Assim se constrói a lenda

Acerca de Sócrates, a arraia-miúda da pseudo-direita só gasta de três ideias:

1ª Que devia ser levado a tribunal, preso e, se possível, executado por um pelotão da GNR por causa do mal que fez às pessoas de bem e de bens.

2ª Que está acabado para a política desde meados de 2007, sendo disso a prova o facto de eles repetirem diariamente que está acabado para a política desde meados de 2007.

3ª Que faz de tudo para se manter no Poder, seja lá o que for, incluindo tomar as decisões mais difíceis para um Governo, e as mais impopulares para um partido, de que há memória em democracia, a que se junta a resistência a um Presidente da República conspirador e a coragem de governar sem maioria parlamentar.

Em suma, estão obcecados pelo homem. E já se criaram religiões com muito menos fervor e devoção.

Um livro por semana 223

«Vida e obra de Raul Brandão» de Guilherme de Castilho

Guilherme de Castilho (1912-1987) estudou as obras de Bergson, Eça de Queirós, António Nobre e Raul Brandão. No caso presente são 536 páginas sobre este «filho e neto de homens do mar» que em 1891 se inscreveu na Escola do Exército «por vontade do pai e para não desgostar a mãe». Cedo concluiu que «quem vivesse cem anos chegava, pelo menos, a major».

Raul Brandão (1867-1930) teve uma profunda ligação à Natureza («Construí a casa, plantei as árvores, minei as águas.») e ao jornalismo («Trabalhei sempre nos jornais») mas num incidente com anarquistas no Pátio do Salema ouviu estas palavras inesquecíveis: «Se quer ser escritor, fale dos pobres».

Entre jornais e revistas a lista é longa: «Correio da Manhã, O Imparcial, O Dia, Jornal da Manhã, Diário da Tarde, República, O Universal, O Liberal, A Crónica, O Século, Revista Ilustrada, Brasil-Portugal, Revista Nova, Serões, Gente Lusa, Teatro e Letras, Ilustração Moderna, Revista de Hoje, Revista de Portugal, A Águia, Seara Nova, Portucale e Claridade».

Sobre a sua obra afirmou: «Não sou um escritor. Sinto a dor humana, a amargura dos seres, vazo-as em figuras. Eu não sou um literato». Terminamos este convite à leitura citando Guilherme de Castilho: «Se na literatura portuguesa há escritor que tenha nascido sob o signo da indisciplina mental, da impossibilidade temperamental de se integrar em qualquer escola, de aceitar qualquer forma preestabelecida de expressão, esse escritor é, sem dúvida, Raul Brandão».

(Editora: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Capa: Armando Boaventura)

O bastonário da ordem dos médicos e a legitimação do insulto

Todos temos momentos de ingenuidade, momentos em que acreditamos que as coisas vão passar-se tal e qual as vemos acontecer na nossa visão de instinto.

Lemos  isto, um artigo de opinião assinado pelo Chefe de Serviço Hospitalar do IPO publicado na ROM, e a estupefacção é tanta que esperamos, mais do que reacções legais, o repúdio imediato, sem condescendências, vivo, pedagógico, de quem representa a comunidade médica nesta democracia de 37 anos, onde é imperativo constitucional e legal ter por iguais, no sentido mais profundo que a ética, a dignidade da pessoa humana, o livre desenvolvimento da personalidade e, por consequência, a proibição de considerações discriminatórias arbitrárias sobre as pessoas com base na sua orientação sexual impõem.

Assim é, felizmente, porque as forças maléficas com repouso em argumentos incompreensíveis para uma lógica racional, desligada de mandamentos do além ou coisa que o valha, deixaram de poder ditar o seu preconceito infundado para uma lei que dizia crime, para uma lei que dizia doente, para uma lei que dizia anormal.

Formalmente, essas leis já não existem, já não amedrontam, já não causam desgraça.

De tempos a tempos, porém, vem a memória delas, porque quem odeia certas pessoas, ou quem tem medo de certas pessoas, esse medo tremendo do que é diferente, quer fazer propaganda do antigamente, insistindo em estereótipos, denunciando  práticas sexuais que para espanto têm por exclusivas dos homossexuais, finalmente caluniando o grupo de pessoas: “doentes, defeituosos, anormais, portadores de taras”, mas gente que acabou por ser objecto de uma estranha tolerância apesar de terem condutas sexuais “aberrantes”.

