Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade
Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa
Nos dias em que anoitece sobre a verdade
E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais
De eléctricos vagarosos com os atrelados
A vida era diferente dos bilhetes-postais
Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria
Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões
Uma excelente promessa de democracia
E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério
No usufruto duma manhã plena de festa
Os músicos que tocam frente ao Império
São afinal toda a felicidade que nos resta

5 thoughts on “Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão”

  1. Portugal

    Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
    E torno mais real o rosto que te dou.
    Mostro aos olhos que não te desfigura
    Quem te desfigurou.
    Criatura da tua criatura,
    Serás sempre o que sou.

    E eu sou a liberdade dum perfil
    Desenhado no mar.
    Ondulo e permaneço.
    Cavo, remo, imagino,
    E descubro na bruma o meu destino
    Que de antemão conheço:

    Teimoso aventureiro da ilusão,
    Surdo às razões do tempo e da fortuna,
    Achar sem nunca achar o que procuro,
    Exilado
    Na gávea do futuro,
    Mais alta ainda do que no passado.

    Miguel Torga, in ‘Diário X’

  2. Não é só aquele que assina «A Bem da Poesia» que tem direito a colocar aqui o que de melhor há na Poesia Portuguesa, ora essa!

  3. Sinhã está no corredor para agradar às visitas. Joca vai morrer longe, não te armes em mais parvo do que já és, badalhoco, nem para «Luciano das ratas» serves…

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