A casa da democracia

Quanto ao que se tem passado com as casas da Câmara de Lisboa, e que Ana Sara Brito exemplarmente subsume, o que mais incomoda são as reacções dos que se dizem chocados ou surpreendidos. Não consigo imaginar que tipo de vida será a sua, como conseguiram tirar a carta de condução ou meramente levar um garfo à boca. Se nos pretendem convencer da sua ignorância e probidade em matéria de corrupção política, para mais autárquica, deveriam ser imediatamente riscados do mapa da honestidade.

O caso das casas é perfeito, pois nem o PCP escapa. A Câmara de Lisboa, por maioria de razão, é o microcosmo da política nacional. E o que se vê são comportamentos universais: quem tem poder, usa-o para seu benefício, para benefício dos familiares e amigos e para a manutenção desse mesmo poder. Dada a complexidade legal e regulamentar da prática governativa, administrativa e gestora, há sempre – mas sempre, sempre, sempre – espaço para cirandar por entre as gotas da chuva. Foi o que Ana Sara Brito resolveu fazer, clamando inocência pelo lado da legalidade alcançada. E ignorando com cegueira desoladora a dimensão ética (pelo menos) da sua situação. Ora, não há qualquer diferença entre a sua praxis e a dos partidos que têm sido coniventes uns com os outros no assalto ao tesouro público. É nisto que temos a sorte de poder sentar o PCP no banco de réus, para que não fique um só tijolo de pé neste edifício da traição a Portugal. O PCP, mesmo que nenhum dos seus representantes na Câmara tenha sido agente de injustiça, tinha a obrigação de denunciar o caso. Não só nunca o fez, como não o faz em tantas outras situações. E quando o PCP não o faz, não se deve esperar que o PS, PSD e CDS o venham a fazer; escuso de explicar para não ofender a tua inteligência. E aqui é meu o espanto: com tanta oportunidade para revelar os esquemas e meandros da corrupção em Portugal, porque não nasce um partido com essa missão ou estratégia? É espanto de muito curta duração, sim.

Desde os anos 90 que não voto em nenhum partido que tenha tido presença parlamentar. Não quero ser cúmplice de ogres e imbecis. Semana sim, semana não, Vasco Pulido Valente (honra lhe seja) diz-nos o mesmo: são todos iguais, e todos irrecuperáveis. Que fazer? Fazer política, ora. A casa da democracia, que é a da justiça e da liberdade, constrói-se com esse romantismo grego que começa em Homero – onde o herói pode até ficar assustado, mas jamais virará as costas ao inimigo. E quando entra no combate, que se faz com espada ou palavra, vai alegre à conquista da honra.

O inimigo de que falo sou eu. E tu.

O homem da meia-maratona


Imagem relativa à edição de 2007

Sócrates voltou a suar a camisola ao lado do povo na Meia-Maratona de Lisboa. Das muitas razões para se invejar o nosso primeiro-ministro, tenho cá uma fezada que a sua saúde e vigor físico, exibidos nas corridas, é das que mais secretamente deixa os pançudos desvairados. E depois eles atiram-se às canelas da RTP, esse antro emissor de hipnose colectiva, e ao aventureiro Magalhães, o qual, calhando ter sido iniciativa do PSD, mereceria dos mesmos pançudos as mais encomiásticas declarações. É esta a miséria de oposição que temos, sem dúvida para mal dos nossos incontáveis pecados.

