Liberal, o Patriota, o Correio do Povo, o Génio Constitucional ou O Observador onde se pode ler por exemplo: «A corrupção que resultou da posse da Ásia e dos mais domínios descobertos e conquistados pelos nosso antepassados, foi a primeira causa da nossa decadência; a intolerância e o fanatismo religioso introduzido por D. João III perdeu a D. Sebastião e com ele expirou a glória de Portugal». Um segundo exemplo é o texto de Francisco Solano Constâncio sobre a abolição do comércio de escravos no Brasil em 1815: «A escravatura é o pior achaque do Brasil e há muito tempo que deveríamos ter começado a tomar medidas gerais e constantes para civilizar os índios e emancipar gradualmente os pretos».

Um livro de 302 páginas que interessa em especial aos estudantes não só de história mas também de jornalismo. Mas que pode interessar os leitores em geral pois estão em causa as repercussões da ida da Corte para o Brasil em 1807 numa decisão que teve tanto de imprevista como de organizada – D. João não chegou ao Rio como um exilado mas sim como um chefe de Estado em funções.

(Edição de Ernesto Rodrigues com apoio da CLEPUL, da FCT e da Excellent Óptica)

Balada para um retrato

Podiam ser vinte e sete

Menos dez anos de idade

Ou mesmo os dezassete

Que era também verdade

No recanto dum retrato

Preto e branco por opção

Nasce o secreto contrato

Entre a voz e a emoção

Preto e branco iluminado

Terra trazida num rosto

A espuma está neste lado

E o rio segue em oposto

Caminho para o Douro

Vales, pedras e vinhas

Há no mapa do tesouro

O rosto em duas linhas

No desenho da viagem

Teu rosto é cartografia

Veio nele a paisagem

Que nunca se repetia

No ano, quatro estações

Os dias certos das feiras

Entre o frio dos nevões

E o calor das lareiras

Para um retrato a preto e branco

O teu sorriso aqui é apenas um esboço

Do arco que os teus olhos vão projectar

Entre as linhas tão perfeitas do pescoço

E a mancha de luz a envolver este lugar

Há sonhos perfilados em prateleiras

E memórias definidas nas lombadas

Á tua volta há as vidas verdadeiras

Nas páginas dos livros condensadas

E nas manhãs mais finas do Inverno

Teu sorriso enfrenta o peso da neblina

Hoje escrevo-te num tempo moderno

Tu continuas a ter um olhar de menina

Nem chega sequer a ser uma saudade

Porque a beleza do teu rosto é infinita

O teu sorriso ultrapassou toda a idade

Está intacto no rumo da minha escrita

Vinte Linhas 372

Em Alcochete não aconteceu nada

O «Diário de Notícias» proclamou hoje (28-6-2009) na sua página 8 que «Nada justifica o que ocorreu em Alcochete» mas o problema é que na verdade em Alcochete não aconteceu nada. O jogo estava ser disputado normalmente até aos 25 minutos e nada de especial se tinha passado. Era um Sporting-Benfica em juniores mas o local chama-se Barroca de Alva e não Alcochete. Alcochete fica a 11 quilómetros e é apenas o código postal. Não sei que estranha cegueira se apoderou dos meus colegas (camaradas) jornalistas do desporto tanto dos jornais como das rádios como das TVs que por norma se enganam no nome daquele espaço. Ao princípio ainda os interpelava explicando que o nome daquela herdade onde o Sporting foi autorizado a construir o seu espaço desportivo e hoteleiro é Barroca de Alva. Não é outro nem pode ser outro. Alcochete é muito longe, fica a 11 quilómetros mas a verdade é que nem mesmo ao longo de dez longos anos em que fui redactor efectivo do jornal «Sporting» consegui fazer perceber àquela gente que comigo trabalhava o óbvio. Mas aí foi diferente. Cheguei a um consenso com o Director: nem Alcochete (como alguém queria) nem Barroca de Alva (como é correcto). Por isso nas fichas dos jogos que me calhavam na agenda saía sempre «Academia Sporting – relvado principal» ou então «relvado nº 2».

Sinceramente nunca cheguei a perceber a origem daquela cegueira: chamar Alcochete a um espaço que de Alcochete nada tem a não ser o código postal. Seria um interessante tema para os jornalistas do «Diário de Notícias»: saber a razão pela qual o nome correcto e único daquele lugar foi rasurado e substituído erradamente por Alcochete.

