Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 576

Dizer bancários não é o mesmo que dizer bancários no activo

Foi num telejornal na RTP 1 mas podia ser noutra qualquer estação televisiva. Foi o José Rodrigues dos Santos mas outro qualquer pivot poderia ter dito a mesma notícia falsa: «Os bancários já estão integrados na Segurança Social» E falsa porque o Decreto-Lei n 1-A/2011 de 3 de Janeiro no seguimento do Decreto-Lei nº 54/2009 de 2 de Março apenas contemplava «bancários no activo» o que é muito diferente de «bancários». Ora se o Decreto-Lei que tenho aqui à minha frente é o mesmo que o pobre diabo da televisão tinha no momento de redigir a notícia não há como explicar a discrepância. Confundir «bancários» com bancários «no activo» é um desastre mas o facto de nada terem dito sobre a CAFEB (que foi extinta) não augura nada de bom. Se tivessem pegado no assunto seria o desastre total.

Pois a CAFEB (Caixa de Abono de Família dos Empregados Bancários) foi extinta e os seus beneficiários passaram naturalmente para o regime geral da Segurança Social para efeitos de maternidade, paternidade, adopção e velhice. Se tivesse pegado no assunto da CAFEB o mesmo pobre diabo que escreveu «Os bancários já estão integrados na Segurança Social» podia ter escrito «A CAFEB foi extinta» assim sem mais nem menos e aí os mesmos espectadores que ficaram assustados ao ouvir dizer que «os bancários» foram integrados na Segurança Social (porque tomaram a sério o que ouviram) poderiam ficar ainda mais assustados. Mas não – nem tudo foi mau. O José Rodrigues dos Santos só fez um erro, foi poupado ao segundo. Não partiu os dentes e as orelhas ficaram onde já estavam antes. Mas o susto, esse já ninguém o apaga.

Vinte Linhas 575

A memória de um jogo quase 44 anos depois

Por um daqueles acasos da televisão dei com um canal de desporto mas não o actual – o chamado desporto clássico. Tratava-se da transmissão (a preto e branco) do único jogo da final da Taça dos Campeões Europeus a que eu, na verdade, assisti; foi o Milan – Celtic de 25 de Maio de 1967 no Estádio Nacional.

Tinha eu 16 anos acabados de fazer em Fevereiro e já não me lembro qual o dia da semana mas recordo bem que fui de eléctrico para o Jamor – ainda havia o 15 com atrelado que fazia raquete perto da ribeira. Fiquei por acaso atrás da baliza onde surgiram todos os três golos do jogo: o dos italianos de grande penalidade na primeira parte e os dois do Celtic por Tommy Gemmell e Steve Chalmers na segunda parte. Era (e é) a baliza do lado de Oeiras. Lembro-me de simpatizar com os escoceses por causa do verde e porque tinham ganho o direito de disputar a final ganhando e jogando bem perante três grandes equipas europeias – Zurich, Nantes e Dukla de Praga.

Na altura não fixei que o árbitro era alemão mas lembro-me bem de que antes do golo do empate uma bola pareceu dentro da baliza dos italianos e antes do segundo golo do Celtic o guarda-redes do Milan puxou disfarçadamente um pé a um avançado dos verdes de Glasgow. Mas tudo se compôs pois o endiabrado Jimmy Johnstone, um «cabeça de cenoura» irrequieto, deu água pela barba aos experientes jogadores italianos em cuja defesa brilhava Fachetti. No ataque brilhou mas pouco o conhecido Mazolla, autor do único golo do Milan obtido de penalty. Perto de mim um escocês não parou de cantar durante todo o jogo. Parece que já tinha a certeza de ser um dos «Lisbon lions».

Vinte Linhas 574

O esplendor da ignorância ou as «sintas» para revenda

Nos anos 80 lembro-me bem de uma loja de roupa interior ali para o Campo dos Mártires da Pátria que ostentava orgulhosa o letreiro «soutiens e sintas para revenda». Ainda não se falava no acordo ortográfico brasileiro que visa implantar o chamado «português pataxó». Os anos passaram, a vida deu voltas e um destes dias atravessei de novo o jardim do Campo que já foi de Santana a caminho do Martim Moniz. Vinha a pé da SPA na Avenida Duque de Loulé com a ideia de queimar os açúcares e de me distrair um pouco. Logo me recordei do esplendoroso erro de ortografia que permanece – «sintas» em vez de cintas. Não se sabe, ninguém sabe, se na origem dos erros está o som – quem escreveu «sintas» pode ter-se lembrado de «sinta-se bem». A frase publicitária até podia ser: «Sinta-se bem com sintas marca XPTO» mas isto é apenas uma suposição. Seja qual for a razão, o erro permanece desde 1980 quando eu vinha da Rosa Araújo para Gomes Freire num eléctrico (o 20) que já não há e ele fazia raquete frente à porta de armas da Academia Militar.