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Cineterapia


Tian Bian Yi Duo Yun_Tsai Ming-Liang

Se não sabes porque escorre a lágrima, olha para estas imagens. Fica por lá um bocado, analisa as pistas e desenvolve uma primeira explicação, depois volta – enquanto eu fico aqui abrindo a melancia. Para tal, começo pelo pêssego. Há muito que o pêssego é o meu fruto preferido. É o mais sensual e saboroso, desde a pele de veludo ao perfume simultaneamente suave e complexo, passando pela fibra tenra, polposa, suculenta. A sua degustação provoca embriaguez sinestésica, ouvindo-se imagens, apalpando-se sons, contemplando-se odores – ou assim li algures. Esta descrição desafia a erosão do tempo e as actuais definições do que se considera ser a saúde mental. Porém, que fazer com a melancia? Cedo neste planeta me dispus a coleccionar recordações de homéricas talhadas, repetidamente associadas a momentos de alegria familiar. Não tinha como o negar: a melancia era um fruto que, embora não ameaçasse o pêssego na corrida ao grande prémio, concorria para os prémios especiais do júri e do público. Porém, havia um desprezo declarado pela melancia junto da opinião corrente, tanto a falada como a escrita, dizendo-se que o seu valor nutritivo seria reduzido, quase nulo, dado ser pouco mais do que água. Para mim, especialista em generalidades nutritivas, algo não batia certo. Juntando a fome à vontade de saber, fui investigar. A primeira descoberta foi a do licopeno. Ora, já tinha sido apresentado ao licopeno por causa dos tomates, pelo que conhecia a importância dessa novíssima vedeta da literatura mágico-nutricional. Pois bem, a investigação revelava que a melancia tinha ainda mais e melhor licopeno do que os tomates, era uma coisa do caralho. E continuava a ser do caralho por uma eréctil descoberta: a melancia tinha poderes análogos aos do Viagra. De repente, aquela bola de água traidora, sportinguista por fora e benfiquista por dentro, mais famosa pelo milagre fatal da transformação do vinho em cortiça do que por qualquer promessa curativa, surgia associada à protecção contra o cancro, contra problemas cardiovasculares, contra o envelhecimento dos tecidos e ainda contra a impotência – ou seja, a favor da potência. Estava encontrado o fruto que dava a provar a metafísica aristotélica: a mais saudável passagem da potência ao acto disponível fora das farmácias. E resulta, afianço. Estas descobertas aconteciam no Verão de 2007, a poucas semanas da estreia em Portugal do pevidesco filme de Ming-Liang.

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Vinte Linhas 283

EUA – Lobo Antunes, Gregory Rabassa e o esplendor da ignorância

António Lobo Antunes esteve no Ateneu de Boston a conversar com o seu tradutor sobre «Que fazer quando tudo arde?» – «What can I do when everything´s on fire?» na versão americana. Instado sobre «que americanos lerão este livro» por João Céu e Silva, o tradutor Gregory Rabassa respondeu: «Os inteligentes sim, porque é difícil no estilo, nas ideias e no tema e os livros que se vendem cá são de quarta categoria. Os bons escritores estrangeiros raramente têm boa fama nos EUA.»

Agora que estamos a ferro e fogo com as eleições americanas vale a pena recordar as palavras de Jorge Luís Borges quando em 1978, recém regressado dos EUA, falou aos jornalistas em Buenos Aires: «Quase não se lê nos Estados Unidos. Aqui entra-se numa livraria e acham-se livros publicados há vinte, cinquenta anos. Lá, nos Estados Unidos os livros são, de facto, periódicos. Um best-seller é um livro do qual lá se vendem milhões de exemplares, porém ninguém o leva a sério, nem pressupõe que seja bom. Depois há o assunto da pornografia, os filmes pornográficos, a televisão. Aqui temos o hábito da biblioteca. Nos estados Unidos já não existe esse hábito. Fala-se de um livro de quatro anos atrás e ninguém se lembra dele…Falei com um senhor que ensinava História de Espanha; isto passou-se na Universidade de Michigan. Ele tinha chegado ao período das invasões napoleónicas. E naturalmente falou de Báilen, Wellington, o «dois de Maio», Saragoza, etc. Contudo ele notava no diálogo com os alunos que algo não ia bem. Perguntou-lhes o que se passava e responderam-lhe que ele estava a mencionar um nome que eles não podiam identificar. Esse nome era o de Napoleão.»

Jornalismo esquizóide

Não tenho memória de ter lido algo que se pareça com isto. Vem assinado por Ricardo Lourenço, jornalista do Expresso. É revelador do desnorte completo por que passa a nossa imprensa, outrora com alguma vergonha na carteira. Vejamos:

O senador John McCain tinha uma bigorna presa a cada perna. De um lado a maior crise financeira desde o crash de 1929 (ambos candidatos concordam com a classificação). Do outro, oito anos de política externa republicana (tema do debate), coroados com duas guerras – Afeganistão e Iraque – sem um fim à vista. As expectativas quanto à sua prestação eram, portanto, muito baixas.

