Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Um livro por semana 220

«Deixem passar o homem invisível» de Rui Cardoso Martins

Vencedor em 2009 do Grande Prémio Romance e Novela da APE, o título sugere uma ligação irónica entre o poema de Miguel Torga e a fala de rua de alguém a confundir «invisível» com «invisual». Portugal é (sabemos) um país de analfabetos, situação que alastra a algum jornalismo: «As televisões primeiro disseram que parecia uma jovem com perturbações mentais. Mas pediram desculpa porque era a mãe do menino». Mas, é claro, não era tal. O menino era um dos protagonistas da história: «Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança». O outro é António, advogado invisual que avisa o menino: «Se sairmos daqui vivos e alguém quiser a nossa história é um thriller de acção psicológica de esgoto». Ao invés do «Livro de Bordo» de Cardoso Pires que viaja nas calçadas e miradouros, este é um livro de subterrâneos lembrando sempre as cheias de 1967: «Em cinco horas de chuva já havia cadáveres a boiar ali na Praça de Espanha. Numa aldeia do Tejo, perto de Vila Franca, metade dos habitantes morreu.» Quando tudo se repete há culpas divididas: autarcas, Governo, Protecção Civil, tudo falha. No acaso do encontro e da viagem no subsolo lisboeta, os dois descobrem que o seu destino já se tinha cruzado antes (num Tribunal) e que desta vez, no meio da escuridão dos esgotos, era a criança que o vinha salvar a ele, António. Nas histórias afluentes que emergem na viagem entre S. Sebastião e o Terreiro do Paço há tempo para recordar um livro («Coração») no qual um professor afirma que os cegos estão «como sepultados nas entranhas da terra». Mas de onde vão sair depois de ouvirem os «sinos da aldeia» de Fernando Pessoa, ali aos Mártires.

(Editora: D. Quixote, Capa: Rui Garrido sobre foto de Rui Ladeira)

Gazeta 216

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

CCXVI – «As cinco chagas de Cristo»

No dia em que eu nasci, terça-feira dia 13-2-1951, o calendário do Almanaque Bertrand assinala «As cinco chagas de Cristo». Não sou uma pessoa especial, sou apenas um dos 107.756 rapazes nascidos em 1951. Raparigas foram 100.114, casamentos 66.689, mortos masculinos 53.394 e femininos 52.079. A população era de 8.477.270 e os divórcios apenas 1.223. Era o tempo da «estrada de macadame» e Craveiro Lopes preparava-se para suceder a Carmona com Quintão Meireles a perder e Rui Luís Gomes fora da corrida. O Sporting Clube de Portugal conquistou o Campeonato Nacional da 1º Divisão á frente do F. C. Porto e do S. L. Benfica. Este, por sua vez, venceu a Taça de Portugal batendo a Académica no Estádio Nacional. Curiosamente os anúncios dos cigarros «Sporting» da Companhia Portuguesa de Tabacos inserem a imagem do Estádio Nacional em vez do estádio do Sporting. Uma distracção dos publicitários ou então a rejeição da foto do verdadeiro estádio do Sporting em 1950 que sempre existiu desde 1906 na Alameda das Linhas de Torres.
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Vinte Linhas 587

Casas e livros – dois exemplos diabólicos da vida «on-line»

No mesmo dia em que soube do caso da senhora que morreu há 9 anos na sua casa, ouvi uma conversa terrível no autocarro 758 entre o Cais do Sodré e a Estrada de Benfica. O caso da senhora (já focado no aspirinab.com) tem muitos aspectos para ser analisado. Neste texto interessa-me sublinhar a facilidade diabólica com que foi possível alguém vender «on-line» e outro alguém comprar uma casa «on line» sem nunca essa casa ser vista nem pelo vendedor nem pelo comprador. O caso dos livros tem a ver com a situação igualmente diabólica de uma autarquia ter uma biblioteca de onde foram roubados livros. Feita a queixa pelos autarcas, a primeira coisa que a polícia fez foi ir à Internet procurar os livros. Como havia uma livraria com catálogo «on-line» foi fácil dois elementos da polícia dirigirem-se à livraria e levarem um livro igual ao que foi roubado. Assim, sem mais nem menos. Simplesmente diabólico.

