O “pequeno Satã” terá mais olhos que barriga?

É interessante, embora preocupante, ver como até vozes da esquerda israelita, como a de Yoel Marcus, parecem apostar num sprint final rumo à barbárie antes que surja mesmo um cessar-fogo. Ele partilha algumas preocupações que já circulam pelo mundo; mas prefere ignorar as questões mais difíceis e encerrar o texto em tom feroz: “a realidade é que precisamos de suster a respiração e atacar o Hezbollah com tudo o que temos, por terra e por ar, até o neutralizarmos enquanto força militar perto das nossas fronteiras. É importante ganhar ascendente até à hora do cessar-fogo. Temos de lhes mostrar que o ‘pequeno satã’ tem grandes dentes.”
Não sei bem se será possível, hoje, aniquilar um Hezbollah surpreendentemente forte e bem equipado. Mas sei que esta análise tem pelo menos uma pecha óbvia: continua a encarar movimentos como o Hezbollah como uma simples “força pró-iraniana”, um “braço operacional” neutralizável de forma clássica. Ignorando que o Islão mais radical não é um mero títere deste ou daquele governo da região: em última análise, almeja substituir-se a todos eles.

“Xi quê?”

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E se a administração dos EUA, a começar pelo seu presidente, fosse mesmo ignara q.b. para se decidir pela invasão do Iraque sem saber nada daquele país, começando pelo “pormenor” das divisões entre sunitas e xiitas? E se aquela malta fosse mesmo suficientemente arrogante para julgar que bastava desembarcar em Bagdade com uns caixotes de Apple Pie, bolas de baseball, posters da Marilyn e Happy Meals para ali operar o milagre da democratização instantânea?
Impossível, certo?
Hmmm. Por indicação do amigo Gibel, deparei com esta entrevista ao ex-embaixador americano Peter Galbraith (sim; filho de JKG), a propósito do lançamento do seu livro The End of Iraq: How American Incompetence Created A War Without End. Pelo que ali se lê, um ano depois do célebre discurso do “Eixo do Mal”, Bush teve uma reunião com três emigrantes do Iraque nos EUA, que tiveram a amabilidade de lhe explicar o que era ao certo o seu país de origem. No final deste encontro, o homem mais poderoso do mundo exclamou, ainda em profunda surpresa: “eu pensava que os iraquianos eram muçulmanos!”
Nas palavras de Galbraith, “do presidente e do vice-presidente até aos neoconservadores no Pentágono, havia uma crença segundo a qual o Iraque era uma página em branco onde os Estado Unidos podiam impor a sua visão de uma sociedade pluralista democrática. A arrogância surgiu quando se acreditou que isto podia ser alcançado com um mínimo de esforço e planeamento dos Estados Unidos e que não era importante saber algo acerca do Iraque.”
As conclusões são demolidoras para o futuro imediato daquele país: “não se pode ter um governo de unidade nacional quando não há nação, unidade nem governo” ; “graças a George W. Bush, o Irão não tem hoje um aliado mais próximo em todo o mundo do que o Iraque dos Ayatollahs.”
Leiam o artigo que vale a pena. Depois, podem comprar o livro e oferecer-mo, que fiz anos no outro dia.

