Vinte Linhas 568

Bendito e louvado seja – dissertação para o Natal 2010

Na minha terra natal (Santa Catarina – Caldas da Rainha) havia o hábito de se cantar o «Bendito» sempre que não havia músicos no coro da igreja paroquial. A Filarmónica Catarinense tinha um grupo de instrumentistas que tocavam e cantavam nas missas solenes mas, umas vezes porque estavam fora, outras porque não era possível reunir o grupo completo, não tocavam nem cantavam lá no alto do coro. A chamada Missa do Galo apanhava-me sempre com muito sono e quando era pequeno ainda mais do que hoje. Felizmente a casa dos meus avós maternos (actualmente em ruínas) era muito perto da igreja e havia sempre uma cama disponível para mim. Tenho uma memória muito viva do presépio: além de colocado em socalcos com os bonecos em cima do musgo do Cabeço Castelo e uma gruta de cortiça onde estava o Menino Jesus, havia um barril de cinco litros de vinho cheio de água e disfarçado na verdura do presépio que, a um toque do meu tio, começava a despejar água num rio de cortiça que conduzia a mesma água a uma azenha onde nas quatro pontas da roda havia bugalhos sem miolo. A água, ao cair dentro do buraco do bugalho, projectava na roda uma velocidade enorme que só parava quando o barril se esgotava por completo.

Agora que o meu tio morreu e que já não há tempo para nada, não sei se alguém faz o presépio mas aquele presépio com o barril de cinco litros nunca se vai repetir. Vi um postal de Boas Festas da Irmandade do Santíssimo Sacramento ali à Calçada do Sacramento e lembrei-me logo do «Bendito» que se cantava na igreja da minha terra nas missas do Natal. Coisas desencadeadas pela memória a ligar duas memórias.

5 thoughts on “Vinte Linhas 568”

  1. Bom dia, poeta.
    Nos Pereiros, S. João da Pesqueira, também eu fui arquitecto de presépios, tal como o seu tio, em Sta Catarina.
    Mas nunca inventei um barril de cinco litros de vinho cheio de água e a mecânica de um moínho dela que, á primeira vista, até podia ser um moinho de vinho, para antecipar o melhor milagre que o Menino faria mais tarde, quando da água fez vinho.
    Oxalá que ainda façam o Presépio em Sta Catarina, poeta, ou na memória de cada um dos seus naturais, como na sua.
    Jnascimento

  2. Caros Luis Eme e Joaquim Costa de África para vós um grande abraço e votos de Feliz 2011 com saúde e paz.

  3. «Coisas desencadeadas pela memória a ligar duas memórias»

    Pois, pois, ah, aha…até que podia ter a sua gracinha escrita, mas completamente perdida. Qual memória e quais duas memórias?Um pouco como a «semeadura» da terra, deixa cá lançar, pode ser que dê, não é JFk? Mas não dá. O resto, di-lo o silêncio.

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