Até parece que no tempo antes da Internet a polícia não investigava livros roubados. Podiam ter começado pelos visitantes mais assíduos, por exemplo. Mas não – foram à Internet e deram logo um rumo à investigação apenas com um clic e uma imagem no ecran. É disto que eu tenho medo. Há 14 anos pedi para me reformar porque já não aguentava o ambiente diabólico no meu local de trabalho. Quem era mais estimado e promovido eram os que tinham jeito para os computadores ma eu não estava na Informática; estava no Serviço Operacional de Estrangeiro. Há 14 anos a minha intuição afastou-me da exagerada importância dada à Informática. Hoje estes dois casos provam que eu já tinha razão em 1996. Grande cambada…

Vinte Linhas 586

Raul Brandão – «Ser superior aos outros é uma desgraça muito maior»

Esta pajela sobre o Regicídio, este «papelinho» como lhe chama Raul Brandão nas suas «Memórias», é de Fevereiro de 1909 e faz parte integrante da 1ª edição de 1919 que possuo. Os motivos de interesse deste livro são muitos, o seu autor conheceu bem a gente do seu tempo. Por exemplo recorda D. Luiz que «como todos os fidalgos portugueses gostava de convier com gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os particulares, com a gente que lhe chamava doutor Tavares e então regalava-se de escândalo, de ditos, de má-língua ordinária». Sobre António Nobre recorda o seu funeral: «Foi para a cova completar trinta e três anos num dia de chuva como este, frio e sujo, o poeta insolente como um príncipe e adorável como uma criança. Quantos estavam ali à beira do túmulo? Meia dúzia escassa, o Frei, o Justino, o Eduardo de Sousa, eu – e quem mais? Quantos mais? Os jornais deram a sua morte em duas rápidas linhas. Respirou-se. Hoje é um dos poetas portugueses com mais admiradores. É um poeta de simpatia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não misturou, como nós todos, o sonho com a vida prática. Ao contrário, raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais: suprimiu a vida. Correu o globo e só a si próprio se encontrou. Viu o mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E poentes, árvores, estrelas ou pedras, entraram-lhe no coração como espadas. Fugiam dele antes de publicar o ; os poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o Só. Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior». Fim de citação.

Um livro por semana 219

«O Homem quase novo» de Paulo da Costa Domingos

A partir de Sá de Miranda («Que farei quando tudo arde?») Paulo da Costa Domingos inscreve nos seus poemas o inventário do real: «cansa estar-se assim conectado / à máquina da banca enquanto / gira o tapete-rolante de um real / a degradar-se». O Homem novo, prometido nas revoluções, está adiado; o Mundo também: «Negra, a maré ainda não bateu / à nossa porta. Ácidas, as chuvas / ainda não comeram o pasto / do nosso rebanho». O Homem está dividido entre um tempo juvenil povoado por vizinhas inacessíveis («Bezerras imaturas») a Vala Comum dos idosos entre as ruas («o município não recolheu um pombo morto») e os lares: «Acenam uma separação / que vai ser irreversível, coração na boca / e duas pedras frias na mão, entregues / a lares onde o poema nem sobrevoa / nem é real, na companhia veterinária / de parceiros no abandono». Entre o grito juvenil («Tá-se bem!») e a lágrima dos antigos («com os olhos húmidos») o poema vê nos gatos a ligação à Vida: «Fazer a verdura voltar / a parecer verde / para que os gatos se purguem / e o apaziguamento da idade / se concilie com a Natureza». Mas também o Paraíso perdido que o poema persegue: «Um vento atiça o gato, expulsa / essa dádiva selvagem do bosque / primitivo». Depois de Peter Sloterdijk («Numa cultura em que sistematicamente nos mentem, queremos saber, não apenas a verdade mas a verdade nua e crua») vem a homenagem a Cesare Pavese: «Fumo um cigarro, tento pensar agora / noutra coisa, mas sorrio / estimulado pelo meu segredo. / Escreve-se imaginando um leitor / que saiba ler. Farrapos.»

