Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 661

Saudades da Estremadura 45 anos depois

Há 45 anos cheguei a Lisboa com o olhar cheio de sonhos mas também de dúvidas e de angústias. Comecei a trabalhar em 9-9-66 e quase não reparei que Lisboa era a capital da Estremadura. Tinha vivido em Santa Catarina, Montijo e Vila Franca de Xira, tinha o diploma do Curso Comercial, estava habilitado a trabalhar segundo os padrões da época mas não tinha tido tempo para aprender a amar a Estremadura.

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Vinte Linhas 660

O Portugal-França, o Futebol juvenil e a fábrica dos sonhos

O Portugal-França em «Sub-21» terminou há minutos. No particular o que conta para as estatísticas é o resultado (1-) e o marcador do golo Wilson Eduardo. Mas um jogo de futebol é sempre algo mais do que a sua ficha técnica. A mim deu-me para ir escrevendo nas margens de um jornal diário a lista de jogadores do Sporting Clube de Portugal que ou estão ou já estiveram na Academia de Barroca de Alva. (Os jovens da foto são apenas um exemplo)

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Vasco em Elvas – 1946

Faltavam poucos minutos. A perder por um a zero
Percebi ser preciso tomar uma atitude de imediato
Ser campeão nacional hoje é aquilo que eu quero
Mas só ganhando o jogo ganharei o campeonato

Havia à volta do campo uma onda de tristeza
No rosto dos adeptos que chegaram de Lisboa
Quando fazia lançamentos sentia uma certeza
Não os podia decepcionar a jogar a bola à toa

Foi por isso que peguei na bola junto à lateral
E avancei pelo meio campo do meu adversário
Ninguém esperava este meu arranque triunfal
Porque dos defesas só esperamos o contrário

Do livre a castigar o meu derrube perto da área
Veio o golo do empate. Renasceram as ilusões
O Rafael fez depois uma jogada extraordinária
E saímos de Elvas com o título de campeões

Vinte Linhas 659

Isso foi na Jardia ou no Alto Estanqueiro

As nossas memórias são assim: «coisas desencadeadas» como dizia o grande escritor Carlos de Oliveira.

A propósito de uma nota de leitura publicada no Aspirina B surgiram alguns comentários de pessoas que conheciam muito bem a geografia dos trabalhadores rurais chamados «caramelos» referidos no livro do professor Orlando Ribeiro.

Entrei para a Escola Primária do Montijo em Outubro de 1958, perto do Bairro dos Pescadores. Ali os alunos eram divididos em «bons», «assim-assim» e «burros». Todas as sextas feiras o professor promovia ou despromovia os rapazes conforme a sua prestação semanal. Como já sabia ler e escrever, entrei logo para a fila dos «bons» e lá fiquei. Como nasci em Fevereiro de 1951 foi por uma birra da delegação escolar que só entrei em Outubro de 58 quando deveria ter entrado em Outubro de 57. Resolveu-se o problema em Abril e Julho de 1961 quando, por despacho superior, fiz os exames da terceira e da quarta nas Caldas da Rainha.

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Vinte Linhas 658

Quantos pobres são precisos para produzir um rico?

O falatório feito aqui em Portugal (e não só) a propósito dos ricos e dos pobres tem dado origem a uma série de disparates. Um dos ricos de Portugal apareceu a dizer que é um «trabalhador». Desceu ao nível da anedota sobretudo para os que, como eu, ouviram alguns clientes do Banco desabafar como é que, em pleno PREC, foi construído o chamado «império da cortiça» entre as Unidades Colectivas de Produção do Alentejo e as fábricas de Santa Maria de Lamas.

Vejamos as palavras de Almeida Garrett em «Viagens na minha terra»: «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa; á desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?»

Mas no livro «Levantado do chão» de José Saramago aparece «infância» em vez de infâmia. Ainda há pouco tempo o editor Cruz Santos do Porto fez uma cuidada edição deste livro com caixa e tudo mas a gralha permanece. Não são apenas as dedicatórias que saltaram por uma espécie de gripe espanhola; foi a gralha que permaneceu ao longo de dezenas de anos e de muitas edições.

