Melhor de 2008

Apareceu no Verão esta maravilha recolhida directamente de vacas alimentadas exclusivamente com chocolate belga (verdade verdadinha). Todos os dias começo o dia a virar de penalti um quarto no quarto. Agora é só esperar que apareça a versão chocolate preto, com mais cacau e menos açúcar. Se vier, Portugal fica na vanguarda da civilização (e cá com um vigor, ó pá…).

Pior de 2008

Pacheco Pereira representa aquilo que de pior aconteceu na sociedade portuguesa em 2008. Funciona como uma lente gravitacional, amplificando com a sua galáxia de opiniões os vícios, fraquezas e disfunções da classe política, da direita, do PSD, da oposição e da intervenção cívica profissional.

2007 tinha acabado muito bem para o Pacheco. Era a cara da resistência interna à gaia demência, a esperança de regeneração do PSD, e em Dezembro teve a coragem de publicar esta meia-denúncia sobre uma situação escabrosa. O silêncio geral que se seguiu confirma a dimensão do que deixou entrelinhas, poço sem fundo de cumplicidades que fazem parte do regime paralelo onde a corrupção e o crime ditam as leis. Infelizmente, 2008 veio desbaratar pecúlio tão promissor, num crescendo de fulanização, distorção e depressão.

O modo como este gabiru da análise política falhou o entendimento do papel histórico de Sócrates é, sob qualquer ponto de vista, espectacular. Em 2005, estava claro que Santana encerrava em desgraça o ciclo começado com a fuga de Cavaco, em 1995; primeira traição a Portugal por desresponsabilização após a entrada dos fundos europeus, e a qual levou a uma sucessão infame de governantes e líderes partidários. Não se poderia piorar, não havia nada mais radical do que a destituição de um Governo com apoio parlamentar, pelo que algo diferente começaria necessariamente após a inaudita decisão de Sampaio. E, de facto, o Governo PS saiu melhor do que a encomenda, obviamente com o contributo decisivo da maioria. Mas a grande, enorme, diferença estava na cultura altamente profissional daquele grupo governativo, apesar das naturais diferenças individuais entre ministros. A ambição reformista de Sócrates atacou um inimigo com décadas, ou séculos, de atavismo cultural e marasmo cívico, brilhantemente diagnosticado pelo José Gil pouco tempo antes. Ninguém sabia até onde se conseguiria chegar nem quais as consequências sociais das reformas. Apenas se tinha consciência, cheios de raiva e nojo, que não se podia esperar mais.

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Vinte Linhas 308

«O Século» de Lopes de Mendonça (O primeiro jornal socialista)

Lopes de Mendonça (1826-1865) figura no nosso século XIX ao lado de Garrett, Castilho e Herculano: historiador, poeta, jornalista, folhetinista, doutrinador, crítico e ensaísta. Mas também fundador e redactor anónimo de «O Século», um jornal de 11 números com 16 páginas cada, que se publicou entre 10 de Abril e 25 de Junho de 1848. Ernesto Rodrigues recupera-o para os leitores de hoje em 165 páginas de texto anotado.

Vejamos como Lopes de Mendonça escreve sobre a República em 1848: «A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Ás revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-há esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?»

Incansável jornalista e homem de ideias, Lopes de Mendonça responde à pergunta «O que quer o socialismo?» deste modo: «A fraternidade substituída ao individualismo: isto é, o indivíduo ligado pelos sentimentos e pelas instituições à sociedade: a associação em vez da concorrência, isto é um regime industrial que iguale as condições dos três agentes da produção, o capital, o talento e o trabalho».

A capa deste livro que vem revelar um novo aspecto na história das ideias do século XIX em Portugal reproduz um quadro do pintor Gaspar David Friedrich (Nuvens passageiras).

No president is an island

Por que é que a Assembleia da República não alterou o Estatuto apesar de vozes, vindas dos mais variados quadrantes, terem apelado para que o fizesse, considerando que as objecções do Presidente da República tinham toda a razão de ser?

Principalmente, quando a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas?

Foram várias as vozes que apontaram razões meramente partidárias para a decisão da Assembleia da República.

Pela análise dos comportamentos e das afirmações feitas ao longo do processo e pelas informações que em privado recolhi, restam poucas dúvidas quanto a isso.

A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés.