(Conceito e Edição: Frenesi)

Vinte Linhas 585

Breve dissertação para o livro verde de Marta (foto do Arquivo Pitoresco 1864)

Escrevo na esplanada da Pollux (Rua dos Fanqueiros) onde viemos descansar duas vezes com um refresco depois das compras antes da tua partida para Évora (em 2003) e antes do teu primeiro dia de trabalho (em 2008). O objecto procurado em 2008 era um «termus» para manter a comida quente. Os aviões em frente continuam a descer sobre a cidade no ritmo de dois em dois minutos – TAP, AIR FRANCE, SWISSAIR, KLM, ALITALIA. «Pombas de metal» lhe chama o poeta Armando Silva Carvalho. Chegam aqui ruídos próximos: autocarros e eléctricos na praça da Figueira. Chegam cheiros dos restaurantes vizinhos: feijão para o cozido semanal. É hoje o dia. Á esquerda o Tejo com o pórtico da Margueira a anunciar uma moldura para um quadro. À direita o alto do Parque Eduardo VII e o palácio da Justiça de Manuel Geraldo escrevia as suas crónicas para o «Diário de Lisboa». Em frente as ruínas do Carmo e a metálica eficiência do elevador de Santa Justa. Atrás das pedras vivas do Convento vê-se o Teatro da Trindade e ao lado o centro comercial nascido no Teatro do Ginásio. A seguir a igreja de S. Roque com o melhor miradouro da cidade e, logo ao lado, o antigo jardim de S. Pedro de Alcântara. As gaivotas gritam no ar desta manhã de Fevereiro uma espécie de vírgulas sonoras na paisagem cheia de luz que bate no castanho dos telhados. Os sons de S. Nicolau rompem a serenidade da manhã mas a horas certas. E eu fiquei feliz por ter descoberto o teu primeiro dicionário, o Francisco Torrinha, comprado para ti em 1991. Estava com prontuários, vocabulários, gramáticas e outros dicionários. Mas só to devolvi em 2011 ainda a tempo de te pedir desculpa pelo atraso. Só agora descobri.

Vinte Linhas 584

Tipos lisboetas de Eduarda Cary na Fábula Urbis

Por um daqueles meros acasos de Lisboa (há quem diga que o acaso não existe…) descobri um livro de Celestino Gomes no mesmo dia em que visitei a exposição de 12 quadros de Eduarda Cary na livraria Fabula Urbis.

O livro tem por título «Jornadas de borda de água» e o seu subtítulo é «Parábolas – homens – terras». No capítulo das «terras» surge um texto sobre a cidade de Lisboa: «Foi aqui que Baudelaire-Poeta, ele também embarcadiço de retorno, com suas malas de caixeiro, à volta da Ilha Maurícia aonde foi aprender a morbidez mestiça de certas «flores do mal», anotou que «le peuple y a une tel haine du végétal qu´il arrache tous les arbes». Parece que o ódio às árvores (ainda agora expresso no Príncipe Real pela quadrilha selvagem da CML) tem a ver com a herança recebida dos árabes do Norte de África porque para eles uma árvore podia sempre esconder um inimigo.

Mas Lisboa não é só (e apenas) árvores mortas, continua a ter «tipos» ou memórias de tipos e é dessas memórias que são feitos os 12 quadros da exposição de Eduarda Cary na Fábula Urbis, ali atrás da Sé.

Como convite aqui vos deixo a figura do «Padeiro» e a memória justificativa dessa figura: «O Padeiro saía manhãzinha cedo das padarias, transportando grandes cestos de verga cheios de pão, tapados com panos brancos para, a pé ou de bicicleta, o levar aos fregueses certos da zona, a troco de uma percentagem sobre o preço fixo. Os fregueses, muitas vezes, deixavam à porta de suas casas um saco de pano onde o padeiro colocava o pão encomendado». Fim de citação. A não perder.

