Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 475

Óbidos – «Theatron» na Galeria nova Ogiva

Pedro Valdez Cardoso (n. 1974) expõe regularmente desde 2005 e apresenta em Óbidos (Galeria nova Ogiva) uma exposição (Theatron) patente ao público até 16-5-2010. Trata-se de um conjunto de peças executadas com materiais de uso quotidiano e perecível como tecidos, alumínios, cartão, papel, cordão, adesivo, arame ou atacadores. Com elas o autor questiona o Homem entre o precário da vida e o inevitável da morte. Ou, nas palavras do próprio autor a Hugo Dinis, autor da apresentação do livro-catálogo: «No caso de Óbidos a minha preocupação foi seleccionar peças que pudessem jogar com o contexto da vila medieval de estrutura militar. Interessava-me ter peças que se relacionassem com essa imagética e que jogassem com possíveis leituras historicistas.»

A galeria nova Ogiva merece só por si uma visita: em 1970 na sua inauguração José Aurélio trouxe obras de 35 artistas: Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, António Sena, Armando Alves, Artur Rosa, Aurélio, Carlos Calvet, Charrua, Conduto, Costa Pinheiro, Eduardo Luís, Eduardo Nery, Escada, Espiga, Helena Almeida, João Abel Manta, João Cutileiro, João Vieira, Joaquim Rodrigo, Joaquim Vieira, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Lourdes Castro, Manuel Baptista, Maria Velez, Menez, Noronha da Costa, Nuno de Siqueira, Palolo, René Bertholo, Rogério Ribeiro, Sá Nogueira, Vespeira e Zulmiro. Óbidos está muito perto de Lisboa, tem a auto-estrada à porta e a responsável pela organização (Ana Calçada) tem o bom gosto de colocar nos diversos espaços museológicos de Óbidos meninas bonitas, competentes e simpáticas.

Um livro por semana 180

«A arte de morrer longe» de Mário de Carvalho

O vigésimo título de Mário de Carvalho (n.1944) recupera alguma da geografia de livros anteriores – a Lagoa Moura, por exemplo. O ponto de partida é o jovem casal (Arnaldo e Bárbara) que vai inventariando a sua separação física e material antes do divórcio onde há «tapetes persas tão autênticos como os chineses de Arraiolos».

Mas o problema era a tartaruga; nenhum a queria: «A opção entre o Jardim da Estrela e o Parque deu discussão». A mãe de Arnaldo tem um namorado que lê a Wikipedia («muito apreciada por polícias ávidos de instrução e estudantes em apuros de véspera de exame») e quer arranjar a casa de campo: «Dez da manhã» quer dizer «meio-dia», «amanhã» quer dizer «para a semana», «para a semana» quer dizer «nunca mais», «com certeza» quer dizer «não», «garanto» quer dizer nunca», «compromisso» quer dizer «rábula» e «palavra de honra» quer dizer «Tá bem abelha, eu bem te lixo».

Só Mário de Carvalho se lembraria de uma canja de galinha típica da Figueira da Foz, terra de pescadores. Só Mário de Carvalho ligaria o jornal de Eça de Queirós e de Palma Cavalão («Corneta do Diabo») à actual Internet povoada de «piruetas de comentários soezes, chalaças, calúnias, mistificações e ordinarices». Só Mário de Carvalho para pontuar as histórias do casal às voltas com a tartaruga com citações de Eça, Galsworthy ou Gógol antes de a dita tartaruga ir morrer longe. E bem longe de Lisboa, da Lisboa de Mário de Carvalho, «bela e nunca por demais celebrada cidade de Lisboa, urbe das urbes». Sem esquecer que «o mestre-de-obras» não apareceu naquela manhã.

(Editora: Caminho, Capa: Rui Garrido, Colecção: O campo da palavra)

Vinte Linhas 474

Herman José – há 44 anos o seu pai fez parte do meu mundo

Ouvi Herman José na TV a falar sobre o seu regresso às lides. Num dado momento referiu como o dia mais triste da sua vida o da morte do pai em que, passadas algumas horas no velório, teve que arrancar para um espectáculo onde tinha que fazer rir o auditório. Em 1966 trabalhava eu no Departamento Operacional de Estrangeiro no BPA na Rua do Ouro 110 em Lisboa conhecia muito bem o seu pai, o senhor Kriphal. Aparecia no nosso balcão acompanhado por um ou outro cliente para ajudar a traduzir os créditos documentários do Deutsche Aussenhandelsbank da RDA, país que curiosamente era tratado como «Alemanha – Zona de Ocupação Soviética» nas licenças de exportação, os boletins amarelos da Direcção Geral de Comércio.