Outra gralha muito curiosa (e teimosa, já agora) é a que diz respeito ao livro «Viagem a Portugal» do mesmo José Saramago. Na página 252 da edição (sem fotografias) do Círculo de Leitores lá vem «Assim mais confortavelmente se visitará a cidade, não o Museu de São João de Alpalhão, hoje fechado». É um erro crasso, o nome correcto é Alporão por causa da porta das muralhas de Santarém com esse nome.

Um livro por semana 250

«O cisne submerso» de Fernando Pinto Ribeiro

Fernando Pinto Ribeiro (1928-2009) foi revisor de imprensa (Diário de Notícias) e colaborou em revistas de Letras e Artes e em páginas literárias de diversos jornais. Foi autor de fados e canções cantados por nomes famosos como Beatriz da Conceição, Anita Guerreiro, António Mourão, Artur Garcia e Tristão da Silva. Um exemplo: «As meninas dos meus olhos / nunca mais tive mão nelas / fugiram para os teus olhos / por favor deixa-me vê-las //As meninas dos meus olhos / num castigo que é perdão / prende-as dentro dos teus olhos / quero vê-las na prisão».

Fernando Pinto Ribeiro, para quem «Ser poeta é amar o amor», criou também outro tipo de poemas, voltados para as questões sociais, como as lutas nas grandes searas do Sul, num cântico que é também um grito: «Fui pastor, sou corticeiro / conheço o custo à desgraça / só ninguém sabe o dinheiro / que ela rende na praça // Ela rende lá na praça / ou na banca do galego / quem montar uma trapaça / cavalga qualquer borrego // Cavalga qualquer borrego / toureia qualquer carneiro / quando o cão de guarda é cego / arma-se o lobo em cordeiro //Se pão rijo é papa-açorda / e o óleo faz vez de azeite / quem é gordo mais engorda / quem magro é não se ajeite // Quem é magro não se ajeite / que o cevado enfarda a pança / ninguém durma nem se deite / o toucinho também rança// O toucinho também rança / bom vinho dá bom vinagre / quando o tempo é de mudança / a força faz o milagre!».

(Editora: Edium Editores, Organização: Julião Bernardes, Capa: Alice Fergo, Prefácio J. Leitão Baptista, Posfácio: Paulo Jorge Brito e Abreu)

Vinte Linhas 657

A Big Band da Nazaré em São Pedro de Alcântara

Dirigida por Adelino Mota, a Orquestra de Jazz da Nazaré (fundada em 1999) tocou ontem (1-9-2011) às 19 horas no Jardim de São Pedro de Alcântara em frente à minha casa – ou quase. Moro a 50 metros e o som chega lá muito bem. Charles Mingus e Wayne Shorter são alguns dos clássicos interpretados durante mais de uma hora pelos músicos Vítor Guerreiro, Margarida Louro, Luís Guerreiro, André Venâncio, Reinold Vrielink, Élio Fróis, Luís Pires, Fábio Matias, Joaquim Pequicho, João Capinha, Nuno Mendes, Wilson Ferreira, Pedro Morais, Gonçalo Justino, Ricardo Caldeira, Tiago Lopes, Bruno Monteiro e (por fim, sem esquecer) a excelente voz de Júla Valentim.

Para além do usufruto das melodias e das canções, dos arranjos e dos improvisos de vários intérpretes, ficou no meu olhar uma outra memória sobreposta. Que será a memória da Nazaré dos meus tempos de criança: os círios que eu ia ver com o meu avô, as imagens de Dom Fuas Roupinho em todas as casas, o circo que muitos de nós só vimos na Nazaré e, por fim, a tourada das festas anuais. Sem esquecer as mulheres que iam vender peixe à minha terra e se abrigavam da chuva na adega e a quem a senhô Maria (como elas diziam) dava uma pinguinha de café. Aquele café forte que ao subir na cafeteira é parado com uma brasa grande que o faz descer de imediato. Neste momento chove. Por um estranho fenómeno de meteorologia chove em Lisboa, frente ao miradouro de São Pedro de Alcântara como chovia na minha infância muito perto da Nazaré nesse tempo dos anos 50. Regresso à minha infância pelo puro som da Orquestra, pelo olhar e pela voz das mulheres no palco, um mergulho na memória dum certo tempo português – entre círios, foguetes, arlequins e procissões.

