Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 442

Um homem veio de bicicleta chamar o meu pai

A chamada «fuga de Peniche», aventura extraordinária na qual um conjunto de militantes do PCP se evadiu do Forte de Peniche, aconteceu em 3-1-1960. Lembro-me bem: tinha oito anos e vivíamos no Montijo desde 1957. Na manhã do dia seguinte à fuga, um homem veio de bicicleta chamar o meu pai. Como motorista da Brigada dos Serviços Prisionais destacada para a construção do Palácio da Justiça no Montijo, competia-lhe levar um grupo de guardas prisionais na camioneta Merceds Benz para se juntarem a outros na perseguição dos evadidos, dos «malandros» como eram designados pela estrutura superior do EPL no Linhó. Os nomes desses militantes do PCP protagonistas da «fuga de Peniche» são os seguintes: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues.

As pessoas da minha rua (Sacadura Cabral) lançaram o boato de que o meu pai tinha ido levar os guardas prisionais para o cruzamento de Pegões mas não era verdade; ele foi levá-los ao Linhó onde foram integrados por elementos da PIDE com vista à perseguição dos evadidos. Ir para Pegões à procura de alguém que tinha fugido de Peniche só mesmo para alguém que conhecesse muito mal a nossa geografia.

Nesse dia 4-1-1960 a deslocação da «brigada» foi mesmo feita a pé desde o Samouco até ao local da obra no Montijo. Razões mais importantes a isso obrigaram; coisa que nem os presos nem os guardas apreciavam muito. O jornal «Público» nada disse sobre a data tão redonda mas as acções ficam com quem a pratica. Coitados…

Vinte Linhas 441

As letras são eternas nas paredes da memória

Pertencemos à civilização do livro. Para muitos de nós a frase de Guilbert de Pixérecourt é indiscutível: «O livro é um amigo que não engana nunca». Tal como a belíssima ideia de Cervantes: «Não há livro tão mau que não tenha algo bom». Ou a definitiva opinião de Óscar Wilde: «Não há livros morais ou imorais. Os livros são bem escritos ou mal escritos».

Há uma empresa na Net (www.letraseternas.org) que pode ter nascido daquela frase de Cícero («Uma casa sem livros é um corpo sem alma») e que se dedica a eternizar frases, textos em prosa, poemas. Basta um contacto enviando uma mensagem para o mail da empresa (geral arroba letraseternas.org) e a equipa estuda o enquadramento do livro escolhido no espaço envolvente.

Pode ser um poema de Eugénio de Andrade ou um parágrafo de Jorge Amado. Pode ser na sala de visitas da casa ou no espaço do escritório onde se recebem os clientes. Pode ser no quarto do bebé que está para nascer. Pode ser durante as festas de aniversário das crianças da casa ou dos seus amigos e vizinhos.

A base do trabalho de empresa «letras eternas» é o carvão e a cera. O seu lema de acção é «Escreva a sua vida. Escreva-se».

Trata-se de um projecto original e inovador. Logo é pioneiro e daí não ser ainda muito conhecido. Mas depende também um pouco de todos nós conhecer e dar a conhecer uma ideia nova. Este texto pode ser um bom espaço para divulgação inicial entre os nossos amigos e os amigos dos amigos. Acreditamos que as letras são mesmo eternas.

Vinte Linhas 440

Estremadura

Santiago do Cacém em 1911 não era Alentejo

Acabei de ler com prazer e proveito um livro de Violante Florêncio sobre as narrativas para a infância dos escritores neo-realistas. Nada a dizer no plano geral da concepção do ensaio e da informação nele contida. Mas um pormenor na biografia de Manuel da Fonseca acendeu-me uma luz vermelha. Eu sabia que em 1911 Santiago do Cacém pertencia à Estremadura e não era, portanto, Alentejo (como vem no livro) mas faltava-me a prova. Telefonei a diversos amigos licenciados em Geográficas mas ninguém tinha a resposta pronta. Todos tinham uma ideia mas nenhum a concretização dessa ideia. Ontem, numa visita a um velho alfarrabista (A Barateira) apresentei o assunto e minutos depois tinha na mão a resposta: o livro «Lições de Geografia» para o Ensino Primário Geral (4ª e 5ª classes) dos professores Faria Artur e Dias Louro, uma edição sem data das Livrarias Aillaud e Bertrand feita de acordo com o decreto de 15-2-1921.