Falares de homem

Mas certo é que mata caça quem porfia. O viajante ouviu finalmente uns falares de homem, dobrou uma esquina e entrou nesta ruela, que vai dar a um logradouro sem saída. Entre duas casas de cimento, logo lhe deram os olhos num majestoso alpendre de granito, de vasta escadaria e corrimão de pedra a que faltam pedaços, alguns a escorregar, mal seguros num ferro. No logradouro ao fundo andam três homens ocupados, na verdade com ar de poucos amigos, e um cão que está preso a um arame ladra desaustinado. O viajante hesita, enquanto observa a cantaria espessa e regular, as flores de sabugueiro a espreitar em dois janelões, e a carranca de pedra a sair da parede, uma cabeça de carneiro já gasta e puída. Ainda a hesitar sobe as escadas e encontra duas portas, aqui viveu o juiz de paz, ali foi em tempos a casa da câmara. Isto cogita o viajante, abrindo caminhos à imaginação, enquanto desce, emocionado, sem certezas nenhumas.
– Que tem que fazer aqui?!
A pergunta vem de um dos homens, que avança para o viajante com olhar torvo, e um banco de metal agressivo nas mãos. O viajante, que detesta conflitos, fica desamparado. Observa outra vez o empedrado da rua, levanta as mãos em sinal de rendição, dá mais uma mirada às casas do juiz de paz.
– Quer comprar?!
– Que ideia! Ando apenas a ver estas vidas antigas, julguei que era pública a rua…
E já foi, mas já deixou de ser. O homem fez dela coisa sua, porque tudo o que nela está lhe pertence, menos as casas velhas.
– Você entra por aqui, sem dizer nada… sabe-se lá o que anda pelo mundo, hoje em dia!
Por sorte sua, o viajante nunca desejou ser dono duma rua. E se não tiver a pinta dum celerado vulgar, concorda pelo menos que não basta ver as caras para reconhecer os corações. Não está em terra sua, por isso concilia, harmoniza, pede desculpas da intrusão.
– Não quer beber um copo?
Assim a quente, ainda tomado de brios, o viajante está a pontos de recusar, mas aceita. Porque beber um copo em sociedade é por aqui o mesmo que assinar um tratado de paz. Preferia um copo de vinho, mas acaba a engolir um Ricard espúrio, que uma mulher trouxe lá de cima. Sentou-se, com o anfitrião, no vasto palanquim de cimento que este construiu por cima da estrada, e ambos conversaram finalmente, com o vale da ribeirinha em frente. Nos tempos antigos o homem era jornaleiro, fazia o que calhava, aí no campo. Nunca chegou a trabalhar nas minas, que sempre lhe faltou a terceira classe. Depois andou emigrado em França, a trabalhar nos batimãs, e viveu treze anos num autocarro velho, parado num beco de Champigny. Quando chegou a altura, comprou tudo o que havia nesta rua e reconstruiu a casa onde vive. Faltam-lhe as duas casas velhas, que há desassete anos não têm habitantes. Espera vir a comprá-las, quando os donos baixarem o preço.
– Um dia põe o seu nome na rua!
A sugestão não presta ao homem, que a rua já é dele. Das eleições da Europa pouco ouviu falar, e não lhe importam. A única revolução na sua vida foi a emigração. Na sua, e na de muita gente.
O sol já declinou num poente suavíssimo. Mergulhado em emoções contraditórias, se pudesse acrescentar o que por dizer ficou, o viajante estaria de acordo.

Jorge Carvalheira

Santa incompetência

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A Reuters não voltará a usar trabalhos do fotógrafo Adnan Hajj, que manipulou uma imagem de um bombardeamento a Beirute. Parece-me mal. O homem devia ter sido despedido não por quebra da ética jornalística mas sim por usar de forma tão pavorosa e óbvia a ferramenta “Rubber Stamp” do Photoshop. Que é aquela espécie de caracóis a ornamentar as nuvens de fumo, meu Deus?
O escândalo rebentou mesmo a tempo de impedir que muitos jornais usassem uma outra fotografia adulterada, esta de forma quase imperceptível…

Continuar a lerSanta incompetência

Asneiras

Sei que é demais pedir a Luís Delgado alguma ponderação nas suas opiniões ou sequer que se dê ao trabalho de ler umas páginas antes de escrever coisas como “pela primeira vez na História, um grupo de radicais afronta, diariamente, o mais poderoso e organizado exército do Médio Oriente”, esquecendo a invasão de 1982.
Mas, ao menos, bem que podia deixar de usar os termos “míssil” e “rocket” como se fossem sinónimos. Não são.

No more mr. Nice Guy

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Depois de semanas de lindas garantias de que o alvo não era o Líbano nem as suas gentes, o exército israelita já fez saber que as infra-estruturas civis daquele país vão agora ser atacadas sem dó nem piedade.
Para quê? Boa pergunta; sobretudo para o israelita Uzi Benziman que encontra paralelos entre a situação presente e o final da Guerra do Yom Kippur, quando o Tsahal ignorou o cessar-fogo aceite por Israel e prolongou uma ofensiva contra o 3.º Exército egípcio. Também então se jogou tudo por tudo numa intensificação final da ofensiva, para que a situação congelada pelo cessar-fogo fosse o mais favorável possível. Para nada, afinal.
Hoje, andam no ar algumas perguntas difíceis: e se Israel não alcança nada de palpável, mesmo depois de causar danos tremendos a toda a nação libanesa? E se o Hezbollah consegue chegar ao fim deste conflito sem sofrer uma derrota clara, mantendo a capacidade de alvejar Israel de dentro do Líbano? Numa zona do mundo onde enfrentar Israel é a melhor prova de coragem cívica que alguém pode ter no currículo, imaginam a popularidade que estes fanáticos xiitas irão conquistar? Sobretudo depois de um ataque em larga escala, patentemente injustificado, contra o Líbano?