Vinte Linhas 656

SCP – O elogio da chamada prata da casa

Sou o sócio nº 54442 do Sporting Clube de Portugal e tenho as quotas em dia. Fui colaborador do jornal do Clube de Agosto de 1988 a Dezembro de 1996 e redactor efectivo de Janeiro de 1997 a Novembro de 2006. Viajei com as equipas «leoninas» por todo o país, ilhas e estrangeiro como enviado especial. Talvez por isso, por ter conhecido por dentro o Clube, tenho uma opinião formada contrária à situação dominante no Sporting Clube de Portugal.

Para jogar para o quarto lugar no campeonato, o SCP só precisa de trabalhar com a prata da casa. Jogadores como Cristiano Ronaldo e Nani (Luís Carlos Cunha) foram dois que cresceram em Barroca de Alva e de lá partiram para o Grande Mundo do Futebol cuja capital é Manchester. Partiram mas antes deram muito de si ao Clube. Faziam parte da prata da casa como Manuel Fernandes, por exemplo. Agora acaba de chegar mais um, o 16º elemento contratado esta época mas os jovens vice – campeões do Mundo Cedric Soares e Nuno Reis, jogadores do SCP mas não jogam no seu Clube.

Mandar embora jogadores como Vukcevic, Liedson ou Tonel sem esquecer Adrien, Emídio Rafael, Silvestre Varela, Hugo Viana e Miguel Garcia, para receber um brasileiro que, na primeira entrevista afirma, sem mais nem menos, querer «engrandecer o Clube», é mau.

Tristeza! Não houve ninguém que lhe explicasse a diferença entre «equipa de futebol» e «Clube». O Clube é outra coisa. Muito diferente e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Não cabe nos centímetros quadrados das camisolas, é memória e sangue pisado, vida e morte, alegria e tristeza, história e lenda mas nunca se pode confundir com uma equipa de futebol. A prata da casa é sempre o melhor de nós e para o quarto lugar chega e sobra.

Um livro por semana 249

«Portugal – o Mediterrâneo e o Atlântico» de Orlando Ribeiro

Um cronista do século XV resumia Portugal a «aldeias e desertos». Terá sido esse, o ponto de partida de Orando Ribeiro (1911-1997) para este livro clássico cuja primeira edição é de 1945. Segundo o autor, a Geografia é, na sua essência, a compreensão da terra e da gente, o mesmo é dizer «os camponeses, pastores, moleiros, almocreves, pescadores e gente de outros ofícios» que, mesmo não podendo ler este livro, o ajudaram a escrever.

Um dos aspectos mais curiosos destas páginas tem a ver com as migrações: «As ceifas do Alentejo atraem grandes camaradas de trabalhadores. Sob a direcção de um manageiro, os ratinhos descem das montanhas mais pobres de Portugal: pequenos, delgados e nervosos, investem com denodo as searas mais opulentas. No trabalho das valas e arrozais, são exímios os caramelos do Mondego baixo e da Ria de Aveiro. Vêm principalmente para a região de Setúbal e o vale do Sado, assim como os gaibéus do Norte do Ribatejo e das serras confinantes acodem à Lezíria para o mesmo fim. Gente das praias da foz do Lis costuma, durante o Inverno, vir pescar ao longo do Tejo: os da Borda de Água chamam-lhe avieiros e muitos por aqui arrastam um destino errante, tendo o barco por única morada.»