O problema do Estatuto dos Açores, relativo ao berbicacho que o paupérrimo discurso presidencial da noite passada vem mais uma vez confundir, entra directamente para o grupo das clássicas questões bizantinas. Os sábios bizantinos viviam bem, pachorrentos e anafados, pelo que tinham muito tempo livre. Discutiam problemas abstrusos como o de se encontrar a causa principal pelo facto de um homem ter sido atingido na cachimónia por um tijolo. Possibilidades: foi atingido porque ia a passar no momento em que o tijolo caiu ou teria sido atingido porque o tijolo caiu no momento em que ele ia a passar? E assim se divertiam e consolavam. No nosso caso, estamos perante uma querela jurídica, a qual na sua abstracção máxima dá razão à posição presidencial. Porém, caso a Assembleia da República anuísse, estaríamos, pela mesma lógica invocada pelo Presidente, a desequilibrar o regime a favor da Presidência – logo, em detrimento do parlamentarismo.

O Presidente da República não tem feito outra coisa senão errar neste processo, desde o começo. Até parece que foi de propósito, tanta a estupidez: não envia para o Tribunal Constitucional todas as passagens problemáticas; assusta o País em Julho com uma comunicação críptica que deixou meio Portugal perplexo e o outro meio estupefacto; não consegue expor convincentemente a sua posição nos 5 meses seguintes; promulga o Estatuto, mas exibe-se ressabiado a disparar em todas as direcções. Ao menos que o discurso fosse bom, mas nem medíocre conseguiu ser:

– Que cena é essa das vozes, vindas dos mais variados quadrantes? Vozes?! O Presidente anda a ouvir vozes ou acha que a política é o reino da vozearia?…
– Que maluquice é essa de sugerir que a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas? Quer dizer que não está? Então, que se digam os nomes e se apontem os prejuízos. Mas, vejamos, que se está a propor? Será uma reedição do deixem-me trabalhar agora em versão deixem-me ser eu a mandar? Esta passo arrisca-se a ser aviltante, transmite a ideia de uma desejada capitulação da vontade democrática face aos desígnios presidenciais.
– Que raio são razões meramente partidárias? Ou serão as razões meramente partidárias, para o Presidente, de si e em si, politicamente insuficientes e moralmente ilegítimas? Serão os próprios partidos demasiado partidários para o gosto do Presidente?
– O Presidente faz análise de comportamentos, o que faz dele um psicólogo ou um etólogo.
– O Presidente faz análise de afirmações, o que faz dele um linguista ou um hermeneuta.
– O Presidente recolhe informações em privado, o que faz dele um espião ou um coscuvilheiro.
– O Presidente admite ter poucas dúvidas quanto a isso. Tudo bem, mas quais são elas? Sabemos que serão pelo menos duas dúvidas, talvez três ou talvez trinta, mas se ainda tem dúvidas como é que pode vir falar ao País? Não seria melhor esclarecer totalmente o assunto em vez de despejar insinuações birrentas?
A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés. Dizes bem, Presidente, usando o condicional. Já quanto à tua prestação na ida à Madeira, onde foste humilhado, e no caso do Parlamento Regional da Madeira, onde a Constituição foi ofendida, não restam quaisquer dúvidas: a nossa democracia sofreu, e vai continuar a sofrer, um sério revés.

O país gripado


Este filme publicitário do medicamento Ilvico N tem passado na RTP Memória (pelo menos), e esteve disponível durante uns dias no YouTube, algures no início de Dezembro. Começa por mostrar um homem de cama, ao telefone. Este informa um colega de que vai ficar em casa por estar doente. O colega diz-lhe que, nesse caso, tratará ele das entrevistas, mostrando-se muito satisfeito com a situação. De seguida a câmara foca as coxas nuas de uma jovem mulher (na imagem). Essa mulher, ao levantar-se, exibe úbere regaço em generoso decote. O filme termina com a mulher avançando dengosa para o entrevistador, estando duas outras candidatas à espera.