Bombardear, claro!

Na sua coluna de hoje no «Público» (que poderá provavelmente, mais tarde, reler-se aqui), Rui Tavares responde a um leitor, que lhe perguntara que proporia ele, se Portugal fosse atacado a partir da Galiza:

[…] Espanha foi alvo de terrorismo durante décadas, e sabia que a ETA se escondia no País Basco francês. Nunca bombardeou Saint-Jean-de-Luz. O Reino Unido foi alvo de terrorismo durante décadas e sabia que o IRA se organizava na República da Irlanda. Nunca bombardeou Belfast, muito menos Dublin. Há menos de um mês, sete atentados simultâneos mataram mais de duzentas pessoas em Bombaim. Há fortes suspeitas de que os autores tenham vindo da Caxemira paquistanesa. Todos os ocidentais louvaram a contenção da Índia; e, no entanto, ao contrário do Irão, o Paquistão já tem armas nucleares e partilha uma fronteira terrestre com a Índia.
A lição é clara: o terrorismo é uma questão de segurança, policial, judicial, política. Pode ser atacado, com mais ou menos sucesso, por qualquer destas vias. Quando passa a ser uma questão militar, perpetua-se.

Violência

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Estranho. Ver como, mesmo na vida mais organizada e ronceira, a violência pode irromper a qualquer momento. Falo da violência física, aquele assunto de punhos esfolados e testas sangrentas, de gestos brutos, inopinados, vindos sabe-se lá de onde. É estranho ver como uma coisa tão feia pode ter um efeito tão revigorante, tão luminoso e redentor. Sabermos que, quando é mesmo preciso, conseguimos atirar-nos para o centro da fogueira, mergulhando de cabeça no caos que mais tememos, nas chamas que sempre evitámos. Estranhos caminhos que seguimos para nos reconciliarmos com o mundo. E connosco.

(Re)Criatividade alada

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Todos já ouvimos falar na polémica em torno do anúncio do Ministério da Administração Interna e da Galp, onde é traçado um paralelismo entre as crianças mortas nas nossas estradas e a queda de um simbólico avião carregado de petizes. A TAP reclama, António Costa mantém-se firme, etc.
Falta o melhor.
Graças a um comentário neste blogue, cheguei ao site da World Swim For Malaria, onde jaz um irmão gémeo da mais recente obra-prima da publicidade lusa. Ele há coincidências assombrosas.

Os escudos invisíveis

Surpreendentemente, as Forças Armadas israelitas concluíram pela sua inocência no bombardeamento de Qana. A culpa terá sido do Hezbollah, que usou os residentes do prédio demolido como escudos humanos. E claro que os militares ignoravam a presença de civis ali; caso contrário nunca teriam lançado aquele ataque.
Só não percebo bem qual será o propósito de usar “escudos humanos” sem que o inimigo saiba que eles lá estão. Parece-me coisa pouco eficiente.
Isto além de se saber que as vítimas já estavam naquele prédio havia mais de duas semanas, algo que não deve ter passado despercebido aos omniscientes voos de reconhecimento israelitas. Mas enfim; por este andar, ainda vamos ter o Hezbollah a querer convencer-nos de que nem desconfiava que Haifa estava habitada.

Lavores femininos

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Meninas desta nação católica: desejais ter uma éfigie da veneranda Irmã Lúcia a emanar santidade sobre o vosso boudoir? E vós, impenitentes incréus, quereis ter o penetrante olhar da Vidente a velar pelos vossos desvarios, quiçá inscrito num belo tapete de WC?
Rejubilai, pois tendes sorte. O último número da revista “Linhas & Pontos” inclui um prático esquema para criar uma toalha/quadrinho/tapete com um belo retrato da alucinada de Fátima em ponto de cruz. Reparai como até a tecnologia envolvida foi bem seleccionada; se se tratasse de Maomé (longe vá o agouro, que o Jacques Rodrigues não quer manifs à porta), teria de ser ponto de crescente. Ou coisa que o valha.

