«You’re a lady»

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Possivelmente, a humanidade divide-se – também – nestes dois grupos: o daqueles que um dia ouviram «You’re a lady», cantado por Peter Skellern, e o dos que nunca o ouviram. A existência jamais será a mesma para quem escutou essa canção soberba, saída em 1972. Não vou sequer tentar explicá-lo. Se você pertence ao grupo dos que a ignoram, não será por isso inferior, ou infeliz. Mas mais não consigo dizer.

Infeliz fui eu, que me apaixonei pela peça, sem cuidar de reparar nem no título nem no intérprete. Quando finalmente quis sabê-lo, já era tarde. Imagina você o que é andar por lojas de discos e cantarolar qualquer coisa à incompetente populaça que flanca (quando flanca) o lado errado do balcão? Pois é. Andei anos nisso. Até que me sentei ao piano, com um gravador à mão. Ajudou. Não logo, mas ajudou. Um jovem empregado, aí pelos vinte e cinco anos, disse logo, ao quarto ou quinto compasso: «Isso é do Peter Skellern. Chama-se ‘You’re a lady’. Mas não temos».

Claro, tinham-se passado quase trinta anos, já nem era do tempo dele. Mas aí está, ainda se dá com alguém competente. Que fiz eu? Pois voltei para casa e googlei título e cantor (nessa altura, não havia Google propriamente dito, mas o Altavista fazia bom serviço), e a breve trecho tinha a discografia completa da faixa. Só que… no país onde procurava, nada encontrei.

Até ontem. Procurei no programa de download de mp3 (legal, pago, e nem é caro), e em minutos, nem isso, tinha uma vintena de ‘sources’. Uma bastava-me. Uma bastou-me.

Esta tarde, pus os auscultadores, saí a dar uma volta pelas cercanias, e fui feliz como uma criança.

Chuva de verão

Tivesse eu ficado na Sibéria, onde há ventos, e nuvens, e bosques de vidoeiros. E bolcheviques a sério!
O servidor sentiu-me lá por fora e interditou-me a página. As gaivotas entupiram-me de filhos as caleiras, entrou-me em casa uma chuva de verão. O alarme ligado parasitou a bateria, o carro nem se mexe. A paragem do 30 ficou desactivada, por causa dumas obras. Um amigo chegado tomou-se de maleitas, resolveu ir-se embora. Pontual só o talão registado, do imposto de Setembro.
E ainda não fui ver da metafísica, a alma da família, o estado da política. E as pechinchas literárias, nalgum escaparate.
Sai um homem à procura do exotismo do mundo, e ele a dormir-lhe em casa.

Jorge Carvalheira

Pavlov redivivo

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Alguns dos nossos compadres blogosféricos descobriram uma importante lição de vida nestes dias de guerra no Líbano. Como muitos outros grandes inventos, deve ter começado com uma singela interrogação: se se pode classificar indiscriminadamente os que se opõem aos desmandos de Israel como “anti-semitas”, porque não encontrar um mecanismo similar para atacar quem não pensa como nós, à escala doméstica? Lá andaram a remoer o problema nos seus think thanks (presumo que esta actividade tenha sido regada com muito Chivas, a aquilatar pelos resultados) e acabaram por dar à luz a solução perfeita.
Primeiro, o dispositivo foi experimentado pela sempre vaporosa e inimputável Bomba. Passado o teste de fogo, lá foi a arma entregue às tropas a sério: o Blasfémias e o Insurgente. E de que consta, afinal, esta verdadeira WMD? Simples: se alguém discorda de nós, seja a propósito do bombardeamento a Qana ou do plantel do Benfica, é por certo simpatizante, acólito ou assalariado da asquerosa “extrema-esquerda”.
Genial. E isto nem carece de qualquer cuidado com a realidade: não interessa saber quem é o visado, se é mesmo de esquerda, se é ao menos militante do BE… tudo são minudências a esquecer. Nem importa precisar o que será isso da “extrema-esquerda”: deixada no ar, a acusação implica amor desenfreado por Estaline e analogias de bossas com Pol Pot. Urge é ter sempre engatilhada a resposta demolidora e multiusos: “ai escrevi mal a palava ‘redação’*? Olhe: quem repara nisso só pode ser de extrema-esquerda!”
A Bomba começou por disparar o novo morteiro conceptual na direcção do pobre Alexandre Andrade. Agora, é o insurgente André Azevedo Alves que descreve o Filipe Moura como “um activista de extrema-esquerda que está a estagiar no Público”. Assim mesmo. O Filipe já não é o cientista, doutorado em Física, que foi um dos vencedores da iniciativa “Cientistas na Redacção”. Nada disso: agora, não passa de um mero estagiário de extrema-esquerda.
Na peugada do chefe de fila, segue lesto o blasfemo João Miranda, com graçolas secas sobre uma tal “economia anacleta” (presumo que seja referência ao nome de Francisco Louçã, por acaso economista com obras de alguma circulação internacional), sempre a propósito do Filipe. Ora, este poderá ter muitos defeitos; mas não consigo imaginar que a adesão à tal “extrema-esquerda” seja um deles, sobretudo tendo em vista o seu frenético apoio à infausta candidatura do Dr. Mário Soares.
Quanto ao caso do Alexandre Andrade e da Bomba, nem comento o disparate que é lançar acusações difusas e inexplicadas sobre quem não se conhece nem entende.