Mas para acabar o dia em beleza fui a um Concerto de Reis na igreja de Santa Catarina (Calçada do Combro) com cinco coros de bancários e o do INH onde li no programa que Georg Friedrich Haendel nasceu em 1965 quando nasceu em 1685. Também li «alferarrede» e «cast. branco» em vez de Alferrarede e Castelo Branco. E George Frideric Handel são três erros em três nomes. Foi um dia em beleza para quem gosta de erros de ortografia e de sentido. Esta de Belém e Provença aparecerem em caixa baixa e de Haendel ter nascido em 1965 só pode mesmo ser um erro de computador…

O menino de Shooters Hill Road

(sobre pastel de Fiona Bell Currie)

Arrumo o cesto de verga de miniaturas
Dos teus coloridos carros de corrida
Entre a relva não está o que procuras
Ficou aqui na tua alegria esquecida

Nas perguntas que fazias sobre a gente
Em ruidosa conversa à porta dos bares
Cidade onde a noite é mais diferente
Com outros ruídos, cenas e lugares

Nas trovoadas e seguintes tempestades
Instaladas em cima do nosso telhado
O teu receio à noite deixa-me saudades
Sei que não podes ficar do nosso lado

A sombra dos teus dedos permanece
Na caixa dos carrinhos em abandono
Em Shooters Hill há uma quermesse
Onde vendem rifas a meio do teu sono

Um neto para Vó Mam

(com um pastel de Fiona Bell Currie)

Um amor que continua
Nossa vida é uma estrada
Moramos na mesma rua
Numa cidade inventada

Um amor multiplicado
Em trinta anos inteiros
Chega forte a todo o lado
Levado por mensageiros

Cada neto uma bandeira
Ministros de uma nação
Todos juntos numa eira
Cabem no seu coração

Na colheita das canseiras
As lágrimas são cereais
As tulhas são verdadeiras
E cheias, não levam mais

Na casa da sua costura
Esquina do nosso destino
Há um olhar que procura
O retrato dum menino

O amor que não termina
Imensa a rede de afecto
No coração feito oficina
Há lugar para um bisneto

Algures na Grã Bretanha
Entre um rio e um jardim
Há um retrato que apanha
A luz dum amor sem fim

Se aqui estivesse pedia
Avó, a bênção da Paz!
E a Vó Mam respondia
Deus te abençoe, Tomás!

Um livro por semana 216

«O prisma das muitas cores – Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira»

Num tempo dominado pelas palavras-ruído, este livro com poemas de 135 autores (Portugal e Brasil) vem remar contra a corrente. Começa com quatro citações (Natércia Freire, Olga Gonçalves, Luís de Camões, David Mourão-Ferreira) e nele podemos registar uma oscilação entre palavra e encontro. Como em Ana Luísa Amaral («Se me pedisses de repente e aqui: / «fala das luas e dos dias», eu / nem falaria, diria só que estar contigo / é estar-me») ou em João Rui de Sousa: «As peças do teu corpo bem ligadas / desligam-se para os gestos mais perfeitos: / são joelhos e coxas separadas / é desalinho de ombros e de seios».

Mas também há oscilação entre corpo e espírito. Como em Alexei Bueno («Às vezes em meio / da incursão noturna / pela rica furna / de onde o sonho é veio / Assoma uma sombra / que é tanto em tua vida / nunca antes sabida / e este amor te assombra») ou em Floriano Martins: «Eu fui te buscar do outro lado da busca / do rio e já não tinhas substância ou rito. / Tuas luzes me esgotaram os pássaros / vôo de sílabas, letras como árvores oblíquas / reescrever-te, sempre, sem descanso algum.»

Por fim o soneto de Hélia Correia: «Se alguém batesse à minha porta um dia / E me chamasse à vida que há na rua / Eu – que não quero ouvir – nada ouviria / Que apenas ouço aquela voz que é tua».