Terroristas pela Democracia

Alguns exilados cubanos de Miami, através da sua mais activa organização, a Fundación Nacional Cubana Americana, já andam a ver se se poupam ao incómodo de uma nova Baía dos Porcos, exortando as Forças Armadas de Cuba a aproveitar a maleita do ditador da ilha.
«Os militares têm a oportunidade de prestar um grande serviço à pátria estabelecendo um governo transitório cívico-militar que ponha fim à ditadura dos irmãos Castro»; «Os homens e mulheres cubanos podem aproveitar esta oportunidade para fazer alguma coisa por Cuba e podem contar com o apoio da Fundação Nacional Cuboamericana». Assim falou Jorge Mas Santos, presidente da FNCA.
Para os mais distraídos, impõe-se uma pequena explicação. Esta agrupamento é o mesmo a que pertencia Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA e um dos autores do atentado bombista ao voo 455 da Cubana de Aviación, em 1976. Neste acto de terrorismo, morreram 73 pessoas. Isto sem esquecer as bombas que, em 1997, rebentaram em vários hotéis de Havana; outra obra de associados da FNCA. Apesar de comprovadamente saberem disto, as autoridades americanas continuaram por muitos anos a subsidiar a FNCA, através do National Endowment for Democracy.
Pelo que se vê, nem todo o terrorismo é coisa oriunda dos eixos do mal que por aí pululam. E alguns terroristas, como Orlando Bosch, até podem ser boas pessoas, merecedoras de acolhimento caloroso

A conspiração da pedra

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Fosse eu apaniguado de teorias da conspiração, ia jurar que os arquitectos andam feitos com a indústria da pedra. A pedra tem nobreza, quem o nega, mas nisto de brasões é como em tudo. Quando é demais, engrossa a linfa nas veias.
Passe um homem pela Guarda, é um supor, vai-se a ver o D. Sancho, a ver a sé. E se tiver caído geada de manhã, o que é comum em tempo, por força acaba a patinar, até à sacristia em S. Vicente.
Ache-se alguém em Trancoso, vai ver as Portas de El-Rei. Se se esqueceu do andarilho em casa, pode contar com um tornozelo estorcegado, com uma bacia partida. Nem a Dona Isabel vinha lá de Aragão para se casar ali, estou eu em crer.
– Isso é lá nos cus de Judas, onde nem Cristo andou!
Pois vão ali à Praça dos Cavalinhos, no coração do Porto. Já verão o que é uma eira de secar milho, sem o idílio campestre das irmãs mais antigas. Ou cheguem aos Aliados, que os arquitectos mexeram ultimamente. Deixaram lá um descampado pífio, deslavado, para não dizer deprimente. Há-de ser um bom lugar para grevistas da fome. Senta-se um homem naquelas cadeiras roubadas do campismo, e acaba a morrer de inanição. Os pombos, à cautela, desertaram.
Eu vou-me ali às Caldas de Vidago, antes que seja tarde. Ouvi dizer que já rondam paisagistas. Lá se vai o último romântico, o último salgueiro. Logo ali, onde um rei se ressarcia da piolheira corrente.

Jorge Carvalheira

Foto, Avenida dos Aliados, Porto
fonte A Cidade Surpreendente
Observe-se a situação «antes» e «depois»
fv

Para quem não tem o Público à mão

Vemos, ouvimos e lemos
Isabel do Carmo
Médica

Quantas vezes ouvimos dizer que durante a II Guerra Mundial as populações desconheciam o que se estava a passar? Agora todos os dias “vemos, ouvimos e lemos” e até “não podemos ignorar”, mas a nossa impotência é a mesma. Como é a mesma a indiferença dos que não temem o julgamento histórico: apostam no apagamento da memória, na precariedade das imagens que nascem e morrem em fracções de segundo. Julgávamos que tínhamos visto tudo e agora temos de novo o Líbano aqui tão perto, geograficamente, culturalmente.