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Retardantes

De modo que resolveram organizar um simpósio. Não digo internacional, seria exagerado. Uma coisa assim transfronteiriça, para ser mais rigoroso. Custeada a fundos de coesão.
Vieram alcaldes espanhóis, bombeiros dum lado e doutro, delegados da protecção civil, e autarcas raianos ou nem tanto. Estava um representante do centro distrital de operações de socorro e alguns futricas avulsos. A mim, por lhes constar que entendo de palavras, que é uma coisa que não vem nos catálogos, encarregaram-me de resumir as actas.
Alugaram a sala de conferências do hotel Continental, e iniciaram a sessão com um atraso maçador.

– Frequência e dimensão dos fogos florestais na paisagem moderna
– Causas e consequências
– Papel fundamental dos retardadores de fogo no combate à catástrofe

Antes da ordem do dia, o moderador introduz um ponto prévio. Quer saber dos ilustres presentes quem não é membro do corpo social de entidade devotada ao mercado de retardantes do fogo. E fosse ele o imprevisto da pergunta, o intrincado da formulação, ou distração momentânea, o caso é que ninguém se pronunciou. E entrou-se finalmente na agenda dos trabalhos.
Durante o dia inteiro discutiram argumentos, cruzaram fórmulas químicas, compararam resultados. E lamentaram todos não poder fazer milagres.
Eu deixei-os falar e fui tirando notas. E antes de encerrarem os trabalhos já tinha pronta a acta. Eram todos, menos um, industriais do ramo.
Foi ali um pandemónio. Porque afinal eu não passo de iletrado.

Jorge Carvalheira

Fotógrafo

Já o conhecíamos, ao João Camilo, como magnífico poeta. Veja-se A Ambição Sublime (Fenda, 2001). Menos conhecido, mas a merecer mais, é o ficcionista. Veja-se O Grande Frémito da Paixão (Fenda, 2002) ou a edição refundida de um livro de 1975, Retrato Breve de J.B. (Fenda, 2006), comentado por António Guerreiro no último Expresso.

Agora descobrimo-lo fotógrafo. Coimbra tem destas sortes.

O Médio Oriente redesenhado

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O semanário holandês Vrij Nederland (Holanda Livre), órgão da resistência durante a segunda guerra mundial, hoje leitura habitual do intelectual de esquerda, publica dois mapas, concebidos, segundo se informa, pelo exército norte-americano e aparecidos inicialmente no Armed Forces Journal.

Mostra o Médio Oriente na actualidade e, em seguida, como o desejam, ou sonham, no futuro. O clou da coisa: as fronteiras étnicas. Resultado: um Curdistão, uma Jordânia maior, menores Irak, Paquistão e Turquia, e um Israel dentro dos limites de 1967.

Pequeno glossário: groot grande, vrij livre, heilig santo. A oeste da Arábia Saudita, surgiria um Heilige Islamitische Staat, um Santo Estado Islâmico. O Irak seria dividido num Irak Sunita e num Shiitistão Livre. Design your own world.

Actualização: leia-se um comentário abaixo, de Hugo Oliveira, para suplementar informação.