Balada da Rua da Betesga

Oficinas da saudade
Meu trabalho semanal
Transfigurar a cidade
Num artigo de jornal
Cinquenta anos depois
Inventários e balanço
Multiplicado por dois
Valor que não alcanço
Torneiras de chafarizes
Cidade, bilhete-postal
Passei tempos felizes
Nas ruas desta capital
Os comboios a carvão
Debaixo do miradouro
O Rossio foi a estação
Onde perdi um tesouro
Escadinhas escondidas
Boqueirões de Cesário
Sombra de muitas vidas
De magotes ao contrário
Vem gente dos estaleiros
Fechou porta se janelas
Na tasca dos marinheiros
Vai comer iscas com elas

Continuar a lerBalada da Rua da Betesga

Vinte Linhas 583

Correio da Manhã – A cozinheira ganhava mais que o jornalista

O meu anterior texto que referia o facto de a cozinheira de D. Niomar ter um ordenado superior ao do poeta/jornalista Carlos Drummond de Andrade é uma curiosidade. Em 1967 Newton Rodrigues do Correio da Manhã explicou ao jornalista Nelson Rodrigues que não o podia aumentar tal como não podia aumentar Carlos Drummond de Andrade quando este ficara indignado ao saber do salário da cozinheira de Niomar Moniz Sodré (directora do jornal) que era superior ao do poeta/jornalista. Isto numa casa fundada em 1901 por Edmundo Bittencourt, o jornal do Rio de Janeiro que era lido em todo o Brasil. Jornal que defendia a ortografia da casa com dois pesos-pesados da literatura brasileira: Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, esse mesmo, o do Dicionário. D. Niomar (1916-2003) lutou pela criação do Museu de Arte Moderna no Rio e foi presa na sequência do AI5 de 13-12-1968 recusando o uniforme da penitenciária com o argumento de que era presa política, não de delito comum. Quando o jornal foi esmagado em 1975, Ruy Castro escreveu: «Os jornais quando morrem não vão para o céu. Sobrevivem por algum tempo no coração e na mente dos seus leitores». Este Correio da Manhã era um jornal especial. Tinha apoiado em 1922 os famosos «Dezoito do Forte», tinha chamado a Luís Carlos Prestes «o cavaleiro da esperança». Esteve com a Revolução de 1930 e em 1945 ajudou à queda da ditadura. Defendeu Juscelino Kubitschek em 1955 e, a seguir, João Goulart mas em 31-3-1964 com o célebre «Basta!» e em 1-4-1964 com o não menos célebre «Fora!» ajudou a empurrar para fora o mesmo presidente. Foi um jornal muito especial mas viveu apenas 74 anos.

Vinte Linhas 582

Nelson Rodrigues – A aridez de três desertos em Drummond

As recentes mortes de muitos brasileiros na zona da chamada «serra» do Rio de Janeiro trouxeram à minha memória a vida de Nelson Rodrigues (1912-1980) e a morte de seu irmão Paulo Rodrigues. Corria o ano de 1967, era o dia 21 de Fevereiro, a chuva não parava. Um ano antes o Rio fora castigado por uma chuva parecida. Morros desabaram, morreu gente, a praça da Bandeira tinha mais água que a lagoa. Agora era pior. O telefone tocou na casa de Nelson, era a sua irmã Helena a dizer «O prédio de Paulinho desabou!» mas felizmente quem atendeu foi Lúcia que logo pediu instruções ao médico de Nelson, o doutor Silva Borges. A chuva originou vinte mil desalojados e perto de quinhentos mortos. A casa onde morreram os cinco (Paulo, Natália, os dois filhos e a sogra) pareceu ao único sobrevivente (João, amigo dum filho) o último a cair num dominó macabro. Paulo era tratado pelos irmãos mais velhos como um «filho», era tímido e modesto mas estava a criar uma obra: os seus livros traziam prefácios de Álvaro Moreyra, Jorge Amado, Adónias Filho, António Olinto e Carlos Heitor Cony. Paulo tinha dedicado o seu mais recente livro «O sétimo dia» a Carlos Drummond de Andrade mas o poeta «nacional» quando escreveu sobre a tragédia das Laranjeiras deveria ter escrito uma série de «verdades jamais concebidas». Mas não, não disse essas verdades que Nelson esperava. Ou seja «Pôs numa frase escassa toda a aridez de três desertos». Nelson nunca perdoou a Carlos Drummond de Andrade. O mesmo Drummond de Andrade que ficara muito indignado quando descobriu que ganhava menos do que a cozinheira de Niomar Moniz Sodré. Mas isso é outra história.

