35 thoughts on “Mais um dia da mulher”

  1. Eu diria antes “Mais uma mulher que não teve direito a sê-lo”. Eterna luta de géneros ou puro desrespeito?

  2. E será isso uma surpresa, Maula? Uma das maiores dificuldades no problema da violência contra as mulheres, especialmente adentro das relações amorosas, está no esquecimento de que o homem também é vítima de uma natureza que não domina por não ter sido educado para tal.

  3. Sim, Val. E ainda mais surpresa com a ideia do esquecimento de que fala e que torna pouco promissora a felicidade. Que resta? Desculpar os comportamentos masculinos com a “natureza que não domina” ou não permitir o esquecimento e, consequentemente, viver sem confiança?

  4. A tradição tem as costas largas mas eu que vivi em localidades tradicionais (Santa Catarina, Montijo, Vila Franca de Xira) nunca me apercebi de que a violência e a morte estivessem inscritas na tradição. Pelo menos no que eu via e sentia por perto.

  5. Maula, o que há a fazer é o que tem sido feito: aprofundarmos o conhecimento da natureza humana e vivermos em comunidades onde se faça justiça. Se virmos o que já aconteceu em tão pouco tempo – no século XIX as mulheres nem à escola iam, no século XX só muito lentamente acederam ao voto e ao divórcio – a perspectiva é (muito) optimista.

  6. Sem dúvida, mas ainda muito triste. Invista-se nas pessoas, como defende Rui Horta, “não apenas na educação para a cultura – essa vem por arrasto -, mas na educação para o pensamento”.

  7. Um impulso assassino não tem género, tal como as suas vítimas potenciais. Se virmos a coisa em termos estatísticos os homens até matam mais homens do que mulheres…
    Os desequilíbrios de forças vão ser sempre terreno fértil para os cobardes e para os abusadores, qualquer que seja a sua educação ou a condição do género das pessoas vitimadas.

  8. shark, não concordo com o seu irredutível “sempre”. Dá trabalho, mas ensinemos a pensar e a criticar, o que certamente permitirá a escolha por caminhos bem mais desafiantes que a cobardia ou o abuso.

  9. O meu “sempre” não implica perpetuação, a menos que os desequilíbrios não sejam corrigidos como anseio.
    Tenho uma filha e jamais admitiria um futuro para ela igual ao passado das suas avós.

  10. (E por muito que queiramos vencer a coisa pela inteligência, à cautela a minha marafilha já foi ensinada a acertar-lhes onde mais lhes dói…)

  11. shark, os homens matam mais homens porque os homens matam mais. Mas são as motivações, ou condições, que levam à morte de parceiras de relações amorosas que pedem uma análise própria. Matar numa guerra é radicalmente diferente de matar por causa de um terreno e matar por causa de um terreno é radicalmente diferente de matar por ciúme ou delírio.

  12. Em causa não estão sempre relações de poder, Val? Existe um cobarde que impõe a sua força para vencer a disputa de um terreno mas só o facto de o oponente estar desarmado ou ser menos rápido no gatilho lhe confere a vantagem. Ao equilíbrio de forças sucede-se o fim do instinto de posse, seja por simples indução ou porque quem tem cu…
    E isso aplica-se a todos os exemplos na mesa, a diferença é pouca ou nenhuma se tivermos em conta o que se sabe acerca destas bestas à solta por aí.
    Quero com isto insistir na tecla de que a cobardia e a vil baixeza (estamos em amena cavaqueira, certo?) não se revelam com os mesmos “detonadores” mas dependem mais do tamanho do rastilho de cada monstrengo e da constatação de uma superioridade relativa que os estimula e menos do género da vítima (bastando a esta ser mais fraca ou pouco prevenida, tenha pila ou não – que uma pessoa hoje em dia não pode por as mãos no fogo por ninguém).

  13. shark, pode generalizar-se, claro. Mas isso leva-nos (ou pode levar) para a moralização de reduzir à “cobardia e vil baixeza” o que é um impulso de sobrevivência que não escolhemos ter. Ele acontece-nos juntamente com o resto.

    É a educação, ou a cultura, que pode alterar a nossa natureza, porque, num certo sentido, não somos da Natureza. No caso das mulheres, não vês um traço exclusivamente masculino nessa peculiar violência entre casais, diferente, portanto, das violências relativas à terra, à honra, à riqueza e à defesa contra o inimigo, onde o género é irrelevante para a questão?

