Vinte Linhas 610

Essa palavra «ganilhos» que já não ouvia há tanto tempo

Depois de ter passado seis anos em Santa Catarina fui viver para o Montijo em 1957. Morava na Rua Sacadura Cabral que dava para as traseiras do Campo Luís Almeida Fidalgo. Havia nesse tempo palavras que se usavam no dia-a-dia como «ratinho», «caramelo» e «gaibéu» referentes a pessoas que emigravam da Beira Baixa, da Beira Litoral ou do Ribatejo para as sementeiras e colheitas por ali à volta nas quintas da Atalaia, Jardia, Alto Estanqueiro, Sarilhos Grandes, Lançada, Rilvas, Barroca de Alva e Passil. A outra palavra era «ganilhos» que na altura não me lembro de ter indagado aos que me rodeavam o seu significado. Anos depois descubro num alfarrabista um livro de 1948 intitulado «Albergaria Hospital Misericórdia – Vila de Aldeia Galega do Ribatejo» de José Simões Quaresma. Na página 16 lá está «Não é de hoje o ganilho – esse tipo curioso e muito nosso que pode sintetizar o temperamento de um povo que nasce e morre a trabalhar!». Pedi ajuda a João Reis Ribeiro que prontamente me elucidou: «ganilho» quer dizer «garoto de pé descalço» (no falar de Minde) segundo o «Dicionário de calão» de Albino Lapa reeditado em 1974 pela Editora Presença. Entretanto através do meu amigo Aurélio Lopes (antropólogo) procurei no livro com os termos de Minde e lá descobri – «ganilho» como «fedelho» ou «garoto». Joga aliás o termo com o texto que surge na página 17 do mesmo livro: «homens, mulheres e ganilhos» no sentido de «homens, mulheres e crianças». Tenho saudades do Montijo mas não posso lá viver já que tenho a minha casa em Lisboa. Esta palavra «ganilhos» foi uma maneira bonita de matar saudades do Montijo, seus espaços e suas palavras.

3 thoughts on “Vinte Linhas 610”

  1. Não conhecia o termo.

    Quanto às saudades do Montijo, a solução é vender a casa de Lisboa e comprar uma no Montijo.

    Mata dois coelhos (salvo seja) com uma cajadada: Mata as saudades de deixa de ter problemas de estacionamento.

  2. Aceito que a sugestão é simpática mas as minha sraízes estão aqui desde 1966. Estamos em 2011 – é só fazer as contas…

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