(Organização; Vítor Oliveira Mateus, Editora: Labirinto, Capa: Júlio Cunha, Prefácio: António Carlos Cortez, Apoio: Município de Fafe e Museu das Migrações e das Comunidades Portuguesas)

Vinte Linhas 573

Ruy Castro não é Ruy Belo, Ruy Belo não é Ruy Castro

As revistas antigas, os chamados magazines, fazem as delícias das pessoas à espera da consulta. Há mesmo a expressão «revistas de consultório».

Habituado à Flama, ao Século Ilustrado e à Vida Mundial, espero numa sala de espera e descubro uma pérola jornalística na edição da Revista Pública de 30-5-2010.

Trata-se, nem mais nem menos, de uma errada citação de uma frase de Ruy Castro. Assim: «A selecção se divorciou do povo. Não é mais do Brasil. É um feudo de jogadores que actuam no exterior, defendendo camisas com as quais nada temos a ver». A frase pertence a um artigo (crónica) de 2007 com um título sugestivo: «Selecção sem povo». Não pode nem podia, de maneira nenhuma, pertencer ao poeta Ruy Belo que, não por acaso e a convite de Carlos Pinhão escreveu várias vezes sobre futebol no jornal A BOLA. Mas nunca poderia ter escrito «se divorciou» em vez de «divorciou-se».

Ruy Castro assina uma excelente biografia de Cármen Miranda – que nasceu Maria do Carmo Miranda da Cunha em 9 de Fevereiro de 1909 no lugarejo de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada (Marco de Canavezes).

O seu ponto de partida é o seguinte: «Todo mundo conhece Cármen Miranda. Mas quantos sabem como a filha do barbeiro e da lavadeira portugueses, criada na Lapa carioca de 1910 e 1920, se tornou – mundialmente – uma das mulheres mais adoradas do século XX?» O livro é a resposta a esta pergunta. E há quatro versos que ficaram para sempre – «Nós somos as cantoras do rádio / Levamos a vida a cantar / De noite embalamos teu sono / De manhã nós vamos te acordar».

Vinte Linhas 572

Dissertação para um quadro de Fiona Bell Currie

Fosse pela sonata para piano nº 14 de Beethoven que veio de súbito encher de melancolia o fim da tarde neste canto da sala a dar para o Tejo e para a Margueira
Fosse por te saber longe, uma semana noutra cidade, frente ao Mar Tirreno, sem mensagens de SMS nem postais porque hoje já não há tempo para os escrever
Fosse pela luz a bater no verde do parque e pela sombra das árvores com as duas silhuetas a meio do quadro, quem sabe, tu e a tua amiga ao encontro da irmã dela
Fosse pelo rio com os seus armazéns todos iguais, perfeitos, alinhados e as suas barreiras para evitar inundações que podem chegar do Mar do Norte
Fosse pelo relógio da torre da igreja onde ouvimos o som das três horas da tarde com o imediato contraponto do alvoroço das bancadas do vizinho Charlton Athletic Club
Fosse pelos olhos cansados dos velhos do cais de Greenwich, afinal iguais na sua tristeza sem fim a todos os olhares de todos os cais do Mundo onde já estivemos pata perceber melhor a nostalgia de todas as viagens feitas e por fazer
Fosse pela música de Erik Satie que veio empurrar as derradeiras palavras desta memória do som do teu nome na sombra de um parque à beira de um rio na cidade de Londres e, sem qualquer dúvida, só pode ser o Tamisa
Fosse pelo verde sempre presente nos quadros desta pintora que vive em Blackheath Park e respira este vento e esta luz branca de um pequeno afluente do Tamisa capaz de dar uma teimosa volta antes de entrar no sossego do grande rio
Fosse pelo quadro de Fiona Bell Currie ou pelo som do teu nome na luz pronunciado

Vinte Linhas 571

«Dicionário excêntrico» de Amadeu Ferreira d´ Almeida

Publicado em 1961 como «Antologia do espírito», integra 4374 citações de 1072 autores e pode ser lida a partir de 23 verbetes. Estes ou outros, à escolha livre.

Açúcar – Um convidado, ao tomar o chá, pede açúcar à dona da casa. Se ela é irlandesa, entrega o açucareiro. Se é inglesa, pergunta: «Uma pedra ou duas?». Se é holandesa, diz: «Mexeu bem? O açúcar está no fundo!»