Lamentação do bispo de Bragança e Miranda José António da Silva Rebelo (1779-1846)

(a Carlos Marques Querido)

Nasci em 1779 em Santa Catarina
Terra de gente muito dada a alcunhas
Minha mãe foi chamada a Abadessa
Gostava de andar de capas pretas
E tinha um porte altivo ao caminhar

Vinha gente de longe para me ouvir
Preguei sermões desde o ano de 1804
Na festa da padroeira Santa Catarina
Na Real Casa Pia de Lisboa em 1828
Na igreja dos Jerónimos ao Domingo

Durante sete anos andei sempre a fugir
Das tropas do general Jorge de Avillez
Que entraram em Bragança em 1834
Expulsaram a guarnição miguelista
E aclamaram de seguida D. Maria II

Avó Isabel Maria e avô Manuel Fialho
Procuraram esconder-me na Cumeira
Um amigo leal pôs quatro almofadas
Nas ferraduras dos cavalos dessa noite
Sem chamar a atenção de quem dormia

Pena eu ter vivido um tempo demarcado
Pedro no Mindelo, Miguel no Alentejo
O ódio enchia os caminhos e as valetas
Eu mesmo me escondi nuns matagais
Onde uma criança me viu desfalecido

Em Almagreira onde morri anos depois
Meu nome ficou em pedra na capela-mór
Destino singular de quem nasceu no dia
Da primeira pedra da Basílica da Estrela
E na vida escreveu palavras como pedras

Por debaixo do meu retrato na sacristia
Um bisneto do sacristão do Padre Agnelo
Lava galhetas na água da torneira prateada
Anos depois assinará um poema obscuro
A ligar de novo o que a morte separou.

Um livro por semana 218

«A dança das feridas» de Henrique Manuel Bento Fialho

O ponto de partida é Alexandre O´ Neill («O amor é o amor – e depois?»), o poeta do adeus português a Nora Mitrani: «O meu amor partiu para uma noite gótica / partiu a uivar aos mortos / bebendo directamente das veias / o sangue que nos corre até ao coração desarmado».

Entre canção e reflexão a poesia é o lugar do encontro. Para dançar são precisos dois – como Fred Astaire e Ginger Rogers: «Pode ser difícil de acreditar / mas a dança chegou-me / muito antes da coreografia / do corpo cadenciado ao ritmo da voz / dos passos marcados pela mágica de um sorriso».

Para perceber melhor as feridas do amor juntam-se Ernesto Sampaio e Fernanda Alves: «Não sei quem és. Não sabes quem sou / Somos apenas alguém à espera / fantasiando o absurdo da vida / crentes de que um dia o nada de onde viemos / possa tornar-se o tudo para onde vamos».

Jorge de Sena poderia ter dito a Mécia de Sena («Esta noite sonhei contigo») enquanto Fellini poderia ter dito a Giulietta Masina – «Ninguém dá flores às flores. / O que eu quero é um ramo de poemas / para oferecer à minha flor».

Não o sabendo de certeza, o poema aventura-se a adivinhar as palavras trocadas entre amantes lendários como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Rainer Maria Rilke e Lou Andréas-Salomé, Ulisses e Penélope, Sylvia Plath e Ted Hughes ou Humphrey Bogart e Lauren Bacall de onde vem o título do livro: «Não digas que foi um erro ficarmos / um dentro do outro / durante todo o fim-de-semana. / Não digas que em redor das nossas desavenças / se apagaram todas as lâmpadas».

