Um livro por semana 247

«História da vida privada em Portugal – Os nossos dias»

Dirigido por José Mattoso e coordenado por Ana Nunes de Almeida, este IV volume engloba um arco temporal de 1950 à primeira década do século XXI. A vida privada como tema muito deve à geração dos «Annales» em França que teve a coragem de, sem esquecer a política e o poder, trazer para os estudos históricos o domínio dos sentimentos, das atitudes e crenças, dos comportamentos perante o nascimento, a sexualidade, a morte e as idades da vida.

Em 1950 Portugal era um país pequeno, pobre e católico, com níveis baixos de escolarização e qualificação, uma agricultura estagnada e um regime político orgulhosamente só. Como definiu Sedas Nunes «uma imensa manta tradicional descosida por estreitos rasgões de modernidade». Portugal não foi, nunca foi, um país de brandos costumes como queria Salazar. A violência estava inscrita no âmago das relações sociais. O Instituto de Medicina Legal de Lisboa só no dia 2 de Setembro de 1950 examinou 49 casos de vários tipos de ofensas corporais. A criada de servir era uma figura social com presença expressiva nos espaços públicos e privados da época (anos 50) e vista como ameaça à moral e aos bons costumes mas a realidade era outra: num inquérito da Misericórdia de Lisboa em 1959 junto de 395 prostitutas, 73% destas tinham sido postas na rua depois de os seus patrões as engravidarem.

A violência doméstica pode ter vários matizes. Por exemplo a violência verbal da mulher: «Às vezes digo coisas ao meu marido e ele fica de tal forma aniquilado que durante uns tempos não me chateia com mais nada!». Ou como refere uma médica: «As mulheres são muito mais de azucrinar os maridos com isto e com aquilo e com aqueloutro e com mais não sei o quê! Pimba, pimba, pimba, isso pode ser também considerado uma violência.»

O livro de 415 páginas divide-se em 3 capítulos e integra 11 textos de 10 autores convidados.

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Design: Leonor Antunes)

6 thoughts on “Um livro por semana 247”