Assim por alto, umas 20 pessoas terão tido influência no anúncio supra, entre pessoal do marketing, da publicidade e da produção vídeo. De acordo com uma anedota recorrente no meio publicitário, as campanhas acabam por ser aprovadas pelas esposas dos directores de marketing. Eles chegam a casa, jantam, vêem o Malato e depois mostram as propostas da agência às madames. Os directores de marketing – segundo a sabedoria forjada pelos publicitários nos anos 60, 70 e 80 (quando ainda não havia mulheres em cargos de direcção nas empresas em Portugal) – não se preocupam muito com os consumidores e a inteligência das agências, querem é ter um reclame que não os deixe ficar mal perante a esposa, filhos e amigos. Não estão para levar raspanetes ao deitar durante o período da campanha. No fundo, eles pensam (mal, muito mal) que qualquer ideia acaba por ter o mesmo efeito desde que esteja no ar o tempo suficiente (no que têm razão, mas não a razão toda). E também sabem que ainda não se inventou a máquina que consiga medir a eficácia das ideias de comunicação antes de chegarem aos consumidores (é aqui que entra o valor da agência), pelo que vale tudo (é aqui que ele é desprezado). Ora, se tal ausência de certezas acaba invariavelmente por ser colmatada pelo gosto de alguém, porque não o da esposa?

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Um livro por semana 94

«Recuperar a claridade» de Joaquim Carvalho

O registo destes poemas oscila sempre entre a Natureza e a Arte. A Natureza está na página 102: «Oiço / o gaio / cantar nos pinheiros. / Num agitar de asas / a caruma cai / doura o chão / e acrescenta odor de resina / que / misturado no ar quente / me incita a mergulhar…» A Arte está na página 105: «Pintar-te é dar cor ao último pensamento / Desenhar-te é ser contorno da tua pele / Esculpir-te é encontrar teu espaço dentro de mim / Amar-te é darmos sentido ao último encontro.»

«Recuperar a claridade» é o título do poema da página 125: «O que outrora / era claro e transparente / adquiriu num ápice / a turbidez de um rio de lama. / Agora as nuvens escondem no avesso / o que resta da luz dos dias que já teve. / Por fora / a penumbra anuncia a tristeza que o espera / se não for capaz de impedir que a escuridão / se instale. / Há que ceifar rente a morte / e, com alegria, / recuperar a claridade / que as nuvens escondem.» E só existe uma maneira de cumprir esse programa, de recuperar a claridade. É pelo amor porque só o amor pode ser uma resposta para a morte. Como na página 184: «Sem vislumbre / sem procura / sem razão / sem tempo / Puro encontro… / leve… / sublime… / translúcida… / transparente… / Inevitável viagem / Inês é vela / Pedro é timoneiro / Lá dentro vamos todos nós / Vai Portugal inteiro!»

Um poema não é um amontoado de palavras, é um lugar mágico para estarmos todos juntos. No fim desta viagem de 191 páginas fica uma certeza: Só o amor responde à morte e só há uma medida para o amor – é amar sem medida.

(Pangeia Editores, Apresentação: Urbano Tavares Rodrigues, Nota: Rodrigues Vaz)

Anfibologia da crise

Desde 2000 que é consensual a ideia de não haver no Planeta recursos que cheguem para os consumos que se prevêem na China, Índia e outras potências emergentes onde a classe média cresce dramaticamente. Na alta do preço do petróleo, na Primavera de 2008, uma das teses explicativas do fenómeno sugeria estar a China a comprar desenfreadamente para garantir os consumos próprios no futuro de médio e longo prazo. Para agravar, os especialistas antecipavam o esgotamento das reservas em poucas décadas, tanto por causa da ausência de novas descobertas significativas, como por causa do aumento do consumo global.

Desde 1988 que é consensual a ideia de não ser possível evitar catástrofes ecológicas inimagináveis se continuarmos a emitir para a atmosfera poluentes nas quantidades registadas, quanto mais nas previstas. A questão da origem do aquecimento global é já secundária, pois está em causa conseguir aplicar todo e qualquer meio para conseguir adiar, reduzir ou anular os efeitos nocivos (a maior parte deles completamente imprevisíveis) da alteração das temperaturas.

Após a 2ª Guerra Mundial, a Europa Ocidental e os Estados Unidos desfrutaram de 5 décadas de prosperidade sem paralelo na História. Bem cedo se criticaram as assimetrias económicas entre esse mundo da abastança e desenvolvimento e a pobreza e subdesenvolvimento circundantes. O que um cidadão médio europeu ou americano consome individualmente é escandaloso, aberrante mesmo, quando comparado com a média individual do Terceiro Mundo. Para além disso, temos riqueza espalhada em vias de comunicação, estruturas públicas e privadas, instituições políticas democráticas, órgãos de justiça, forças de segurança, conhecimentos científicos e tecnológicos. Esta qualidade de vida foi obtida à custa dos recursos e ecossistemas globais, ao longo de séculos, e serve agora de meta para quase todos os indivíduos no Mundo.