As empresas que exportavam para a RDA eram (entre outras) o E.S. Brito, o I. Granadeiro, o Torres Pinto, a Socorquex, a Corticeira Estrela, a Liscor e o José Maria Jorge. A todos o senhor Kriphal ajudava com o seu lápis. Ele usava o lápis para traduzir em directo sobre o próprio documento no balcão do Banco. Depois no respectivo escritório eles passavam a tradução para uma folha e era com essa folha que os documentos eram preparados para negociação no nosso Banco.

Passaram 44 anos. Como bancário fiz o meu percurso nos créditos documentários e ao longo desses anos várias pessoas me ajudaram e me ensinaram. Convivi com clientes e despachantes, com o pai do Herman e com correctores de seguros, com Almeida Costa e com Carlos Esteves, o seu delfim. O crédito documentário é das operações mais complexas e fascinantes. Deixo aqui a imagem de um conhecimento de embarque.

Inútil – Revista de Poesia nº 2

O título desta Revista nasce na frase de Óscar Wilde: «Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração».

São três os directores (Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha) e este número de Abril de 2010 foi lançado na «nova» Buchholz na Duque de Palmela. Está tudo diferente menos o piano. Não é uma revista só de jovens poetas; há um equilíbrio entre novíssimos e veteranos. Por exemplo: lemos aqui poemas de Amadeu Baptista, Vítor Oliveira Mateus, Nuno Júdice, Joaquim Cardoso Dias, Casimiro de Brito e José Luís Peixoto. Dois excertos dos novos como convite à leitura do todo da Revista.

De Catarina Nunes de Almeida: «Passei toda a manhã debruçada sobre a moldura / agora tem um pequeno terreiro e cresce por lá de toda a fruta / até aves e o teu cabelo está mais tenro mansinho / dentro da luxúria do vidro. / O sol mastigou-te como as estátuas.»

De Rui Almeida: «Os dedos, as coisas / As ruas e tudo o que nelas passa / As paredes dos quartos / Os animais, as árvores / São quase tempo. / Os segredos e os minutos de espera / Ocupam espaço. / Vou dormir em vez de falar do tempo / Dizer dos barcos o contorno no / Breve oceano onde se movem. Vou / Respeitar os mortos enquanto me doer».

Além do interesse dos poemas há um evidente bom gosto gráfico nesta nova Revista.

Chuva nos telhados da Travessa André Valente

Os pingos de chuva são uma oração ao contrário, lágrimas de Deus em direcção à terra.
Nos telhados da grande cidade a água perde-se e entra, minutos depois, nas sarjetas do fim das ruas. Ou travessas. Ou praças. Ou avenidas.

Nas velhas províncias, nos barracões e nas adegas, entre fumo e frio, a água multiplica-se nos pátios interiores, nos regatos, nas ribeiras e, por fim, nos rios maiores a caminho do mar.

As gaivotas aparecem no telhado do prédio em frente. Fácil de explicar: o Tejo está apenas a mil e cem metros de distância. Chegam tarde para anunciar a tempestade que já se instalou nos telhados da Travessa André Valente.

No pormenor do óleo de Estrela Faria (datado de 1934) surge o esplendor da cor da cidade, arco-íris de telhados onde a chuva que não pára se assemelha a um óleo capaz de eternizar a força do momento e o mistério do quadro – pequena superfície que aspira a registar para sempre um lugar e as suas cores felizes.