  1. “Coisas minhas” de Fernando Santos

    O PASSEIO DA ESCOLA

    Este ano, como habitualmente, a nossa população escolar lá teve o seu passeio anual. O dia, marcado com antecedência superior à que a ansiedade de uma criança pode suportar, foi sonhado, desejado, esperado… e nunca mais chegava… Só faltavam dez, só faltavam nove, oito dias… E cada dia que faltava era sempre mais longo do que o antecedente… Mas o grande dia chegou, por fim!
    De véspera foi uma azáfama enorme: ele era o arranjar o farnel para levar (que chegasse para si e para oferecer…), ele era o pôr cá fora a roupa para vestir, bem lavada e brunida, estendida na cadeira à espera que a manhã raiasse, eram os mil e um conselhos e advertências dos pais e avós…
    A noite foi mal dormida, o sono não vinha e, quando se dispunha a chegar, era empurrado para longe pela imaginação que só uma criança pode ter… E só o cansaço que essa imaginação provoca consentiu que o senhor “sono” se apoderasse dos felizes viajantes de um dia…
    Mal o galo cantou a casa inteira foi acordada pela impaciência daquele “poucos anos” que não queria perder a caminheta que o levaria, mais a todos os parceiros de tamanho e brincadeiras, aos maravilhosos lugares que as senhoras professoras tinham escolhido, entre os quais – ora imaginem! – Havia uma visita ao grande Jardim Zoológico da Maia e uma enorme viagem de comboio de Campanhã até S. Bento, calculem!!…
    Para miúdos nascidos e vividos numa terra que não é servida pelo caminho-de-ferro, este era, sem dúvida, o mais apetecido momento da jornada! O “Zoo” da Maia assumia aspectos de maior interesse que o próprio ”Kruger´s Park” e a distância ferroviária de Campanhã a S. Bento (com túnel e tudo…) só encontrava similitude no Expresso do Oriental!… Era um duplo sonho! E, após mais de mil e um avisos, o Ricardo saiu de casa radiante e ansioso, não era ele que ali ia, mas toda a beleza dos primeiros anos, que tão breve são, mas que valem milhões enquanto duram…
    O Paulo, o irmão mais novo, não foi. O Paulo nunca foi! O Paulo … nunca irá!… O Paulo começa já, de muito novo, a sentir a injustiça e a desigualdade cruel da vida, onde há pessoas grandes que, ou por espantoso esquecimento dos seus primeiros anos, ou por um comodismo a que se julgam com direito, não hesitam em frustrar, ferir e ofender o que o mundo nos oferece de mais belo: a criança!
    A professora do Paulo não gosta destas coisas. Ela, que até é boa professora, que trata bem os seus alunos, que os ensina e educa o melhor que pode e sabe (e até sabe…), não se sente com estas obrigações. Pagam-lhe para ensinar crianças, para cumprir o seu programa, e não levar meninos a passear e, ainda por cima, ter talvez de assumir responsabilidades por tal acto. É uma funcionária zelosa, fria e cumpridora. As crianças são o seu ganha-pão, a razão do necessário ordenado ao fim do mês: mais nada.
    O Paulo nunca irá, pois a sua professora será sempre a mesma até à sua ida para o “preparatório” … Mas o Paulo não chorou: o Paulo é um “homem” e um homem não chora! Assistiu à euforia do irmão, a todo o estrondoso reboliço daquela hora de natural alegria para todas as crianças que têm professoras que compreendem e estimam de maneira diferente da sua professora… e não chorou… Talvez uma espécie de rolha se lhe alojasse no gorgomilo a querer engasgá-lo, talvez os seus olhos, muito abertos, o quisessem atraiçoar, quando o irmão lhe deu o beijo de despedida e abalou feliz… mas conteve-se! Ele é um homem, sendo criança; assim outros (e outras) maiores do que ele soubessem assumir os compromissos próprios do seu tamanho…
    Tentei consolá-lo:
    Deixa lá, Paulo: jardim Zoológico já tu conheces o de Lisboa, que já lá te levei… E, quanto ao comboio, eu próprio te levarei a dar um grande passeio, muito maior do que o teu irmão vai fazer…
    Mas não é este! – Respondeu-me secamente, voltando-me as costas, talvez para eu poder continuar a dizer que o Paulo não chora, porque é um “homem”!
    Curiosamente, a atitude do Paulo fez-me vir à ideia a imagem de um grande prato de batatas cozidas com a casca, a nadarem em molho de vinho avinagrado com duas magras gotas de azeite, imagem que me acompanha desde a idade do Paulo e que me marcou para sempre!
    Nessa altura os meus pais costumavam passar um mês de férias no lugar de Perrache, da freguesia de Mouriz, em Paredes, numa casa de campo que nos era alugada por um tal senhor Brandão, de quixotesco bigode e pêra brancos, adereços pilosos que lhe emprestavam um ar de fidalgo ou nobre da Idade Média e que muito me impressionaram.
    Nos baixos da casa viviam os caseiros, com um numeroso molho de filhos, alguns já grandes, mas outros do meu tamanho, mais ou menos, com quem eu adorava brincar, trabalhando no campo, que eram as suas brincadeiras possíveis e permitidas. Aquilo para mim era um Paraíso, onde nem sequer faltavam Adão e Eva, que eram, curiosamente, os nomes dos simpáticos caseiros, pais daquela filharada toda. Ao fim da tarde – e após terem dado graças ao Senhor – juntavam-se todos, com um garfo e uma colher de lata na mão, à volta da panela, esperando a tigela do caldo fumegante que a mãe lhes iria distribuir. Mas antes, a senhora Eva despejava num grande prato redondo um tacho de batatas cozidas com casca e tudo, regava-as com vinho tinto azedo, esmigalhava-lhes em cima uma cabeça de alho e deixava pingar três ou quatro gotas de azeite. Aí, entrava o garfo em acção, com o qual cada um ia tirando a sua batata, quente a escaldar, pelava-a com os dedos, molhava-a no grande prato comum, cheiinho de vinho azedado, alho e um cheiro de azeite, e levava-o à boca com satisfação e não menor precaução, que a coisa queimava, com a mão esquerda aberta sob o queixo para aparar os inevitáveis pedaços que iam cair… Aquela comida, pobre e simples, fascinava-me e ainda hoje, ao recordar aqueles gestos e o respectivo cerimonial, cresce-me água na boca e sinto uma tremenda fome daquele manjar que não cheguei a comer… Uma bela tarde, a senhora Eva, vendo o meu interesse por aquela humilde ceia, meteu-me na mão um bicudo garfo de ferro e convidou-me sorridente, ao que eu não me fiz rogado. Já me dispunha a picar uma batata, quando minha mãe, que não me via chegar, mandou-me buscar pela criada que sem mais aquelas, tirou-me o garfo da mão, pegou em mim e, levando-me para cima, impediu a maior aspiração da minha vida: comer uma batata cozida, a pelar, molhada em vinho azedo, juntamente com aqueles amigos…
    Perante a minha enorme decepção, meu pai, que tinha acabado de chegar do Porto, de onde sempre trazia uma ou outra guloseima, tentou satisfazer-me com o doce que eu mais adorava e que já não como há imensos anos: “melindres”. Como o Paulo, voltei-lhe as costas e fiquei sem comer nesse dia.
    Julgo que nessa altura também não chorei, mas hoje, ao lembrar-me do Paulo e dos seus colegas de classe a verem ir-se embora aquela caravana de caminhetas carregadas da alegria de ser criança, senti uma enorme amargura por eles e uma enorme indignação. Só espero que o facto de o não ter feito chorar não marque tanto o meu Paulo, como as batatas que não comi me marcaram a mim.
    Igualmente espero que a senhora professora tenha grandes e justas razões para proceder desta forma, tão perigosa e pouco compreensiva, para com os seus alunos. Estou certo que sim que as tem, porque o contrário era simplesmente criminoso, vindo de uma educadora.
    Mas, pergunto eu ao senhor Delegado Escolar: – “Não haverá uma forma de todas as crianças das nossas escolas poderem comer as suas batatas com casca, sem o perigo de se sentirem diminuídas e frustradas face aos seus colegas?

  2. Magnífico texto! Tenho uma memória cruzada e parecida: um dia num lagar de azeite da Tia Laura fui ver o meu Tio Joaquim e, do alto dos meus quatro anos, vi um homem que comia batatas sem sardinhas nem bacalhau e disse «Tio Jaquim este homem só tá a comer batatas!» ao que o homem respondeu «Ó menino, batatas com azeite já é comer!». Grande lição de dignidade que é sempre a última coisa a perder e que aquele homem, mesmo pobre, ainda tinha para dar e vender.

  3. Sinhã a palavra vem no nosso querido Moraes, é de origem brasileira, julgo que surge um bocado com as telenovelas. Pára de azucrinar moço! Vem de azucrim – homem inoportuno, que aparece para molestar alguém.

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