Suspeita-se que Louçã ganhou 500 milhões de euros num programa de televisão.
Arquivo mensal: Setembro 2009
GTA IV: Ballad of Gay Tony
Já não é apenas um jogo, ou sequer para jogar. Transformou-se em irreality TV, e qualquer um pode entrar no espectáculo.
Vinte Linhas 407
Pátio do Tijolo – desapareceu a placa e no Gabinete ninguém faz nada
As pessoas que moram no Pátio do Tijolo entre os números 39 e 59 (onze habitações com vários andares) estão a ser prejudicadas pois o seu correio está a ser entregue na Calçado do Tijolo. Não se trata dum capricho do empregado dos CTT mas sim da consequência natural do facto de o empreiteiro da obra ter retirado a placa toponímica respectiva e de a mesma nunca ter sido recolocada. Ninguém inspeccionou, ninguém se apercebeu, ninguém se preocupou com o assunto. Tanto quanto sei as obras são fiscalizadas. Em teoria é assim, na prática não. Quando eu era membro da Assembleia de Freguesia da Encarnação queixei-me informalmente de ter perdido o meu bocado de Tejo que desde 1976 (ano em que vim para aqui morar) tinha a partir da janela da cozinha. Tudo porque umas obras (que presumo ilegais) alteraram a volumetria de um prédio na Rua da Atalaia e eu deixei de ver o Tejo. Disseram-me logo que não valia a pena questionar o Gabinete do Bairro Alto pois não iriam fazer nada. Agora com este caso da placa toponímica desaparecida no Pátio do Tijolo fui lá ao dito Gabinete três vezes, não consegui falar com ninguém responsável e hoje disseram-me na recepção que o melhor era apresentar o assunto no Campo Grande, no edifício da Câmara Municipal.
Era o que faltava. Usam o pomposo nome de «Unidade de Projecto Bairro Alto e Bica» e afirmam-se integrados na «Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana» mas uma simples placa toponímica que desaparece durante umas obras e está a prejudicar a vida de dezenas de pessoas não aparece nem é substituída. Se isto é tratado assim com o peixe miúdo imagine-se o que não será com os tubarões.
Coisas que podem acontecer
Disputatio – VI
Para descrever o que aconteceu nestes 45 minutos históricos não basta dizer que Sócrates ganhou, até que esmagou um atónito e apavorado Louçã. Isso seria estar a brincar aos debates. Não havendo comparação possível, vamos pela comparação impossível: para quem não assistiu ao mítico confronto entre Soares e Cunhal, em 1975, há agora uma réplica adaptada aos tempos que correm. Tal como nos últimos dias do PREC, a 8 de Setembro de 2009 a esquerda tirânica apareceu ao lado da esquerda democrática, e os telespectadores puderam comparar as diferenças com extrema nitidez. Louçã entrou como rival de Sócrates e saiu como caricatura de si próprio. Sócrates foi para o debate antecipado como o mais difícil e teve a sua melhor prestação televisiva de sempre, sendo brilhante do princípio ao fim; continuando, nas declarações após a refrega, a exibir uma afabilidade e bonomia letais para a cultura de ódio que o cerca. Tem pouco interesse calcular quantos votos terá ganhado ou deixado de perder, o que fica é um registo vídeo relativo à arte de discutir política com um assanhado e perigoso demagogo. Lição magistral. Com Sócrates, a democracia está protegida contra a asfixia da inteligência.
Não é o Amorim, stupid…
Navegar é preciso
Ir até ao Mar Salgado ver o que o taralhouco do José Maria Martins anda a fazer com o seu tempo livre e depois ganhar velocidade gravitacional para chegar a este belo exercício político.
Libertem o Freeport
Hoje noticia-se uma informação a que os procuradores do Ministério Público Paes Faria e Vítor Magalhães terão tido acesso quando há mais de quatro meses foram a Londres. Pergunta: corromper um acto eleitoral com fugas ao segredo de Justiça destinadas a atacar o PS faz parte da missão do Ministério Público? Ou, de facto, já chegámos à Madeira, o bastião inamovível da Política de Verdade?
Seja o que for que resulte da campanha negra, seja qual for a organização do poder, o pós 27 de Setembro vai deixar muitas pessoas associadas a um período de profunda decadência moral e cívica em Portugal. Mas a vida vai continuar, haverá memória e coragem.