Balada nocturna para Eduardina

Viola-da-terra, menina

Nas mãos de Hélio Beirão

Cria na voz de Eduardina

O rumor duma canção

Na Rua dos Navegantes

Como na Horta, cidade

São as coisas importantes

Que criam maior saudade

Entre igrejas e conventos

Entre ermidas e mercados

Ficam no pó dos momentos

Os teus passos registados

Nas janelas dos solares

Na Ribeira da Conceição

Nos mais diversos lugares

Angústias em construção

Viola-da-terra, menina

Mas mãos de Hélio Beirão

Cria na voz de Eduardina

O rumor duma canção

Das Angústias, freguesia

Pode nascer um compasso

Com palavras de alegria

É esta canção que faço

Jardim Florêncio Terra

Num coreto silenciado

Uma voz em pé de guerra

Procura por todo o lado

Qual é o exacto lugar

Onde fica a sua canção

Será na Rua do Mar

Ou na Rua de S. João

Viola-da-terra, menina

Nas mãos de Hélio Beirão

Cria na voz de Eduardina

O rumor duma canção

Um livro por semana 179

«O grande livro dos cães» de José Correia Tavares

Nas quadras ao gosto popular também se pode fazer a gramática do Mundo. O autor (n.1938) começa por escrever na primeira das suas 540 quadras o louvor da própria quadra: «Para guardar meu rebanho / cão e flauta pouco mais / num mundo deste tamanho / só coisas essenciais».

A seguir refere-se a si: «Também aos meus calcanhares / mas um homem não recua / José Correia Tavares / ladram mabecos de rua».

Noutra quadra aparece a cidade onde o autor se insere: «Quando alguém por dignidade / não aguenta aquele troço / logo vinte na cidade / são como cães a um osso».

O tempo destas quadras oscila entre o passado («Há velhos cães no Restelo / precisando dois carolos / levam couro e mais cabelo / depois comem-nos por tolos») e o futuro: «Fora da nossa retina / antes de Abril nestas praças / era um cão em cada esquina / sumiram grandes reaças».

As quadras do livro tanto criticam Salazar («A um tronco de oliveira / me lembrando Salazar / é que eu velho cão da Beira / prefiro sempre mijar«) como aplaudem Sophia de Melo Breyner Andresen: «Com o Cristo a que Sophia / em livro chamou cigano / tem cachorro analogia / não é insulto profano».

Não se fechando no horizonte lusitano, as quadras falam também de Beethoven («Quando a Ode à alegria / van Beethoven escreveu / se calhar também já via / o mundo-cão como eu») e de Picasso: «A Guernica de Picasso / já não apanhou os cães / pois retornavam ao espaço / os seus caças alemães».

(Editora: Húmus, Prefácio. Mário Cláudio, Apoio: Câmara Municipal de Castelo Branco)

Vinte Linhas 473

Grupo Desportivo de Chaves – um lugar na história do Desporto

A dupla vitória sobre a Naval que deu o acesso à final da Taça de Portugal em futebol a disputar contra o F. C. Porto, veio colocar de novo a equipa do G. D. Chaves nas bocas do Mundo. A grande curiosidade é que o meu mais recente livro (As palavras em jogo) inclui duas entrevistas com dois flavienses apaixonados – Eduardo Guerra Carneiro e Francisco José Viegas. O primeiro explica como nasceu o Clube: «O Grupo Desportivo de Chaves foi criado em 27 de Setembro de 1949 por fusão do Flávia e do Atlético. O Flávia era mais elitista. O Atlético era mais popular. O Flávia tinha a cor azul e no Atlético havia o vermelho da Cruz de Cristo de «Os Belenenses» (e eu não sei se não havia lá no fundo qualquer conotação política…). O Presidente da direcção do Flávia era o dr. Edgar Carneiro e no Atlético pontificava o dr. João Morais. Julgo que só o prestígio dos dois conseguiu a fusão e a criação do Desportivo. Ninguém a consegue nos Bombeiros, nos Clubes Sociais e até nas Bandas de Música. Agora só há uma, a dos Pardais porque a dos Canários perdeu o pio…»

Francisco José Viegas afirmou: «Vivi em Chaves entre 1968 e 1980. O estádio do Chaves era ao lado da minha casa e era o clube local – passaram por lá futebolistas muito diferentes dos de hoje: mais entusiastas, mais aguerridos, capazes de correr a sério por uma bola que fosse, um golo, uma grande jogada. E o Chaves não era só um clube de futebol – era (e é ainda) uma frente de combate de toda uma região afastada e isolada do mundo, das cidades que tinham grandes clubes e grandes dinheiros».

Nota final – a fonte da imagem da equipa flaviense é dos cadernos de A BOLA.