As imagens de destruição do Líbano trazem-nos à memória (mas a quantos?) essas dilacerantes descrições de Sebald na História Natural da Destruição onde corajosamente nos fala do não-dito: a destruição das cidades alemãs, a morte em massa dos civis, praticada pelos bombardeamentos dos aliados, neste caso os ingleses, quando a guerra já estava ganha, mas as bombas também já estavam feitas e não podiam ser desperdiçadas. Toda a Alemanha assumiu a culpa, ninguém escreveu sobre isto e, como diz Sebald, só algumas dezenas de anos depois alguns escritores falaram sobre o assunto sob a forma de parábola. Já a história de Hiroxima tomou outra amplitude e ficou claro que aqueles japoneses não tinham culpa do eixo nazi-fascista.

São sempre as crianças, as mais inocentes, cujos rostos vão ficando como um rastro desta diabolização que o ser humano assume. Ficam-nos as imagens das faces inocentes das crianças que partiam para os campos de concentração, tristes, mas sem perceberem. Ficam-nos todas as imagens do Holocausto, que não atingiu só judeus. Foram os comunistas (liquidação física da totalidade do partido), foram os socialistas, os ciganos, os oligofrénicos, os homossexuais. Mas podemos ignorar as crianças do outro lado? Das descrições de Sebald fica um flash terrível: a das mães sobreviventes dos bombardeamentos que transportavam em malas de viagem os cadáveres dos filhos mortos. Passageiras loucas e perdidas de destino nenhum.

E agora, a destruição do Líbano fica-nos a imagem dos montes de cadáveres de crianças embrulhadas em sacos de lixo à porta do hospital de Tiro, à espera que as famílias as identificassem. Mas quais famílias? As mortas? Dos internados do hospital, das crianças mortas, dizia o médico que ninguém dessa gente era do Hezbollah. Também o médico é suspeito? Necessariamente não o eram as crianças.

Há quem tenha a coragem de escrever por aí que Israel só está a bombardear os territórios onde já esteve – o Sul do Líbano e Gaza. É deles? Ora Israel não esteve em sítio nenhum ou esteve vagamente há 2000 anos. Por isso “esta guerra começou em 1948 e tem tido vários nomes”, como diz o dirigente israelita. E não se sabe quando vai acabar. Como todas as guerras de ocupação, colonização e racismo vai acabar mal. É certo que há uma situação de facto que tem que ser considerada. É certo que nada justifica acções terroristas, como são praticadas pelo Hamas e o Hezbollah, com morte de civis. É certo que o Irão tem um dirigente louco. Mas tudo isto é uma espiral. É bom não esquecer como nasceu o Hamas. É que as conspirações são como as bruxas, há a “teoria”, mas lá que as há, há… Quem percebe disto é o John le Carré. O que acaba por suceder é que esta espiral conduz a que o fundamentalismo obscurantista (igual aos cristianismos de há pouco tempo) seja a bandeira dos injustiçados.

Como sempre é dramático que os movimentos anti-sionistas de Israel não tenham visibilidade, como se o país fosse uniforme. As várias organizações israelitas de mulheres pela paz – Bat Shalom, Mulheres de Negro, Mulheres e Mães pela Paz, Novo Perfil, Liga internacional das mulheres pela paz, Tandi, (movimento democrático de mulheres pela paz fundado em 1951), NELED (mulheres pela coexistência), Machsom Watch (obervatório das barragens). Algumas dizem: “Os generais não sabem tratar de paz, deixem as mulheres tratar disso.” Quase todos estes movimentos estão em ligação com as mulheres palestinianas. E há os corajosos movimentos de refractários dentro do Exército (Yesh Gvoul! “Há um limite”), que levou a julgamentos e prisões.

Estes são os movimentos, as pessoas, invisíveis, porque não têm voz internacional. São israelitas e não são sionistas. A estes não os vemos, porque não nos deixam ver. No entanto, é suficiente aquilo que “vemos, ouvimos e lemos”. A comunicação já não é a da II Guerra Mundial. As crianças refugiadas com a casa às costas têm o mesmo sorriso triste, mas perguntam ao repórter português pelo Figo e pelo Ricardo. Então é porque hoje “vemos, ouvimos e lemos” mais depressa. E como diria a Sophia, “não podemos ignorar”. Nem arranjar desculpas.