Entre as páginas 38 e 39 lá vem um belo mapa a cores de Portugal com as suas províncias tal com eram em 1921. A Estremadura começa em Vila Nova de Ourém e acaba em Sines. Isto (acaba em Sines) porque o distrito de Lisboa tinha como limites a norte Cadaval e Lourinhã e a sul Sines e S. Thiago do Cacém – era esta a grafia. Grândola e Alcácer do Sal também eram da Estremadura e Setúbal, embora fosse já uma cidade importante, não deixava de pertencer ao distrito de Lisboa.

Só nos anos 30, com a reformulação das províncias portuguesas levada a cabo pelo Estado Novo (que era chefiado por um velho que nunca foi jovem mesmo quando era novo) é que Santiago do Cacém passou para o Alentejo. Está tudo no livrinho.

Um livro por semana 161

ruben a. antologia

«Ruben A. – Antologia»

Ruben A. (1920-1975) é um escritor cuja obra se multiplica em várias direcções: ficcionista, dramaturgo, ensaísta, conferencista, crítico literário e divulgador cultural. Foi um viajante infatigável, viveu em vários países europeus e faleceu em Londres mas nunca deixou de olhar a sério a nossa língua («A língua que uso é a minha primeira realidade palpável») e sempre viveu as nossas romarias: «Há missa, procissão, joelhão, foguetório, festeiros, mordomos, cidra, barracas de comes, comunhão, vinho a rodos, sermão em grande estilo».

A sua obra-prima é «A Torre da Barbela», livro recusado por 14 editoras (!) antes de vencer o Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências. Neste volume (que conta com um notável prefácio de José Palla e Carmo) são revisitados oito séculos de história portuguesa através das histórias de família Barbela e da sua Torre.

Já em «O Mundo à minha procura» Ruben A. faz a sua autobiografia: «Sou contrário a que uma autobiografia se escreva no momento da reforma, quando se deixou de ser chefe de Estado, se abandonou a vida pública ou quando da caneta já nada mais pinga».

No seu livro «Kaos» surge uma das mais certeiras definições do que é ser português: «O português não sabe guardar segredos, depois, ou diz a verdade em que ninguém acredita ou os que não acreditam inventam um boato com base na verdade».

(Editora: Roma Editora, Organização: Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Apoios: Instituto Camões, Centro de Culturas Lusófonas, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Academia Brasileira de Filologia e Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa)

Vinte Linhas 439

A oficina da beleza ou o louvor do bar das sobrancelhas

Elas chegam aqui ansiosas pelo retoque, pelo diagnóstico certeiro, pela terapêutica eficaz. No Hospital da Beleza, o bar das sobrancelhas é o banco de urgência. A empregada (a enfermeira) transporta um cinto múltiplo onde cabem os diversos instrumentos da oficina da beleza: pincel de pestanas, pincel de sobrancelhas, líquidos de limpeza, diversos tipos de tesoura, pincéis para pó facial. Um nunca acabar.

Mães e filhas, umas trazem as outras, sucedem-se no balcão das urgências. Umas procuram a manutenção do esplendor juvenil, outras anseiam o recuperar da beleza e do tempo perdido em amarguras silenciosas, em manchas de solidão que formam pequenas ilhas negras no mapa da pele. Em gestos que misturam, de modo feliz, a técnica e a simpatia, as empregadas aplicam a terapêutica indicada e vão, aos poucos, dando alta hospitalar às meninas mesmo meninas e às mulheres que são de novo meninas na porta do estabelecimento de perfumaria nos Armazéns do Chiado. Lá fora, o vento e a chuva agridem quem atravessa a rua mas o sorriso e a confiança de novo readquirida ajudam a enfrentar todas as hostilidades. No sorriso da empregada que recolhe o cinto das ferramentas está o prémio invisível desta subtil acção de medicina, desta beleza de novo recuperada. Entrei no estabelecimento para comprar um perfume cujo nome (talvez não por acaso) é «Poême» para uma amiga aniversariante e fico imóvel perante a azáfama do balcão das sobrancelhas. A empregada (a enfermeira) a todas recebe com um sorriso. Não se trata apenas de um ofício; há também uma força de paixão e de ternura entre as mães ágeis, o cinto dos instrumentos, o trabalho desenvolvido e o resultado final.

