Não a esta oposição

Ignoro que critérios levam à publicação de segmentos do Jornal das Nove, o tempo de antena de Mário Crespo aos dias de semana – embora não devam ser tão esconsos e tortuosos como aqueles que levam o Porto Canal a não publicar todos, todos, todos os programas do desopilante Sexualidade, Afectos e Máscaras, no que devia ser considerado gestão danosa – mas sei que não encontro o Frente a Frente da passada sexta-feira, com Alfredo Barroso e Miguel Relvas.

Este Barroso, tal como outros, não vai à bola com Sócrates. Terá por ele um aristocrático desdém, o qual tem fases de lealdade partidária que levam à sua defesa perante as avassaladoras pulhices, mas o qual atravessa actualmente um pico de saturação. O Alfredo gostava de ter um Governo renovado e reposicionado mais à esquerda. Nisso representa uma parte do eleitorado socialista que foi ao engano votar BE nas últimas legislativas. Este contexto dá ainda mais importância, ou apenas tempero, ao episódio que protagonizou com Miguel Relvas, o braço-direito de Passos. Consistiu na repetição implacável da seguinte questão: se os senhores dizem que este Governo é uma desgraça, uma catástrofe nacional e que pior é impossível, por que esperam para o derrubar?

É uma pena faltarem as imagens. Nelas veríamos Relvas encostado às tábuas, desnorteado, patareco. Chegou ao ponto de recusar comentar uma citação de António Vitorino – a qual dizia que o PSD estava à espera que fosse o FMI e Cavaco a levarem à queda de Sócrates para não assumirem qualquer responsabilidade pelas eleições antecipadas – saindo-se com a espantosa revelação de que Vitorino não era isento. Seria a gargalhada deste Carnaval se não tivéssemos desfrutado, no dia seguinte, da loucura tranquila de Bagão Félix e sua troika reaço-comuna.

Miguel Relvas, uma picareta falante, faz da política a sua vida, mas não aprende nada nela. Nem sequer com o que Manela e Pacheco lhe arranjaram. Fazer oposição recorrendo exclusivamente a uma retórica primária, bronca, que pinta os adversários como seres desqualificados nos planos político, governativo, funcional e moral é receita que só agrega fanáticos. Tanto à esquerda como à direita, a oposição discursa para desmiolados, seres acríticos que se consolam com cassetes e chungarias de feira. A parte do eleitorado que produz e quer levar vidas decentes não pode alinhar nesta decadência intelectual. O seu dia-a-dia não é isso, esse maniqueísmo raivoso que os agentes partidários, e demais comentadores, põem nas suas intervenções. Estamos perante uma cáfila de incapazes que repetem platitudes e preconceitos, deturpações e calúnias, para consumo interno dos seus colegas, camaradas, amigos e família.

Temos de ocupar o espaço público com inteligência. Temos, pois, de lhes dar menos atenção.

Tragédia em 3 actos

I

Vejo com muita preocupação a situação. O PCP está a dar passos que vão no caminho de uma crepuscularização de tipo marxista-leninista. Esta crescente sectarização, que vai um bocado para a sua redução, significa uma cada vez maior esquerdização burocrática.

Carlos Brito em 2004

II

Carlos Brito defende que o PCP deve liderar uma possível convergência com a esquerda, em particular com o BE, para formar uma alternativa de poder.

Em entrevista à TSF a propósito do 90.º aniversário do PCP, o antigo deputado entende que, com 90 anos de história, o partido devia ter maturidade para ser o primeiro a dar um passo em frente para uma convergência de esquerda.

Carlos Brito manifestou «espanto» por o PCP e o BE não conversarem, sobretudo numa situação tão «complicada» como a actual e tendo em conta que há uma grande convergência programática entre os dois partidos.

Na opinião do antigo deputado comunista, o PCP devia «tomar a iniciativa» e «apresentar-se como uma força que pretende ser governo». Caso contrário, alertou, a «estagnação continuará».

O partido tem de ter uma visão mais alargada da sociedade portuguesa e ser um «partido político», em vez de uma «central sindical», considerou, defendendo que o PCP deve «negociar» propostas.

III

Também em entrevista à TSF, Jerónimo de Sousa respondeu a este apelo afirmando que «o PCP não pode ser cúmplice de uma política que está o levar o país ao estado em que está». Isso «seria desmentir-nos a nós próprios», considerou.