O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

Balada para Carlota e Collandre

(Rua da Misericórdia, 30)

Carlota, mulher menina

Ao lado de Marta, mãe

Vê o Chiado na esquina

Cais do Sodré mais além

Num eléctrico amarelo

Entre a Estrela e a Graça

Passam sombras do castelo

Nos carris por onde passa

Alecrim, rua da ilusão

A olhar para os telhados

Os cacilheiros já estão

Nestas telhas atracados

Martim Moniz – Prazeres

Quando muda a bandeira

Ouço a voz das mulheres

Trazem as flores da Ribeira

«Anúncio de Primavera»

É quadro em exposição

Collandre mulher sincera

Pinta sempre com razão

A traço firme e seguro

Máscara de fantasia

A palavra que procuro

Nunca me dirá todavia

Esplendor do imaginário

Nestas pautas musicais

Que desenham o contrário

Das paisagens essenciais

Que Carlota vai levar

No sorriso fim de dia

Já Marta fecha o lugar

Onde a luz se refugia

Balada de Mateus Queimado em 1913

Meu tio, juiz de Direito

Comarca da ilha de Goa

Veio reformado a preceito

Era a bondade em pessoa

Da Índia eu nada sabia

Com tigres e palmares

Na Ilha era outra alegria

Touros em vários lugares

Na venda do Cambadinho

Cravo, pimenta e canela

Faço um recado sozinho

Espero o meu tio à janela

Entre lágrimas da mãe

Um suspiro mal abafado

Saímos mas não a bem

Despejados no mandado

Uma loiça de tons quentes

Foi sair duns caixotões

Eram colchas diferentes

Estampas, leques, cadeirões

No Mandovi ele insistia

Nós só tínhamos ribeiras

Um caudal só de um dia

Com lamas amareleiras

Um telegrama cifrado

Meio da aula de francês

De Lausanne enviado

Levou meu tio de vez

Pediu-lhe ajuda a filha

Para a fúria da mulher

Ele disse adeus à Ilha

São Francisco Xavier

Conversa interrompida

Do meu tio aposentado

Assim Goa saiu da vida

Do moço Mateus Queimado

Exposição

Mané do Café na Fabula Urbis

Jorge Carlos Amaral de Oliveira (n. 1952) é mais conhecido como Mané do Café e tem até 30 de Abril uma exposição de pintura na Livraria Fabula Urbis (Rua Augusto Rosa 27) ali atrás da Sé.

O título – Lisboa em Café – diz quase tudo sobre os trabalhos em exposição: Fernando Pessoa, Santo António, Alfredo Marceneiro, Carlos Seixas, Fernando Maurício, Amália Rodrigues. Além dos eléctricos, das guitarras e dos recantos da cidade.

Português do coração, Mané explica-se num poema: «Sou mais português / Que seu Manel motorista / que torcia pelo Flamengo / Eu sou do Vasco da Gama».

Vale a pena dar um salto ali à Sé de Lisboa ou ver aqui.

Um livro por semana 178

«Barbershop» de Júlio Conrado

«Barbershop» é o capítulo da página 138 que passa para título deste 26º livro de Júlio Conrado (n.1936). Embora na barbearia se cruzem o poeta F.F. e o crítico literário Porfírio Inverno, enquanto se defrontam tipos de poesia – Pedro Homem de Melo e Herberto Hélder – este é um romance de costumes. Há um triângulo amoroso (Diamantino, Bordalo e Guilhermina) com duas brasileiras para atrapalhar: «Guilhermina era a sua namorada oficial quando Bordalo lha roubou para casar com ela». Se «Guilhermina é uma mulher fria, calculista, secreta» a «Bordalo falta traquejo na arte do engano». O autor propõe a chave no livro que a mulher lê: Sentada num maple, lia. Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado? Não! Arte de Furtar? Também não! As palavras poupadas de Maria Judite de Carvalho? Podia ser, mas não! O Triunfo da Morte de Abelaira? Qual! Guilhermina relia D. Casmurro e recordava, com a ajuda de Capitu, a arte da dissimulação». Os conflitos surgem sempre em campos distintos: duas livrarias (Aristides e Galileu) duas barbearias (A Brilhante e Ao Corte Superior) e dois lugares em oposição – o Algarve («Para mim o Algarve é Setembro») e Cascais («Caminharam entre um renque de palmeiras-anãs e o baixo muro de protecção do que os locais chamam a muralha»). É aqui que o embaixador sueco fica à espera enquanto o agente literário diz a F.F. na manhã do Nobel: «O teu nome e a tua obra são mais importantes do que tu.» Fica o retrato dum tempo anterior: «vivera a condição de puto de bairro popular que, acabada a instrução primária, entrava para marçano na mercearia mais próxima, aprendiz de talhante, moço de farmácia ou para paquete de escritório; com um pouco de sorte e uma cunha de peso era-se recrutado para groom de um jornal, de um banco ou de uma companhia de seguros».