Banqueiro – Aquele que empresta o dinheiro dos outros e guarda os juros para si.

Casamento – Há muitas mulheres que no dia seguinte ao casamento ficam viúvas do marido que tinham imaginado.

Descanso – Deus criou o Universo e descansou; depois criou a mulher e desde então nem o homem nem o Universo puderam descansar.

Enganar – Se alguém me enganar uma vez, Deus o amaldiçoe; se me enganar duas, Deus o amaldiçoe e a mim também; mas se me enganar três, Deus me amaldiçoe somente.

Fazer – Uma mãe leva vinte anos em fazer do filho um homem e outra mulher faz dele um parvo em vinte minutos.

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O cais dos soldados, os livros e as gravuras de Greenwich

Estamos em Blackheath. Na Morden Road passamos à porta da casa do compositor Charles Gounod que aqui viveu nos tempos da guerra entre e França e a Prússia. Vinha à tarde no comboio de Charing Cross e alugava uma carruagem à porta da estação dos comboios. Mais à frente, no planalto, ficamos a saber que a actual A2, um dos itinerários principais da Inglaterra foi, em tempos muitos recuados, a estrada romana para Canterbury. Henrique VIII, entre pompa e circunstância, aqui recebeu Ana de Cléves como futura esposa, no ano de 1540. Por sua vez Wat Tyler juntou em 1381 uma assembleia de camponeses revoltados nesta mesma estrada. Hoje o coração desta imensidão verde recebe mães com crianças, passeadores de cães, papagaios de papel, carrinhos de choque e jogatanas intermináveis de futebol – muda aos seis acaba aos doze. Os circos, tal como as caravanas de ciganos, já são mais raros. Foi neste relvado sem fim à vista que nasceram alguns clubes de rugby e de futebol Um deles, o Blackheath Football Club, fez parte dos pioneiros que, em 1863, na Freemason´s Tavern, criaram as leis do moderno futebol, tornado a sua prática independente do rugby. Cruzando em diagonal o Greenwich Royal Park, cedo chegamos à zona do mercado a funcionar em grande aos sábados e domingos. Muito perto das antigas cozinhas onde os velhos marinheiros, sem família e sem dinheiro, vinham às sopas reais, surgem as mais inesperadas lojas. De antiguidades lhes chamamos em Portugal. São as coisas ditas efémeras: mapas, cartazes, postais ilustrados, livros antigos, fotografias, discos LP e EP, pequenos móveis úteis às costureiras antigas, no tempo das libras se dividirem em xelins e em dinheiros. Nessa rua descubro o conceito activo e prático de fundo editorial: compram-se cinco livros por cinco libras, cada livro mais barato do que uma viagem de autocarro. Vejamos um conjunto: uma história breve do Jazz, um livro da Penguin sobre pássaros, uma biografia de Frank Sinatra, a vida do guarda-redes mais lendários do vizinho Charlton Athletic e um guia de Londres, bairro a bairro, de Barnet e Merton, de Ealing a Lewisham.

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Quarto poema para Vó Mam

(in As emboscadas do esquecimento, Edição O MIRANTE, 1999)

Fala de um sábio chinês a um homem triste

Ninguém pode viver sem uma aldeia
Todos nós temos que ter uma avó.

Quando o teu olhar fica cinzento
não procures as pequenas desculpas
aquilo que julgas ser o motivo mais forte
porque só podes alterar o teu olhar
e o cansado ritmo da respiração ansiosa
quando encontrares de novo a tua aldeia

Tens que descobrir o som da chuva ma terra
mesmo quando a única terra à vista
é a dos pequenos jardins desta cidade.
Procura transportar a luza da pequena adega
para o ar ainda mais que condicionado
dos grandes centros comerciais feitos de vidro.

A seguir tens a obrigação de descobrir a avó
aquela que tu escolheste e julgas merecer
desde o momento em que a sentiste como tua.
Depois deves conservá-la, guardar o som
da sua voz quando apaga o teu temor
ou quando enche de calor a tua alma fria.

Verá então como defrontas melhor a cidade
e te parece menos hostil a noite fechada
quando está frio e fica só contigo mesmo.
Verás então como tudo se transforma
e a perdida serenidade que procuras
chega nas mãos da avó que te abençoa.