Sim, uma pessoa lê isto e sabe que este Senhor sabe que em Portugal a liberdade de expressão, como em todos os outros países democráticos, não é ilimitada; não pode, por exemplo, ser invocada se, no caso concreto, está a ser veículo de compressão de maior relevo de outros bens e valores constitucionais, como os que referi mais atrás. Este senhor deve saber, acho eu, que não pode invocar a liberdade de expressão para praticar crimes. A ver se ele entende: eu não posso invocar a liberdade de circulação para atropelá-lo não parando na passadeira; simples, certo?

Ora bem: o avançado mental que escreveu o artigo de opinião não pode invocar a liberdade de expressão para caluniar todos os homossexuais e lésbicas, fazendo propaganda contrária ao sistema de princípios e valores constitucionais que não só protegem as pessoas em causa após séculos de perseguição, como o foram outras categorias de pessoas, como consubstanciam alguns dos pilares do Estado de direito em que nos inserimos.

O autor não pode invocar a tal da liberdade se alguém entender por bem fazer qualquer coisa, mas o mundo em que vivemos precisa realmente desta tristeza  que é deitar fora minutos de ingenuidade e andarmos antes de olhos bem abertos, porque quando perguntado sobre aquele lixo grave, o bastonário da Ordem dos Médicos “considerou normal a publicação”. O Bastonário invocou a liberdade de expressão, que não exerceu para contraditar o conteúdo daquele lixo, antes preferindo mentir , dizer que não tem nada a ver com a publicação.

É convidar um médico, para a próxima, que defenda a menoridade biológica das mulheres, dos negros, ou coisa assim. Liberdade de expressão.

Da falta de juízo dos nossos juízes

Por motivos de limitações orçamentais, que me foram assinaladas, tomei a decisão de entregar ao Sr. Secretário Geral do TCIC, o telemóvel de serviço que me estava confiado a partir de hoje dia 9-03 de 2011. Oportunamente indicarei um telefone pessoal para contacto. Obrigado. Carlos Alexandre

Fonte

O presidente da Associação Sindical dos Juízes (ASJP) comentou esta manhã na TSF a decisão do magistrado Carlos Alexandre de entregar o seu telemóvel de serviço devido a «limitações orçamentais» no plafond.

António Martins considera que esta decisão terá consequências graves nos direitos das pessoas que precisam da intervenção deste juiz e classifica de «mesquinha e cega» a atitude do Ministério da Justiça.

«Pode ter consequências graves para os direitos e liberdades das pessoas porque um juiz com competência nacional tem que estar disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, e se não puder ser contactado por esse facto poderá haver atrasos na apreciação de qualquer caso submetido à sua decisão», sublinhou António Martins.

Fonte

O responsável pela Direcção Geral de Administração da Justiça (DGAJ) garantiu hoje que não houve qualquer alteração no plafond de 15 euros atribuído ao telemóvel de serviço do juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), Carlos Alexandre.

Pedro Lima Gonçalves disse à agência Lusa que, em Fevereiro de 2010, foi celebrado um contrato entre a DGAJ e uma operadora de telecomunicações e que desde aí “não houve qualquer alteração no plafond de 15 euros”.

Nessa altura, adiantou, foi entregue um telemóvel com plafond de 15 euros ao secretário Geraldo TCIC, um às varas criminais e outro a um procurador do Ministério Público.

“Em Fevereiro de 2010 foi entregue um telemóvel à secretária do TCIC e até agora foi usado sempre nos mesmos moldes. O telemóvel foi entregue para as diligências externas. Desde aí não houve nenhuma alteração, ou redução, não limitou nada”, explicou.

O director da DGAJ desconhece as razões do juiz CarlosAlexandre para gravar uma mensagem do telemóvel e não tem qualquer comunicação do magistrado sobre o assunto, nem o secretário do TCIC.

Fonte

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Caso tivéssemos imprensa em Portugal, algum jornalista, pelo menos um, não descansaria até conseguir sacar do hipertenso António Martins uma qualquer linha argumentativa, que até nem carecia de obedecer à lógica, onde se detalhasse o modo como a livre decisão do juiz Carlos Alexandre – ao abdicar de um telemóvel que lhe foi oferecido com um certo valor de chamadas grátis por mês – pode acabar por ter consequências graves para os direitos e liberdades das pessoas. É que se o conseguirmos provar, mesmo que aos nossos olhos leigos pareça missão impossível, apanhamos o gajo.

