Quanto ao que se tem passado com as casas da Câmara de Lisboa, e que Ana Sara Brito exemplarmente subsume, o que mais incomoda são as reacções dos que se dizem chocados ou surpreendidos. Não consigo imaginar que tipo de vida será a sua, como conseguiram tirar a carta de condução ou meramente levar um garfo à boca. Se nos pretendem convencer da sua ignorância e probidade em matéria de corrupção política, para mais autárquica, deveriam ser imediatamente riscados do mapa da honestidade.
O caso das casas é perfeito, pois nem o PCP escapa. A Câmara de Lisboa, por maioria de razão, é o microcosmo da política nacional. E o que se vê são comportamentos universais: quem tem poder, usa-o para seu benefício, para benefício dos familiares e amigos e para a manutenção desse mesmo poder. Dada a complexidade legal e regulamentar da prática governativa, administrativa e gestora, há sempre – mas sempre, sempre, sempre – espaço para cirandar por entre as gotas da chuva. Foi o que Ana Sara Brito resolveu fazer, clamando inocência pelo lado da legalidade alcançada. E ignorando com cegueira desoladora a dimensão ética (pelo menos) da sua situação. Ora, não há qualquer diferença entre a sua praxis e a dos partidos que têm sido coniventes uns com os outros no assalto ao tesouro público. É nisto que temos a sorte de poder sentar o PCP no banco de réus, para que não fique um só tijolo de pé neste edifício da traição a Portugal. O PCP, mesmo que nenhum dos seus representantes na Câmara tenha sido agente de injustiça, tinha a obrigação de denunciar o caso. Não só nunca o fez, como não o faz em tantas outras situações. E quando o PCP não o faz, não se deve esperar que o PS, PSD e CDS o venham a fazer; escuso de explicar para não ofender a tua inteligência. E aqui é meu o espanto: com tanta oportunidade para revelar os esquemas e meandros da corrupção em Portugal, porque não nasce um partido com essa missão ou estratégia? É espanto de muito curta duração, sim.
Desde os anos 90 que não voto em nenhum partido que tenha tido presença parlamentar. Não quero ser cúmplice de ogres e imbecis. Semana sim, semana não, Vasco Pulido Valente (honra lhe seja) diz-nos o mesmo: são todos iguais, e todos irrecuperáveis. Que fazer? Fazer política, ora. A casa da democracia, que é a da justiça e da liberdade, constrói-se com esse romantismo grego que começa em Homero – onde o herói pode até ficar assustado, mas jamais virará as costas ao inimigo. E quando entra no combate, que se faz com espada ou palavra, vai alegre à conquista da honra.
O inimigo de que falo sou eu. E tu.