A boa acção do dia

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Ela veio sentar-se à minha frente, no eléctrico, em assento duplo, à janela. Era um daqueles eléctricos articulados, cinco módulos, longuíssimos, como há agora em Amsterdão. Cruzou os braços e olhou para fora. Não estava nem triste nem contente, devia ser o vulgar dela. Só nos olhávamos de relance, como bons desconhecidos. Não era nem bonita nem feia, só tinha um rosto marcado. Agruras? Sonhos fugidos? Andaria pelos quarenta.

Era o início daquela carreira, em frente da estação central, e entrava mais gente. Foi assim que outra mulher se sentou ao lado dela. Também uns quarenta feitos, nem bonita nem feia, marcada da vida, há mais disso. Quando calhava olharmo-nos, tinha um mortiço brilho, mas tinha algum.

Foi quando reparei em como as duas eram parecidas. O mesmo olhar, as mesmas fanadas cintilações. E os traços repetiam-se, pela fronte, pela boca, pelas faces. Pensei: são irmãs, encontram-se sempre neste eléctrico, nem precisam de falar-se. Só que os minutos passavam e elas ignoravam-se muito bem uma à outra.

O carro arrancou. A viagem não era longa. Eu trabalho no exacto coração da cidade, ou sou eu que o coloco lá. Mas chegou e sobrou para uma preocupação. A cada metro avançado, mais me convencia de que as duas mulheres eram aparentadas, decerto primas, mas quem sabe se irmãs, e não se conheciam. Era isso: tinham crescido juntas, mas um drama qualquer tinha-as separado, para nunca mais se encontrarem. Até àquele momento. Mas não o sabiam, as tristes. Sabê-lo, só eu.

Deveria, pois, dizer-lho? Começar por perguntar: são família? Não seria grave se o não fossem, riríamos do fantasista, e o episódio morria ali. Mas bem podia eu ter acertado, e elas encontrarem-se então, ao fim de dezenas de anos de buscas. Mana. Mana querida. Quanto tempo. Sim, quanto tempo esperei. E tudo o mais deixaria de existir: o mundo lá fora, o eléctrico, eu.

Não disse nada, nem então nem depois. Quando saí, já na segunda paragem, eu só me repetia: não disseste. E dizia-mo como um alívio. Compreendam-me bem. Tudo o que eu fosse causar, de tudo isso ficava responsável. O reencontro, as alegrias, um resto de existência sem sobressalto. Mas também, recordava-mo, todo o desestabilizar de duas vidas, os conflitos que haviam dormido, os infindáveis ajustes de contas.

Elas lá terão continuado, desconhecidas, mas livres de pesadelos. E eu não mexi no mundo. Foi, quero acreditar, uma boa acção para o dia.

Famas largas

Depois disso o viajante recolheu à pousada e foi ler os seus roteiros. Logo soube estar em terra de famas muito largas, nem todas neutras, como esta do padre Costa. Parece hoje uma lenda de almanaque, e está na torre do tombo. Mas as terras antigas são assim, guardam histórias que nos não cabem na cabeça.
O padre Costa tinha sessenta e dois anos e era prior desta terra em 1487, quando se viu degredado das ordens sacramentais. E em vistas de ser arrastado nos rabos dos cavalos, esquartejado o corpo e postos os seus quartos em diferentes distritos, cumprindo-se a sentença que da pena do juiz lhe veio cair em cima. Dando hoje de barato a barbárie dos tempos, tão diversa da brandura com que se vêem tratados diferentes malfeitores, é de crer que houvesse no caso maroscas de relevo. Fiquemo-nos nós pelos quesitos provados, que o caso espanta, se não arrepiar.
O padre Costa dormiu com vinte e nove afilhadas, e fez nelas noventa e sete fêmeas e trinta e sete varões. Em cinco irmãs engendrou dezoito meninas. De nove comadres teve dezoito raparigas e trinta e oito rapazes. Sete amas conceberam dele, e deram-lhe cinco filhas e vinte e nove filhos. Duas escravas, que também alcançaram, pariram sete fêmeas e machos vinte e um. Falando biblicamente conheceu Ana da Cunha, uma tia de quem teve três meninas. E nem a própria mãe se viu desobrigada, que dele acabou a conceber dois varões.
Ser pai dos próprios irmãos era exagero que nenhum cânone tornava obrigatório. Do virtuoso preceito constava apenas ser pai na generosidade, e irmão no sofrimento. Porém em separado. Mas o padre Costa não entendia assim. E o viajante, metendo o nariz onde não é chamado, acha cruenta a sentença mas acaba a concordar com o tribunal. Muito melhor decidiu el-rei João II, que tinha um reino inteiro a governar e poder para o fazer. Perdoou a morte ao padre Costa e mandou-o libertar, por tanto se esforçar a povoar a região das altas beiras, tão ermadas ao tempo como agora voltam a estar.
É caso para dizer que um forte rei fortalece a fraca gente. E não faltarão cobiças por aí, de tais cometimentos. Não é o caso deste viajante, que finalmente adormeceu tranquilo.