Vinte Linhas 438

«Nós por cá» todos mal na SIC e no Príncipe Real

Um dos 57 comentários no Blog «aspirinab.com» ao meu texto de revolta intitulado «O arboricídio camarário floresce no Príncipe Real» remete para um vídeo da SIC no seu programa «Nós por cá». Na altura de maior calor à volta do assunto (agora a destruição já está consumada) vi o referido vídeo mas não me apercebi da gravidade de uma pergunta feita pelo repórter ao vereador. É uma pergunta capciosa, falsa, fora da realidade: «Alguma destas árvores abatidas estava classificada?» Todo feliz, o vereador respondeu, como quem fecha uma porta: «Nenhuma estava classificada!».

O problema é esse. Não só não perguntou qual a razão que levou a «quadrilha selvagem» da CML a abater todas as árvores de um mesmo enfiamento (não estavam nem podiam estar todas doentes) mas também não perguntou porquê a ausência de parecer do IGESPAR e da AFN (Autoridade Florestal) em relação aos abates de árvores a menos de 50 metros de uma árvore classificada. Quem tenha visto o referido programa fica com a ideia (erradíssima) de que está tudo legal quando, na verdade, a destruição das árvores teve início no dia 23-11-2009 e só no dia 30-11-2009 muito à pressa e de modo atabalhoado, o IGESPAR ratificou de facto uma carnificina florestal já iniciada e concluída. Quanto à AFN ainda nada – nem novas nem mandados. Mas também agora já nada adianta. O trabalhinho está feito. Fora do assunto das árvores (o principal) é espantoso como o repórter não se lembrou de perguntar porquê a insistência num saibro que já provou não prestar noutros jardins (agora simples miradouros) com o vento a fazer do saibro açúcar maldito nas chávenas de café dos incautos turistas.

Um livro por semana 160

«A Bíblia para Todos» – edição literária

Numa edição feita a partir dos textos originais em hebraico, aramaico e grego, este livro surge na sequência do trabalho de uma vasta equipa: Manuel Alexandre, Carlo Buzzetti, Soares Carvalho, Roy Ciampa, Rui Duarte, Teófilo Ferreira, Carreira das Neves, João Pinheiro, José Ramos, Pinto Ribeiro, António Tavares e Theron Young. As suas 2415 páginas estão organizadas num texto «corrido», sem mapas, desenhos, glossários ou tabelas cronológicas mas existe um site na Net (www.abibliaparatodos.pt) no qual é possível entender melhor o significado de certos textos. Outros, como as palavras do sábio Qohelet no Eclesiastes, são acessíveis ao leitor mais desprevenido:

«Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio. Há o tempo de nascer e o tempo de morrer; o tempo de plantar e o tempo de arrancar; o tempo de matar e o tempo de curar; o tempo de destruir e o tempo de construir; o tempo de chorar e o tempo de rir; o tempo de estar de luto e o tempo de dançar; o tempo de atirar pedras e o tempo de as juntar; o tempo de se abraçar e o tempo de se afastar; o tempo de procurar e o tempo de perder; o tempo de guardar e o tempo de deitar fora; o tempo de rasgar e o tempo de coser; o tempo de calar e o tempo de falar; o tempo de amar e o tempo de odiar; o tempo de guerra e o tempo de paz.» E conclui: «O melhor que uma pessoa tem é comer e beber e saborear os frutos do seu trabalho».

(Edição: Círculo de Leitores/Temas e Debates, copyright: Sociedade Bíblica de Portugal)

