Pavlov redivivo

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Alguns dos nossos compadres blogosféricos descobriram uma importante lição de vida nestes dias de guerra no Líbano. Como muitos outros grandes inventos, deve ter começado com uma singela interrogação: se se pode classificar indiscriminadamente os que se opõem aos desmandos de Israel como “anti-semitas”, porque não encontrar um mecanismo similar para atacar quem não pensa como nós, à escala doméstica? Lá andaram a remoer o problema nos seus think thanks (presumo que esta actividade tenha sido regada com muito Chivas, a aquilatar pelos resultados) e acabaram por dar à luz a solução perfeita.
Primeiro, o dispositivo foi experimentado pela sempre vaporosa e inimputável Bomba. Passado o teste de fogo, lá foi a arma entregue às tropas a sério: o Blasfémias e o Insurgente. E de que consta, afinal, esta verdadeira WMD? Simples: se alguém discorda de nós, seja a propósito do bombardeamento a Qana ou do plantel do Benfica, é por certo simpatizante, acólito ou assalariado da asquerosa “extrema-esquerda”.
Genial. E isto nem carece de qualquer cuidado com a realidade: não interessa saber quem é o visado, se é mesmo de esquerda, se é ao menos militante do BE… tudo são minudências a esquecer. Nem importa precisar o que será isso da “extrema-esquerda”: deixada no ar, a acusação implica amor desenfreado por Estaline e analogias de bossas com Pol Pot. Urge é ter sempre engatilhada a resposta demolidora e multiusos: “ai escrevi mal a palava ‘redação’*? Olhe: quem repara nisso só pode ser de extrema-esquerda!”
A Bomba começou por disparar o novo morteiro conceptual na direcção do pobre Alexandre Andrade. Agora, é o insurgente André Azevedo Alves que descreve o Filipe Moura como “um activista de extrema-esquerda que está a estagiar no Público”. Assim mesmo. O Filipe já não é o cientista, doutorado em Física, que foi um dos vencedores da iniciativa “Cientistas na Redacção”. Nada disso: agora, não passa de um mero estagiário de extrema-esquerda.
Na peugada do chefe de fila, segue lesto o blasfemo João Miranda, com graçolas secas sobre uma tal “economia anacleta” (presumo que seja referência ao nome de Francisco Louçã, por acaso economista com obras de alguma circulação internacional), sempre a propósito do Filipe. Ora, este poderá ter muitos defeitos; mas não consigo imaginar que a adesão à tal “extrema-esquerda” seja um deles, sobretudo tendo em vista o seu frenético apoio à infausta candidatura do Dr. Mário Soares.
Quanto ao caso do Alexandre Andrade e da Bomba, nem comento o disparate que é lançar acusações difusas e inexplicadas sobre quem não se conhece nem entende.


* O João Miranda termina o seu libelo, em que tenta achincalhar a ideia que o Filipe fará da Ciência, com a pergunta supostamente assassina: “Quantos homeopatas é que vocês têm na redação?” Só que a questão acaba por revelar-se suicida: até um homeopata moderadamente competente saberá escrever “redacção”.

14 thoughts on “Pavlov redivivo”

  1. Lamento, caro Eugénio, mas trata-se de óbvia aldrabice. A falta de graça ainda poderia ser atribuída ao longo pousio; mas ninguém acredita que o MEC escrevesse “sub-desenvolvido”.

  2. Luís,

    Muito obrigado por nos teres dado o alamiré dessas batalhas entre a extrema-esquerda filipiana e os defensores do sistema capitalista que ainda andam a pensar que a maioria das raparigas na Suécia são louras. Enfim, só lá fui para te fazer a vontade, mas, infelizmente, chego aqui de mãos a abanar, sem te poder dizer quem, entre essa gente de extrema-erudição política e económica, é puta de dez euros ou call girl que leva dez vezes mais para pôr uma mama de fora.

    Uma coisa, no entanto, é certa, e quase me obriga a puxar do lenço para limpar a ranhuça lacrimosa: nenhum desses advogados da competição, confronto, repartição de lucros, debate sonso e acusação ridícula, parece concordar com a ideia (infelizmente estranha à traça que vai roendo o livro da História oficial) de que o Comunismo foi um investimento dum sector restrito da banca capitalária (que nunca foi nessa da “luta de classes”) de primeira grandeza e a toque de grafonolas de gente mais esperta e iluminada.

    E até aposto que nunca passou pelos neurónios de nenhum dos “caluniadores” do Filipe o desejo relâmpago de perguntarem às paredes por que razão, ou razões, as fundações quase simultâneas de partidos comunistas por todo o lado se deram sessenta anos depois do famoso Manifesto. Imagine-se as voltas que a Quimica e a Física deram até eles se resolverem a darem o grande passo! O que é que essa malta andou a fazer, anos e anos, a roçar as bundas pelos cus de gente socialista pouco extrema e com jeitinho para o negócio em liberdade? Good question. E não sou eu que vou deixar aqui uma lista de pessoal com muito milho (seus capitalistas degenerados!) e ideias muito mais “extremas” que o Filipe Moura. Era o que faltava!.