(Editora: Letra Livre, Revisão: Andreia Baleiras, Revisão científica: Suzanen Daveau, Grafismo, paginação e capa: Inês Mateus, Foto: pastor tocando flauta em Fratel, Beira Baixa)

Vinte Linhas 655

Vila Franca de Xira – Marieta e as outras miúdas da nossa turma

Esta fotografia a preto e branco explica bem como o tempo passou por nós – destruidor de sonhos, relógio de horas que nos ferem, lugar onde nunca mais vamos estar de novo juntos. Em 1966 a Marieta era, na nossa turma da Escola Comercial e Industrial de Vila Franca, uma voz sempre alta, diferente, feliz. A fotografia, como é óbvio, não regista sons mas eu tenho essa memória, de alegria nos corredores da nossa Escola, guardada num recanto da alma. Era um som puro, inesperado, motivador para todos os parceiros dessa fotografia hoje histórica. Lembro bem o Arnaldo, o Paplikas, a Gui, a Edite, uma moça cujo nome não recordo mas a mãe tinha discos gravados que passavam na Rádio, era a fadista Maria Passos.

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Vinte Linhas 654

Desde 9-9-66 ou afinal 45 anos passaram num instante

«Você vai tirar uma chapa ao Chile!» – foi esta a frase que abriu o meu primeiro dia de trabalho no BPA na Rua do Ouro nº110. Recém-chegado a Lisboa, depois de ter vivido em Santa Catarina, Montijo e Vila Franca de Xira, sabia lá eu onde era o Chile, afinal Praça do Chile, onde se tiravam as chapas dos tuberculosos. Sem chapa não se podia trabalhar. Lá fui no eléctrico 24 (Chile-Carmo) na segunda-feira a seguir. Nesse tempo trabalhava-se nos Bancos ao sábado até à uma da tarde. Eu ganhava 900 escudos por mês e pagava 7$50 pelo almoço na cantina da Rua dos Sapateiros. O elevador de S. Justa custava $20, a viagem do Rato ao Carmo era $70 e valia a pena descer das Amoreiras para o Rato para poupar $30. Um jornal custava 1$00 tal como um selo dos CTT. Se recordo os eléctricos desse tempo é porque hoje existem apenas o 12, o 28 e o 15 que já não tem nada a ver – é mais um comboio pequeno a circular em linhas de eléctrico. O meu mundo de 1966 tem desaparecido aos poucos. Os sonhos foram torpedeados, as aspirações foram pisadas, os votos mais puros foram rasgados por trambolhos que se foram chegando à frente e falam em nome de todos nós. Nesse ano a expressão «todos nós» estava na berra por causa da equipa dos «Magriços» que fez gato-sapato dos adversários em Inglaterra e só não ganhou o campeonato porque estava escrito – foi preciso até um golo fantasma para os ingleses ganharem à Alemanha Ocidental. Eu tinha 15 anos e comecei a trabalhar em 1966. Ainda hoje trabalho e desconto, pago os meus impostos. Vou pagar em Setembro quase mil euros de acerto mas todos os meses desconto 135 euros à cabeça do talão de ordenado. Pois é, 45 anos passam num instante. A aguarela de Oleg Basyuk é a saudação aos meus netos Tomás, Lucas e Pedro que merecem um futuro mais feliz, justo e digno.

Saudação a Joan Sutherland

O nosso neto comum Thomas Francisco Sutherland está um homenzinho.

Dá gosto vê-lo, garboso, feliz e sorridente na fotografia de final de ano lectivo na Booklands School de Blackheath Park em Londres.

Ao lado de uma das professoras, o seu sorriso luminoso ultrapassa os centímetros quadrados da fotografia. São 30 meninos e meninas da pré-primária e ele está integrado, cria bom ambiente na aula, é bom aluno e bom colega. O relatório final assim o confirma.

Está um homenzinho o nosso neto comum, caríssima Joan Sutherland.

Que pena o outro avô já não estar entre nós. Alistair deveria gostar muito de o ver sorrir na ponta esquerda da fotografia. Do lado oposto está uma menina que também é alta. Em linguagem popular são «dois pares de jarras» embora o correcto fosse «um para de jarras» pois são dois miúdos e não quatro.