Então, a crise não é apenas financeira e económica, é civilizacional. Na etimologia da palavra grega krisis está a ideia de separação e decisão, krinein, cujo étimo também se encontra no termo crítica. Mais tarde ou mais cedo, teríamos de tomar decisões quanto ao que vamos fazer com esta Terra perdida nos subúrbios duma Galáxia à deriva na imensidão do Universo visível. Se for mais cedo, talvez não venha a ser tarde demais. Precisamos de encontrar e apoiar os dirigentes que saibam montar este tigre.

Vinte Linhas 307

Para eles Portugal acaba nas portagens de Sacavém

Acabo de ler o «Diário de Notícias» de hoje 28-12-2008 e na sua página 12, quarta coluna lá está «A autorização do Tribunal de Torres Vedras foi dada na sexta-feira…» Parece um caso isolado mas não é; ontem, dia 27-12-2008, na página 18 o ante título já anunciava: «O Tribunal de Torres Vedras adiou uma semana…»

Temos aqui um grande jornal a cometer dois erros grosseiros dois dias seguidos trocando Torres Novas por Torres Vedras como se tudo fosse a mesma coisa.

Entre 1997 e 2001 trabalhei na redacção do jornal semanário «O Mirante» (hoje o maior jornal regional português) e, sempre que surgia um caso parecido, ouvia a advertência: «Para eles Portugal acaba nas portagens de Sacavém». A frase era um lamento dirigido a mim (que não nasci em Lisboa) embora o destino final da chamada de atenção fosse alguém incógnito numa redacção de Lisboa. Nesse tempo ainda havia portagens em Sacavém coisa que hoje não acontece – passaram para Alverca. Mas o resto fica como estava – para muita gente Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. E o «seu» país, o seu pequeno país acaba mesmo nas portagens de Alverca.

Torres Vedras será o mesmo que Torres Novas mas não para quem lá vive, quem lá nasceu e lá estuda ou trabalha. Todos temos direito ao nosso nome e as cidades são como as pessoas – também se sentem feridas quando o seu nome aparece trocado. Depois de ter acabado de beber o meu café no Chiado (centro do centro) pensei logo no que poderia ter ouvido se tivesse continuado na redacção de «O Mirante». Apenas com uma diferença – já não existem portagens em Sacavém. Agora são em Alverca.

Casamento homossexual segundo Jon Stewart

Jon Stewart é um fenómeno de popularidade porque defende ideias, não se limitando aos oportunismos, clichés e palhaçadas do contra-poder. O seu humor apela à cidadania, à assunção de causas, à responsabilidade política que é nossa por direito inalienável nas democracias. 8 anos de Bush ofereceram-lhe um estrelato merecido e cada vez mais relevante nos EUA e fora.

Em todos os programas há uma entrevista que dura à volta de 15 minutos, para menos. É o caso desta com Mike Huckabee, peso-pesado dos Republicanos e do conservadorismo norte-americano. E é notável o empenho, até entusiasmo, com que o nosso humorista aproveita este segmento de 7 minutinhos para escavacar a posição do outro senhor. Posição essa que, sem um pressuposto religioso, se torna indefensável; como até sem legendas dá para perceber.

Jon Stewart não é de esquerda nem de direita. É do centro, aquele território onde se faz política com a inteligência no máximo e o tribalismo no mínimo.

Vinte Linhas 305

Mário Nóbrega também foi «levado» na gralha

Na edição de hoje (26-12-2008) do jornal «A Bola» um texto assinado pelo jornalista Mário Nóbrega começa por referir-se ao mais recente livro de José Saramago e acaba por citar o «Levantado do chão». Jornalista culto, correcto e competente, Mário Nóbrega cita bem a propósito a frase de Almeida Garrett que está na página 7 do «Levantado do chão» e na página 19 da «Viagens»:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico.» Lá está de novo a «infância» em vez de «infâmia». Agora num jornal que é lido por perto de um milhão de pessoas em todo o Mundo.

Contactado por telefone na sala de maquetagem do jornal onde trabalha, manteve um curto diálogo comigo e explicou-me que também no momento de passar a citação de A. Garrett para o seu texto hesitou longamente porque «infância» não lhe soava bem mas como aparecia em todos os livros de José Saramago que consultou e como não tinha à mão as «Viagens» de A. Garrett para desfazer as dúvidas, lá deixou seguir como estava.