Fonte

Um livro por semana 222

«Espuma dos dias úteis – Talvez diário (1979-2009)» de Cristino Cortes

Cristino Cortes (n. 1953) é conhecido como autor de dez livros de poemas mas a sua obra engloba também quatro livros de prosa e duas antologias. Nestas páginas de memórias «fala de si, dos seus próprios dias de amigo e cultor da Poesia, das experiências, dos pensamentos e factos no corre-corre do tempo» como refere Vítor Wladimiro Ferreira no prefácio. O ponto de partida é a aldeia: «Muito cedo daqui abalei, ou em rigor me levaram, como a Bernardim, em busca de melhores dias – e foi o melhor que fizeram os meus pais». O ponto de chegada é a cidade de Lisboa: «De repente acho-me perante um jardim público, rodeado de casinhas baixas mais ou menos recuperadas, um largo central chamado Rossio (de Palma), equipado com estendais públicos, a ausência de tráfego automóvel e meia dúzia de estabelecimentos comerciais, alguns fechados». Entre a aldeia e a cidade, surge a Poesia: «Não há aqui lugar para o mesquinho cálculo, o esperto esquema, a meia intenção, a reserva mental. A Poesia é outra coisa» Para conhecer a Literatura ao autor, na Biblioteca Nacional, recorda: «Foi no espólio de Casais Monteiro que li, pela primeira vez, uma carta de João Gaspar Simões». Mas nem tudo são rosas e, na casa da memória, há coisas erradas: «Começo a desconfiar que esta mediocridade, este provincianismo saloio mal disfarçado, nos está na massa do sangue e, se calhar, muito dificilmente poderá ser extirpado». Fica uma nota final afirmativa: «Hoje a individualidade de um povo é sobretudo a língua e a forma suprema e última por que ela se manifesta e transcende é a Poesia.»

(Editora: Papiro, Capa: Graça Rita, Prefácio: Vítor Wladimiro Ferreira)

Afinal, já são profissionais do agit-prop

Uma dezena de jovens do movimento “Geração à Rasca” manifestou-se hoje em Viseu, quando o secretário-geral do PS, José Sócrates, discursava sobre a sua moção política ao congresso do partido.

José Sócrates apenas tinha tido tempo para fazer os agradecimentos quando os jovens, munidos de um megafone, começaram a dizer: “Chegou a hora de a geração à rasca falar, isto é pacífico, só queremos falar”. Os jovens foram colocados na rua pela segurança, queixando-se de terem sido agredidos.

“Eu fiz questão de dizer que era pacífico, mas fomos corridos a empurrões e houve uma rapariga que levou um pontapé”, lamentou aos jornalistas Paulo Agante, do movimento, que agendou para sábado uma manifestação anti-Governo.

Fonte

Esquerda jelatinosa

É a esquerda folclórica que nos tocou neste cu do mundo, com tão pouco respeito próprio, ou já em delírio de privação, que até dá vivas a quem goza com ela e enche o bolso no avacalhanço. E depois o capitalismo é que está a dar as últimas, berram trôpegos uns aos outros à volta da fogueira.

Essa notícia normal que conta com a nossa competência: Portugal vai ter responsabilidades na ONU em relação à Líbia. Os marginais.

Portugal vai presidir ao Comité de sanções da ONU para a Líbia. Como é sabido, Portugal é actualmente membro do CS da ONU e, neste momento delicado, delicadíssimo, calhou-lhe este papel.

Não há qualquer razão para duvidar do bom desempenho de uma tarefa que não nos deve fazer cantar o hino nacional: pelo contrário, está dentro das possibilidades de se ter sido eleito membro do CS ser designado para um ofício com dignidade, claro, que deve ser cumprido com competência e sem alarido.

Claro que há sempre alguém que resiste, como o Bruno Sena Martins, dizendo da hipocrisia desta nomeação, repetindo pela milésima vez o fatal aperto de mão entre sócrates e o ditador líbio. Somos os paladinos de ocasião. Somos um nojo. Enfim, o indignado diz várias coisas nesta linha.

