Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 612

Algumas memórias com José Roquete no Chiado

O que distingue para mim um dia cinzento de um dia luminoso é aquele pequeno intervalo de tempo e circunstância a que muitos chamam acaso.

Encontrei José Roquete no Chiado um dia ao fim da tarde na semana passada. O ex-presidente da Direcção do Sporting Clube de Portugal cruzou-se comigo no largo na zona dos táxis, entre as duas igrejas – Loreto e Encarnação.

Muitas foram as memórias que desfilaram por ali nas nossas palavras. Particularmente uma certa viagem a Castelo Branco, na semana santa do ano de 2000. O padre Sanches, chamado a abençoar as instalações do Núcleo Sportinguista de Castelo Branco, apresentou-se de estola verde sobre a branca sobrepeliz.

Terminada a cerimónia, perguntei discretamente ao sacerdote qual a razão de não ter utilizado a estola roxa da semana santa na bênção do novo espaço.

José Roquete estava ao lado, ouviu e sorriu perante a resposta: «Para mim a cor é sempre verde! Sou leão e sempre serei! Não mudo!»

No jantar que se seguiu num antigo quartel da tropa, tive o enorme prazer de ouvir um grupo de mulheres de Idanha a Nova, um grupo heterogéneo com avós, filhas e netas. As suas belíssimas canções e o som dos seus adufes fizeram-me lembrar a voz da Terra, uma vez que dificilmente alguém a poderá definir mas que a intuição me avisava de estar ali bem perto. Tão perto que José Roquete se levantou, de súbito, enérgico, muito emocionado para beijar e abraçar a mais idosa das cantadeiras de Idanha a Nova. Nela saudou e beijou a voz da Terra – da qual os dois temos muitas saudades, 11 anos depois.

Vinte Linhas 611

Ladrões de bicicletas

São quatro e três quartos de uma tarde de sol. Chegam ao café os ruídos de um trânsito mastigado pelos semáforos. Perto de nós e longe ao mesmo tempo. Há uma melancolia misturada com a espuma branca no balde que a empregada empurra devagar.

O italiano recolhe os produtos não vendidos do balcão de vidro como um ritual a celebrar a tristeza dos dias – a mulher está muito longe e as filhas estão perto mas seguem cada uma a sua vida.

Numa das mesas do café dorme o jornal do dia com a reportagem de um rapaz abandonado num aeroporto em 1986 que hoje posa frente ao mar, já casado com uma rapariga de aspecto simpático e com uma filha ao colo.

Falávamos às vezes, noutros anos de férias londrinas, dos velhos filmes da velha Itália – «Ladrões de bicicletas» dava pano para mangas e a conclusão do senhor Carmine era sempre a mesma – pois já não há em Itália filmes como antigamente.

O rapaz abandonado em Gatwick com dez dias viveu, com o polícia que o recolheu nas casas de banho do aeroporto, um filme de mistério e de aventuras – sabe hoje o preço do seu leite em Gatwick comprado com o dinheiro do chá da esquadra local.

No intervalo entre a melancolia e o desespero, um poema por escrever desenha o inesperado ponto convergente do meu e nosso olhar sobre o jornal no café que começa a fechar às quatro e três quartos na tarde de sol no The Royal Standard bem perto do Sooters Hill Road. Tão perto que se ouve o som do trânsito maior a caminho de Dover, lá para o lado do Canal da Mancha.