O jornalismo é o esplendor do efémero e não se compadece com a calma e a ponderação. Nem os semanários escapam a essa febre. Perante a pressão do fecho das páginas que há pouco tempo eram feitas de granéis de chumbo e hoje seguem do ecran do jornalista para a gráfica por linha RDIS, não há (nunca há) tempo para grandes meditações nem para desfazer dúvidas. As gralhas também crescem e se multiplicam, como na Bíblia.

A pistola de plástico do Sr. Nogueira

Há brincadeiras que, pura e simplesmente, não são admissíveis. Os professores não estão nas aulas para brincar e os alunos também não podem estar.

Mário Nogueira não quer alunos a brincar nas aulas. As aulas são um assunto muito sério e só para gente séria. Os alunos, se quiserem brincar, podem sempre participar nas manifestações dos sindicatos, carregando cartazes durante três horas, porque isto da luta contra o fascismo toca a todos e os que começam ainda novinhos tornam-se nos grandes dirigentes sindicais e partidários do futuro. Outra excelente brincadeira consiste em agredir com palavrões e ovos os responsáveis ministeriais e as autoridades escolares; que é tão giro e a malta nos bares dos sindicatos ri-se tanto a ver na televisão eles a fugirem dos ovos, ó pá que galhofa, é um espectáculo enquanto se bebe mais uma e depois outra, só rir pá. Mário Nogueira também autoriza os alunos a fechar escolas a cadeado e a dizer mal do Governo aos papás, porque as eleições estão à porta e o filha da puta do Sócrates vai perder a maioria, o cabrão. Ai vai, vai. O cabrão.

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Fado menor para Marta (ouvindo Carlos do Carmo)

Uma coisa muito estranha

Sucedeu num Pavilhão

Marta ouviu em Espanha

O rumor desta canção

Aos mais diversos lugares

Chega esta melodia

Em Alcalá de Henares

Também faz companhia

Na Internet misturas

Canções com a poesia

Num Pavilhão às escuras

Lembrei a tua alegria

O Tejo aqui ao lado

Nasceu em Albarracin

Os acordes deste fado

São para não ter fim

Passou por nós a canoa

Ia a caminho da barra

Leva o som de Lisboa

Nas cordas da guitarra

Para tudo ser verdadeiro

Em Madrid, tua morada

Tu entras no cacilheiro

Que te leva até Almada

Não Almada mas Cacilhas

Companhia dos Vapores

Em teus olhos compartilhas

As canções destes cantores

E tudo fica em família

Nesta noite só de fado

Ouve-se a voz de Lucília

A voz de Carlos ao lado

O rio Tejo não termina

Permanece no estuário

A tua voz de menina

Regista som ao contrário

Vai reduzir a distância

Entre Espanha e Portugal

O fado ganha importância

Globalizado e geral

Amo-te, Fernando Mendes!

Rara lição na arte do improviso. Eis o único cómico, actualmente em actividade, que gosta do povo. Eis o único herdeiro de Vasco Santana, consegue fazer humor de empatia. Esta cepa está em extinção. E por isso o povo ama-o. Por isso o povo merecia que lhe dessem mais Fernando Mendes.

Feliz Natalidade

Quando for eu a mandar na cristandade (situação que estará por horas, senão minutos), as celebrações de Natal serão alteradas. Em vez do imoral e hipócrita desperdício consumista, que precisou de uma crise financeira global nunca antes vista para ser finalmente reduzido, a quadra terá como propósito levar o maior número possível de pessoas a dançar. Dançarem umas com as outras, com a família, com os amigos e com quem calhar. Para isso se reunirão os indivíduos e as comunidades. A dança começará exactamente no primeiro segundo do dia 25 de Dezembro. E durará até ao último segundo desse mesmo dia, para quem quiser e aguentar. Sim, pode-se ir dormir e voltar a entrar na dança. Haverá mais feliz celebração de um nascimento do que ter toda a nossa gente a dançar?

A Igreja actual nem sonha com o diamante que permanece por lapidar. Falta corpo, sangue, sexo no Natal. Falta nudez e luz para que se reaprenda o que é a santidade, o que é a pureza. A visão gloriosa do parto, dos corpos que precisam de se separar para se poderem conhecer e reunir, é a mais católica das experiências humanas. Caminho, verdade e vida que nos chamam para dançar. A todos, humanos, animais e plantas. Sempre a dançar, a renascer.