Jorge Carvalheira

Portugal profundo – 4

A feira é todas as sextas, mas na quinta à noite começam a chegar. Carrinhas às dezenas, com vidraças cegas para se dormir lá dentro, na tarimba de cima. As mulheres têm saias compridas e acendem fogareiros, os garotos correm entre as árvores, e os homens têm bigode e fumam, conversando. Alguns montam as bancas, espetam no chão os prumos dos toldos, a adiantar serviço. Outros ficam-se a ouvir uns lamentos gitanos, com palmas e castanholas, debaixo dos negrilhos. Depois a noite cala-se, e ao amanhecer o campo está todo mudado. As carrinhas são mil, arrumadas a esmo, e ninguém as viu chegar.
Despejaram caixotes de roupas contrafeitas, e botins de vaqueiro, e sapatos de borracha de fabrico artesanal, e camisas de algodão temos os números todos, e sutiãs de peito avantajado, e saias a cinco euros, e sapatos de pele genuína porque o nacional é bom, e meias de fibra à dúzia, e óculos que protegem dos raios violetas, e perfumes Chanel e Dune e Armani, e serviços de faiança, e cutelarias finas, e bouquets de flores que parecem verdadeiras, e ventoinhas de pé alto, e relógios de parede para pendurar lá na sala, e colares de pechisbeque dos artistas de Marrocos, e bonés de bico de pato à maneira americana, e chás para o costerol, e os problemas da prosta, e para as pernas cansadas e a má circulação, e este pau de cabinda para acabar com as tristezas, e as artroses da coluna, e este chá de quebra-pedras, e frascos de emagrecer, e ténis de boa marca, e chapéus de palha à antiga, e facas de serra alemã, e suportes de garrafas e tudo o mais que é preciso no lar, e discos do Leonel ó Maria dá-mo tu, e tapetes de gazelas, e vergas feitas à mão, e canapés de bambu, e flutes para a champanha, e gomas e caramelos, e DVD’s com dinossauros, e cassetes da Romana aperta aperta com ela, e fatos de casamento, e masseiras de madeira, e sandálias ortopédicas para quem sofre dos pés, e boinas à espanhola, e bermudas para o calor, e vestidos indianos, e buganvílias em vasos, e azeitonas andaluzas, e cintos de cartucheira, e tesouras de podar, e mochilas de viagem, e cantis de caçador, e ancinhos de jardinar, e carpetes de leões, e mobílias de salão, e motas-miniatura para maiores de 14, e canas para ir à pesca, e medidores de tensão, e narguilés de berbere, e ratoeiras de mola, e oliveiras cordovil, e panelas de três pés, e enxadas de cinco arráteis, e queijos de cabra caseira, e barbies que dão à perna, e almofadas de coração, e discos da Floribella mexe mexe que é tão bom, e meadas de algodão, e helicópteros apache, e óculos de visão nocturna, e casacos camuflados, e atafais para o jumento, e ferros de picar pedra, e melões pele de sapo que chegaram de Almeria, e molhos de couve troncha, e sacos de hipericão, e camisolas do Ronaldo, e presuntos de Lamego, e o melhor lombo para assar, e bandeiras da selecção, e toalhas de Barcelos por dez euros leva quatro, e pipas de carvalho francês, e manjedouras de ferro, e pimentos do Padrón, e tanques americanos para ir à guerra dos mouros, e cassetes do Tó Costa tu tens que me dar o pito, e figos lampos do Douro, e gaiolas de plástico que já trazem melro dentro, e bordados da Madeira que isto hoje é para rebentar…
O povo discute preços, e às vezes fala francês enquanto vai passando. Os pregões afogam-se uns nos outros e a gritaria não pára. Mas ao meio dia a energia esmorece. Há corpos transpirados que abancaram sob os toldos, mandam vir frangos assados. Eu encolho-me num banco, peço um jarro de palheto e escrevo as minhas notas. Que remédio, se estamos no mesmo barco. Ficou-nos este esqueleto sem chegar a ganhar corpo, e o comboio da Europa passou por cá sem parar. De alguma forma temos que viver.
À tarde o campo está outra vez vazio, durante uma semana. E os lixos ficam para a câmara, que se cobrou das derramas.