Talvez Bruno Sena Martins, como outros cidadãos de pensamento análogo, pudessem explicar que realmente não aceitam que exista uma diplomacia estratégica e económica balizada por alguns limites, como é evidente; talvez o grupo unido contra a “hipocrisia” das mãos socráticas que tocaram nas do ditador líbio (tal como todas as da direita que já pisaram São Bento) pudesse escrever uma petição reclamando a saída imediata de Portugal do CS, já que nele está presente o estranho caso que dá pelo nome de Gabão, a Nigéria e, claro, a magnífica República Popular da China, se nos ficarmos pelos membros permanentes. Mas a fúria pela pureza diplomática poderia ir mais longe e gritar por um Portugal longe de horrores que encontramos entre os 192 membros das Nações Unidas.  É ler aqui as mãos que andamos a apertar.

E a CPLP? Em termos materiais, em todos os casos, estamos perante democracias plenas ? Angola, por exemplo, comove-nos pelo respeito que ali se observa pelos princípios que nos são caros num Estado de direito? Que tal nunca mais falar com eles?

Será que estas pessoas pensam mesmo que inventaram a roda?

Impressionar no emprego, seduzir em festas e brilhar nos jantares

Big Payoffs Fueled Excessive Risk Taking by Top Executives and Led to Financial Downturn

Facebook Linked To One In Five Divorces in the United States

Facing the Facebook Mirror Can Boost Self-Esteem

Higher Job Performance Linked to People Who are More Honest and Humble

Stigma Weighs Heavily on Obese People, Contributing to Greater Health Problems

The More Secure You Feel, the Less You Value Your Stuff

Can You Predict Your Mate Will Cheat by Their Voice?

Balada da Rua da Madalena

(a Margarida Rodrigues e ao Clube de Leitura da Biblioteca Camões)

Na Rua da Madalena
Caminho de mais além
A tarde passou serena
No Poço do Borratém
Se entramos na livraria
À procura dos perigos
Nos contos e na poesia
Aparecem mais amigos
Da Alfândega ao Caldas
S. Cristóvão, Escadinhas
A vida dá umas baldas
No sorriso das vizinhas
Eles moram todos juntos
No bairro e nesta cidade
São comuns os assuntos
E o tempo da liberdade

Na Rua da Madalena
Entre instinto e razão
Uma vida mais pequena
Que sonho em dimensão
E a Escola do Paraíso
Tinha aqui um caminho
Quando cantar é preciso
Ninguém canta sozinho
Nas pedras dos passeios
Na direcção destes passos
Vou à estação de correios
E procuro novos espaços
Na balada a terminar
Restos de melancolia
Nos passos deste lugar
E na luz que fecha o dia

90 anos disto

Jerónimo, na mesma sessão, tem estes dois registos:

Só faltava levar o barrete na mão e levar a mão estendida a pedir esmola à senhora que, de repente, aparece como a dona ou a mandona da Europa, da tal União Europeia a 27 que neste momento é dirigida por essa grande potência.

– Estamos perante o nacionalismo de cooperativa agrícola, central à identidade do PCP. Um aceno ao mundo fechado, introvertido, rural que fala ao coração serôdio dos portugueses comunistas.

Já sobre a Líbia, o líder do PCP afirmou que “o imperialismo aí está já a preparar a possibilidade de perpetrar um novo crime, desta feita contra o povo líbio”. E, frisando que Portugal integra o Conselho de Segurança das Nações Unidas, desafiou o Governo a rejeitar qualquer intervenção militar.

– Estamos perante o internacionalismo de piquete de greve, ainda operativo na filiação ao PCP. Um folclore do mundo aberto, expansivo, citadino que fala ao intelecto temporão dos comunistas portugueses.

Resumindo: nada de ter governantes a sair de Portugal para discutir com políticos europeus os assuntos da Europa, e nada de entrar em países estrangeiros para acabar com guerras e matanças – a menos, claro, que tal invasão seja feita pelas altruístas e pacíficas tropas do Pacto de Varsóvia.

Cuidado com os anónimos

A condenação de João Adélio Trocado estimulou o aplauso de uns e a saliva de outros. Tudo porque o caso se presta a validar a perseguição e castigo dos anónimos que insistem em comunicar na Internet – percepção esta reforçada por Fernando Esteves, o jornalista autor da acção, ao declarar que “A blogosfera não pode ser um campo onde se diz tudo sem consequência.” Infelizmente, conheço apenas do julgamento e sentença o que saiu na imprensa, e é muito pouco. Mesmo assim, há quatro aspectos a realçar:

– O médico terá enviado para a direcção da Sábado, entidade patronal do jornalista, os textos que escrevia no seu blogue, numa continuada referência crítica que durou 4 anos.