Vinte Linhas 437

O Nobel da Paz para Barack Obama ou a memória de Panduru

O absurdo que constitui a atribuição de um prémio internacional (o Nobel da Paz) ao presidente dos EUA no momento, quase em cima do momento, em que ele acaba de reforçar a aposta militar no Afeganistão com mais 30 mil soldados americanos a caminho do Oriente, lembrou-me uma situação muito curiosa por mim vivida nos anos 80 no meu local de trabalho. O presidente foi premiado por aquilo que se espera que ele faça e eu fui preterido numa promoção porque era preciso dar ânimo a um «rapaz» que por sistema faltava ao trabalho umas vezes na sexta e outras na segunda-feira. Fazia sempre fins-de-semana prolongados mas era considerado recuperável e precisava de estímulo. Para ele ser estimulado eu não podia ser promovido. Uma questão de vagas por cada secção e por cada departamento. Isso me foi explicado por um «rapaz» do meu tempo que era director e que gostava de falar comigo sobre temas do futebol. Como benfiquista ferrenho, esse «rapaz» perguntava-me muitas vezes o que pensava eu da qualidade de futebolista do romeno Panduru. «Percebe-se que tem escola mas nada nem ninguém nos garante que consiga a integração» – era isto mais ou menos que eu dizia à porta do seu gabinete. Outro «rapaz» do meu tempo era o meu chefe de secção que em diálogo com o director, bem apertado por este, lá desembuchou essa história da promoção como estímulo em vez da promoção como prémio. Já morreram dois – o «rapaz» director e o «rapaz» promovido. O outro anda por aí e deu em tratar a neta por «você». Nunca recuperou e está a enlouquecer lentamente pelos jardins da cidade que a «quadrilha selvagem» da CML ainda não destruiu.

Vinte Linhas 436

«O jogo de Salazar» ou as distracções imperdoáveis de um «mestre»

Como co-autor do livro «Glória e Vida de Três Gigantes» (edição de A BOLA) não posso deixar de manifestar a minha surpresa perante as afirmações de um senhor de nome Ricardo Serrado, «mestre» em História pela Universidade Nova à revista do Diário de Notícias deste domingo. Autor do livro «O jogo de Salazar – a Política e o Futebol no Estado Novo» (editora Casa das Letras), o jovem «mestre» começa por fingir desconhecer que antes das duas Taças dos Campeões ganhas pelo Benfica em 1961 e 1962 já o Sporting tinha sido convidado a inaugurar a Taça dos Campeões Europeus em 1955 num jogo com o Partizan disputado no Estádio Nacional. O jogador «leonino» José Travassos foi seleccionado para alinhar na equipa representativa da UEFA contra o «resto do Mundo». A sua frase infeliz é esta: «O país esquecido que até então nunca tinha tido qualquer expressão internacional nas lides do futebol, vê-se no topo da Europa e nas bocas do Mundo». Mas tão grave como esquecer os antecedentes a 1961-62 é fingir que no ano de 1964 o Sporting não ganhou a Taça dos Vencedores das Taças da Europa depois de um brilhante percurso desportivo. Bateu os frágeis cipriotas do Apoel por 16-1-e 2-0 mas teve árduo trabalho para vencer o italiano Atalanta de Domenghini (0-2, 3-1 e 3-1 no desempate), o inglês Manchester United de Charlton, Law e Best (1-4 e 5-0), o francês Lyon de Combin (0-0, 1-1 e 1-0 no desempate) e por fim o húngaro MTK de Sandor e Kuti em dois jogos terríveis – Bruxelas (3-3) e Antuérpia (1-0) com o golo de Morais em canto directo. Mas não; o «mestre» não sabe isto porque isto não tem a ver com o Benfica. Assim não se faz a História, só a lenda.

Os Avieiros

A Cultura dos Avieiros candidata a Património Nacional

No passado dia 10-9-2009 a candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional foi apresentada no Palácio da Ajuda onde funciona o Ministério da Cultura. Estiveram presentes João Serrano (projecto dos Avieiros), Luís Vidigal (Instituto Politécnico de Santarém), Luís Marques (Director Regional de Cultura) e Nelson Quico, assessor do Ministério da Cultura. Depois de formalizado o pedido, ficou marcado o 1º Congresso Nacional da Cultura Avieira para 7/8/9 de Maio de 2010 em Santarém. Além da homenagem nacional a Maria Micaela Soares, outro ponto da agenda será a edição popular do livro «Avieiros» de Alves Redol, há muito esgotado no mercado livreiro português. Não sendo antropólogo ou historiador, tive alguma convivência com a realidade dos Avieiros em Vila Franca de Xira entre os anos de 1961 e 1966. Vivia no Bairro do Bom Retiro, estudava na Escola Técnica e tinha aulas nos «Combatentes» e no «Matadouro» além de «Trabalhos Manuais» num armazém perto da estação da CP. Guardo desses tempos a imagem do garrido dos seus trajes, o seu falar típico e a percepção de que eles viviam num espaço diferente. Não só pelas «casas-barco» mas também pelo precário que tudo aquilo prenunciava perante as longas chuvas do Inverno daquele tempo. Continuar a lerOs Avieiros

