Vinte Linhas 583

Correio da Manhã – A cozinheira ganhava mais que o jornalista

O meu anterior texto que referia o facto de a cozinheira de D. Niomar ter um ordenado superior ao do poeta/jornalista Carlos Drummond de Andrade é uma curiosidade. Em 1967 Newton Rodrigues do Correio da Manhã explicou ao jornalista Nelson Rodrigues que não o podia aumentar tal como não podia aumentar Carlos Drummond de Andrade quando este ficara indignado ao saber do salário da cozinheira de Niomar Moniz Sodré (directora do jornal) que era superior ao do poeta/jornalista. Isto numa casa fundada em 1901 por Edmundo Bittencourt, o jornal do Rio de Janeiro que era lido em todo o Brasil. Jornal que defendia a ortografia da casa com dois pesos-pesados da literatura brasileira: Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, esse mesmo, o do Dicionário. D. Niomar (1916-2003) lutou pela criação do Museu de Arte Moderna no Rio e foi presa na sequência do AI5 de 13-12-1968 recusando o uniforme da penitenciária com o argumento de que era presa política, não de delito comum. Quando o jornal foi esmagado em 1975, Ruy Castro escreveu: «Os jornais quando morrem não vão para o céu. Sobrevivem por algum tempo no coração e na mente dos seus leitores». Este Correio da Manhã era um jornal especial. Tinha apoiado em 1922 os famosos «Dezoito do Forte», tinha chamado a Luís Carlos Prestes «o cavaleiro da esperança». Esteve com a Revolução de 1930 e em 1945 ajudou à queda da ditadura. Defendeu Juscelino Kubitschek em 1955 e, a seguir, João Goulart mas em 31-3-1964 com o célebre «Basta!» e em 1-4-1964 com o não menos célebre «Fora!» ajudou a empurrar para fora o mesmo presidente. Foi um jornal muito especial mas viveu apenas 74 anos.

15 thoughts on “Vinte Linhas 583”

  1. Mais um raminho de salsa que jcFrancisco foi pedir à vizinha. Comentar para quê? Ficam as palavras do «poeta/jornalista» (!!!!) Carlos Drummond de Andrade:

    «PERDER TEMPO EM APRENDER COISAS QUE NÃO INTERESSAM, PRIVA-NOS DE DESCOBRIR COISAS INTERESSANTES.»

  2. A Senhora Niomar Moniz Sodré merece toda a minha simpatia. A vaidade de Carlos Drummond de Andrade não lhe permitiu compreender que uma boa cozinheira é mais preciosa que toda uma legião de mangas-de-alpaca.

  3. Sinhã, eu não posso dar o que não tenho. Repara: eu não vivi perto daquilo. Mas sou um grande admirador da obra de Nelson Rodrigues e li as suas memórias: «A menina sem estrela». No livro «O anjo pornográfico» de Ruy Castro na página 362 e a propósito de Nelson estar brigando em 1967 pelo seu ordenado (salário) eu li e divulguei para os leitores do «aspirinab» que «Drummond ficara indignado quando descobrira que ganhava menos do que a cozinheira de Niomar Moniz Sodré». Apenas isso. Já veio aqui um tipo disfarçado de palermazão dizer que o Drummond era um manga de alpaca. Perante isto nada a fazer…

  4. sim, não podes inventar a história. mas podias reinventá-la e fazer um pequeno conto sobre a cozinheira (e justificar porquê que ela merecia, sim senhor, ganhar mais). vá lá. :-)

  5. JCF, tu, ao menos, não disfarças.

    Facto: Carlos Drummond de Andrade foi um manga-de-alpaca durante 35 anos de serviço público até se reformar em 1962 como chefe de secção da “Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional”.

    Ora, chefes de secção há-os por aí aos pontapés, muitos deles a lerem o Aspirina B durante as horas de “trabalho”, mas as boas cozinheiras são raríssimas. Em mais de 50 anos de vida conheci apenas duas boas cozinheiras entre uma multidão de cozinheiras razoáveis. Por isso considero que uma dádiva dessas deve ser muito mais bem paga que uma legião de funcionários, escritores, jornalistas, estafetas bancários, jogadores de futebol ou poetas.

    Dª Niomar tinha razão.

  6. Zeca, receio que não saibas a diferença entre um tipo que usa manga de alpaca e um manga de alpaca. Repara que o Fernando Pessoa também terá usado manga de alpaca, coisa que dava imenso jeito ao que ele fazia para ganhar o dele. Bem, não interessa, porque de qualquer forma não sabes o que é uma manga de alpaca. Go and find it.

  7. Em 1966 (Setembro) quando comecei a trabalhar ainda havia mangas de alpaca. Era para poupar as camisas e muitos bancários ao meu lado as usavam por instigação das mães e alguns das mulheres. Usar não é o mesmo que ter espírito de… Segundo o senhor Moitinho de Almeida que conheci em 1982 (filho do «patrão Vasques», o poeta Fernando Pessoa ás vezes usava manga de alpaca mas…

  8. Eram pretas, Sinhã e vinham do cotovelo à mão. As secretárias daquele tempo (1966) eram mais rugosas, não havia ar condicionado, a gente abria as janelas e entrava o bafo quente da rua. Safa!

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