Vinte Linhas 406
Há 43 anos era assim: não igual mas parecido
Comecei a trabalhar em 9 de Setembro de 1966. O vencimento era de 900$00 mas como não trabalhei todo o mês recebi 660$00 ilíquidos. Descontaram-me 13$20 para o Fundo de Desemprego, 2$50 para a Caixa de Abono de Família e 7$00 para a quota do Sindicato. Total – 22$70 para a corda do sino, como se diz na minha terra. Sendo empregado bancário nunca poderia vir a beneficiar do Fundo de Desemprego pois os Bancos não estavam na Segurança Social, tendo 15 anos de idade não podia ser sócio do Sindicato mas descontava, sendo bancário não beneficiava de «Caixa» mas descontava. No mês seguinte já trabalhei os 30 dias e o vencimento ilíquido foi 900$00 mas os descontos também aumentaram: 18$00 para o Fundo de Desemprego, 9$00 para o Sindicato e 2$50 para a Caixa. Total: 29$50 para a corda do sino. Dito de outra maneira: por cada 30 dias que ganhava 1 dia inteiro ia para descontos injustos e sem fundamento. Mas em 1966 era assim: comer e calar. Há tempos referi a macacada dos mínimos nas Finanças, aquela história da jovem arquitecta paisagista que ganhou 1.225,00 euros mas que as Finanças obrigaram a pagar 2.998,00 de mínimos, ignorando ostensivamente que ela começou a trabalhar em Outubro e que não faz sentido obrigar uma pessoa nessas condições a pagar tanto como quem começa a trabalhar em Janeiro, não percebi logo o alcance. Foi hoje que percebi. Em 43 anos pouco mudou nas mentalidades. O «espírito de guichet» permanece. As respostas que deram à jovem arquitecta paisagista agora («Não há nada a fazer») são as mesmas que me deram a mim há 43 anos. Não há nada a fazer. As mentalidades demoram muito tempo a mudar. Quando mudam.
Re-Intermitência
Ensino
Os professores vão manifestar-se no dia 19 deste mês. Eles querem condicionar as eleições e impedir a vitória do PS. O próximo passo será a constituição de um partido e a entrada no Governo. Prometem notas altas na carteira para todos os portugueses e o fim dos exames de condução.
Dos menos de 30 valentes que foram para a TVI fazer uma vigília de solidariedade a Manuela Moura Guedes, mais de 100 eram professores. Um deles, Cristina Riba, aproveitou para falar da sua aversão aos baixotes. Outro deles, Luís Mário, explicou o que se estava mesmo a passar.
Estes dois factos, ilusoriamente separados, comprovam que estamos sempre a aprender.
Suspeita do dia
Disputatio – V
O debate entre Jerónimo e Portas assinala a viragem para a segunda volta deste mini campeonato. Os próximos embates serão cada vez mais decisivos, acabando em crescendo. Diga-se que a ordenação dos mesmos parece especialmente feliz, sendo só de lamentar a sua curta duração. Por que não uma hora? Ou duas?
Ver os líderes a discutir entre si sem as disfunções emocionais típicas dos debates parlamentares está a ser um inestimável serviço à democracia. A retórica agressiva e boçal com que a oposição ataca o Governo na Assembleia e no comentário publicado é nefanda para a racionalização dos actos políticos — e fica como uma das causas do afastamento e demissão cívica da comunidade. Quando o exemplo dos chefes degrada o debate, a comunidade desagrega-se e reprime-se. Quando o exemplo dos chefes eleva o debate, a comunidade une-se e participa. Neste ciclo ainda não se registou nenhum debate ou momento de elevação memorável, mas a nossa carência é tanta que a mera decorrência dos mesmos sem hostilidades narcísicas e tribais é uma experiência rara e terapêutica.