Ninguém pode viver sem uma aldeia
Todos nós temos que ter uma avó.

Terceiro poema para Vó Mam

«O lugar da mãe»

in Mesa dos Extravagantes, edição OMIRANTE 1996

A meio da eira entre duas casas
Numa tarde de sol e no seu lugar
Vê passar por cima dezenas de asas
De pássaros cansados já a regressar

Nunca fica quieta mesmo se parada
Nunca fica triste mesmo na desgraça
Cruzam-se pessoas ao lado na estrada
É a mãe que fica no mundo que passa

Já não tem idade só tem o sorriso
Aberto a quem dele se abeirar
Já não tem o nome nem já é preciso
Porque tem a paz dentro do olhar

Fixo-lhe um retrato aqui no caminho
Com todo o perigo que isso contém
Quem sou eu agora para dizer sozinho
Que é este aqui – o lugar da mãe?

Segundo poema para Vó Mam

(in Universário, Moraes Editores, 1983)

ABADIA

Empurro esta cancela como quem folheia
a página conhecida dum livro estimado
– isto é, devagar, sem deslumbramento nem surpresa.

Este alvoroço familiar nada tem a ver
com os livros de instrução primária
– desenhavam a família numa cadeia de obediência, castigo e resignação.

Sinto que a vida é de facto um campo de batalha
e não uma sucessão de dias alinhados pelo destino
– basta ver esta criança que é mostrada como se fosse uma bandeira.

Demoro-me a olhar o fogão da cozinha
– a sua muda resposta às sucessivas descobertas da técnica
foi a permanência do seu trabalho eficiente
a quantidade e a qualidade daquilo que nele se pode fazer
hoje como sempre.

A mesa transforma-se numa refeição de palavras
numa confluência de sentimentos
e ganha uma súbita segunda realidade
– é quando as janelas abertas
deixam entrar o sol e o pó que cada um de nós arrastou na estrada
(isto é, os nosso problemas que não cabem dentro dos automóveis)

Primeiro poema para Vó Mam

(in «Iniciais» Moraes Editores 1981)

Por detrás do seu sorriso esconde-se a biografia
Dum amor repartido por tantos lugares do mundo
Como se o seu percurso atravessasse o olhar
E todos nós soubéssemos que sempre nos amou

As crianças facilmente acreditam nessa verdade
Porque o sonho de as amar começou antes da vida
Quando ainda o projecto se desenhava nas noites
E as dúvidas enchiam o tempo da espera

Nós apenas a podemos conhecer a meio da vida
Ainda assim o tempo suficiente para ver
Toda a dimensão da luz do seu olhar
Toda a confusão das nossas palavras para si

Canção breve para Vó Mam (1918-2010)

Numa tarde que continua
Não se pensa a despedida
Multidão que enche a rua
Projecta a lição de vida

Avó e mãe sem horário
Disponível todo o dia
Na folha do calendário
Numa teimosa alegria

Contra tudo contra todos
Teimosia convocada
Uma energia a rodos
Força sem dar por nada

2 rapazes, 5 meninas
Era a vida uma manhã
Fazia luvas pequeninas
Passa-montanhas de lã

Seus olhos as bandeiras
Seus cabelos estandarte
Voz de palavras inteiras
Ouvia-se em toda a parte

Nasceu no fim duma guerra
Morreu só na Conservatória
A moral que a tarde encerra
Faz duma derrota a vitória

Um amor não perdido
Multiplicado por nós
Vai dar um novo sentido
À memória da sua voz

Que todos vamos guardar
No coração bem fechada
Parece a força do mar
Não tem medo de nada

Um livro por semana 213

«História da vida privada em Portugal – A Idade Média»