É um pouco de nós que se prolonga neste neto comum da fotografia que está um homenzinho. Penso no meu avô que era músico e fazia tonéis, na minha mãe que contava histórias e cantava canções para a mãe do Thomas, penso na vossa gente que veio lá dos frios de Inverness na Escócia para York na Inglaterra, penso numa avó que teimava em ver na escola o hoje avô Alistair de kilt, penso em tudo ao mesmo tempo e não vejo lugar para tanta comoção derramada num texto tão breve.

O nosso neto comum está um homenzinho. O tempo voa. As lágrimas são teimosas.

Vinte Linhas 653

Dissertação para uma paisagem junto ao mar

Os ceifeiros partiram ontem à noite depois de terem guardado o cereal nas tulhas do celeiro da quinta e recebido o salário combinado com o feitor. Estamos em Bari: em frente o sossego da luz do Adriático e ao longe adivinha-se um lugar da Croácia. Tudo nos indica que estamos no Sul. Sabemos que na cidade as lojas, as repartições e a Universidade fecham das doze às quatro da tarde porque a África está perto e não se aguenta o calor. Mas são as piçarras na casa onde vive o caseiro que explicam o lugar. Tal como no Alentejo ou na Andaluzia, as piçarras estão presentes nas casas debruçadas sobre o limite da terra.

O quadro organiza-se entre o azul do fundo, duas árvores grandes à direita e à esquerda e quatro árvores azuis a marcarem o limiar da propriedade. Os telhados vermelhos e as janelas deixam pressentir o rumor da vida de todos os dias, o intervalo entre sementeira e colheita, os ranchos que chegam de longe trazidos por manageiros antigos, capazes todos eles ainda hoje de levantarem da terra as cantigas de trabalho que reflectem os rituais da merenda e do cigarro a meio da tarde.

O pintor não inclui barcos de pesca nem de recreio no fundo da paisagem. O mar, o presumido Mar Adriático, é apenas uma referência na geografia organizada deste óleo. É a terra que vale mais, no seu ritual de ciclos a partir das estações do ano, chuva e calor, neblina e secura, nas adegas repletas de tonéis antigos, um vinho branco finíssimo que os fabricantes de espumante não desdenhariam nas suas fábricas na cidade. Os ceifeiros partiram ontem à noite e não ficaram no quadro. A vida pressente-se embora não se desenhe explícita entre a linha azul do mar e o caminho sinuoso até às piçarras da primeira casa grande da quinta.

Vinte Linhas 652

Uma nova livraria no Espaço Chiado

A Gatafunho Loja de Livros abriu no dia 8 de Agosto mas vai ter a inauguração oficial em 24 de Setembro. Fica no Espaço Chiado (Rua da Misericórdia nº 14) mas tem duas entradas do lado do Teatro da Trindade. Entre o Chiado e o Camões, ao lado da muralha fernandina: a história em livro ao lado da história feita pedra. Dedica-se à literatura infantil e juvenil mas também nela se contam histórias em voz alta nos dias 27 de Agosto, 3 e 10 de Setembro com Liliana Lima, Pedro Branco e Cláudia Carrilho. Falta um espaço livreiro temático nesta zona da cidade e o livro infanto-juvenil é uma boa aposta – tal como já existe a Fábula Urbis atrás da Sé (livros sobre Lisboa) e vai existir em 3 de Setembro na Rua D. Pedro V nº 74 uma nova livraria (livros sobre Fernando Pessoa) além da Poesia Incompleta na Rua Cecílio de Sousa nº 11 (livros de Poesia). Sem esquecer a Livraria 1870 na esquina da Travessa de S. José e a Rua de S. Marçal.