Jorge Carvalheira

«Uma guerra sem fim»

Hoje, no «Público», com o título ‘Uma guerra sem fim’, escreve Pedro Paixão um texto de exemplar formato. Algumas passagens:

«Quando, em 1948, a fundação do Estado de Israel é declarada, o país é de imediato reconhecido pelos EUA e a União Soviética e atacado, no dia seguinte, por quatro países árabes vizinhos. É nesse combate que a independência e existência de Israel se consolida. As armas para Israel são cedidas por Estaline.»

«Do lado de Israel os que sonham e combatem por um “Grande Israel” são os aliados de facto dos grupos terroristas do lado palestiniano. A possibilidade de uma paz defensável moral e politicamente depende da desistência dos colonatos e do reconhecimento de um Estado palestiniano ao lado do Estado de Israel. O povo palestiniano, particularmente através da primeira Intifada, mostrou não só ser digno como ser justo ver a sua soberania reconhecida.»

A ilusão literária

A obra do poeta José do Carmo Francisco (também jornalista, com actividade cívica no centro de Lisboa) foi estudada pelo crítico Ruy Ventura em «José do Carmo Francisco – uma aproximação», com a chancela da Mastigadores do Mundo. O próprio estudado mantém na «Gazeta das Caldas» uma crónica quinzenal. Duma delas extrai-se o que aqui segue.

Tudo começou com as histórias do meu avô em Santa Catarina ao lume nas noites frias de Inverno. O meu fascínio pela literatura começou, assim, pela literatura oral. O meu avô punha um púcaro com vinho ao lado do borralho e, com vinho quente e açúcar, não há frio que resista. Só comecei a interessar-me pela literatura enquanto tal no chamado Ciclo Preparatório com o livro de leituras «Mar Alto». Foi aí que descobri a poesia de Cesário Verde e os contos de José Loureiro Botas. Dito de outra maneira: os calceteiros lisboetas de Cesário e os pescadores vieirenses de José Loureiro Botas.

Ora acontece que, por mero acaso, descobri num livro de Vitorino Nemésio («Jornal do Observador») uma frase muito certeira que vem mesmo a calhar para esta ocasião. Repare-se na exactidão e na profundidade do juízo crítico: «A glória literária é uma ilusão. Pensar que se dura mais do que o comum dos mortais, só porque se deixou palmo e meio de livros da própria lavra na estante, é uma puerilidade, senão uma presunção! Enquanto durar a nossa língua! Pois sim…» Mais à frente e reflectindo já mais em concreto sobre a obra poética, Vitorino Nemésio adverte: «A mensagem poética é como a carta de prego levada pelo navio de que, logo à saída do porto, tivesse morrido o capitão. Meia hora depois morria o imediato… Poesia, de certo grau ou nível semiótico para cima, é comunicação estanque, código para meia dúzia de decifradores generosos».

Este texto de Vitorino Nemésio não o leio como um murro no estômago, mas como um alerta de quem já viveu muito tempo e já mastigou muito mundo. Aqui há tempos publiquei uma crónica com o título de ‘Eu comovido a Oeste’ na qual reflectia com alguma tristeza nostálgica e com alguma ironia à mistura, o facto de em tempos terem dito que eu não tinha nome para escritor, tal como já o tinham feito antes com o José Loureiro Botas e com o Tomás Ribeiro Colaço. Colocado num «blog», o texto da minha crónica mereceu um «post» de Nicolau Saião nestes termos: «Para me congratular e irmanar com JCF felicitando-o por este texto, abandono por um minuto o meu exílio voluntário e deixo aqui este apontamento referente a gentes que não querem que ele tenha nome de escritor (estatura tem-na ele e grande): considerável tempo atrás houve um fulano escrevedor que, posto perante a minha alta estima por ele, me disse esta coisa nefanda: ‘Não ponha esse indivíduo tão alto… ele nem é licenciado!’ O nome não o deixo agora por uma questão de piedade. A JCF e Ruy Ventura a estima e o apreço sempre renovados por parte de alguém que também não tem nome de escritor e mesmo assim anda contente na existência!».