É assim que começa a peça, invertendo na perfeição a realidade. Todos sabiam que as temáticas da Defesa e Relações Internacionais eram aquelas onde McCain poderia ter melhor prestação. É ele que não se cansa de falar em heroísmo, experiência e maturidade, puxando o lustro ao currículo e valorizando a vetusta idade. As temáticas da economia eram aquelas onde McCain não teria qualquer possibilidade de escapar ao ataque mais feroz e consequente de Obama. Assim, ter a oportunidade de marcar pontos passando ao lado do descalabro financeiro, e isto quando a sua vice voltou ao estado de besta após uns dias a iludir os otários que a acharam bestial, eis algo que não se podia falhar. Pois o responsável editorial do Expresso para os assuntos internacionais não sabia disto.

O resto do texto segue pelo mesmo delirante caminho, chegando ao ponto de usar expressões subjectivistas palermas. Há aqui um aspecto enigmático, tamanha é a distorção. Veja-se este passo:

No fim do debate, alguns comentadores norte-americanos parodiavam com o facto do senador afro-americano ter perdido, a partir de certa altura, a compostura, passando a tratar o adversário, simplesmente, como… John.

O jornalista nem se deu ao trabalho de identificar o canal onde estavam os citados comentadores, mas é muito provável que estivesse a referir-se à CNN. De facto, uma comentadora, pró-McCain, fez esse reparo, o qual deu origem a risos vários. Só que os risos não eram para Obama, antes para a hipótese da comentadora. Na verdade, o que Obama conseguiu com esse simples truque foi demonstrar que não se atemorizava com o rival, antes o tratava com proximidade e afecto. E mais: foi Obama quem correspondeu ao pedido do moderador para que os candidatos falassem directamente um com o outro, enquanto McCain nunca conseguiu falar directamente para Obama e foi de uma rudeza e embaraço surpreendentes.

Mas há aqui um grande enigma. Este Ricardo Lourenço, se teve tempo para deturpar o que os olhinhos lhe serviam no cérebro na fase dos comentários, também teve oportunidade de ver os resultados das sondagens aparecidos poucos minutos depois do debate terminar; onde todas elas – todas! – davam a vitória a Obama em qualquer dos segmentos etários (incluindo os velhinhos). Como é que, então, se consegue escrever tamanha aberração no Expresso neste nível de responsabilidade jornalística?

Não temos imprensa de referência, isso é indubitável. Resta saber se temos jornalistas verdadeiros que cheguem para criar um projecto novo, ou renovar uma marca antiga. Faz tanta falta uma imprensa inteligente e corajosa como um sistema partidário livre e activo. E sempre fará.

Vi um preto a bater num velhinho branquinho

Terminou o 1º debate entre Obama e McCain e fica a pergunta: quem é que aceita trocar a sua inteligência pelo apoio ao candidato Republicano? McCain foi primário, tacanho, egotista, provinciano, soberbo, paternalista, manipulador e caduco – e isto nas temáticas onde se diz ser mais forte, defesa e relações internacionais. Entende-se agora muito melhor a inacreditável escolha de Palin. Esta gente é a continuação de Bush, preparada para cometer os mesmos erros com a mesma irresponsabilidade.

Haveria um exercício a fazer, para memória futura, que seria o de recolher as opiniões dos que apoiam a candidatura Republicana, fosse lá pelo que fosse que eles invocassem na justificação. Pelo menos, essa lista serviria para ficarmos a conhecer aqueles que não se devem convidar para sócios num negócio ou, no caso de nos perdermos no meio do centro comercial Colombo, não deixar que eles escolhessem o caminho até ao carro sem primeiro estarem munidos de GPS, mapa, bússola, esfera armilar e uma senhora simpática por perto disposta a servir de guia.

