Vinte Linhas 586

Raul Brandão – «Ser superior aos outros é uma desgraça muito maior»

Esta pajela sobre o Regicídio, este «papelinho» como lhe chama Raul Brandão nas suas «Memórias», é de Fevereiro de 1909 e faz parte integrante da 1ª edição de 1919 que possuo. Os motivos de interesse deste livro são muitos, o seu autor conheceu bem a gente do seu tempo. Por exemplo recorda D. Luiz que «como todos os fidalgos portugueses gostava de convier com gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os particulares, com a gente que lhe chamava doutor Tavares e então regalava-se de escândalo, de ditos, de má-língua ordinária». Sobre António Nobre recorda o seu funeral: «Foi para a cova completar trinta e três anos num dia de chuva como este, frio e sujo, o poeta insolente como um príncipe e adorável como uma criança. Quantos estavam ali à beira do túmulo? Meia dúzia escassa, o Frei, o Justino, o Eduardo de Sousa, eu – e quem mais? Quantos mais? Os jornais deram a sua morte em duas rápidas linhas. Respirou-se. Hoje é um dos poetas portugueses com mais admiradores. É um poeta de simpatia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não misturou, como nós todos, o sonho com a vida prática. Ao contrário, raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais: suprimiu a vida. Correu o globo e só a si próprio se encontrou. Viu o mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E poentes, árvores, estrelas ou pedras, entraram-lhe no coração como espadas. Fugiam dele antes de publicar o ; os poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o Só. Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior». Fim de citação.

8 thoughts on “Vinte Linhas 586”

  1. jcfrancisco, a sério que nunca percebi por que razão tu respondes a quem te insulta e te esqueces de quem te cumprimentou. vai por aí. :)

  2. Pergunta pertinente mas resposta complicada. não estou a ver onde é que me esqueci de te saudar. Será noutro «post»? Saravá!

  3. ó jcf, mas nem tudo é na primeira pessoa! estava a falar, no caso, do aires e da sinhã, para referir o exemplo deste post, exemplo que se repete.

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