Um livro por semana 125

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«Pimenta de Castro – ditador democrático» de Rocha Martins

O general Pimenta de Castro, sobre quem Machado Santos escreveu que «tomou a sério o seu papel de chefe do Governo de uma Nação livre; daí a sua queda, a sua prisão e o seu desterro» foi convidado pelo presidente Manuel de Arriaga em 23-1-1915 para formar governo e convocar eleições gerais: «O teu austero e belo nome servirá para garantir a genuinidade do sufrágio, a conciliação e a paz na República e no Exército. Peço-te em nome da República e da Pátria que não me abandones. Não te esquives, não venhas com evasivas».

E logo surgiu logo um problema: o Parlamento estava sem deputados e senadores, os eleitos de 1911 tinham mandato para três anos e não podiam continuar em 1915 mas com as eleições marcadas para 7 de Março de 1915, um grupo queria reunir-se em S. Bento a 4 do mesmo mês. O Governo tomou providências para que a reunião de 4 de Março não se efectuasse e logo surgiu a palavra «ditadura». Para alguns especialistas de Direito a passagem da Constituinte a Legislativa tinha sido uma fraude, além de que já há nove meses que a Câmara estava parada.

Este é o ponto de partida deste sexto volume da colecção «Ângulos da História», todos da autoria de Rocha Martins (1879-1952) de quem os ardinas de Lisboa diziam a vender o República: «Fala o Rocha, tá o Salazar à brocha!»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 371

Ainda a propósito da mais pequena livraria do Mundo

Aqui há tempos falei no nosso Blog daquela que pode muito bem ser a mais pequena livraria do Mundo e fica ali nas escadinhas de São Cristóvão à Rua da Madalena. Tem só um metro de comprimento por 3,80 metros de largura.

Nessa nota lembrava as livrarias que ficam entre o Camões e o Poço dos Negros. Uma delas é a Livraria – Alfarrabista Bocage. Começou na Travessa André Valente nº 8 quase ao lado da casa onde viveu os últimos anos e morreu o poeta Bocage. Por razões inesperadas esta casa passou temporariamente para o espaço apalaçado da Calçada do Combro nº 38. Agora, por razões igualmente inesperadas e insólitas, vê-se obrigada a suspender de novo a sua actividade.

Os clientes habituais desejam e esperam que seja por pouco tempo. Uma livraria a menos numa cidade é sempre uma derrota para a luz (as letras) e uma vitória para a ignorância (o vazio). Assim de repente lembro-me de livros importantes que ali comprei nos últimos tempo: literatura, história, memórias, poesia, antropologia, jornalismo, teatro.

Na história da Humanidade os dois factos mais importantes são a descoberta da roda e a invenção do livro. Com a roda todas as viagens do Homem passaram a ser possíveis, com o livro são as viagens do espírito que se tornam mais fáceis. Levamos todo o mundo debaixo do braço quando levamos um livro connosco.

Como o telefone (213 460 315) vai ficar agora desactivado fica aqui divulgado um ponto de contacto para os fiéis visitantes da Livraria – Alfarrabista Bocage no telemóvel 960 181 090. E que volte depressa – uma livraria a menos é mais uma coisa triste na cidade.

Vinte Linhas 370

«Henrique Tenreiro – uma biografia política» de Álvaro Garrido

Foi apresentado por Fernando Rosas este livro editado pelo Círculo de Leitores e pela Temas e Debates. Depois de «O Estado Novo e a campanha do bacalhau» em 2004 e «Economia e política das pescas portuguesas» em 2006 Álvaro Garrido avança para a biografia de uma figura controversa do Estado Novo – Henrique Tenreiro, o patrão das pescas (1901-1994). Fazendo o perfil biográfico da personagem, o autor acaba por produzir uma criptobiografia do Estado Novo. Tenreiro assistiu em 2-8-1934 á chamada segunda posse de Hitler depois da morte do presidente Hindenburg, tendo assistido também ao juramento do Exército alemão ao Füher. Coincidência ou não, as liturgias de poder da Organização das Pescas hão-de combinar a mise em scène típica dos rituais cesaristas no nazismo e do fascismo com os recursos estéticos que a Marinha sempre usara nos seus desfiles de exaltação patriótica-colonial. Sempre organizadas por Tenreiro, as cenografias e rituais do regresso de Portugal ao mar farão uso, ainda, das imagens profanas e folcloristas de gosto popular e da sobriedade da celebração religiosa exigida pela participação da Igreja Católica. Salazar nunca escolheu Tenreiro para ministro nem para secretário de Estado mas nomeou-o delegado do Governo junto do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau. Entrou em 24-7-1936 para um modesto escritório no nº 24 da Praça Duque de Terceira, junto ao Cais do Sodré, onde se manteve 37 anos. Quando tomou posse nada sabia de pescas e contava apenas trinta e quatro anos de idade. Não por acaso Ruy Belo fala num seu poema do peixe «esse peixe que antes nos chegava directamente / e agora passa pelas mãos do almirante Henrique Tenreiro…»