Livraria do Simão

A mais pequena livraria do Mundo

Fica nas Escadinhas de S. Cristóvão nº 18 (à Rua da Madalena) na Baixa, tem o telefone 211106666 e o código postal 1100-512 Lisboa. O seu proprietário Simão Carneiro tem 37 anos de idade, uma licenciatura e uma pós-graduação em Enologia mas o seu mundo é este: livros usados, raridades bibliográficas, discos, papéis antigos, gravuras, manuscritos e banda desenhada. A casa tem um metro de largura e 3,80 metros de comprimentos – o que perfaz 3,80 metros quadrados. De tal modo é maneirinha a livraria que quando o cliente curioso entra, o seu proprietário tem de sair. Não há espaço para dois seres humanos lá dentro. O espaço foi arrendado há quatro anos e tem uma frequência interminável de gente que vem do Castelo para a Baixa a pé. Ouve-se falar inglês, castelhano, francês, italiano, russo. Os turistas acham graça e às vezes compram. Há aqui um pequeno «stock» de livros estrangeiros.

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Um livro por semana 159

«A Reconstrução do Sagrado» de Aurélio Lopes e João Monteiro Serrano

Depois de «Videntes e Confidentes» sobre Fátima, Aurélio Lopes, que se estreou em 1995 com «Religião Popular do Ribatejo», regressa ao tema em parceria com João Monteiro Serrano. Com o subtítulo de «Religião Popular dos Avieiros da Borda d´Água», este volume de 168 páginas investiga o modo como a religião em memória trazida da Vieira de Leiria se transformava em religião prática nas aldeias à beira do Tejo. A viagem era complicada: «A gente ia primeiro a pé até Monte Real, em seguida de comboio até Alfarelos e, depois, noutro comboio até Santarém». A instalação não o era menos: «O barco era instrumento de trabalho mas igualmente casa, veículo de transporte, maternidade e enfermaria». Com a itinerância, os Avieiros deixaram de frequentar as igrejas («excepto para casamento ou funeral») e a razão era a distância: «Não íamos porque era muito longe e não tínhamos vida para isso». As relações com as comunidades locais não eram fáceis: «Aos Avieiros do Patacão que mandavam os filhos à escola na Quinta da Lagoalva, era-lhes exigido que frequentassem a missa ao domingo em conjunto com as crianças, condição indispensável para as mesmas terem direito ao almoço escolar na semana seguinte». Os pioneiros sabiam rezar («A minha avó sabia. Ela era da Vieira») mas os mais novos já não: «A gente não tinha vagar de aprender as rezas porque andávamos de noite e de dia por lá». Daí a importância do bruxo: «Esta noite iam e apanhavam bom peixe. Se na noite que vem não apanhassem nada, diziam logo que era uma bruxa que andava ali».

(Editora: Âncora, Prefácio: D. Manuel Pelino Domingues, Capa: Ideias Virtuais sobre foto de João Serrano)

Vinte Linhas 303

Saudação de Natal a Marta

Feliz Natal Marta! Lembras-te quando éramos nós os primeiros a chegar? Eu vinha de uma cidade distante mas chegava primeiro, sempre cedo. Tu vinhas de uma vila próxima e banhada pelo mesmo rio que passava frente ao nosso escritório. O teu pai destinava-te tarefas transparentes, repetitivas, obscuras e afastadas do protagonismo. Eu dava os primeiros passos numa segunda vida de trabalho depois de trinta anos noutro espaço e noutro lugar. Às vezes chovia, às vezes o vento assobiava nas janelas daquele escritório e nós dava-mos início ao dia de trabalho com um sorriso que era construído pela paciência dos dois, pela ideia pouco explícita mas concreta de que estávamos a construir um novo dia onde se procurava negar a monotonia. Ás vezes eu percebia que nos teus olhos magoados havia uma ideia: o teu pai exigia muito de ti. Outras vezes eram as sequelas de uma doença recente que te empurravam para a tristeza e davam relevo à tua fragilidade. Nessas horas da manhã nós éramos os náufragos do tempo hostil que nos coube viver. Ás vezes falava-te da minha filha com um nome igual ao teu e das suas opiniões sobre tudo e sobre todos. A tua homónima é hoje uma jovem arquitecta à procura de um lugar de afirmação no seu espaço e no seu mundo. Nesse tempo eu já sabia que a vida não é fácil porque os pais e os filhos não nascem para serem amigos mas sim para serem apenas pais e filhos. Neste postal de Boas Festas diferente quero mandar-te, Marta, os meus votos de que continues todas as manhãs a construir esse sorriso teimoso e determinado fazendo de cada dia não uma monótona repetição mas a descoberta e a aventura de quem (como tu) sabe que o seu lugar no Mundo é próprio, exclusivo e irrepetível. Feliz Natal Marta!