(Colecção Insónia, Capa: Maria João Lopes Fernandes, Composição: Pedro Serpa, Impressão: DPI Cromotipo)

Vinte Linhas 581

Memória pessoal da Sé na cidade de Leiria

Voltei ontem a Leiria onde comprei num alfarrabista ao lado do restaurante «Adega Mouzinho» o livro «O regresso dos remadores» de João Miguel Fernandes Jorge em óptimo estado por apenas um euro.

Em 1961 (Agosto) estive ali naquela mesma Sé a rezar com a minha mãe pelo bom sucesso dos meus exames da admissão aos Liceus e às Escolas Técnicas. O barulho dos galos madrugadores de Leiria competia com o som grave dos oito sinos da Sé na torre sineira ali mesmo ao lado. Quase não dormi nessa noite, estranhei a palha do colchão mas estava bem preparado pelo célebre livro «1111». Que tinha (imagine-se) 1111 problemas de matemática. Passei nos dois exames mas sabia e tinha ouvido já dizer diversas vezes que o Liceu não era para os filhos dos motoristas. E não era, na sociedade desse tempo onde cada um tendia (e era empurrado para ser) o mesmo que o pai e o avô tinham sido antes. Fui para uma Escola Técnica em 1961 (Outubro) e de lá saí para entrar directamente no Departamento Operacional de Estrangeiro do Banco Português do Atlântico na Rua do Ouro (ou Rua Áurea) em Setembro de 1966.

A belíssima foto de António Sequeira capta o esplendor da luz passada nos vitrais dos dois lados das grandes naves. Entre pedras e sinais, houve um tempo que a tudo resistiu, uma memória diluída onde o bispo José António da Silva Rebelo (1779-1846) natural da minha terra (Santa Catarina) acaba de sair da sacristia e caminha apressado para os claustros onde o poço está tapado e onde em tempos passou um rio que vinha da serra a caminho do mar.

Canção para uma voz

Ouvi agora a tua voz dentro dos fios
Não como voz mas como instrumento
Da velha música das pedras e dos rios
Da tua infância, memória no momento

Se a tua orquestra viesse nos jornais
A tua voz dominava o naipe criado
Entre as madeiras, cordas e metais
Ia a cantar melodias por todo o lado

Com os pianos e violas e concertinas
Num apoio à tua voz lá na sua altura
No coro do teu colégio das meninas
Na Beira Alta a memória à procura

Toda a força do timbre que resiste
No som da tua voz hoje telefonada
Vai encher de luz esta tarde triste
E o poema vai chegar à madrugada

Vinte Linhas 580

Ouve-se alguma «Música no coração» em Alfama

A ideia geral que todos nós temos da Áustria ou do império Austro-Húngaro resume-se a meia dúzia de nomes e de figuras. Na escrita Franz Kafka, Stefan Zweig e Sigmund Freud – embora o terceiro seja mais do que autor de livros. No cinema Romy Schneider e Arnold Schwarzenegger, na pintura Gustav Klimt e no mundo dos automóveis Ferdinand Porsche. Do lado da música temos W.A. Mozart na dita clássica e Falco (Hanz Hölzel) na dita popular – único artista no nº 1 do Hit Parade americano com uma canção de língua não inglesa – o célebre «Rock me Amadeus». Mas não pode ficar esquecida a senhora baronesa Maria Augusta von Trapp cuja vida e canções deram origem ao filme «The sound of music» entre nós traduzido por «Música no coração» enquanto no Brasil passava como «A monja rebelde». Descobri em plena Alfama um espaço (Rua de São João da Praça, 95) onde se respira o ambiente dos cafés de Viena. Abre às 11 da manhã talvez para os magníficos bolos à fatia já estarem prontos à chegada do primeiro cliente. O espaço é enorme, a decoração é acolhedora, a disposição das mesas sugere o encontro. Há mesas grandes, médias e pequenas assim se adaptando aos grupos e seu tamanho. As fatias de bolo são uma tentação perigosa para quem não pode comer doces e o uísque servido em doses generosas e nada caras. Para quem goste de descobrir a gastronomia do velho império austro-húngaro, as duas senhoras são excelentes cicerones. São mesmo muito simpáticas. Os arcos em pedra lembram uma igreja mas a liturgia aqui é outra. E a oração também. Ou seja – ligar numa refeição dois mundos separados no que é uma maneira bonita de não estar só.