  14. Percebo onde queres chegar, Val, mas concordarás comigo que ao afirmares o traço exclusivamente masculino também recorres à generalização (o que é sempre difícil de evitar).
    Se enquanto estamos a falar da violência doméstica com desfechos menos trágicos podemos ter em conta os aspectos de educação, de tradição, de qualquer coisa estúpida que conduza a essa conduta canalha, quando se atinge o extremo e um gajo se revela capaz de matar a companheira já estamos perante outros quinhentos e esse assassino poderia bem ser o mesmo que matou pelas costas o filho do Nelinho.
    Ou seja, não há educação que corrija a cobardia e esta pode despontar sem o género interferir de forma decisiva. É mais a ocasião que faz o ladrão…

  15. (E nós estamos ambos a fugir a outro padrão exclusivamente masculino: estamos há um pedaço a falar de gajas – o melhor e mais controverso assunto do universo – e ainda nenhum de nós falou em mamas ou assim, o que acaba por contrariar outra generalização comum…)
    :)

  16. Sem dúvida, não falar de mamas pode até ser ofensivo num 8 de Março carnavalesco. Quanto ao assassinato das mulheres (ou essa forma de assassinato lento, que são as agressões físicas e emocionais), vou por uma linha explicativa paralela à tua: a desmesura do acontecimento só se explica por uma pulsão irracional cuja origem é totalmente desconhecida do sujeito que é dela a primeira vítima.

  17. Mais me ajudas. A pulsão é absolutamente irracional, não depende de factores como a educação e afins e por isso não distingue géneros (pegando noutro caso que abordaste, o Carlos Castro que o diga…).
    E podemos sempre tentar explicar à luz dessas pulsões irracionais, por exemplo, porque é que tu se calhar prendes mais a atenção nas mamas e eu nos rabos, só para não defraudarmos as expectativas depositadas e para mantermos o nível da coisa. E não vale a pena desafiares-me para debatermos a questão da inteligência delas e de como isso é tão importante nos atrai de forma irresistível pois embora nos fique muito bem aa questão é muito sensível e pode facilmente conduzir-nos a uma ratoeira. Por algum motivo não lhe chamamos ratoeiro, tal como acontece no caso das armadilhas…

  18. À margem da discussão necessária e legitimamente masculina, está uma questão séria, Val – se a origem é irracional como responsabilizar o sujeito se o que praticou não pode chamar-se acção?

  19. shark, a origem da pulsão não está na educação, mas é a educação que nos pode preparar para lidar com ela. Se assim não fosse, não existiria humanidade, seríamos animais. Não se passa o mesmo com a pulsão sexual, por exemplo? Sem o enquadramento cultural, ela correria solta – levando a violações e incestos como padrão de normalidade.

    Aqui no caso da violência das mulheres, a pulsão irracional a que me refiro é aquela que nasce da radical diferença entre os sexos: a mulher é sempre a mãe da sua descendência, o homem não tem a certeza se a descendência é sua, se é o pai. Isso leva, por exemplo, a que o homem seja incapaz de perdoar a infidelidade sexual da sua parceira (regra geral), enquanto a mulher esteja é focada na infidelidade afectiva, podendo perdoar a sexual com muito maior facilidade.
    __

    Maula, isso concerne aos planos de análise – no caso, o antropológico e não o legal ou psicológico. Também querer comer é o resultado de uma pulsão irracional, no sentido em que é meramente biológica, mas tal não impede que se criminalize o furto de comida ou o canibalismo.

  20. No limite, não impede. Questiono apenas o irracional. Persegue-me uma incerteza quanto ao lado pulsional de que falas.

  21. Como conhecê-lo? A pulsão é inesperada, pode ser despoletado por uma qualquer situação inverosímil para todos excepto para quem a pratica e nela encontra a única solução plausível. O cíume ou delírio de que falaste são condimentos perfeitos para a sua justificação, por isso a minha dúvida. Não há aqui algo contraditório?

  22. Como conhecer o lado pulsional? Isso é o trabalho da cultura, da educação, da experiência, da maturidade, da introspecção, da reflexão, da atenção, da consciência. Quanto a ser contraditória a sua utilização como justificação, claro. Contraditório em vários planos, dependendo do caso. Mas a natureza humana é, na sua essência, contraditória.

  23. Analisar o problema do homicídio tendo como pressuposto a ‘natureza humana’ é lidar com uma impossibilidade.A antropologia cultural evidenciou que não ‘há’ uma natureza humana e Marx postulou que esta se ‘cria’ em contexto de relação. E, nesta base, as relações de género já estiveram bem piores,embora continuem ainda bem assimétricas.

  24. de Lírio, traz um exemplo dessa antropologia cultural que evidenciou que não há uma natureza humana. Quanto a Marx, tinha toda a razão, mas não consta que o seu forte fosse a genética ou neurologia.

  25. Val, a natureza humana existe através dos espelhos que somos uns para os outros. Reflectimo-nos nos Outros, pelos Outros, única e exclusivamente e, só assim tomamos consciência do nosso eu. Ou então do que gostaríamos que fosse. Quanto à consciência do eu que o Outro é, muitas vezes resulta danificada, vilipendiada por ser fácil fazê-lo ou por infundada superioridade. Penso ser disso que o teu post fala.

  26. ora bem, todos somos capazes de matar e o melhor é termos isso sempre muito presente. (eu cá prefiro receber e dar, ajustar, coças de valores entre vivos) :-)

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