Outras há que desapareceram como a Romano Torres frente à igreja de S. Mamede (hoje uma casa de colchões) e a Diário de Notícias no Largo do Chiado (hoje uma loja Hermés) além da Livraria do Senhor Fernando na Travessa da Água da Flor hoje entaipada pelas obras que roubaram 8 lugares de estacionamento aos moradores do Bairro Alto. E sem esquecer a Bocage que começou na Travessa André Valente e, devido a uma inundação camarária, foi levada pela EGEAC para a Calçada do Combro. Anos depois um pobre diabo assinou uma carta miserável da CML a afirmar que a Livraria Bocage estava a cometer um crime de enriquecimento ilícito que é punido com 3 a 6 anos de prisão… Só a estupidez humana não é punida nem na CML nem em lado nenhum pois é infinita como o Universo. Mas isso é outra história e agora interessam mais as novas histórias da Gatafunho Loja de Livros.

Balada do Bairro das Colónias

No terraço das insónias
Na frescura do Verão
É no Bairro das Colónias
Que vejo o meu coração

Minha filha Ana Maria
Nasceu nesta avenida
Foi à hora do meio-dia
Esteve em perigo de vida

Cidade em bilhete-postal
Avião passa dois minutos
Em dias de temporal
Ou nos dias mais enxutos

No ruído da ambulância
Nos neóns da claridade
Se percebe a distância
Das artérias da cidade

Pois tal como uma pessoa
A cidade fica cansada
Se o sol se põe em Lisboa
Sem Lisboa dar por nada

Sinfonia dos telhados
Escada de incêndio a cores
Nascem músicas de fados
No escuro dos corredores

No perfil que se desenha
Entre terraço e janela
Já Lisboa é uma senha
Para entrar numa tela

Foi pintada ao natural
Quando amor é vício
Transporte sentimental
Parado entre o bulício

Um livro por semana 248

«O Cinema chegou a Portugal» de A.J. Ferreira

António Joaquim Ferreira nasceu em 1924 (Gouveia) e tem desenvolvido o seu interesse de investigador em duas áreas: o Cinema e a Literatura infanto-juvenil. É o autor de «A fotografia animada em Portugal» (1986) e de «Animatógrafos de Lisboa e do Porto» (1986-1989).

Neste livro com muitas fotografias e reproduções de notícias de jornais da época, o autor recorda como em 28-12-1894 surgiu nas lojas do Hotel Avenida Palace uma projecção de Lanterna Mágica, vistas estereoscópicas e a fotografia viva. Em 6-3-1895 apareceu o Kinetoscópio na Casa Travassos do Rossio e em 18-6-1896 foi apresentado o Teatrógrafo com 8 filmes no Real Coliseu da Rua da Palma. D. Carlos e D. Afonso (seu irmão) assistiram ao Animatógrafo Colossal de 27-8-1896: a chegada do expresso de Paris ao porto de Calais.

O operador Henry Short, enviado a Portugal por Robert Paul, filmou uma tourada e a Boca do Inferno em Cascais. Filmou também, no Retiro da Pipa, no alto da Avenida da Liberdade, uma luta de jogo-do-pau entre Sousa Santos e Ambrósio Blanco: eles foram os primeiros actores portugueses de Cinema.

Aurélio Paz dos Reis é outro dos pioneiros aqui referidos: viu no Porto o animatógrafo Rousby e acreditou nas possibilidades comerciais do novo invento. Foi a Paris e comprou um aparelho cinematográfico, um Kinetographe de G.W. de Bedts. Já no Porto filmou umas manobras de bombeiros e um cortejo eclesiástico. Outros se seguiram: uma feira de gado, um Zé Pereira, um jogo-do-pau e uma saída do pessoal operário da Fábrica Confiança. O cinema tinha chegado a Portugal.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Revisão: Sónia Barros, Capa: The Strand Magazine)

Vinte Linhas 651

Aniceto Carmona no esplendor do efémero

Ele é um homem que vem de muito longe. Ajudou a fazer jornais desde os tempos antigos dos granéis de chumbo quando os homens de fato de macaco azul morriam novos. Muito para lá das portas das grandes oficinas de onde os jornais saíam na pressa de não perder a ligação aos comboios para Norte e para Sul.