Vinte Linhas 597

Dissertação para um bilhete e memória de um camarada

Comecei a escrever a pensar no bilhete de 4$50 e nas circunstâncias. No ano de 1966 eu ganhava 900 escudos por mês e descontava 18 escudos para o F. de Desemprego mais 9 escudos para o Sindicato e 2$50 para a Caixa de Abono de Família. Pagava 7$50 por cada almoço na cantina do Banco, o que dava 157$50 em certos meses maiores. Este bilhete de comboio fez-me entrar num tempo em que íamos até ao Cais do Sodré e o destino final era Cascais porque, como era mais caro do que Santo Amaro ou Oeiras, ia menos gente. O destino era quase sempre a praia da Rainha.

A meio do texto fico a saber que morreu um jornalista do meu tempo do jornal «Sporting», o Zé Luís Pinto. Lembro-me bem de como me foi útil o seu desenrascanço no final dos jogos. Quando ainda no velho estádio os jogadores não queriam falar, íamos os dois até à garagem, ali bem perto do futebol juvenil. Umas vezes o Edmilson, outras o Pedro Barbosa, outras vezes um outro jogador, lá arrancávamos umas declarações em directo e exclusivo. Tornámo-nos amigos. Como delegado sindical ajudou muita gente a obter carteira profissional e a pôr as quotas em dia no Sindicato dos Jornalistas. Tínhamos um código: quando eu chegava dizia «Ó Penalva do Castelo!» e ele respondia «Ò cromo!». Um dia houve uma madrugadora manifestação de agricultores com porcos à solta no Terreiro do Paço. Pois calhou ao bom do Zé Luís Pinto acordar os secretários de Estado da tutela por causa da confusão criada em Lisboa. Ele trabalhava na agência noticiosa LUSA e no jornal «Sporting», às vezes chegava cheio de sono mas nunca deixou de cumprir. Os jornais no Céu podem contar com ele.

Grandes momentos no comício do pior Presidente da República desde a implantação da mesma

A direita entrou abúlica mas foi aquecendo até ao imprevisto êxtase colectivo. Não contava com o turbilhão de emoções que a esperava nessa tarde de indelével memória. E assim se mostrava sonolenta quando o orador se elevou na tribuna. A cada linha que passava, porém, a temperatura subia. Sentia-se algo novo no ar, uma daquelas energias com que se fundam as nações ou se derretem serviços Vista Alegre contra as paredes de uma inocente cozinha. E começaram, devagarinho, a soltar-se os muito bem. De seguida, vieram os bravo. E, logo depois, os olé. Porque as palavras de ordem jorravam imparáveis no hemiciclo, enchiam de pundonor as hostes sequiosas e feridas. O espectáculo era não só original nos e em 100 anos da República, era também de arrebimbomalho. Já fervendo, Portas ria à gargalhada e tentava abraçar alguém. A Linha Maginot na bancada do PSD exibia-se marejada na comoção, os peitos arfavam. Havia um estupor concomitantemente agitado e lânguido por tanta felicidade. E depois veio aquele tal momento, genial e divinal, em que o orador exigiu que as nomeações para a Administração Pública fossem pautadas exclusivamente por critérios de mérito e não pela filiação partidária dos nomeados ou pelas suas simpatias políticas. Aqui a plateia e balcões simpatizantes explodiram em júbilo. Voavam cartolas e tiaras, à mistura com letras de câmbio e guias de restaurantes. Finalmente, fazia-se justiça naquela casa e diziam-se as verdades: os do mérito estavam impedidos de ir ao pote, o Reino tinha sido tomado pelas mãos sujas dos piolhosos. Algo tinha de ser feito, urgentemente.

Rápido, todos à Avenida da Liberdade neste sábado. – teve ainda tempo de berrar o orador – É que nós somos a geração da direita à rasca!

É bom relaxar com as coisas giras da rapaziada de direita

No 31 da Armada escreve-se que Cavaco abalou mesmo o Governo. Escrevem assim:

“Basta olhar para os corporativos. Ainda não passaram 24 horas e já vão em 14 posts sobre o Presidente”.

E que fez Cavaco aos 31 da Armada? Devem estar a produzir um novo hino nacional dedicado ao homem.

É que mais ou menos no mesmo período de tempo já produziram 15 posts sobre o Presidente.

Eu gosto desta rapaziada. Seus doidos.

Cavaco a cada passo presidente de alguns e homem de memória eventual

É difícil encontrar um Presidente da República que consiga, num parágrafo, fazer passar um apelo amuado a um conceito de família não inclusivo e à moralidade na designação de dirigentes da Administração Pública, ele, o pai do Estado laranja.