A partir da já clássica «História da vida privada» de Georges Duby (1985), esta edição dirigida por José Mattoso e coordenada por Bernardo Vasconcelos e Sousa, engloba quatro volumes. No que diz respeito à Idade Média convém notar que conceitos como indivíduo, propriedade, religião ou Estado existem na sociedade contemporânea mas tinham outro sentido antes do século XVIII. Os temas focados dizem respeito às variações entre espaços e lugares, mundo rural e mundo urbano, casa corrente e residência senhorial, sociabilidade familiar e estruturas de parentesco, celebração e festa, corpo e alma, nomes próprios e alimentação, a mulher e a criança, a sexualidade e o tabu, a saúde e a doença, o sagrado e o profano, os mortos e os vivos, as memórias e os sonhos. Inesperada é a quantidade de imagem que testemunham actividades tais como sementeiras, fiação de linho, matança de porco, pastorícia, ceifa, poda, vindima, pisa das uvas, hortas, pomares ou fabrico do pão. Num livro cuja capa reproduz um quadro no qual a mulher descobre o esposo com uma criada, um dos capítulos mais curiosos é o da sexualidade. João Gil de Zamora, na biografia de D. Afonso III, refere as suas qualidades mas adverte: «Mas porque a ociosidade é um esgoto de crimes, mãe e promotora de todos os vícios, assim o dito Afonso, rei de Portugal, depois que repousou dos combates e dos outros negócios do reino, vergou indignamente as suas coxas a mulheres de seitas diferentes e assim manchou a sua glória». Álvaro Pais, bispo de Silves, refere em 1349 que «os reis de Espanha recebem em sua casa e em sua companhia um grande número de meretrizes públicas e, a algumas destas chamadas estipendiárias, dão dinheiro e pensão em seu palácio».

(Edição: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Iconografia: Maria Adelaide Miranda, Luís Correia de Sousa, Capa: DPI Cromotipo)

Vinte Linhas 570

«O Livro das listas» – O MIRANTE é o primeiro da lista da página 81

João Pombeiro organizou e a Quetzal editou um livro muito especial – «O livro das listas». Nele, em 178 páginas, há tudo ou quase tudo o que uma pessoa sempre quis saber e não tem medo de perguntar. Respeitando embora o interesse de listas com os insultos essenciais para usar no dia-a-dia, os países com mais ovelhas do que pessoas, as frases bombásticas de Alberto João Jardim, os números que menos têm saído no euro milhões ou as 40 palavras mais usadas para designar os órgãos sexuais masculino e feminino, a verdade é que me interessou muito mais a lista com os jornais regionais portugueses de maior circulação. Temos então a lista tal e qual: o MIRANTE de Santarém com 29.344 exemplares seguido de Diário Cidade (Madeira) com 22.219, o Diário de Notícias da Madeira com 12.405, o Jornal do Fundão com 13.285, a Reconquista de Castelo Branco com 11.711, o Postal do Algarve com 11.629, os mesmos da Região de Leiria, o Badaladas de Torres Vedras com 9.660, o Diário de Coimbra com 9.213 e o Jornal da Bairrada com 8.796 exemplares. A nível mundial não deixa de ser curioso que nos dez maiores jornais do Mundo só há dois europeus – o Bild (alemão) em 4º lugar e o Sun (inglês) em 7º lugar. Todos os outros são da China, da Índia e do Japão. No que diz respeito ao futebol julgo que Fernando Peyroteo com 331 golos no campeonato nacional português fora os 13 golos na selecção nacional merecia estar na lista dos melhores – mas não tenho a certeza. Quantos ao tema do futebol julgo que o livro sobre a Académica não tem como único autor João Mesquita – mas não tenho a certeza. Até por isso este é um livro que nos interessa e nos desafia.

Vinte Linhas 569

Fernando Salgueiro – Ainda há coisas espantosas na Blogosfera

No passado dia 23-12-2010 enviei ao Valupi com pedido de publicação um poema sobre a Taverna do Manelvina (Cruzes – Salir de Matos – Caldas da Rainha) e para ilustrar o texto enviei uma fotografia a preto e branco do cavaleiro Fernando Salgueiro entrando em praça para tourear. A lógica dessa escolha está no facto de a Taberna (não «tasca» como alguns bandalhos lhe tentaram chamar) estar decorada com motivos característicos das corridas de touros: cabeças de animais, bandarilhas, barretes, coletes, fotografias com gente da festa brava. Mas a escolha não era inocente: há uma relação de parentesco entre a família do cavaleiro Fernando Salgueiro e uma família da Granja Nova que frequenta a Taberna do Manelvina. Isto é um aspecto da questão mas há o negativo: alguns palhaços escreveram coisas miseráveis sobre mim como por exemplo «ele tem almoços garantidos à borla» e «para ele escrever num Blog é um negócio». Mas o vómito dos burros fica com quem o deita pela boca fora.

Mas mudemos de assunto sem mudar de tema.