Balada para uma lágrima

Moínho de companheiros
Não tem direito a maquia
Do Rio Torto aos Pereiros
Vai a distância de um dia
Onde se vive um passado
Mas sessenta anos depois
Sonho e vida lado a lado
Mo poema entre os dois
E a aguinha bem chovida
Deu bom cheiro á terra
Na lágrima interrompida
Moral que o gesto encerra
Não vale a pena chorar
Com uma vida pela frente
Tu neste ou noutro lugar
Recusas a lágrima quente
Ninguém te nega o direito
De desenhares um sorriso
Nas covinhas que a preceito
São no teu rosto um aviso

De que a Estrada Nacional
De Penedono ao Pinhão
É o ponto mais inicial
Da viagem do coração
Vais partir em romaria
À Senhora da Cabeça
À Senhora Santa Luzia
Onde dirás a promessa
Vês os Doze de Inglaterra
Silhueta de um Magriço
Coração em pé de guerra
Lágrimas; não quero isso
Romeira na capelinha
E no alto deste lugar
A Balada está sozinha
Olha para ti a cantar
E agora não chores mais
Entre a tua casa e o muro
Se os direitos são iguais
Nos teus sonhos há futuro

Um livro por semana 124

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«Pessimismo Nacional» de Manuel Laranjeira

Foi no jornal «O Norte» de Ribeiro Seixas e Feio Terenas que, em 1907 e 1908, Manuel Laranjeira (1877-1912) publicou estes dois artigos sobre o Pessimismo Nacional. A partir da vivência do suicídio de grandes figuras das letras, das artes e do pensamento (Antero de Quental, Soares dos Reis, Camilo Castelo Branco e mesmo Alexandre Herculano que também fugiu da vida) Manuel Laranjeira afirma: «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa». E prossegue: «Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobreaguda de sombrio pessimismo, o que é uma verdade de todos os dias; numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se de per si. O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E, à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida em Portugal parece cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente».

(Editora: Frenesi, Capa: Paulo da Costa Domingos sobre óleo de António Carneiro, Paginação: Telma Rodrigues)

Um livro por semana 123

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«Poetas de sempre» – volume X» (Antologia)

A partir de um projecto editorial que teve início em Agosto de 2000, este é o volume X de uma série intitulada «Poetas de sempre». Inclui poemas de 27 autores: Albina Dias, Alda Cabral, Alfredo Martins Guedes, Angelino Pereira, Barrosos da Fonte, Carlos Teles Gomes, Cristino Cortes, Delmar Maia Gonçalves, Fernando de Castro Branco, Fernando Pinto Ribeiro, Isabel Gouveia, José Manuel Duarte Filipe, Julião Bernardes, Júlio Pereira Dinis, Manuel António Gouveia, Manuel António Pereira, Manuel Canela, Maria Albertina, Maria Crisantina, Maria da Glória Cabral, Maria de Lourdes dos Anjos, Maria Helena Dinis Prata Tomás, Maria Luísa Pousão Sancho, Maria Nair Telles, Maria Natália Miranda, Maria Odília Ribeiro e Ofélia Bomba. Cristino Cortes (n.1953, Fiães) viu o seu primeiro livro («Ciclo do amanhecer») editado pelo jornal «Poetas & Trovadores» onde tinha publicado o seu primeiro poema. Escolhendo um poema seu, divulgamos toda uma geração que não tem acesso ao «J.L.», às revistas «Ler» e «Os meus livros», às «Correntes de Escritas», à «Câmara Clara», os autores «marginais, periféricos e desalinhados com o cânone» como lhes chamou Eduardo Prado Coelho. Eis o poema «Volta saloia»: «Foi um belo passeio, aquele que ontem demos, o mar / unindo ao campo, pequenas aldeias, terrenos, parcelas / visivelmente abandonadas, casinhotos, em janelas / de ver o verde, flores amarelas, a gente a passar…/ Tão perto da cidade! Paisagem bucólica e rural / é um gosto para os olhos, uma alegria para a alma / de clorofila se enche, penso também de paz e calma / esse outro modo de viver, puro horizonte, natural. / Não vimos burros, talvez por ser feriado, dia santo / por de quatro patas já poucos haver nesta agricultura / mas lembrei-me de Cesário, pequena homenagem à dura / realidade, dele e nossa, mas ele deixou, único, um canto. / É outro ar, outra luz, todo um outro cheiro, este acordo / do homem e sua volta – aqui o sonho, fixo e recordo».