Um livro por semana 82

«Estórias de coisas» de José-Alberto Marques

José-Alberto Marques (Torres Novas, 1939) foi, a par de Mário Cesariny, Herberto Hélder e Natália Correia, um dos poetas revelados pela Contraponto. Este seu livro de 1971 foi apreendido pela PIDE. Deve ter sido pelo poema: Os presos «os presos penso eu que um chefe de cadeia divide / os presos em várias categorias: a) assassinos; b) ladrões; c) burlões; d) políticos; e) .. f).. g).. / não gosto de cadeias. já uma vez estive preso por / recitar poemas à noite e foi curioso porque / 6 meses antes eu era o delegado do procurador da / república interinamente e os guardas conheciam-me / muito bem. paguei 500$00 fui com o Rodrigues / não tenho a certeza mas creio que o chefe não / inutilizou os selos todos / não gostava de ser preso outra vez / já não recito poemas à noite / agora vou fazer um pedido aos nosso governantes: / acabem com os presos da alínea d)». Pode ter sido por As cidades: «as cidades conhecem-se pelo mercado / se os faxinas compram arroz / o tenente e o capitão estiveram na Índia e em Timor». Ou então Os polícias: «os polícias são assim homens com uma farda e não são militares / estão sempre à esquina e sempre longe dos acontecimentos / a propósito ontem soube /que ganhavam à volta de 2000$00 / e têm família quase todos». Há um registo lírico em As chuvas: «a chuva digamos que é água lágrimas brancas») ou em As árvores («um dia eu disse: as árvores são mulheres vestidas de ramos / ou disse: as mulheres são árvores coberta de cabelos») ou As janelas: «as janelas abertas são muito importantes / a gente vê passar as procissões, os carros / tenho recordações de janelas que só eu sei / as janelas fazem-me lembrar olhos e traições».

Esta edição coloca ao dispor dos leitores actuais um livro proibido em 1971 com, segundo ao autor do posfácio, «uma das mais altas realizações da lírica do nosso tempo.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Posfácio: Zetho Cunha Gonçalves)

Blogpower

Exemplos do reconhecimento e crescente institucionalização da blogosfera como legítimo canal de exercício político, com acrescidas vantagens face aos espaços da comunicação social profissional quanto à publicação, extensão, organização e expressão dos conteúdos:

Abrupto – Pacheco Pereira continua a sua patética cruzada contra a propaganda do Governo – sem definir os critérios de aferição, sem ter currículo na matéria, sem convencer nem interessar – e atinge níveis inacreditáveis de fragilidade argumentativa. Azeredo Lopes responde-lhe com amor, num misto de raspanete para com as grosseiras faltas de honestidade intelectual e de ternura e santa paciência para com a genica do puto. Claro que o nosso Pacheco está-se já a marimbar para as figuras que faz, a sua viatura há muito que perdeu os travões. Só lhe resta aproveitar o tempo para fingir ser um louco ao volante, antes do choque com a realidade.

Blasfémias – Estrela Serrano escreveu a Gabriel Silva como se ele fosse uma entidade jornalística, ou política, de referência. O seu texto tem o mérito de ter sido escarrapachado à pressa e de forma emocionada. Isso resulta em passagens hilariantes, que se agradecem. Mas o que mais importa realçar é a ingenuidade de uma figura como a Estrela Serrano, notoriamente a cometer erros de principiante na relação com as putas velhas dos blogues. Isso, para mim, é um excelente sinal: assinala a disponibilidade para o diálogo e para a democracia. Foste o céu na terra, Estrela.

Câmara Corporativa – Eduardo Cintra Torres é um caso clínico, na melhor das hipóteses. O que se pode ler na sua correspondência com Miguel Abrantes assusta, tal a distância com a sensatez. Não se imaginaria tanta arrogância bronca a alguém com o seu trajecto mediático. Veja-se um exemplo:

O artigo de António Ribeiro Ferreira no Correio da Manhã referia factos que não foram desmentidos. Este governo tem repetidamente desmentido factos em artigos na imprensa, sejam eles de informação ou de opinião. Mas neste caso não houve qualquer desmentido, pelo que tomo os factos referidos como verdadeiros.

Deve ser isto, suspeito, a tão falada lógica da batata: se ninguém desmentiu, é verdadeiro. E depois é só cortar às rodelas ou em palitos.

A crise só te faz é bem

Em relação ao entendimento das problemáticas económicas, há três grupos possíveis, e não mais do que três. O primeiro é o dos que não pescam nada do assunto. Aqui se encontram os analfabetos, analfabrutos, iletrados, ignorantes, preguiçosos, confusos, disfuncionais, neuróticos, empregados públicos, velhinhos marotos, aparvalhados, bêbados, clientes da Caixa Geral de Depósitos por opção e sócios do Benfica com as quotas em dia. O segundo é o dos que entendem alguma coisa do assunto. Aqui se encontram licenciados, jornalistas, políticos, trafulhas, ciganos, traficantes, mafiosos, indivíduos com um tio no Corpo Diplomático, vendedores de relógios chineses, empresários que fogem aos impostos, patos-bravos, participantes regulares no Fórum da TSF, taxistas e médicos. O terceiro é o dos que sabem tanto que sabem nada saber. Aqui se encontram eruditos, académicos, anacoretas e alguns pastores do triângulo Covilhã, Nelas e Celorico da Beira.