Vinte Linhas 610

Essa palavra «ganilhos» que já não ouvia há tanto tempo

Depois de ter passado seis anos em Santa Catarina fui viver para o Montijo em 1957. Morava na Rua Sacadura Cabral que dava para as traseiras do Campo Luís Almeida Fidalgo. Havia nesse tempo palavras que se usavam no dia-a-dia como «ratinho», «caramelo» e «gaibéu» referentes a pessoas que emigravam da Beira Baixa, da Beira Litoral ou do Ribatejo para as sementeiras e colheitas por ali à volta nas quintas da Atalaia, Jardia, Alto Estanqueiro, Sarilhos Grandes, Lançada, Rilvas, Barroca de Alva e Passil. A outra palavra era «ganilhos» que na altura não me lembro de ter indagado aos que me rodeavam o seu significado. Anos depois descubro num alfarrabista um livro de 1948 intitulado «Albergaria Hospital Misericórdia – Vila de Aldeia Galega do Ribatejo» de José Simões Quaresma. Na página 16 lá está «Não é de hoje o ganilho – esse tipo curioso e muito nosso que pode sintetizar o temperamento de um povo que nasce e morre a trabalhar!». Pedi ajuda a João Reis Ribeiro que prontamente me elucidou: «ganilho» quer dizer «garoto de pé descalço» (no falar de Minde) segundo o «Dicionário de calão» de Albino Lapa reeditado em 1974 pela Editora Presença. Entretanto através do meu amigo Aurélio Lopes (antropólogo) procurei no livro com os termos de Minde e lá descobri – «ganilho» como «fedelho» ou «garoto». Joga aliás o termo com o texto que surge na página 17 do mesmo livro: «homens, mulheres e ganilhos» no sentido de «homens, mulheres e crianças». Tenho saudades do Montijo mas não posso lá viver já que tenho a minha casa em Lisboa. Esta palavra «ganilhos» foi uma maneira bonita de matar saudades do Montijo, seus espaços e suas palavras.

Um livro por semana 230

«Banda sonora para um regresso a casa» de Joel Neto

Praticante da crónica desde 1989, Joel Neto (n.1974) junta neste livro 60 textos publicados em revistas e jornais com a expressa indicação do tempo e do ritmo musical de cada uma – adagio, presto, allegro ou staccato.

Nas crónicas fala de si («tenho a oportunidade de dedicar-me a estes híbridos entre jornalismo e literatura sem deixar a conta do gás por pagar») mas também do seu bairro devastado pelas garrafas partidas no chão e pela urina nas portas dos automóveis: «Metade do encanto da noite perdeu-se no dia em que os rapazes passaram a beber cerveja de litro e as raparigas a trazer na mão um vasilhame de Água do Luso com uma mistela escura lá dentro».

Fala do seu passado e do avô José Guilherme («comia sopas de leite, bebia café puro e cheirava rapé») mas também de Lisboa («O coração de uma grande cidade, mesmo de uma cidade menos-do-que-grande como é Lisboa, bate de forma diferente») e do Mundo em geral: «Foi nos anos 80 que se mundializou a democracia e nasceram os computadores, que pela primeira vez olhámos para o imperativo de deixar de fumar e a necessidade de proteger o planeta».

Fala do amor («Um homem pode ser infiel à sua mulher e, no entanto, amá-la eterna e incondicionalmente. Uma mulher infiel simplesmente já não ama o seu marido») mas também do Acordo Ortográfico: «Há palavras que se escrevem de uma maneira no inglês da Inglaterra, de outra no inglês da América e de outra ainda no inglês da Austrália – e nem por isso o inglês perde força.»

Fala do problema do «espaço» («Um restaurante, uma livraria ou um bar passaram a ser espaços de degustação, de cultura e de design, bom gosto e música assim-assim») e conclui a lembrar Torcato Sepúlveda, juntando de novo o que a morte separou: «era como uma criança, tinha medo de médicos, de agulhas, de três meses num hospital a comer sopas e a fazer tratamentos até, enfim, encontrara a morte – e por isso varreu os sintomas para debaixo do tapete até o próprio tapete começar a ter sintomas.»

(Editora: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa)

Vinte Linhas 609

O filho do marceneiro fez doutrina na Relação

O meu amigo Bernardo Martins costuma enviar-me «mails» sempre com interesse mas o mais recente, além de me interessar, emocionou-me e comoveu-me.