Um livro por semana 217

«História da Vida Privada em Portugal – – A Idade Moderna»

Partindo do clássico «História da vida privada» de Georges Duby (1985), temos o segundo volume da série dirigido por José Mattoso e coordenado por Nuno Gonçalo Monteiro. Conceitos como indivíduo, propriedade, religião ou Estado existem hoje mas já tiveram outros sentidos no passado. A propósito das deslocações á igreja vejamos que em 1730 uma descrição de Lisboa refere que é vulgar haver simples mercadores com capela em casa e missa privada «a fim de não darem a suas mulheres e filhas o único pretexto que podem ter para pôr o pé na rua». No território português (Ilhas atlânticas e Brasil), homens e mulheres ficavam em lugares separados no interior das igrejas. Às mulheres cabia a nave. Quando algumas optavam por outro local, os visitadores tratavam de repor a ordem. Um estrangeiro notou que em 1730 «elas fazem namoro na igreja por sinais e ali passam bilhetinhos de amor. Estes sinais fazem-se de parte a parte, de uma maneira subtil e tão prudente que, um estranho, sem conhecimento deste costume, juraria que os dois dialogantes não haviam trocado uma palavra». As próprias crianças que ajudavam à missa (acólitos) eram portadoras de bilhetinhos.

Os hoje chamados «santos populares» propiciavam em 1799 que «as mulheres aproveitam o ensejo e, livres de toda a suspeita, vão encontrar seus amigos, conversar com eles alegremente, mostram seus encantos em pleno dia, ostentam novas modas e murmuram das pessoas mais em evidência». E conclui: «Às vezes havia até bailes entre homens e mulheres».

(Edição: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Design: Leonor Antunes, Coordenação: Nuno Gonçalo Monteiro, Direcção: José Mattoso)

Vinte Linhas 579

Sete perspectivas de Mulher em Pintura

Cinco pintoras e dois pintores estão presentes com seus trabalhos na All Arts Gallery na Rua da Misericórdia 30 (ao Chiado) até 15-2-2011 de terça a sábado das 10 às 19 horas. Os seus nomes são: Ada Breedveld, Ana Cristina Dias, Françoise Collandre, Lluisa Jover, Teresa Viotti, Jorge Valdivia e López Herrera.

Sobre as mulheres Óscar Wilde escreveu uma frase que ainda hoje resiste ao tempo e à sua erosão: «As mulheres foram feitas para serem amadas; não para serem compreendidas».

O quadro da esquerda assinado por Françoise Collandre mostra essa mulher misteriosa, nos limites da casa e sempre à espera de ser amada – não de ser compreendida.

Mas, por sua vez, a mulher-gata de Ana Cristina Dias lembra as palavras de Heywood: «A mulher tem nove vidas como o gato».

Seja no espaço fechado do lar, seja no espaço aberto da Natureza, as mulheres destes quadros lembram a ideia de A. Houssaye – «As mulheres nada sabem; adivinham tudo».

Ou, por outras palavras, o que um dia Alexandre Dumas (filho) escreveu: «As mulheres não pensam em nada ou pensam em outra coisa».

Quando pode parecer exagerada uma aproximação entre a mulher e o gato como nos quadros de Ana Cristina Dias, basta lembrar que ambos (gato e mulher) caem de pé e que, como um dia afirmou G. Vapereau, «Só aos gatos é dado combinar os prazeres da sociedade com o encanto da independência». Mas Houssaye tinha avisado «Só os que não conhecem as mulheres é que dizem mal delas». Já agora: não percam a exposição…

Vinte Linhas 578

Nem tudo o que a Enciclopédia Larousse afirma é verdade

Durante muitos anos habituei-me, no local de trabalho, a ouvir esta frase: «Se vem na Enciclopédia Larousse é verdade». Outro livro que todos aceitavam era o Banker´s Almanak que tinha todas as moradas, telefones e telexes de todas as agências de todos os Bancos do Mundo. A ficha da Enciclopédia Larousse sobre Cármen Miranda contém um erro crasso: refere a data de 1914 como a sua data do nascimento quando na verdade Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9-2-1909. E não em Marco de Canavezes mas sim em Várzea de Ovelha.