Já agora, para quem tiver curiosidade em ler mais em pormenor, o nome do «blog» é Alicerces1. Vitorino Nemésio diz que a glória literária é uma ilusão. Eu ao menos, e pelo menos, tenho uma vantagem: nunca tive ilusões…

José do Carmo Francisco

Um new look para o empresário português?

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O último número da revista “Nova Gente” inclui, entre muitas outras pepitas preciosas, um artigo sobre o “rei da noite de Albufeira”, Anthony Pereira. Este empresário é sobretudo conhecido, ao que parece, por ser amigo de alguns futebolistas, a quem chama com desvelo “os meus meninos”. E não julguem que é vida fácil “promover e muito não só Albufeira mas também todo o Algarve”. Afinal, como ele deixa claro no final da entrevista, “tenho os meus meninos Deco, Couto, Maniche e Conceição que me levam muito tempo. Estamos a falar de pesos-pesados”. Trata-se de um verdadeiro dínamo humano, portanto.
Mas é mesmo a “face mais fashion” deste colunável que o destaca. Analisemos pois com algum detalhe os pormenores que compõem a imagem de um metrossexual de sucesso.

1- A engenharia capilar é um must. Reparem como umas poucas farripas de cabelo desafiam a gravidade para impedir que a testa ganhe mais alguns centímetros. Não tentem isto em casa, por favor.
2- Um adereço indispensável: o crucifixo reluzente a querer saltar para fora do generoso decote. Noutra foto, que aqui não reproduzo por absoluta falta de espaço, a peça de joalharia em apreço surge sobre uma T-shirt branca. O efeito é ravissant.
3- O botão apertado criteriosamente escolhido, de modo a revelar os peitorais e limitar os danos que a exposição do abdómen poderia causar.
4- Arranjar e desenhar com esmero as sobrancelhas; eis outra actividade que o executivo de sucesso já não pode esquecer. Mas atenção: peçam à vossa esteticista que evite o design já popularizado pelo Marco Paulo.
5- Todas as pilosidades têm um papel importante a desempenhar. Seja a patilha afilada, o cacho de cabelos rebeldes na nuca, os irreprimíveis pêlos do peito ou a barba cerrada a transmitir rusticidade e energia.
6- A moda, sempre. Haverá melhor forma de anunciar de chofre a nossa presença do que usar uma fulgurante camisa multicolor com motivos étnicos e colarinho aerodinâmico?
7- Não esquecer nunca a importância crucial dos adereços: do arranjo de frutas ao relógio dourado, passando pela flute de Cordon Bleu. God is in the details, como se sabe.

É com uma gestão criteriosa e equilibrada de todos estes elementos que se cria uma imagem de grande impacte, sóbria elegância e, acima de tudo, muuuuuuito fashion. A ver vamos se cinzentões como o Belmiro aprendem alguma coisa com esta lição de estilo e savoir faire.