Somos todos irmãos

«Somos todos irmãos – do «número de crianças que morre no Brasil» a um

inesperado poema de Rubem Braga passando pelo «Sentimento do Mundo»

Corria o mês de Setembro de 1940 quando, em São Paulo, Rubem Braga (n. 1913- Cachoeiro de Itapemirim) escrevia e publicava uma das suas mais famosas crónicas: «Os mortos de Manaus». Estava Rubem Braga a hesitar no tema de uma crónica, algures entre um grupo de pretos que cantava na madrugada os sambas da moda e uma fita de cinema sobre a qual podia valer a pena escrever mas, de súbito, caiu na sua mesa de trabalho o «Boletim Estatístico do Amazonas» com os 428 mortos do primeiro trimestre de 1940 em Manaus. Ao ler e interpretar os números, Rubem Braga percebe que dos 428 mortos, 73 são crianças com diarreia e enterite. E explica: «Eis uma coisa que não chega a me dar pena porque me irrita: o número de crianças que morre no Brasil. O que me irrita é o trabalho penoso das mulheres, o sacrifico inútil de dar vida a tantas crianças que morrem logo. A indústria nacional que nunca foi protegida é a indústria humana. Preferimos importar.»

Depois de uma dissertação emocionada sobre as várias causas de morte (paludismo, tuberculose, nefrites, lepra, cancro), depois de perceber que cada morto projecta sobre a sua mesa de trabalho e sobre a sua alma uma «sombra acusativa», Rubem Braga termina a crónica com uma expressão irónica, vasta e fria como a tristeza do Mundo: «Eu não tenho culpa nenhuma e nada tenho a ver convosco. Eu não tenho culpa de nada, eu não tenho culpa nenhuma!»
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Um livro por semana 156

um homem divido vale por dois luiz pacheco

«1 Homem dividido vale por 2» – Luiz Pacheco

Trata-se de um livro duplo: além do material respeitante a Luiz Pacheco (o autor) as suas 378 páginas integram a bibliografia completa de Pacheco (o editor). Entre outros a Contraponto de Luiz Pacheco editou Apollinaire, Raul Brandão, Alfonso Castelao, Camilo Castelo Branco, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Dostoiewski, Hélia Correia, Manuel Grangeio Crespo, Durrenmatt, António Ferreira, Garrett, Vergílio Ferreira, Carlo Goldoni, Herberto Hélder, Ibsen, Ionesco, Karl Jaspers, Kleist, Manuel Laranjeira, Raul Leal, Manuel de Lima, António Maria Lisboa, António Tavares Manaças, José Alberto Marques e Virgílio Martinho.

No que diz respeito a Pacheco (personagem) o outro lado do livro refere uma curiosa ligação afectiva a Caldas da Rainha: «Não me julguem que chegado a esta terra como náufrago ou foragido (e alguns sabem-no) sou aqui um tipo género pára-quedista. Por acaso, sou muito mais Caldense que muitos que por cá nasceram ou vivem – e isto bastantes o sabem já. Um dia espero contar como cheguei, quem já conhecia; quem já não vim encontrar e me fez deambular, meio-sonâmbulo, ensimesmado, pelas áleas do cemitério: a Dona Eugénia Soeiro de Brito, o Pai Freitas, o dono (como se chamava? Tiago?) do Gato Preto; o Jaime Arsénio de Oliveira e outros fantasmas mais. E aqueles que vim a conhecer, me deram a mão, ficaram Amigos ou malquistos e enchiam esta página. As minhas memórias de caldense adoptivo dariam um rico volume, se o chegar a escrever. E se não sair em letras está-me escrito na pele.»