(Editora: Presença, Capa: Catarina Gaeiras, Foto: Jean-Claude Martinez)

O bode da viúva

Escondem entre as pernas o bode da viúva

Bem longe do balcão da sombria taberna

Seus gritos são iguais às bátegas de chuva

Da água maldita que não entra na cisterna

Nem mata a sede neste Verão de fornalha

Que queima as gargantas de quem passa

Nas ruas mais apertadas onde se espalha

Toda a pobreza da aldeia toda a desgraça

Cisterna, único lugar da casa bem fechado

Mais que roupa ou louça, arca ou armário

Riqueza fechada no segredo dum cadeado

Mata a sede de quem chega ao contrário

Da vida que se vai projectando no ecran

E que termina a dois numa dança ritual

A chuva da noite vai repetir-se de manhã

Nas ruas onde o ar sabe a mar e sabe a sal

O lugar do vento

Desde sempre quis saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

As velas projectam a velocidade que não desloca o moinho mas, pelo contrário, interioriza essa velocidade e transforma-a em farinha de milho e de trigo.

Alguns teimosos ainda fazem pão verdadeiro

porque recusam o pão de plástico do hipermercado.

De vez em quando um cabo trava o movimento das velas

tal como a âncora que imobiliza o navio, no sossego da tarde, no tempo suspenso,

no lugar do vento onde se junta o sal do mar e a argila desta terra singular.

A terra de onde parti e aonde hei-de voltar um dia para descansar perto do lugar do vento, sem obter resposta para a minha dúvida de sempre:

saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

Os olhos de Afonso

Tinham água e fogo mas também sangue pisado

Os olhos de Afonso depois do golo em Alvalade

Ele regressou do Inferno, foi traído e humilhado

Mas marcar este golo foi escrever uma verdade

Poderia ter sido a explosão da revolta ou o grito

Mas foi mais do que isso; foi a festa e foi o golo

Ele foi o pastor de um rebanho perdido e aflito

No campo da amargura sem luz e sem consolo

Foi um livre marcado por um homem renascido

Regressado de uma morte civil mal decretada

Hoje é livre o jogador que andou como perdido

Os autores do seu martírio, esses não são nada

Minutos depois numa conferência de imprensa

Os olhos tinham água, fogo, sangue e alegria

Ele soube vencer toda a força da indiferença

Ganhou o pão da esperança à espera deste dia

Vinte Linhas 472

Portugal – O piquete e o cabo de dia ou A sarjeta no altar

Parece de propósito. Quando há dias coloquei no «aspirinab» o texto sobre o livro do Raul Brandão (1867-1920) com a citação da página 111 de «Vida e morte de Gomes Freire» houve quem não gostasse e me criticasse asperamente por fazer esta citação onde se podia ler: «É a vaza, é o costume secular, é a infâmia que sobe do fundo do charco e tolda tudo, suja tudo. Umas são reles, outras simplesmente ridículas.»

Parece de propósito. Poucos dias depois lá veio de novo Sócrates, a cegarrega dos projectos assinados, dos mamarrachos, das incompatibilidades, das suspeitas, das denúncias. Desta vez foi num jornal mas podia ter sido numa televisão. Claro que eu sei (tenho a obrigação de saber) que o pessoal de piquete e o cabo de dia não estavam à espera do que saiu no «aspirinab» mas dá que pensar. Parece que foi um reflexo.

Na minha terra existe uma expressão muito curiosa e muito apropriada ao caso que é esta: «Fulano sempre cavou com a mesma enxada». Quando um indivíduo teimava em manter a sua ideia, mesmo errada e com erro confirmado pela comunidade, as pessoas diziam: «Deixa lá que ele sempre cavou com a mesma enxada.»