SIMplex
Leituras simples e poderosas:
Por manifesta infeliz coincidência… – Paulo Ferreira
Asfixias – Leonel Moura
ACERCA DO DISCURSO POPULISTA DO PSD – Eduardo Graça
Sentido de Estado… – Ana Paula Fitas
Re-Dixit
Vinte Linhas 405
Hóquei, andebol, futsal, ténis de mesa e bilhar ou memória para António Ramos
Morreu António Ramos, jornalista de «modalidades» que trabalhou nos jornais «Record» e «Sporting». Gostaria de repetir o seu desembaraço quando, na secretária em frente à minha, «despachava» sucessivas notícias sobre os jogos do nosso fim-de-semana desportivo. Como tinha várias modalidades não podia estar em todos os pavilhões ao mesmo tempo mas ninguém ficava sem notícias. Com alguns telefonemas para a pessoa certa, fosse no ténis de mesa («Amigo Adérito, estamos a ganhar?») fosse no bilhar («Amigo Salgado está tudo bem?») ou fosse no futsal («Amigo Paulinho já acabou?») o António Ramos conseguia sempre dar a notícia em tempo útil. A sua agenda de contactos era um mapa de amizades em todo o país incluindo a Madeira e os Açores. Muitas vezes apanhámos o mesmo táxi, lá para as duas da madrugada, quando o jornal do Sporting fechava. Trajecto: Telheiras – Campo de Ourique – Bairro Alto. Algumas vezes, noite alta, lhes coloquei perguntas inoportunas («Se são 128 golos no quadro não podem ser 129 na lista dos mercadores») mas nada que não se resolvesse («Tire um golo ao melhor marcador, amigo Zé»). Tivemos um tempo pleno (1996-2006) em que acamaradámos muito à mesa no Chinês mas há três anos que falávamos menos. Continuávamos porém a compartilhar o mesmo barbeiro aqui no Bairro Alto. Além do sportinguismo e do amor aos jornais, muita coisa nos unia: a paixão pelos livros e pelos netos. Quando a conversa derivava para aí o António Ramos era um gigante de ternura derramada. Na noite tantas vezes agreste de Lisboa, a sua voz entre Telheiras e Campo de Ourique lembrava sempre as palavras de Tasso – «Tempo perdido é todo aquele que não se gasta em amar».
Coisas que podem acontecer
Disputatio – IV
As regras do debate estão a estabilizar numa desregulação tácita sensata, favorecendo a riqueza do momento e não o estéril cumprimento do abstracto. Este debate, entre um Louçã surpreendentemente perdulário e uma Ferreira Leite surpreendentemente ágil, lembrou-nos do mal que fazem profissionais da insídia como Pacheco Pereira e Paulo Rangel, os quais envenenam a discussão para a manter num permanente impasse. Com a dupla desta noite, e por influência involuntária de Ferreira Leite, a racionalidade democrática pôde respirar, aparecendo como bondosa e proveitosa a existência de diferenças políticas. Portugal precisa dessa educação, o aprender a respeitar o adversário e a querer-lhe bem por causa da sua diferença, não apesar dela.
O reino da estupidez
Não se imagina esta campanha imoral e antidemocrática onde o PSD se barricou a ser feita pelo PS. Será impossível, pelo menos enquanto o partido mantiver a actual demografia feita de resistentes à Ditadura e paladinos da democracia. Nem as bases nem os dirigentes históricos o permitiriam, jamais deixariam cair o partido nas mãos de reaccionários e decadentes, ranhosos para quem vale tudo. É, por isso, sumamente burlesco que o partido do cavaquistão e da sociedade dos lusos negócios, o partido da vergonha democrática e humilhação presidencial na Madeira, o partido que ainda recentemente calou Marcelo na TVI só porque não aceitava a sua crítica política e ainda quis impedir o trabalho de Fernanda Câncio na RTP com um argumento abaixo de cão, o partido que forjou documentos para perverter as eleições de 2005, agite agora o espantalho da censura para atacar o partido responsável pela defesa das liberdades e garantias ameaçadas após o 25 de Abril pela tirania comunista. O PS é tão plural, com uma cultura democrática tão sólida, que manteve Manuel Alegre como líder de facção interna em permanente oposição, chegando-se à sistemática tentativa de boicote legislativo quando Alegre e os seus votaram contra o PS em momentos especialmente críticos. E, apesar da postura soberba e bacoca de Alegre, continuou a ser protegido e acarinhado por Sócrates, que tudo tentou para o manter como deputado na próxima legislatura e participante nesta campanha. ‘Nough said.