No momento que atravessamos, em que à crise económica e social se associa uma profunda crise de valores, há que salientar o papel absolutamente nuclear da família. A família é um espaço essencial de realização da pessoa humana e, em tempos difíceis, constitui o último refúgio e amparo com que muitos cidadãos podem contar. A família é o elemento agregador fundamental da sociedade portuguesa e, como tal, deve existir uma política activa de família que apoie a natalidade, que proteja as crianças e garanta o seu desenvolvimento, que combata a discriminação dos idosos, que aprofunde os elos entre gerações.O exercício de funções públicas deve ser prestigiado pelos melhores, o que exige que as nomeações para os cargos dirigentes da Administração sejam pautadas exclusivamente por critérios de mérito e não pela filiação partidária dos nomeados ou pelas suas simpatias políticas.

Contra todos os riscos

António José Seguro aplaudiu o comício de Cavaco. Questionado a respeito, justificou-se com este formalismo: tratava-se de saudar o discurso do Presidente da República do seu país. O que lhe valeu o seboso elogio do Crespo: É uma belíssima explicação. E realçou a substantiva diferença: há cinco anos, aplaudiu de pé; agora, aplaudiu sentado.

Será então de prever, quando o Presidente da República do seu país levar para um novo máximo a hipocrisia e irresponsabilidade exibidas na tomada de posse, que Seguro se mande ao chão para continuar a aplaudir.

Cavaco ou o homem que eu não fui mas vou ser se Deus quiser

Além disso, é imperativo melhorar a qualidade das políticas públicas. Em particular, é fundamental que todas as decisões do Estado sejam devida e atempadamente avaliadas, em termos da sua eficiência económica e social, do seu impacto nas empresas e na competitividade da economia, e das suas consequências financeiras presentes e futuras. Não podemos correr o risco de prosseguir políticas públicas baseadas no instinto ou em mero voluntarismo

Pois não. Por isso é que Vexa. promulgou os diplomas que dizem respeito às políticas públicas que o povo sufragou; por isso é que de V. Exa. não nos recordamos de palavras destas quando as tais das políticas foram decididas.

De que é que está a falar se nos últimos 5 anos não estava amordaçado e sem canetas à mão?

Vinte Linhas 596

Memória de um livro a propósito de uma exposição na Veiga Beirão

Está patente no Palácio Valadares no Largo do Carmo até Junho de 2011 todos os dias das 10 às 18 horas uma exposição intitulada «Educar – Educação para todos» que foca o ensino na I República ou seja, o período entre 1910 e 1925.

A entrada é livre e o interesse é mais que óbvio. Apenas dois aspectos: o livro da minha avó e o poema de Pedro Tamen. Uma das salas apresenta centenas de livros escolares mas não vi o livro de Emílio Achilles Monteverde que em boa hora a minha avó me ofereceu em 1972 e que eu mandei recuperar em Évora quando estava no Conselho Administrativo do Hospital Militar. Embora sem data, o livro é bem antigo: basta ver que ainda havia países como Baden, Baviera, Wurtemberg, Prússia e Saxónia além de que a Suécia e a Noruega estavam juntas no mesmo reino.

Outro aspecto da exposição é o magnífico poema de Pedro Tamen sobre a árvore:

«Cresce e vem do fundo da terra

ou do fundo do tempo.

Sobe para um céu

que afinal não conhecemos.

No intervalo há a vida

e também ela cresce:

nela se encerra

o que somos e temos;

e se desvela o véu.»

Grandes verdades no comício do pior Presidente da República desde a implantação da mesma

É altura dos Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido […]

Grande verdade. Só a junção de várias, tremendas, demoníacas letargias explica a reeleição de Cavaco depois de ter faltado aos seus deveres constitucionais e ter tentado alterar os resultados de actos eleitorais, para além de em nada ter contribuído para a resolução dos problemas do País, antes tendo sido um foco de instabilidade e conspiração.

Gazeta 223

ESTRADA DE MACADAME – dedicado por JCF em especial a Luís Eme

CCXXIII – «Ficar para tia ou para pentear Santa Catarina»

No tempo da «estrada de macadame» as conversas tinham mais força do que as imagens. Hoje é ao contrário, toda a gente tem máquinas fotográficas e até os telemóveis servem para tirar fotos. No meu tempo de miúdo, saber falar era uma arte. O meu avô de Santa Catarina sabia manter uma conversa. Talvez por ter sido sacristão e ter ouvido muitas histórias aos padres pregadores da Semana Santa (que vinham de fora) ou talvez por ter viajado muito pelo Alentejo entre o Barreiro e Vila Viçosa numa equipa de carpinteiros a fazer o emadeiramento das casas dos guardas das passagens de nível. Ou, talvez ainda, por gosto; nada se faz bem sem ser por gosto.

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