Trata-se da transcrição de um acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo no Brasil (2ª instância) perante o caso de um recurso à decisão de 1ª instância no Tribunal de Marília. Um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ter sido atropelado por um motociclista, pediu ao Tribunal uma pensão de salário mínimo mais os danos morais pela morte de seu pai. Por não ter condições para pagar as custas do processo, o menor pediu ao Tribunal a gratuitidade das mesmas mas o juiz de 1ª instância em Marília negou – por falta de atestado de pobreza e por o menor ter um advogado particular.

O desembargador José Luís Palma Bisson (relator sorteado deste processo) tem na secretária do seu gabinete uma plaina feita por seu pai; trata-se de um sinal para que não esqueça quem é e de onde veio. Lembra os seus dias de menor em que trabalhou ao lado do pai na oficina, comendo pão com manteiga. O pão era aquecido no pequeno forno a lenha da oficina.

Castigar um pobre porque procura advogado particular só mesmo no livro do código dos preconceitos. Pobre não é obrigado a contratar advogado pobre.

Conclusão do juiz desembargador: «Fica este seu agravo de instrumento então provido; fica agora com ares de desafronta, a antecipação da tutela recursal. E como marceneiro voto que você merece a gratuidade e em razão da pobreza que grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir».

Canção da nova casa

Sanefas e cortinados
Outros diversos tecidos
São aqui fotografados
E mais tarde escolhidos

No reduzido conselho
Feminino e singular
Fazer novo do velho
Numa casa a mudar

Novas paredes pintadas
Pequena revolução
Janelas modificadas
Dão uma nova visão

A quem vem de surpresa
E descobre novo espaço
Onde sossego e beleza
Se formam passo a passo

Ângulo aberto à serra
E às nuvens do oceano
Coração em pé de guerra
Prepara um novo plano

Num usufruto profundo
Do espaço, novo cenário
Todo o tamanho do Mundo
Na casa vista ao contrário

Com o sim de Margarida
Toda a mudança prospera
Nova casa é nova vida
Na estação da Primavera

Balada das locomotivas paradas

(a Francisco José Viegas)

Comboios em cemitério
Tanto tempo enferrujado
Segundo novo critério
Já não vão a todo o lado

Debaixo dos pavilhões
Ou nas linhas canceladas
Há memórias de estações
Despedidas, namoradas

Beijo cortado na pressa
Que um apito anuncia
Amor dos pés à cabeça
A bandeira é a alegria

Comboio para a História
Duas guerras mundiais
A certeza é a memória
Da guerra de nunca mais

Despedidas de soldado
Chamado pelo regimento
As cartas do namorado
Perfume do sentimento

Tal como as linhas vazias
Dos comboios a vapor
Há no olhar destes dias
A memória dum amor

Vinte Linhas 608

Entre a vida e a morte ou o esplendor do efémero

No dia 13-4-2011 o meu neto Lucas, seis dias de vida, esteve muito tempo ao meu colo. Sentir a sua respiração levou-me a pensar no que aconteceu nesse mesmo dia em 1995 – a morte da minha mãe. Não conheceu este bisneto nem o primeiro, nascido em 2006 mas lembro muito a sua presença. Lembro com evidência, sentimento e propriedade. A vida é isto que li num livro sobre a Académica de Coimbra: «Os mortos empurram os vivos» Citação de Herberto Hélder. Há quem lhe chame corrida de estafetas pois todos recebemos um testemunho que deveremos transmitir melhorado aos vindouros. Ao mesmo tempo passaram 22 anos sobre o desastre de 15-4-89 quando 96 adeptos do Liverpool morreram em Hillsborough, estádio do Sheffield Wednesday. Jamdes Jones, bispo de Liverpool, está numa comissão sobre a tragédia. É preciso encontrar respostas. Saber o que se passou de facto às 3h 15m daquele dia naquele estádio. Saber o que foi dito por Margaret Thatcher a Peter Wright, chefe da polícia do condado. Saber quem escondeu duas câmaras de vigilância duma sala do estádio. Saber quem afastou o superintendente Stanley Beechey e o colocou num serviço não operacional. Saber quem alterou os relatórios da polícia antes de serem entregues à comissão Taylor. Um dia o poeta Ruy Belo escreveu que a força do futebol vem do próprio momento, do irrepetível tempo, de 90 minutos de incerteza. «Só o presente se vive» e o futebol é o presente, diz o poeta. Sem passado nem futuro, entre a vida e a morte o esplendor do efémero é, como no teatro, o encontro impossível de repetir. Para a família dos mortos de Hillsborough o futebol deixou de fazer sentido porque a morte venceu a vida.