(Editora: Cidade Berço, Coordenador: Barroso da Fonte, Capa: José António Nobre)

Vinte Linhas 369

Ainda a propósito do recente livro de Dinis Machado

O meu «Post» anterior falava (à minha maneira) daquilo que foi o lançamento do livro «Mulher e arma com guitarra espanhola» na livraria Assírio & Alvim na Passos Manuel. Mas houve uma coisa que me escapou. Quando referi que o filme do cacilheiro que acompanha a música do notável guitarrista João Lima (fixem este nome…) me lembrava as fotos de Augusto Cabrita, esqueci-me de lembrar uma outra coisa: quando entrei no jornal A BOLA pela primeira vez em Agosto de 1978 fui falar com o jornalista Carlos Pinhão e verifiquei espantado que na parede, atrás da sua secretária, estava uma belíssima fotografia de Augusto Cabrita. Soube mais tarde que essa fotografia foi tirada no Barreiro (a cidade do futebol) e aquele guarda-redes muito jovem parece que está entre duas nuvens, longe do pó da terra, em feliz, completa e eterna suspensão.

Sei que o nosso tempo não vai para sentimentos mas não pude deixar de lembrar esta memória. No dia em que soube da morte (apenas civil) do Dinis Machado encontrei na igreja de Santa Catarina na Calçada do Combro um senhor do Barreiro, primo da Dulce e do Augusto Cabrita e viemos a falar dessa fotografia até à igreja da Encarnação. Ele também a conhecia, ele sabia mais pormenores do que eu sabia por exemplo que ela tinha sido tirada de manhã mas também sabia que às vezes não se distinguiam as nuvens reais das nuvens do amoníaco e do azoto. Era no tempo em que se dizia que a CUF era o Estado. Isso ouvi eu muitas vezes quando vivi no Montijo entre 1957 e 1960. Que será feita dessa fotografia de Augusto Cabrita? Por favor quem souber que se chegue à frente e diga alguma coisa. Fico desde já muito agradecido.

Vinte Linhas 368

«Mulher e arma com guitarra espanhola» de Dinis Machado

Foi na loja «Assírio & Alvim» que foi apresentada ao público a nova edição deste clássico dos anos 60 editado na Íbis e, mais tarde, no Círculo de Leitores. Ambas esgotadíssimas. A capa é de João Fazendo e, na presença de Dulce Cabrita, fizeram as honras do livro José Xavier Ezequiel e Teresa Sá Couto. Por fim um momento de emoção: João Lima tocou uma guitarra portuguesa «diferente». Uma sonoridade invulgar num duplo registo de homenagem: Carlos Paredes pelo som e Augusto Cabrita pela imagem das pessoas a entrarem e a saírem dos cacilheiros, entre a pressa e a espuma, entre Lisboa e a Outra Banda, entre a resignação e a ousadia. Recordei o próprio Dinis Machado a beber um café comigo na Bertrand, a oferecer-me um soneto no dia dos meus 43 anos, a distribuir poemas disfarçados no meio do «Molero», a lembrar a maia velha estação de comboios do Mundo (o Rossio) de onde partia para o primos da Beira Alta que lhe enchiam o rosto de beijos húmidos. Porque a ternura é húmida. E o livro? Poiso livro trata de uma assassino profissional cheio de problemas éticos. Mas também de lucidez: «É preciso um automóvel e dois ou três homens com pistolas, às três da madrugada num certo sítio. Depois, levam-no. As coisas têm evoluído, mas isto de apanhar homens sem eles saberem como, mantém-se na mesma. Automóveis, pistolas e ruas desertas. É como o conto do vigário. Caem sempre».