    Que o Filipe complete o seu estágio com muito êxito. Um dia destes, calhando, até vou pedir-lhe que me dê o seu parecer sobre a Teoria da Expansão Atómica, e tenho quase a certeza de que não irá espalhar-se ao comprido com ortodoxias científicas.
    TT

  3. Desta vez estás a ser injusto, TT.

    Os argumentos deles foram mais anacletos que qualquer possibilidade de se vender comunismo num mundo capitalista.

    O Filipe pode ter sido desastrado na estratégia de mostrar o lobby liberal.

    Mas que ele existe e que não está lá para falar apenas de economia com o mesmo rigor científico que ele pode falar de Física, não tenhas dúvidas.

    O azar, ou sorte (vou mais para esta) do Filipe é que trabalha com assuntos menos passíveis de serem usados para venderem políticas e ideologias.

    O resto só se pode pegar pegando nos ditos textos.

    Se não há concurso público para entrarem que é que se pode lamentar?

    que o lobby liberal tenha mais força que outro?

    Pois, se calhar. Mas cá para mim, pato é quem financia.

    Já li uns textos que só mesmo um tontinho ia atrás daquilo.
    Nada de muito diferente do que se lê à borla na blogosfera

  4. “Ora, este poderá ter muitos defeitos; mas não consigo imaginar que a
    adesão à tal “extrema-esquerda” seja um deles, sobretudo tendo em
    vista o seu frenético apoio à infausta candidatura do Dr. Mário
    Soares.”

    Pondo de parte as tricas entre bloggers e centrando-me apenas nesta
    ultima afirmacao. A Joana Amaral Dias tambem se destacou no apoio a
    Soares. Posso concluir que, na tua opiniao, um dirigente do Bloco de
    Esquerda nao e’ obrigatoriamente de extrema-esquerda?

    LA-C

  5. Caro Luis,
    Apenas para esclarecer que quem afirmou que estagiava no Público foi o próprio Filipe Moura.
    E que a quem afirma que desde sempre sentiu que os preços não podem ser deixados à mercê dos comerciantes? Convidá-lo a escrever sobre economia (assinando com o PhD em Física)?. A autoridade está no que se escreve…

  6. A questão do Luis não está na “autoridade” e nem no comentar o que supostamente se escreveu. Está mais nas reacções “pavlovianas” (eu chamar-lhe-ia simplesmente primárias) do André Azevedo Alves. O AAA já tinha dado outras demonstrações na minha opinião ainda mais cabais do seu primarismo com o Aspirina B, nomeadamente com o Valupi (que é feito desse gajo?). Só por escrever aqui o Valupi foi logo rotulado de “extrema esquerda” pelo AAA. De seguida lá escreveu algo que levou o Euroliberal a chamar-lhe “ssharonesco” ou “neo-con bushista” ou outra coisa do género. Graças a esse texto, para o AAA o Valupi passou a ser “esquerda lúcida”. Ora eu nem sei se o Valupi se considera de esquerda!

  7. Cá para mim até podiam chamar a Joana Amaral Dias apenas de “extrema-qualquer-coisa” mesmo assim, o grande problema é que usados assim os carimbos de “extrema-qualquer-coisa” se ajustam tanto às várias esquerdas como às várias direitas, às vezes por razões muito parecidas, e depois lá temos nós que eleger o Euroliberal como exemplo de lucidez intelectual.

    Ora bolas se isto continua assim, estilo troca de carimbos, eu ainda me vejo de facto obrigado a eleger o Euroliberal como modelo intelectual, ainda acabo a escrever na Atlântico.

  8. Este post levou-me, de link em link, a um outro do Insurgente, e dos mais inacreditáveis, em que eles redimiam o senador Mc Carthy e apelidavam de “comunista” quem não pensasse da mesma forma. Só revela abertura de espírito…própria de um estado policial.

  9. A verdade é que 1917 é muito diferente de 2006. Coisa tão óbvia, que o mundo na sua voragem inelutável de dinâmica e conhecimento, naturalmente repulsa e se indigna, sorrindo.
    Os comunas de carne e osso, cegos na parcialidade imoral, lutam apenas por uma cota de mercado, intelectual ou política, reféns de uma subdita “in”coerência ideologica, que mais serve à própria autocracia, pedente e egoísta, do que um pensamento real, abrangente e realmente sério e positivo.
    A militância ideológica, de um extremo ao outro, servirá apenas um pérfido proposito: a manada e o seu atrofio intelectual.

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