A origem do erro só pode ser uma: quando chegou aos Estados Unidos da América em 1939 com 30 anos de idade os rapazes dos escritórios do senhor Greneker resolveram inventar uma nova biografia. Nessa nova história contada na primeira pessoa a origem da família passou a ser Lisboa por ser a capital e não a região do Porto. Seu pai deixou de ser barbeiro e passou de caixeiro-viajante em Lisboa a próspero atacadista e exportador de frutas no Rio – isso estava relacionado com as frutas no turbante da Cármen. Mudaram a data de nascimento para 1914 e ela descrevia-se como uma «moça de convento» que «gostava de cantar» e enfrentou uma séria oposição dos seus pais para se tornar cantora. Referia também que no Brasil «as pessoas de boa família não se misturavam socialmente com os artistas» mas no seu caso isso era mentira pois ela tinha livre-trânsito entre as melhores famílias e até namorava rapazes saídos dessas famílias como Mário Cunha. Pronto fiquemos por aqui. Nem tudo o que aparece na Enciclopédia Larousse é para ser tomado a sério. Neste caso são cinco anos a menos.

A garlopa de Cesário em Janeiro

Também eu gostava de ficar na oficina
A escolher as ferramentas da herança
Uma plaina é uma garlopa pequenina
Uma enxó é quando o desbaste avança

Na asa ou punho a minha mão fechada
Conduz a ferramenta o som duma canção
Também distingo uma garlopa calçada
No seu rasto guarnecido a chapa de latão

Também vejo o pó da poesia na madeira
O guilherme com a sua pouca espessura
Pode ajudar-me a aplainar esta canseira
No rasto convexo as mechas e a abertura

As aparas caem no chão da nossa vida
A garlopa alisa estas tábuas de Janeiro
No poema ouço uma voz meio sumida
Do meu avô que foi poeta e carpinteiro

Vinte Linhas 577

Da caçadeira perdida aos Bombeiros do Cartaxo

A crónica de Joaquim António Emídio «O medo de viver» no jornal O MIRANTE de 20 de Janeiro de 2011 fez-me pensar no que eu faria se estivesse naquela situação. Ou, dito de outra maneira, na velha dicotomia «cidade-campo». Nasci em Santa Catarina (Caldas da Rainha) no ano de 1951 e vivo em Lisboa desde 1966. Quer isto dizer que já tenho mais anos da cidade do que do campo. Outro dia, recém-regressado do Algarve, fui levar o meu pai ao Expresso de Sete Rios. Bastou um momento de distracção para o meu pai ser abordado por uma vigarista com uma conversa da treta: «tinha vindo com a nora do Cartaxo para Lisboa para ela ter o bebé mas os Bombeiros foram-se embora e ela agora não tinha dinhero para as passages». Quando percebi o teatro montado pela velha adverti o meu pai em voz alta de que não lhe devia dar o dinheiro (dois euros) pois mesmo não conhecendo os Bombeiros do Cartaxo tenho a certeza de que eles nunca deixariam uma pessoa desarmada, sem dinheiro e perdida na grande cidade. Sem esquecer que em princípio os bebés do Cartaxo nascem em Santarém mas isso é outra conversa. Nunca dou esmola no Metro e em 2006 percebi uma coisa de que já tinha ouvido falar: fui a Mira em reportagem, passei por Fátima e vi os artistas do Metro junto da Capelinha das Aparições. Como eles são invisuais alguém os levou para lá. Outra coisa que a cidade me ensinou bem cedo foi a não dizer ao condutor que leva os médios acesos em dias de sol pois as pessoas reagem mal à advertência mesmo quando feita com a melhor das intenções. Quanto a armas de caça abertas e com dois cartuxos, seja na estrada ou na rua – podem continuar no mesmo lugar que eu não estou para isso.