Um livro por semana – Especial

«Praça da Fruta» de Carlos Querido
Para muitos de nós, caldenses de nascimento ou de adopção por vivências escolares, pessoais e militares, a Praça da Fruta é um lugar mágico de onde todos trouxemos algum pó público nos sapatos particulares. Os meninos do meu tempo de menino tinham (os que podiam) um fato dos Armazéns do Chiado no dia do exame da quarta classe.
O ponto de partida para esta ficção narrativa é o próprio lugar: «A névoa das manhãs do Oeste dissipa-se sempre devagar. É então que surge um momento de luz perfeita, quando céu já é azul e o chão ainda reflecte o orvalho da noite. Nesse instante único, em que a limpidez do olhar chega a tornar-se insuportável, surpreendo-me a observar as imperfeições da calçada. Marcas do tempo, cicatrizes, rugas, sinais de envelhecimento que nos passam despercebidos por os vermos todos os dias».
É neste espaço mágico que se articulam duas histórias paralelas: a do Narrador com Marília e a da viúva do Casal da Areia que mandou matar o marido muito mais velho do que ela. Do primeiro caso temos a história e o enredo; do segundo apenas a memória. Em ambos a diferença de idades é flagrante. Mas não só: os sonhos também são opostos. O Narrador é um empregado de uma Repartição; Marília é professora. Um apenas regista; outra semeia. Um gosta dos papéis do passado, outra ouve a música do futuro. Conheceram-se na Praça da Fruta quando Marília vendia pêssegos para ajudar a família. Juntou-se o peso da Cultura com a força da Natureza. Um dos momentos mais conseguidos da narrativa é a chegada do Narrador à casa da família de Marília num dia de matança do porco. Leva na mão um ramo de flores que não consegue entregar à mãe do seu amor porque a mesma se encontra integrada nas tarefas inadiáveis de não deixar coalhar o sangue do animal pendurado no tecto. E é o avô de Marília que o integra no espaço e no tempo com uma espécie de radiografia antropológica do que era viver na nossa terra nos anos 40 e 50 do século XX.
Surge neste livro a eterna disfunção entre Natureza e Cultura, entre o rodar maquinal e certeiro das sementeiras e das colheitas (Marília) e o fascínio dos velhos alfarrábios, jornais, livros, cartazes, actas camarárias e postais antigos (Narrador). Mesmo com livros comprados na livraria «107» e lanches na pastelaria Machado, a ligação entre Narrador e Marília começa a perder-se. Falta de comunicação num tempo em que há comunicação em excesso. Tal como a viúva Marreiros, Marília procura algo mais. A primeira teve um criado espanhol, a segunda tem a Internet. Diria um leitor cínico: «Se tivessem um bebé já nada disto acontecia!». Mas se assim fosse já era outra história. Não era esta história que começa na vida de um lugar e atravessa a vida da vila que foi da cidade que hoje é e do país do qual faz parte. E nos envolve a todos, porque todos os que lá estiveram e passaram nunca mais deixam de estar e viver. Lá ficaram mesmo quando não parece. E cabem todos nas 160 páginas deste livro. Um livro a não perder, sem falta.
(Editora: Corrida de Letras, Prefácio: Álvaro Laborinho Lúcio, Capa, Design e paginação: Inês Querido)
Disputatio – III
Este debate mostrou à saciedade as limitações e ineficiências do modelo, com Sócrates cedo a intervir fora da sua vez, e depois a permitir-se interromper Jerónimo com crescente à-vontade. Acontece que essas fugas ao regulamento não prejudicaram os telespectadores, antes introduziram maior interesse no debate. A certo ponto, creio que já ninguém sabia em que segmento específico estava a discursar, e desconfio que as réplicas de 1 minuto chegaram a ser repetidas no mesmo tema. O diálogo espontâneo foi sempre benéfico, mas introduz um elemento disruptor que se torna ambivalente, como se viu com Portas. Enfim, as ocorrências consolidam a evidência: as regras deveriam ser trocadas pela autoridade do jornalista em cada debate, o qual faria a gestão das intervenções segundo os seus critérios. Para um perfeito equilíbrio, cada interveniente teria um pacote de tempo fixo para o total das suas intervenções.

