(Re)Criatividade alada

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Todos já ouvimos falar na polémica em torno do anúncio do Ministério da Administração Interna e da Galp, onde é traçado um paralelismo entre as crianças mortas nas nossas estradas e a queda de um simbólico avião carregado de petizes. A TAP reclama, António Costa mantém-se firme, etc.
Falta o melhor.
Graças a um comentário neste blogue, cheguei ao site da World Swim For Malaria, onde jaz um irmão gémeo da mais recente obra-prima da publicidade lusa. Ele há coincidências assombrosas.

24 thoughts on “(Re)Criatividade alada”

  1. O que falta ao anúncio tuga é que o outro tem: a voz de Hans Gruber, o vilão do primeiro Die Hard. Faz toda a diferença.

  2. Comentário ao teor do post: há realmente infelicidade em associar um avião, transporte que tudo faz para conservar-se seguro, com a estúpida insegurança das estradas.

    Comentário à sugestão do post: só um publicitário pára um instante a comparar os dois anúncios e conclui que o caseiro não é suficientemente original.

    Em suma: denuncie-se o «spot» MAI/Galp, mas não pela casuística dos especialistas.

  3. Fernando,

    “não é suficientemente original”? Ou é uma cópia fiel? Não te esqueças que o governo pagou (e bem, segundo consta) a obra em (des)apreço.

  4. Luís,

    Eu sei que é tremendamente auto-lisonjeiro encontrar um tão notável paralelo. Na minha profissão, isso sucede igualzinho. Há o fenómeno do encandeamento: ISTO FOI FEITO PARA QUE EU O DESCOBRISSE. Em termos mais racionais: eu sou um barra. E és. Mas não por causa disto. Calhou a ti reparares numa série de paralelos, é tudo.

    Eu, que estou de fora, imagino que, se os apanhaste com toda esta facilidade, é porque – se procurares mais ainda – poderás achar, entre os milhares de spots neste planeta, quatro ou cinco que talvez ainda se aproximem mais.

    Mas, penso eu também, se de facto os gajos que trabalharam para o MAI/Galp foram buscar a ideia à causa da Malária, mesmo sabendo que qualquer LR atento ia caçá-los, é porque na vossa profissão esse procedimento já é aceite como normal.

    Estarei muito a Leste?

  5. Fernando,

    Realmente não sei bem onde queres chegar com essa resposta ao Luis. Pode ser que outros mais atentos a tivessem apanhado pela garganta e a obrigassem a ser mais clara. Comparações com jumbos carregados de meninos para dramatização do desastre notícia mascarado de preocupação governamental é coisa velha um pouco por todo o lado. É alpista para pardais impressionáveis. Até na Unicef se fizeram essas comparações e talvez tivessem sido eles os inventores da imagem assustadora. Assim na veia de que o cigarro mata (mas não se impede as tabaqueiras de adicionarem venenos ao produto) a droga destroi famílias e fomenta o crime, e o álcool desmancha a harmonia dos lares e rebenta com os fígados. Não há um unico exemplo destes em que governos ou suas agências ou a intriga (denunciada time after time) do capital se possam descartar de responsabilidades ou até mesmo de desenho.

    Mas quanta hipocrisia se nota no meio disto tudo, quando reparamos que não nos dizem também por que razão se enchem jumbos todos os cinco minutos com gente a sofrer de novas e velhas doenças. Ou a morrer à fome. Ou quantos jumbos se poderão encher mais por dia com barras de ouro equivalentes à diferença crescente entre os cinco por cento mais ricos e os sessentas por cento mais pobres. Seria interessante estatísticamente, não concordas?

    Na China das biciletas, diz-se, já há três anos morriam 250 mil pessoas em acidentes de estrada. Não sei se isso inclui motoristas doidos a entraram a 120 à hora em mercados de peixe, como vemos em filmes americanos. Mas noutros lados lemos estatísticas que nos dizem que nos anos 20 na Inglaterra morria mais gentes em acidentes de viação que agora, com um número de veiculos 25 vezes superior. Portanto, deve andar por aqui marosca da grossa.