Um livro por semana 45

«Branco de Quintal» de F. Baião

A partir da história dum seu antepassado que nasceu no século XVII em Angola no quintal da casa do militar holandês de nome Van Cappel, o autor faz uma digressão pela História de Angola desde os tempos da Companhia das Índias Holandesas e de Salvador Correia de Sá até à actualidade do século XXI. Vejamos um excerto sobre o tempo de hoje: «O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado e gripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupa de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece.»

(Pangeia Editores/ Chá de Caxinde Edições, Capa: Luís Aires s/óleo de Jorge Gumbe, Prefácio: Francisco Soares, Apresentação: Rodrigues Vaz)

Vinte Linhas 304

Gosto mais da gatinha mas não diga nada à boneca

As botas que ontem calçaste lembram-me Vila Franca de Xira e os dias de festa na romaria da Senhora de Alcamé. Íamos nas carroças dos nossos vizinhos, havia farnel, missa campal, procissão, música e arraial entre o sol e o pó. A sede matava-se com vinho branco de Pegões mergulhado num cesto de vime na água fresca do braço dum esteiro do Tejo. Como nos livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. As «jeans» azuis dão à tua silhueta nos passeios da cidade o aspecto de menina do 12º ano mas já sei que a tua resposta adversativa é sempre a mesma: «Ai eu, por detrás Liceu, pela frente Museu». E o enorme sorriso que não termina.

Hoje apareceste de saia cinzenta e vejo nela não só o pedaço de tecido mas também uma bandeira, um pendão, um estandarte. O país és tu, a nação é o teu olhar, o território é o perímetro dos teus passos quando chegas à grande cidade voltando costas à cidade de cimento e ao comboio lento. Se o país é a soma da nação com o território então a tua bandeira representa um pequeno país a Norte deslocado no Sul, longe do azeite e das castanhas, do pão e do vinho, da luz das festas de Verão. Percebo agora melhor porque motivo em Itália se chama «paese» à aldeia natal de cada um. As nossas memórias são uma História particular a que todos temos direito, a nossa capela tem o valor de uma Catedral, a nossa escola o peso de uma Cidade Universitária, os nossos santos privativos a força dos Padroeiros Nacionais.

Hesito muito na escolha entre os teus «jeans» azuis e a tua saia cinzenta tal como a menina do livro da escola primária hesitava entre a gatinha e a boneca.

Um livro por semana 46



«A voz da Mãe» de Fernando Miguel Bernardes

Depois de «Escrito na cela», «Uma fortaleza da resistência» e «Docas secas», Fernando Miguel Bernardes recupera neste livro uma certa noção de história em testemunho: o cruzamento de uma história particular com a história mais geral do País no qual os sujeitos se movem. As histórias são pessoais e familiares mas o fito da narrativa é mais geral quando o narrador se dirige à Mãe, então morta: «Parecido contigo é o Francisco mas homem e pai de outra família que vai crescendo. Como tu curioso, à procura de uma explicação do mundo, como se uma razão houvesse do nascer e do viver, dos homens e dos bichos, da honradez e do perverso.» Uma das histórias tem a ver com a resistência ao fascismo: «arrombam e tombam e invadem e avançam e tu que te antepões à mulher a à criança, aqui param!, no quarto não entram! E em menos de um credo estás no chão, o menino a chorar pelo alarido que se gerou e a Sara pronto meu filho, não foi nada, e procura distrair-lhe a atenção, com ele nos braços cá e lá, e por ti angustiada.» É uma história de pessoas mas também da terra, da terra propriamente dita e do seu abandono: «Grande abandono grassa por aí. Triste sem dúvida mas a vida se concertará e quem vier há-de com certeza resolver este grave problema que a todos diz respeito. Um drama, pois quem o nega? mas de dramas nunca o ser humano se libertou nem libertará, assim o creio e sincera sou, duvido se ao mundo isso algum bem traria; das contradições é que nasce o novo…» Um livro no qual convivem histórias dos últimos cinquenta anos da nossa história pública recente e que, tal como afirma o autor do prefácio, «nos ajuda a manter viva a nossa memória colectiva».

(Editora: Occidentalis, Capa: sobre um óleo de Picasso, Prefácio: António Ventura)

Mas porquê com os jornalistas?