(Editora: D. Quixote – Biblioteca Nacional, Comissário: Luís Gomes)

Vinte Linhas 435

«À sombra das árvores mortas» no Príncipe Real

O título é dum romance de Mário Ventura. Ontem das 21 às 23 horas na Faculdade de Ciências de Lisboa realizou-se um encontro de um grupo de pessoas à volta do tema «Que futuro para o jardim do Príncipe Real». Embora tenham sido convidados, não estiveram presentes os Drs. António Costa e José Sá Fernandes da CML, o Eng.º Amândio Torres da Autoridade Florestal e o Dr. Gonçalo Couceiro do IGESPAR. Foi dolorosa esta ausência mas tem lógica: a CML agiu neste caso como uma «Quadrilha selvagem», só obteve parecer favorável do IGESPAR em 30-11-2009 quando a destruição já estava consumada desde 24-11-2009 e nunca referiu «árvores» à Autoridade Florestal mas apenas e só «piso». Por outro lado todas as intervenções no raio de 50 metros à volta das árvores classificadas necessitam de parecer da AFN e, neste caso, ainda não há parecer. Foi projectada uma cópia de um relatório camarário de Janeiro de 2009 a referir o estado «razoável» das árvores do jardim. O abate de 46-49-54 árvores (ninguém sabe ao certo) foi ilegal e desrespeitou o espaço – as árvores e as pessoas. Uma requalificação a haver seria uma substituição gradual e não violenta além de que é impossível estarem doentes todas as árvores abatidas. O vereador na Junta de Freguesia referiu 6 árvores no interior do jardim quando são 9. Por outro lado um biólogo presente na sala referiu que a sombra das árvores abatidas em série faz falta não só às pessoas mas também às outras árvores. O «piso» é outro problema: no antigo jardim de S. Pedro de Alcântara (hoje miradouro) substituíram o empedrado por saibro e no Verão o pó que o vento levanta entra nas chávenas de café dos incautos turistas.

Vinte Linhas 434

O homem do saltério na estação do Campo Grande

A cidade tem armadilhas de ternura, emboscadas de encontros felizes, confusões que se desfazem devagar e nos ajudam todos os dias a dar um sentido ao tempo de viver aqui. Na estação do Campo Grande saía eu da carruagem da linha verde e procurava a linha amarela quando no espaço da plataforma fui surpreendido por um som insólito mas muito agradável. Não é todos os dias que se ouve um saltério.

O músico tocava o «My way» de Frank Sinatra, um génio que nasceu destinado a uma vida pobre, filho de um italiano empregado de um bar e pugilista em part time com um nome de guerra irlandês e de uma parteira que, também em part time, fazia uns abortos para arredondar o fim do mês.

O homem do saltério não conhecia o filme «O terceiro homem» nem a partitura de Anton Karas nem o livro de Graham Green nem a imagem de Joseph Cotten a fugir dos maus nos enormes esgotos de Viena. No fim os bons ganham. Nos filmes, ao contrário da vida real, os bons ganham sempre.

Ele, o desconhecido que interrompeu a minha deambulação na plataforma do Metro, continua a fazer voar o plectro, a pequena vara de madeira, por sobre as cordas do saltério. Eu não poderia desejar melhor motivo: um desconhecido vindo lá dos confins da Hungria ou talvez da Roménia toca com afinco, prazer e devoção uma música americana cujo titulo «My way» pode ser traduzido por «meu caminho». O meu e nosso caminho é, só pode ser, estarmos todos juntos na crónica, na Rádio, no Natal de 2009 e no mundo novo que este nosso Natal anuncia.

Vinte Linhas 433

Linhas para um perfil de Laura

O vidro da parede da casa frente às águas serenas da Lagoa acaba por projectar, no perfil de Laura, uma ideia de quadro e de moldura. Era como se um pintor do século XIX aqui procurasse fixar as linhas e os contornos de um rosto ansioso de mulher, este rosto debruçado na tarde de sol, na Lagoa povoada e na poderosa melancolia que tudo envolve. Para mim, simples cronista de um momento de encontro, vejo no perfil de Laura um reflexo do perfil de sua homónima avó à porta da sua casa nas Eiras onde eu nunca passava sem receber uma noz, alguns figos secos, uma maçã seca em rodelas ou meia dúzia de pinhões e, por fim, um beijo com a humidade da ternura.