Esta trapalhada do jornal da SONAE (podia ser da televisão, não vem ao caso) é mesmo de quem só cava com uma enxada. Quando se apagarem os foguetes deste «caso» lá virá a carta «anónima» do caso Freeport. E se for necessário, repete-se e voltam a ser distribuídas as cartas do baralho já velho, na velha taberna do velho país.

Parece de propósito. Esta gente não percebe que assim está a confundir tudo, a salpicar de lodo o jardim de todos, a enfim colocar uma sarjeta num altar. O seu altar.

Vinte Linhas 471

URBAN MAN – Profética não é provecta nem táxi tem a ver com tacho

No passado dia 2 de Abril fui ver o Sporting-Rio Ave e, para além dos cinco golos «leoninos», da expulsão envenenada de Izmailov e da não-expulsão do jogador do Rio Ave que derrubou Yannick à entrada da sua grande – área quando seguia isolado em direcção à baliza, houve outra coisa que aconteceu no jogo: a oferta de um exemplar da revista portuguesa para homens com o nome bem inglês de Urban Man.

Na página 41 da dita revista surge um texto sobre Silva Lopes: «Será que estamos tão mal de gestores que temos sempre de recorrer aos suspeitos do costume, mesmo quando já têm a profética idade de 77 anos?» Ora bem. A idade de quem tem 77 anos de vida não é profética mas sim provecta que vem do latim provectu e significa avançada ou adiantada em anos. Profético é outra coisa – tem a ver com predizer o futuro ou fazer profecias. Mais abaixo surge um outro texto sobre Maria de Lurdes Rodrigues a propósito da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento: «os taxistas são sempre os mesmos». Ora bem. Tacho como significado de ter um emprego chorudo (ter um bom tacho) nada tem a ver com táxi ou com taxímetro nem com taxista, profissional do volante. Tacho não tem a ver com táxi.

Na terceira coluna da página refere-se Francisco Loução como autor de artigos de economia e de física teórica. Aqui já é mais uma dúvida. De economia sabemos da economia política e da economia social mas de física só sabemos da física atónica e da física nuclear mas será que existe mesmo uma física teórica e que Francisco Louçã é especialistas mesma sem a gente saber? E fazemos figura de urso?

Vinte Linhas 470



Armando Nogueira – «Por onde andarão tuas chuteiras?»

Morreu Armando Nogueira (1927-2010) o homem que, como jornalista, entre 1950 e 2006, esteve em 15 campeonatos do Mundo e 7 Jogos Olímpicos.

Jô Soares deve estar triste: eram amigos e os dois, com Roberto Mulayert, escreveram o clássico «A copa que ninguém viu» sobre o campeonato do Mundo de 1954 na Suíça. Devido às complicações logísticas, as notícias chegavam ao Brasil só no outro dia.

Armando Nogueira é um poeta da prosa. Algumas das suas mais brilhantes crónicas e poemas estão no livro «O voo das gazelas» de 1991, uma edição da Civilização Brasileira, com apresentação de Énio Silveira. Corria o ano de 1950, era Pelé um pirralho de 16 anos, acabando de marcar dois dos cinco golos do Santos ao América quando o jovem repórter Armando Nogueira lhe perguntou: «Quem é o melhor centro-avante do Brasil?» e ele respondeu com naturalidade: «Eu». Nova pergunta: «E o melhor meia-esquerda?» «Eu também» – respondeu ele com um sorriso. Era verdade. Anos depois o jornalista escreveu a mais célebre frase sobre Pelé: «Pelé já era melhor muita antes de ser e continua sendo, mesmo depois de ter sido». Sobre Rosa Mota em Seul ele escreveu:

«As avenidas, as calçadas, as pontes do rio Han, o chão desta cidade está contente de te ver passar, sereno vento da manhã. Rosa das ruas, que o Senhor proteja o teu corpo peso-pena. Engenhosa fragilidade a disputar com o tempo a glória de um instante.

Rosa Mota, os ventos do Olimpo sopram por ti. O sol do estádio é luz por ti. Rosa, para sempre de ouro». Grande poeta da prosa, Armando Nogueira, para sempre.