Espantoso foi o que li hoje (27-12-2010) no Diário de Notícias na página 41: «A antiga ganadeira Maria Manuela Andrade Salgueiro faleceu no passado sábado com 89 anos de idade. Viúva do cavaleiro Fernando Salgueiro, era avó de João Salgueiro e bisavó do jovem João Salgueiro da Costa, também cavaleiros tauromáquicos». Fim de citação.

A fotografia publicada no «aspirinab» em 23-12-2010 foi por mim escolhida numa base de intuição mas acaba por funcionar como homenagem a um cavaleiro de grande categoria e, de forma indirecta mas implícita, à sua viúva D. Manuela Salgueiro.

Vinte Linhas 568

Bendito e louvado seja – dissertação para o Natal 2010

Na minha terra natal (Santa Catarina – Caldas da Rainha) havia o hábito de se cantar o «Bendito» sempre que não havia músicos no coro da igreja paroquial. A Filarmónica Catarinense tinha um grupo de instrumentistas que tocavam e cantavam nas missas solenes mas, umas vezes porque estavam fora, outras porque não era possível reunir o grupo completo, não tocavam nem cantavam lá no alto do coro. A chamada Missa do Galo apanhava-me sempre com muito sono e quando era pequeno ainda mais do que hoje. Felizmente a casa dos meus avós maternos (actualmente em ruínas) era muito perto da igreja e havia sempre uma cama disponível para mim. Tenho uma memória muito viva do presépio: além de colocado em socalcos com os bonecos em cima do musgo do Cabeço Castelo e uma gruta de cortiça onde estava o Menino Jesus, havia um barril de cinco litros de vinho cheio de água e disfarçado na verdura do presépio que, a um toque do meu tio, começava a despejar água num rio de cortiça que conduzia a mesma água a uma azenha onde nas quatro pontas da roda havia bugalhos sem miolo. A água, ao cair dentro do buraco do bugalho, projectava na roda uma velocidade enorme que só parava quando o barril se esgotava por completo.

Agora que o meu tio morreu e que já não há tempo para nada, não sei se alguém faz o presépio mas aquele presépio com o barril de cinco litros nunca se vai repetir. Vi um postal de Boas Festas da Irmandade do Santíssimo Sacramento ali à Calçada do Sacramento e lembrei-me logo do «Bendito» que se cantava na igreja da minha terra nas missas do Natal. Coisas desencadeadas pela memória a ligar duas memórias.

Vinte Linhas 567

Na morte de Aurélio Márcio – uma memória antiga para Juventino Freire

A morte (apenas física e de registo civil) do jornalista Aurélio Márcio veio trazer-me memórias felizes dos meus tempos de A BOLA. Conheci Carlos Pinhão através de uma carta que lhe enviei com um poema dedicado a Ruy Belo em Agosto de 1978. Como A BOLA era composta e impressa (ainda a chumbo…) no Diário Popular o meu poema foi entregue por Carlos Pinhão a Jacinto Baptista e de imediato publicado no suplemento cultural das quintas-feiras do vespertino – era assim que se dizia por oposição a matutino. Foi com Carlos Pinhão que vim a conhecer os jornalistas mágicos que Ruy Belo tanto admirava: Aurélio Márcio, Vítor Santos, Carlos Miranda, Alfredo Farinha, Silva Resende, Homero Serpa, Cruz dos Santos, Santos Neves, Vítor Serpa, António Simões. Um nunca acabar de nomes e memórias. Aurélio Márcio (pai do também jornalista e escritor João Alves da Costa) pertenceu a uma geração de jornalistas que reescreveu a história do desporto em Portugal. Às vezes falávamos disso: as Ligas entre 1934/38 que não podem nem nunca poderão «apagar» os campeonatos de Portugal desses anos, a data da fundação do SLB com efeitos retroactivos de 1908 a 1904 e outros temas que nunca nos separaram embora nos opusessem.

A minha paixão pelo jornalismo desportivo tinha nascido muitos anos antes com a leitura das crónicas de Juventino Freire no jornal O Catarinense de Santa Catarina – Caldas da Rainha. No campo do Rio da Pedra eu em 1959 tinha 8 anos mas já gostava de acamaradar com o repórter do jornal da minha terra. Este jornal foi-me oferecido por Virgínia Freire. Não por acaso sobrinha do meu primeiro jornalista desportivo.