– A juíza Joana Ferrer Antunes considera a profissão do condenado uma agravante para a pena.

– As afirmações citadas como exemplo da matéria punível são uma resposta indignada ao trabalho jornalístico de Fernando Esteves.

– A problemática, ou temática, do anonimato não parece ter sido valorada na sentença.

Tomando literalmente o que veio a público, o Tribunal está só a punir aquilo que entende ser uma difamação, sendo irrelevante o meio pelo qual foi feita, mas relevante o estatuto deontológico, ou social, ou até simbólico, da pessoa que assim agiu. Interpretar a sentença, como o fez Fernando Esteves, no sentido de um castigo ao anonimato na Web poderá não passar de uma deturpação do intento da juíza ao serviço do seu acerto de contas com essa entidade provincianamente chamada de blogosfera. Só a leitura completa do processo poderá esclarecer a questão.
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Palavra de honra

Nada me daria mais gozo, como cidadão apaixonado pela política, do que ver este absurdo concretizado:

Há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia “provocative”. Não me repugnava que, num governo deste tipo, o PCP tivesse uma pasta social ou do trabalho. Jerónimo de Sousa é um homem sincero, um homem autêntico, um político sério.

Seria o equivalente à violação da Segunda Lei da Termodinâmica, teríamos de reescrever de raiz os tratados de ciência política. E a verdade é a de que Guilherme Silva e Jerónimo já se catrapiscaram, pelo que Bagão está apenas a levar ao seu zénite o estado de absoluta impotência desta pseudo-direita que ocupa o espectro partidário onde outrora se passearam líderes com ideias que justificavam debate (ou tão-só com ideias, chega para marcar a diferença face aos actuais PSD e CDS). Nesse alucinado Governo-Félix, onde Jerónimo teria direito à pasta da Administração Interna dos Sindicatos, ainda veríamos Portas acumular as pastas da Defesa, do Mar, da Agricultura e da Lavoura. Para a Justiça, talvez a Manuela Moura Guedes, pelo seu privilegiado conhecimento dos meandros de certos processos mais complexos. Outro ponto de reflexão concerne à presença de um homem sincero, um homem autêntico, um político sério em tais companhias, mas deixemos a questão para o anúncio do novo pacto germano-soviético.

Esperemos que estes visionários se entendam e nos salvem de Sócrates rapidamente, pois deputados têm que chegue e sobre. Até lá, a gargalhada não vai parar.

Vinte Linhas 595

Os «Josés» da Ler na lista de 527 nomes em 100 edições

Acaba de sair a Revista Ler nº 100. Folheadas as cem listas de colaboradores (as fichas técnicas) descobrem-se 527 nomes entre directores, jornalistas, críticos, cronistas, ensaístas, ilustradores, fotógrafos, escritores, poetas, cientistas, historiadores, designers, paginadores, editores, administradores, secretárias e responsáveis pela produção, publicidade e assinaturas.

No caso dos Josés são estes os nomes: José Afonso Furtado, José Agostinho Baptista, José Augusto Mourão, José Augusto Seabra, José Campos de Carvalho, José Carlón, José do Carmo Francisco, José Eduardo Agualusa, José Eduardo Rocha, José Fernando Tavares, José Fragateiro, José Guardado Moreira, José Manuel Cortês, José Mário Silva, José Mattoso, José Quitério, José Pinto de Sá, José Ricardo Nunes, José Riço Direitinho, José Saramago, José Sarmento de Matos, José Ribeiro da Fonte, José Teófilo Duarte, José Tolentino Mendonça, José Vegar e José Vieira.

Um aspecto que me emocionou foi a nota da página 46 sobre o livro «Matar a Imagem». Assim: «É raro encontrar uma primeira obra que consiga ao mesmo tempo ser um bom livro policial e um exercício literário de inegáveis qualidades, que prenuncia uma obra interessante e bem escrita. Daí que o facto de o livro de Ana Teresa Pereira ter obtido o Prémio Policial Caminho não seja de estranhar». Assina José Guardado Moreira na Revista Ler nº 9. Eu fiz parte desse júri e reparei logo na qualidade da escrita de Ana Teresa Pereira que até hoje não desiludiu ninguém. E mesmo quando também escreve livros para crianças não baixa a fasquia da qualidade.