    O caso da malária, para onde o Luis nos arrastou por “acidente”, é uma das maiores vergonhas do desastre intencional. Procura na Internet, se estiveres interessado, sugiro Malária DDT Coverup, e verás quanta hipocrisia governamental à escala internacional há no combat a essa doença.

    Valerá a pena discutir este post do Luis, apenas para apontar interesses locais e originalidades copiadas? Eu entendo que não. Mas vocês continuem que eu quando puder apareço por aqui outra vez.

    TT

  6. Tadeuzinho,

    Sempre me fez pouca impressão esse tipo de reacções «Mas ele também…», «Mas vocês também não…» Nem por teima, acabo de ler um texto dum dos melhores cronistas holandeses, Brandt Corstius (e um dos mais conhecidos judeus deste país). Falava em certa senhora que denunciara uma demonstração contra os bombardeamentos israelitas, «porque vocês também não as fizeram contra os crimes no Nepal ou em Darfur». O cu tem pouquíssimo a ver com as calças.

    É uma forma muito primitiva de descontentamento com a vida. Ou um tour de force de menino mimado. Ou uma infantil chantagem por parte dos bem-informados. É que podia também reagir-se: «Sim, já que vocês deixaram passar o Nepal e o Darfur, aproveitem agora esta». É uma reacção muito mais inventiva, cheia de belas tensões.

    Isto para dizer que esperava mais de ti. Não te cria – não te queria – tão menino mimado. Não é porque há MAIS motivos de preocupação que vamos deixar ESTE sem lembrar.

    Ou sou demasiado subtil?

  7. Será que o professor Martelo no próximo domingo vai falar sobre este anúncio???
    A empresa responsável pelo anúncio garantiu que afinal o anúncio foi filmado no Chile.
    Será que a TAP assim já fica descansada???
    Afinal no Chile é que cai um avião destes todos os anos!!! Bela palhaçada por um milhão de euros…

  8. Fernando,

    Infelizmente, é coisa vulgar no meu mister. Mas é, também, coisa a denunciar com vigor; e coisa que nunca pratiquei. Roubar trabalho alheio é actividade de suínos; mas cobrar por ele e ainda vir para a praça gabar a nossa inventividade… isso coloca-me os cabelitos em pé.
    Imagina que lerias amanhã um best-seller decalcado de um romance das tuas preferências; tinham mudado os nomes das personagens e pouco mais. Como ficarias de humores?

  9. All right, Luís, eu denunciaria até se me ir o fôlego. Mas, no caso atinente,

    ou 1. tenho que concluir que tens um faro a toda a prova (e quero acreditá-lo),

    ou 2. tenho de (comulativamente) concluir que tens motivos fortes para linkar o spot nr. 1 ao nr. 2,

    ou 3. que não é, na profissão, aceitável que uma boa ideia seja aproveitada segunda vez.

    [Em matéria de maus gastos. Há uns anos, uma agência de publicidade encaixou largos milhares para desenhar um belo «E» para certa firma muito europeia. Ao fim de semanas nos estiradores, veio com um lindo «Σ», um sigma, um simples «s» grego. Foi um escândalo. Parece que a firma pagou e calou].

  10. Fernando,

    1.Como escrevi, não fui o primeiro a dar pela marosca. 2. Hás-de concordar comigo que se trata da mesma ideia, com roupagens muito pouco diversas. 3. Julgo que não. Sobretudo tendo em vista que a coisa custou umas massas valentes e que tinha como principal objectivo a projecção dos seus (supostos) autores.

    Em resumo: irrita-me saber que o suor pode ser substiuído, normalmente sem consequências, pelo esbulho puro e duro.

  11. Fernando,

    Mandei-te uma coisa maior, mas os serviços de recepção não gostaram do comprimento. Não faças como o Luís fez outro dia, vamos lá respeitar o bom nome desta Democracia!