Aniceto Carmona ora aparece na Internet por causa da caricatura de Alfredo Marceneiro ou de Shimon Peres mas também desenha num obscuro jornal de província. Outro dia vi um trabalho seu no jornal do Casa Pia mas as suas caricaturas englobam também memórias de jornais e de revistas que deixaram de circular: a Flama e o Diário Ilustrado, por exemplo.

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Um livro por semana 247

«História da vida privada em Portugal – Os nossos dias»

Dirigido por José Mattoso e coordenado por Ana Nunes de Almeida, este IV volume engloba um arco temporal de 1950 à primeira década do século XXI. A vida privada como tema muito deve à geração dos «Annales» em França que teve a coragem de, sem esquecer a política e o poder, trazer para os estudos históricos o domínio dos sentimentos, das atitudes e crenças, dos comportamentos perante o nascimento, a sexualidade, a morte e as idades da vida.

Em 1950 Portugal era um país pequeno, pobre e católico, com níveis baixos de escolarização e qualificação, uma agricultura estagnada e um regime político orgulhosamente só. Como definiu Sedas Nunes «uma imensa manta tradicional descosida por estreitos rasgões de modernidade». Portugal não foi, nunca foi, um país de brandos costumes como queria Salazar. A violência estava inscrita no âmago das relações sociais. O Instituto de Medicina Legal de Lisboa só no dia 2 de Setembro de 1950 examinou 49 casos de vários tipos de ofensas corporais. A criada de servir era uma figura social com presença expressiva nos espaços públicos e privados da época (anos 50) e vista como ameaça à moral e aos bons costumes mas a realidade era outra: num inquérito da Misericórdia de Lisboa em 1959 junto de 395 prostitutas, 73% destas tinham sido postas na rua depois de os seus patrões as engravidarem.

A violência doméstica pode ter vários matizes. Por exemplo a violência verbal da mulher: «Às vezes digo coisas ao meu marido e ele fica de tal forma aniquilado que durante uns tempos não me chateia com mais nada!». Ou como refere uma médica: «As mulheres são muito mais de azucrinar os maridos com isto e com aquilo e com aqueloutro e com mais não sei o quê! Pimba, pimba, pimba, isso pode ser também considerado uma violência.»

O livro de 415 páginas divide-se em 3 capítulos e integra 11 textos de 10 autores convidados.

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Design: Leonor Antunes)

O Mundo de Ermelinda Alves Pereira em 1922


A fotografia de 1922 pertence a Fernando Marques e foi cedida por Carlos Fernandes.

*

Quatro anos depois do fim da I Grande Guerra, rodeada por avós, pais e uma irmã, Ermelinda Alves Pereira enfrenta o seu mundo circunscrito com o sorriso teimoso, irreverente e ilimitado que a vai acompanhar até 31-12-2010. A memória tem facetas especiais: é possível a alguém como eu, que veio de longe e de fora da família, participar no círculo de amizade dos seus sete filhos a partir de 1974 mas, graças a uma fotografia de 1922, integrar-se no universo mais íntimo de alguém e viajar no seu tempo interior.

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Carta a um jovem amigo

Não percas tempo a confundir
Amor e casamento, não vale a pena.
Um amor mesmo depois de morto
Prolonga-se e continua tempo fora.
Permanece nas gavetas da alma
Nos improváveis armários da vida.
Por isso são inúteis os círculos
À volta desse amor acabado.

Casamento é outra coisa, meu amigo
É a arte do possível na convenção.
Se à porta da igreja o pai do outro
Só olha para o seu asa de grilo.
Observa de lado os convidados
Que não são da sua lista.
Para no restaurante se alhear
Da nossa humanidade que lhe falta.

O amor é sempre outra coisa
Não é trabalho das nove às seis.
Se este amor não deu resultado
Então era um duplicado equívoco.
O amor está nas ruas e nas praças
Nos gritos da gente às janelas.
Nas multidões das passadeiras
Na solidão dos parques e jardins.

Não percas tempo a confundir
Amor e casamento, não vale a pena.
Quando chegar a sua altura
O amor vai mesmo aparecer.