O novo sábio de Sião e os seus protocolos

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Por fim, descobrimos de onde brota a visão que Vasco Graça Moura tem da esquerda. Trata-se de um simples fenómeno de projecção: se imagina todos os esquerdalhos como fanáticos que só vislumbram o “seu” lado dos factos, como malta que não tem pejo em ostentar publicamente o preconceito mais cavernícola… é apenas porque ele, VGM, é precisamente assim.
Na sua crónica de hoje, refulge um fascinante exercício de propaganda negacionista. Enumerando os ataques que os judeus têm sofrido na Palestina, de 1920 até hoje, e branqueando por omissão a violência exercida sobre os palestinianos. Os crimes do Stern Gang e do Irgun ficam sem uma palavra. Massacres como o de Deir Yassin, perpetrado antes da independência e num local fora da zona destinada a Israel, talvez nunca tenham ocorrido. A fuga em massa a que ainda hoje os palestinianos chamam Al-Naqba, a Catástrofe, é resumida ao inacreditável “por várias razões, entre elas o medo, 656 mil árabes fugiram do território de Israel depois de 1947-48”. As tais “várias razões” talvez se entendam melhor à luz destas palavras de Menachem Begin, então um dos comandantes do Irgun: “a lenda de Deir Yassin ajudou-nos, especialmente a salvar Tiberia e na conquista de Haifa (…) Os árabes começaram a fugir em pânico, gritando ‘Deir Yassin!’…. Árabes em todo o país caíram num pânico sem limites e começaram a fugir para salvar as suas vidas.” Só na higiénica propaganda de VGM é que este medo surge como coisa injustificada, sem causa à vista. Vergonhoso.
Nada resiste ao esforço revisionista (ou à ignorância) do poeta/historiador. Mesmo a Guerra dos Seis Dias sofre uma metamorfose: ter-se-á tratado afinal de uma “reacção de Israel” à invasão do Sinai pelos egípcios. Note-se que no mundo real, não o das alucinações de VGM, foi Israel quem disparou os primeiros tiros nesta guerra.
Mas a ignomínia absoluta instala-se quando ele cita Paul Johnson para constatar que “para os árabes não há qualquer seriedade numa negociação. Esta, para a sua mentalidade, implica uma cedência a interesses contrários e é considerada traição. Quando muito aceitam tréguas para recuperarem o fôlego e pegarem de novo em armas.”
Que diriam de alguém que citasse prosa similar, para, por exemplo, “provar” o carácter ganancioso dos judeus, que, como todos “sabem”, vendem a dentadura da avó se o preço for vantajoso? Pois é: só uma besta quadrada e inimputável se lembraria de tal.
Como bem escreveu o António Figueira, “tendo em conta a natureza semita dos árabes, esta citação é talvez a maior manifestação de anti-semitismo recentemente publicada na imprensa portuguesa.”
A crónica intitula-se “As lembranças de Sião”. Mas “Os novos protocolos do sábio de Sião” seria título mais acertado para encimar este exercício de propaganda que apenas encontra malfeitorias (e até defeitos genéticos provavelmente incuráveis) num dos lados, esquecendo os monstros que se acoitam no outro.

O que falta ainda

A ler, no «Público» de hoje, o artigo de João Teixeira Lopes, sociólogo, «Um massacre é um massacre é um massacre é um massacre». Aqui vai um excerto.

«Eu que detesto os teocratas iranianos e a sua idolatria; eu que abomino o caudilhismo de Chávez e a cleptocracia angolana; eu que em nada defendo a presunçosa e secular ditadura Síria; eu que afirmo, como a esquerda a que pertenço, que não há nenhuma sociedade modelo ou “farol da humanidade” – nem o falecido “comunismo real”, nem o autoritarismo dinástico cubano, nem a horrenda monarquia norte-coreana, nem o capitalismo selvagem da China; eu que nunca defendi ou apoiei ou armei taliban e Saddam Hussein no massacre a curdos, xiitas e comunistas, como fizeram sucessivas administrações americanas e o Governo português no tempo de Cavaco primeiro-ministro com Durão Barroso à frente dos Negócios Estrangeiros; eu que denunciei, como milhões de cidadãos e cidadãs no mundo e do mundo, a guerra contra o Iraque e a intervenção no Afeganistão, e que vejo, agora, a guerra civil, o ódio disseminado, o caos flagrante, as chacinas diárias; eu que escrevo contra essa nova vanguarda de extrema-direita, a tribo neoconservadora, detentora da luz que iluminará o mundo, os novos cruzados do império americano e da ideia pura de democracia e do seu proselitismo, os acólitos da ideia de guerra de civilizações, os tementes do relativismo e da democracia avançada (a tal que, felizmente, tudo questiona, porque não há nada que não deva ser questionado, apesar do medo que isso lhes causa), os que defendem Washington como se defendessem Roma contra os bárbaros, desculpando, é claro, e omitindo, sempre que possível, os desmandos do império, como as grosseiras e constantes violações dos direitos humanos (vejam o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão – laboratórios inteiros em que, à custa da morte de centenas de milhares, tais peregrinas ideias se desfizeram em destroços – o que querem mais para além da prova, mais que científica, mais que experimental destes cenários de horror, o que falhou, que guerras são ainda precisas, digam-nos Helena Matos, digam-nos, José Pacheco Pereira, digam-nos, José Manuel Fernandes, digam-nos, João Carlos Espada, mas digam-nos de uma vez por todas, o que falta ainda?»