    TT

  12. Tio meu,

    É sempre pena tudo o que se perde do que tenhas escrito. Se o sistema voltar a fazer fosquinhas, vai à caixinha onde escreves o comentário, faz ^A, faz ^C e guarda, a troco de um ^V, num documento de texto. (Eu sou pelos códigos, e menos pelos menus). Assim, em melhor altura, podes voltar ao cometimento. Mas isto já tu sabias, marau.

  13. Fernando,

    Vou fazer um esforço para não ser chato nesta resposta. Mas, antes que me esqueça, deixa-me agradecer-te (sublinhando que não me ofendeu) o teres-me chamado menino mimado, valendo-te da senhorita holandesa, de origem marrano-castelhana, suponho, como comparação. Tal como no caso do avião descoberto pelo Luis cheio de meninos originais, aliás pouco apreciado por ti, não foi esse Brandt que respeitas ai nas holandas o primeiro a usar-se do formidável argumento. Tens aqui os bigornas deste blogue, mas do outro lado da barricada, atenção!, a lembrarem-nos disso até à erupção do vómito. Mas perdôo-te essa dispensa dos pratos do dia desta casa, já que tambem sei que é sempre bom citarmos gente ilustrada para subsidiarmos os nossos pontos de vista.

    No fim, tudo isto se resume a quase nada. Pelos vistos por puro acidente, o Luis descobre desonestidade entre colegas do métier. Do seu “vested interest” não me apercebi no princípio, por isso fiquei em desvantagem como observador. Mas não compliquei nem me deixei ofuscar por moscas volantes. Uso a imaginação e parece que estou a ver a ideia que ele nos queria dar. Esse pessoal, aparentemente mal comportado, surpresa das surpresas, entreteve-se a tilintar copos de champagne entre meias-conversas sobre originalidades falsas e impactos televisivos. Muita bufa e muito party. Bateu palmas, trocou recibos inexplicáveis por cheques de alegrias e apertou as mãos de vários amigos que tem nos ministérios e, provavelemente, combinou mais aventuras de propaganda e negócio. Enfim, uma página inteira de anúncios à la lusitana que é sempre uma imitação, não esqueçamos, daquilo que se pratica numa escala ainda mais bandalha noutros lados…

    Importante, sem dúvida, porque permite fazer acusadelas de revés e manter o caldo à temperatura da língua, mas não é esse o pimpampum de conversa que me excita mais. A actividade central da publicidade com letra maiúscula e com destino político visa a manipulação do conteúdo craniano do cidadão médio de um metro e setenta, na sublimada mensagem meticulosamente preparada para modelar-nos uma maneira de ser receptiva à influência directa dos administradores da pátria oficial que parece singrar, no espírito dos crédulos, no rumo certo da tradição com alterações impostas pelos futuros inevitáveis. A pior publicidade e de mais dificil detecção, essa, é a que se subordina aos planos, com propaganda a lanrajadas ou não, dos grupos que partilham o poder, de longe ou de perto, e é levada a cabo com a colaboração de especialistas saídos das cafurnas do sistema, grupos de pressão, de estudo, de sabedorias amassadas, de orientação, que aconselham governos com perícias adquiridas no escritório central de validação de métodos que já vêm dos tempos dos computadores e calculadores de manivela.

    Mas está bem, não viste grande mistério nem descoberta no trabalho do Luis e acabaste por nos dar a ideia de que se há meliantes que são apanhados é porque não se importam, ou estão à espera, de serem. Também podia ser interpretado como: eu prevarico, tu prevaricas, ele prevarica e o resto também toca viola, o que não é mau como opinião, contudo aberto a acusações de dubiedade. De facto, fiquei na dúvida se isso seria apenas simples conformação com a norma, da parte do homem descomplicado a que estamos habituados, perante a pouca vergonha posta a descoberto pelo autor do post. E confesso que quase ias acordando em mim suspeitas que reservo para alturas especiais, entre elas a de que não gostaste da investigação do Luis, por razões que só tu é que sabes e que não interessam a mais ninguem.