Paulo Querido destacou 4 conselhos de Anita Bruzzese, convidada de Crish Borgan. Vale bem a pena ler o artigo todo para melhor discordar do que se diz na síntese do Paulo.

O sempre útil e entusiasta (e nosso!) Paulo é enfático, refere-se a: todos os bloggers portugueses que eu conheço — and I mean todos. Eis o berbicacho: este conjunto corresponderá à nata da classe, aferida por critérios de popularidade. É um subgrupo que inclui jornalistas e pretendentes a jornalistas ou a comentadores oficiais, mais os outros que mimetizam estes. Para estes produtores de conteúdos, o nome é importante, porque está em causa constituir, ou enriquecer, o currículo. É a lógica do Daniel Oliveira e do Rui Tavares, para ir buscar um exemplo paradigmático, onde a passagem para os meios de comunicação profissionais (e de referência) aparece como prémio de consagração pelo tirocínio na blogosfera no momento da sua novidade mediática como canal agregador de elites. A enorme maioria dos bloggers almeja desfecho semelhante, sonha com ele, ufana-se sempre que recebe a atenção de um jornal, rádio ou TV. No entanto, a pirâmide continua a ter a base desvairadamente mais larga do que o topo, o que torna rarefeitos os lugares vagos na mesa dos publicistas profissionais. É o que leva muitos outros a disfarçarem a ambição frustrada, mas obtendo recompensas variadas pelo lado do convívio nas comunidades de autores, de leitores e da rede social própria – onde ainda é sinal de modernidade e sofisticação anunciar a presença em blogues.

É mais do que provável que este ramo da blogosfera já siga os conselhos da senhora. Aliás, o que ela escreve é básico, um registo tão elementar que poderia ser intitulado Anita e a blogosfera. Está a dirigir-se a um público inculto, que só agora entra no meio e que chega sem competências de comunicação. Só isso explica que tenha de botar discurso sobre a importância da gramática, da consulta de dicionários e da veracidade das informações. Ou que apele à procura de fontes de conteúdos fora da Internet, fazendo da novidade um fim em si mesmo numa lógica concorrencial, quando a quantidade incomensurável de informação disponível na Internet pede urgente tratamento de interpretação, correlação e reflexão. Mas o ponto interessante, onde a Anita e o Paulo se cruzam (não, não se trata de outro potencial título), é o da tese subjacente: If you want to be taken seriously by those outside the blogosphere, you’re going to have to verify your facts 100 percent of the time. O que está em causa é inequívoco, trata-se de convencer e encantar esses que não estão na blogosfera. Quem serão? E ainda mais trágico, se não estão na blogosfera, como é que alguma vez iremos conseguir despertar a sua misericórdia e obter as migalhas da sua atenção? Ou teremos de escrever um livro, como a autora não se cansa de recordar (referindo-se ao seu) nos 10 conselhos esgalhados?

Se a ideia for a de utilizar um blogue como meio de promoção para a obtenção de um lugarzinho nos meios de comunicação profissionais, os conselhos que o Paulo Querido em boa hora divulgou são válidos para exercícios padronizados e limitados pelos códigos sócio-profissionais dos jornalistas. Na prática, trata-se de anular a rebeldia e liberdade da blogosfera, uniformizando os discursos pela bitola politicamente correcta, industrial. Para quem não se interessar por esta cenoura, os modelos de referência podem e devem ser procurados noutras áreas da criatividade: literatura, poesia, universidade, tertúlia, teatro, política e happening. Sei lá. É contigo.

O Papa não alinha em paneleirices

Ao arrepio do berreiro que imediatamente se levantou, as declarações de Bento XVI onde se reafirma a posição da Igreja contra o casamento homossexual – aliás, contra os actos homossexuais, o que é ainda mais radical – são lógicas. Estranho seria que a Igreja não definisse com esta clareza o território que ocupa. E, quando muito, devíamos era aplaudir – todos, heteros e homos – o desempoeiramento papal de aproveitar a quadra natalícia para deixar os moralistas anti-católicos à beira da síncope politicamente correcta.

Deus, segundo os católicos, não gosta de homossexuais sexualmente satisfeitos. Que têm os não-católicos a ver com isso? Se os não-católicos não admitem aos católicos que se metam nas suas vidas, porque caralho andam sempre a tentar meter-se nas vidas dos católicos? É que já farta de tanto complexo de inferioridade perante uma Igreja que está reduzida a ser museu folclórico e garante dos feriados religiosos que nenhum ateu quer perder.