Um livro por semana 229

«A incidência da luz» de Graça Pires

21 anos depois da sua estreia com «Poemas» (1990) que foi Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores em 1988, Graça Pires (n. 1946) retoma algumas das linhas de força da sua poesia.

Por um lado a Natureza no múltiplo olhar da mulher na luz do Mundo:

«As paredes das casas com marcas de fumo / guardaram-lhes os gritos quando queimaram / as cartas de amor e o alecrim para afastarem / os fantasmas do passado parados à beira da insónia».

Por outro lado a Cultura revendo o modo como a Arte lê a Vida e a Humanidade: Auden, Conrad, Van Gogh, Astor Piazzola, Kieslowski, Matisse, Thomas Mann, Gauguin e Bach.

No intervalo que separa luz, vida e alegria de luto, culpa e solidão, o poema inscreve no seu articulado a explicação da vida que vence a morte: «Vejo uma cruz. / Um homem. / Uma túnica rasgada. / Uma coroa de espinhos. / Um rosto com sangue pisado. / O suplício das mãos amarradas ao madeiro.»

(Editora: Labirinto, Capa: Manuel Fazenda Lourenço, Prefácio: Isabel Mendes Ferreira, Posfácio: Alice Macedo Campos)

A professora de Jude Law

Esclerose em placas – que não vejo
Mas oiço bem o ruído do elevador
Sobe as escadas a cadeira de rodas
Aqui junto à parede que nos divide
Como se o seu motor aqui estivesse
E o cão-guia nos ladrasse em festa
No corredor branco da nossa casa

Jude Law, o famoso actor, foi seu aluno
Era distraído, pedia moedas às meninas
Para o bilhete de autocarro no regresso
Mais tarde a mãe do futuro actor pagava
O devido às respectivas mães das alunas
Sem elas imaginarem as primeiras páginas
De jornais que gritam filmes e divórcios

Esta professora recebe hoje visitas de colegas
Trazem chá e scones que barram de manteiga
Se o tempo ajuda vão para o jardim da casa
Ele vem no jornal que sai de um dos sacos
Mas a geração de hoje já não pede moedas
O cartão azul é carregado pelos pais ao mês
Tal como o telemóvel que todos eles usam

Para um poema de R. S. Thomas (1913-2000)

Também só vamos à terra
Para os funerais da família
Pequeno acompanhamento
Quase já não há homens
Para as lanternas e a cruz
A caldeira da água benta
É levada por uma mulher

Cada vez menos lágrimas
Para chorar nossos mortos
Temos a filha em Londres
E os primos em Bruxelas
Com o tempo da Europa
Para cortar os subsídios
E a trazer-nos o frio polar

Leite e água de garrafa
Carne e peixe congelado
Vegetais e frutas e fora
Coisas de supermercado
Mas nosso único produto
A não depender da Europa
É o ámen no fim da oração

Sobre um tema de Vitorino Nemésio

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto (Vitorino Nemésio)

Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto

Segundo retrato de Helena ao colo de Marta

Helena coloca a mão direita em posição
De afirmar uma ideia sua em fantasia
Desenha no seu gesto futura afirmação
Da vontade que se expressa em alegria

Os olhos que se projectam, linha serena
No horizonte de um quarto de criança
São um bilhete de identidade de Helena
E o sorriso é um passaporte de esperança

Vejo a altivez na sua franqueza do olhar
Como velhos azeitoneiros da Andaluzia
A recolherem a luz do azeite num lagar
Nos fios dourados que dão calor ao dia