    Quanto às minhas mimalhices, já sabes o que é que a casa gasta. Por regra, nego-me a discutir dribles e passes de cabeça em futebois da terceira divisão. De todas as divisões, de facto. Pensando bem, nem sei como é que vim acabar aqui a falar de coisas que não percebo nada, de fantasmas. E já gostei mais dessa expressão popular, que tambem emprego de vez em quando para desenjoar, de que “o cu não tem nada a ver com as calças”. A malandra caiu no goto e não me parece, lendo-te, que vai cair em desuso. Exactamente como as teorias gravíticas do Newton que por aí andam há trezentos anos e nunca mais ninguem se decide a reformá-las. E cá está: o que é que o diabo do cu terá a ver com as calças.

    TT

  14. Fernando,

    Os meus comentários de 58 linhas nunca se perdem. São arquivados como textos e muitos deles copiados para papel, para não cançar a vista quando os releio. Serei eu o único que se queixa destas coisas? Vocês têm que reprogramar as vossas ratoeiras de armar aos pássaros.

    TT

  15. Titio:

    Deixa-te lá de tretas e pede mas é ao Luis Rainha para desbloquear a palavra PNU_D.

    [aposto que o Luis Rainha é tão esquecido que já nem se lembra que bloqueou a palavra PNU_D]

    Vamos lá ver se assim já se livra da censura prévia.

  16. Tadeu,

    Não me perguntes como te salvei o texto, porque quero conservar um ar de feitiçaria.

    Quero sossegar-te quanto à minha dmiração pela avaria do Luís. Ele, nestas coisas de seguir o voo das aves internéticas, tem um faro a toda a prova (poderei dizer que o tem «absoluto», tal como se diz do ouvido?), e deixei-o dito aí acima. Chapeau, chapeau.

    O que me custou a crer não foi, pois, ser o ‘nosso’ Luís a acertar na mouche. Foi que a mouche se deixasse tão facilmente acertar.

    É que o aceitar isso fazia desmoronar muita coisa aqui dentro desta cabeça inocente, que tu tens a simpatia de chamar ‘descomplicada’. Se ele tiver razão, e se a tua teatralização da cena for a exacta (e, não sendo, já era bonita), é porque estou num mundo ainda mais emporcalhado do que já outros insistiam em informar-me. É o horror perante o destravamento do que eu supunha um carro dirigível.

    E mais: gostei à brava tanto dum spot como do outro. Achei-os trabalho bem feito, e isso por mexerem um e outro comigo, espectador. Mas isso agora já não tem importância.

  17. Sem pretender mais do que escrever umas poucas linhas sobre uma campanha que poderão dizer…bom, se falam de nós é um sucesso. Puro engano, falamos porque estamos mais atentos, falamos porque é importante alertar, falamos para participar com ideias.

    Esta campanha para além de pouco original, promove-se à custa da desacreditação de outro meio de Transporte, entendo a preocupação de quem as representa e dos esforços para a promover como sendo um meio de transporte seguro, ( o avião ).

    Se vamos falar de conceito “Choque” então porque não algemar os verdadeiros responsáveis desta carnificina nas nossas estradas, os Pais.

    Sim, porque são eles os maiores responsáveis, os cintos não estão colocados, as velocidades e as regras na estrada não são respeitadas.

    Seria porventura uma ideia forte e chocante ver os Pais a serem algemados e presos, a responsabilização dos nossos actos não pode passar por comparações mediáticas julgando os outros.

    1Abraço
    do amigo
    ML

  18. Este post, mereceu a devida atenção, já está visto e revisto… e a resposta que se impõem, será dada num meio de comunicação com maior alcance que este extraordinário blog. Bom serviço público Aspirina!

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