Era como se um relógio antigo desse apenas para mim todas as horas repetidas num som de sala mergulhada em escuridão e cada hora da neta hoje frente às águas serenas da Lagoa, ao sol e à melancolia, fosse a repetição de todas as horas de sua avó homónima à porta de casa, sempre dividida entre o amor multiplicado pelas netas e as ordens para os trabalhadores rurais que nesse tempo ainda se chamavam «servos».

Há, nos pequenos barcos azuis e brancos da Lagoa, um convite explícito à viagem e um prenúncio de movimento como se, de súbito, o perfil de Laura, amargo, vagaroso e cinzento, partisse desta tarde, plena de frio e de sol, para se colocar no perfil de sua avó homónima. Assim podia Laura a avó entrar de novo na nossa alegria convocada por um encontro à porta da casa, algures entre um grupo de netas à espera de beijos e um rancho de trabalhadores rurais, homens e mulheres, à espera de vozes de trabalho. Assim podia Laura a neta sorrir de novo e abalar o rígido perfil da melancolia na casa frente à Lagoa.

Um livro por semana 158

«Sobressalto e Espanto» de Violante F. Magalhães

Vergílio Ferreira, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol são autores neo-realistas de romances e contos com protagonistas infantis e juvenis. «Vagão J», «Aldeia Nova», «Esteiros» e «Fanga» são quatro exemplos que podemos alargar a «O fogo e as cinzas», «Refúgio perdido» ou «Constantino, guardador de vacas e de sonhos» : «O menino guardador de vacas representa, afinal, a situação de todas as crianças de uma mesma classe social. Recorde-se que à data da saída de Constantino a escolarização tinha-se finalmente generalizado entre a população infantil portuguesa, pelo que, naturalmente, uma escrita engagée privilegiaria agora a denúncia de realidades escolares que fossem menos favoráveis às crianças. Por isso, em Constantino são ainda criticadas as condições em que essa escolaridade era praticada.» Trata-se de um ensaio, foi antes uma tese de doutoramento mas lê-se como uma ficção. Aqui as personagens são os livros. Por exemplo «Esteiros» e os seus quatro rapazes («Gaitinhas, Gineto, Sagui e Maquineta») ou então «Fanga» («Há nos campos da Golegã / grandes milhos e trigais / p´ra fartar os lavradores / enquanto os pobres dão ais») ou ainda «O fogo e as cinzas» («O Largo era a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes ou bêbados ou vagabundos») ou também «Constantino, guardador e vacas e de sonhos»: «Se perdes outro ano, acabou-se o ofício… Vais saber o custo da galé… A vida não passa de uma galé para quem nasceu pobre.»

(Editora: Campo da Comunicação, Capa: Rui Pereira, Fotos: Alves Redol e Firmino Canejo, Apoios: Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e Fundação para a Ciência e a Tecnologia)

Um livro por semana 146

cristino cortes poemas de amor e melodia

«Poemas de Amor e Melodia» de Cristino Cortes

Trata-se da reedição de um conjunto de 42 poemas com data de 1999 sendo este novo livro composto nesta versão por 66 textos poéticos. O volume oscila, como o título indica, entre o Amor e a Melodia.

O ponto de partida é a Mulher: «O vento lhes move as saias e os vestidos / Ondeia e mexe os cabelos e é assim envoltas / Em anéis, lenços ao pescoço, as pernas soltas / Possível o esvoaçar e livres os sentidos»

O ponto de chegada é a Música: «Afino sempre a viola, faço o que posso, procuro / Cumprir o dom que aceito e vivo com alegria / Inevitável, inconsciente, em mim esta música / É quase natural, um respirar que não dou conta…»

No intervalo entre o Amor e a Melodia surge a Poesia, ela mesma («Sou delicado e prudente, é mulher a Poesia») ou por outras leituras (Herberto Hélder, Fernando Pessoa, Augusto Gil) ou Ruy Belo – como neste «Peixe com palavras»:

«Era um peixe no meio das palavras / Uma caravela por sobre a planície / De verde relva bem aparada, veloz a quilha / E uniforme a espuma lateral e envolvente; / Uma ave numa superfície marítima / Reflectindo nuvens cinzentas e encapeladas; / Uma flor teimando por sob os raios do sol / Hesitando entre a clorofila que não conhecia /

E a abelha matinal que no final já não zumbia»

(Editora: Papiro, Grafismo: Miguel Paulo, Design: Henrique Valente, Foto: Hélder Joana)