No sorriso de uma criança a Primavera
Em três dos corações de quem lhe quer
No tempo mais veloz quando não espera
Vai adormecer menina e acordar mulher

Sobre um tema de Emanuel Félix

(poema – autógrafo para Manuel Emílio Porto)

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia

O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia

Louvor do Vinho Fino

Nas linhas onde o comboio já não anda
Só ecos do rumor de gente nas estações
O poema principia na voz de Fernanda
Versos são socalcos de pedras e canções

Nos seus lábios, palavras são rebanhos
Que se unem à Terra como quem reza
O santuário, o ritual parecem estranhos
O altar já está escolhido, é esta a mesa

Aqui juntamos no cálice todo um mundo
Paisagem povoada por lentos lavradores
Nos seus braços existe um saber profundo
Repetido tanta vez entre pedras e sabores

O vinho bebido longe, no café da cidade
É líquido e mais que líquido é resultado
Da lenta fermentação de uma diversidade
Junta paisagem, luz, suor, tudo registado

Continuar a lerLouvor do Vinho Fino

Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade
Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa
Nos dias em que anoitece sobre a verdade
E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais
De eléctricos vagarosos com os atrelados
A vida era diferente dos bilhetes-postais
Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria
Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões
Uma excelente promessa de democracia
E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério
No usufruto duma manhã plena de festa
Os músicos que tocam frente ao Império
São afinal toda a felicidade que nos resta

Casa da Ilha

Minha casa, minha vida
Sendo antiga é moderna
Fica longe não esquecida
Como a água da cisterna

Bebida no púcaro de barro
Entre o curral e o palheiro
Antes de guardar o carro
Com as artes de garageiro

Casa de empena fechada
Duas lojas e um balcão
Quase lhe chega à entrada
O mar em rebentação

Forno exterior, chaminé
Desenho em proporção
Empurra a vida esta fé
Todo o dia em oração

Giesta em flor, rasteira
Cheira bem entre os muros
Socalcos da vida inteira
Onde os frutos são seguros

Casa entre mar e terra
Limites da geografia
Onde o vento faz a guerra
E é relógio todo o dia

Balada da Rua de Baixo

Rua de Baixo, meu mundo
Onde eu regresso cansado
Quando o olhar é profundo
Já andou por todo o lado
São casas sem ninguém
De famílias desligadas
Não se ouve a voz da mãe
Na névoa das madrugadas
Meu berço e minha escola
Minha casa e minha igreja
O amor não pede esmola
Nas esquinas da inveja
Minha paisagem saudosa
Povoada por destroços
Duma sede mais gasosa
Que a água destes poços

Filarmónica formada
Manhã cheia de brancura
Há festa não tarda nada
Na rua desta amargura
Sete ondas repetidas
São sete beijos do mar
Na areia das nossas vidas
Já só podemos cantar
Pode-se cantar um fado
Feito só de melodia
Um homem fica calado
Ao ver a fotografia
Minha rua inicial
A vida, anos primeiros
Onde passou triunfal
A paixão dos baleeiros

Balada para Helena menina

Em Jaen na Andaluzia
Em Úbeda, terra antiga
Helena foi uma alegria
Um amor de rapariga

Azeitona pequenina
No ramo da oliveira
Helena mulher-menina
No calor desta lareira

No signo do Aquário
Esta luz peninsular
Dia extraordinário
Na vertical do lugar

Ficou feliz a família
À volta desta figura
O berço não é mobília
Os lençóis são a ternura

O tempo não corre, voa
Entre estradas e caminhos
Mas de Madrid a Lisboa
Não vão faltar beijinhos

Que os filhos são juízes
A julgar nosso futuro
Por eles somos felizes
Num tempo tão inseguro

Investimento, esperança
Dividendo a quem souber
Vai adormecer criança
Para acordar já mulher

Balada que se termina
Numa palavra serena
Regista, canta, ilumina
O doce olhar de Helena