Ficamos a saber pela contracapa deste novo livro que vem aí o inédito «Blackpot», um pequeno grande livro de Dennis McShade que poderá ser assim o seu testamento literário. Dinis Machado, esse mesmo que em 1968 veio revolucionar o policial português.

Vinte Linhas 367

Eu vi as lágrimas e ouvi os soluços do homem desconhecido

Ele não era de Lisboa e tinha a carrinha e os empregados por sua conta e risco. Precisava de sair do Bairro Alto e tinha a viatura bloqueada desde as 10 da manhã. Estava à espera da Polícia Municipal há duas horas e já eram 8 da noite. Tinha o telemóvel ligado à central da Polícia no momento em que se atravessou à frente do meu automóvel chorando e soluçando. Não me deixou passar e obrigou a minha família a sair fazendo o resto do caminho a pé. E eu fiquei ali um bom bocado a ver as lágrimas e a ouvir os soluços do homem desconhecido. Ele não compreende como o Bairro Alto está a ficar um pesadelo para quem lá vive e tem automóvel. Ele não percebe que a Polícia Municipal é apenas a ponta visível duma miserável mistificação que envolve a EMEL, os Bombeiros Sapadores e a Junta de Freguesia – além da Câmara Municipal, presidida por um senhor que nasceu aqui na Rua da Vinha. A EMEL não se preocupa com os lugares dos moradores porque não lhe dão dinheiro, os Bombeiros demonstraram um elevado índice de estupidez, autismo e maldade ao vetarem alguns lugares possíveis de serem considerados de estacionamento com o «argumento» da «segurança». Por exemplo na Travessa de S. Pedro multaram ontem 10 viaturas num espaço que não prejudica ninguém pois as Irmãs do Instituto de S. Pedro de Alcântara fazem toda a sua vida pela Rua Luísa Todi. Se desenhassem no chão os 8 lugares que aqui existem já era um convite explícito a ninguém estacionar fora das marcações e assim alguns carros do lixo (não todos!) deixariam de ter dificuldades ao virar na Rua do Teixeira e na Rua dos Mouros. Ao pé dos Calafates há mais lugares tal como ao pé do Mercado mas eles não querem.

Vinte Linhas 366

Só é juiz social quem quer mas 3,99 euros é muito pouco

Saí de mais uma sessão (audiência) do Tribunal de Menores com o sentido do dever cumprido. Mais uma criança que, depois de abandonada pela mãe (e abandonar já é mal tratar…) esteve um ano numa Instituição e vai ser adoptada por um casal que já está na lista de espera há algum tempo. Saí satisfeito do edifício porque a minha experiência me diz que «a pior instituição é sempre melhor que a pior família».

Esta foi a primeira diligência que decorreu no novo edifício do Tribunal de Menores em pleno Parque EXPO. Fiquei a pensar que o que nos pagam por participar em cada audiência de julgamento é apenas 3,99 euros e antigamente ia a pé para o Tribunal (Rua Pedro Nunes) enquanto agora tenho que ir de Metro. Ora como cada viagem são 0,79 euros; logo ida e volta são 1,58 euros mas como é sempre necessário ir uma segunda vez para assinar a sentença são mais 1,58 euros – o que dá a quantia de 3,16. Portanto muito perto dos 3,99 euros que o Estado nos paga por cada diligência. É evidente que só é juiz social quem quer mas custa um bocado ver um advogado fazer uma «oficiosa» onde se limita a pedir justiça e receber aquilo a que tem direito e os juízes sociais passam horas a ler e a estudar o processo, meditam no assunto e depois participam o lado de todos os outros intervenientes para no fim receberem 3,99 euros.

Alguém já deveria ter reparado nisto. Há tanta gente nos ministérios e nas secretarias de Estado mas talvez porque os gabinetes estão fechados o ar condicionado não lhes permite perceber a vida real que passa cá fora. Ninguém me obriga a ser juiz social mas receber 3,99 euros que pouco mais dá do que para o Metro é uma vergonha. E não para mim.