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Um livro por semana 80

«Uma extensa mancha de sonhos» de Graça Pires

O título deste livro de poemas é uma homenagem a «El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha», a obra-prima de Cervantes. Graça Pires, vinte anos depois de ter recebido com «Poemas» o Prémio Revelação de Poesia da A.P.E., ergue do silêncio o desenho da voz de Dulcineia, a heroína do romance de Cervantes.

Começa a voz nas bocas do Mundo: «quase um peregrino / quase um nómada / quase um louco / Um homem deambulando / no rumo dos animais bravios / que povoavam sua mente. / Uma vasta mancha de sonhos / me perturbou para sempre».

Continua a voz no encontro impossível: «Foi secreto e breve o nosso encontro / Nenhum registo o mencionou / Vieste, lembro / como quem vem por uma noite: / ansioso e clandestino».

Conclui a voz na morte de D. Quixote: «Numa aldeia da Mancha / um homem recuperou a razão / e começou a morrer».

O gentil-homem camponês só morre quando o abade e o barbeiro queimam os seus livros de aventuras de cavalaria – o mesmo é dizer, a sua «extensa mancha de sonhos», que é, não por acaso, o título deste excelente livro de poemas.

(Editora: Labirinto, Capa: estúdio gráfico da Editora)

Os meninos da mamã são uns espertalhões

Ao ler esta notícia, lembrei-me de algo que nunca esqueci. Estava no quarto, ocupado a tratar dos assuntos mais importantes do meu mundo com 8 anos de eternidade, aquilo que os adultos ignorantes diziam ser estar a brincar, e fiz um raciocínio que me deslumbrou. A visão da sua complexa geometria, e profundas implicações, tinha uma natureza sacra e pedia urgente partilha. Era valioso demais para ficar só comigo. Dirigi-me à cozinha, onde a minha mãe preparava o jantar. E disse-lhe Mãe, quando nós não entendemos aqueles que falam uma outra língua, eles também não nos conseguem entender a nós, têm o mesmo problema. A minha mãe olhou-me com surpresa complacente, talvez lamentando a desgraça ocorrida na maternidade que lhe teria levado o filho legítimo por troca com aquela coisa que lhe apareceu ali. Continuou a lavar os legumes e depois riu, disse-me Está bem, percebo. Eu ainda esperei uns segundos por alguma consequência verbal ou simbólica da minha declaração. Algum reconhecimento do génio tão generosamente revelado, mas nada. Aceitei ter cumprido assim a missão, cônscio da excelência da descoberta, e retirei-me daquele espaço. À noite, ouvi a minha mãe contar ao meu pai, com muitos risos à mistura de ambos, o episódio da cozinha. Tive alguma pena deles, que infantis.

Um livro por semana 83

«Primeira antologia de micro-ficção portuguesa» de Rui Costa e André Sebastião

Como refere Henrique Fialho no prefácio «sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo ou o que quer que seja, a micro-narrativa vai marcando presença na literatura portuguesa». Esta antologia inclui textos de 22 autores, alguns no registo do humor como Fernando Gomes: «Gostava de tinto e bebia verde. Adorava Cesário Verde e lia Guimarães Rosa. Apaixonou-se por Rosa e casou com Violeta. O daltonismo tem destas coisas. Até jura que tem sangue azul.» Ou então Rafael Miranda: «Os taxistas perguntam sempre se não tenho mais pequeno; as mulheres se não tenho maior.» Henrique Fialho tem uma história sobre jornais: «O jornalista barricou-se na primeira página do jornal onde trabalhava. Não queria nada para si, reivindicava apenas um pouco de jornalismo na capa.» Rui Almeida tem uma história sobre livros: «A colectânea de contos de Natal encontrava-se em excelente estado, o que era pouco habitual naquela banca de alfarrabista com livros a um euro (…) Ao fim da tarde, no autocarro, a caminho de casa tirou a colectânea da pasta, afagou a capa com estrelas em relevo, consultou o índice e logo constatou que as seis folhas relativas ao conto do escritor que tanto estimava haviam sido cuidadosamente retiradas.» Um dos mais insólitos é «Azul» de Rute Mota: «Quando sai, de manhã, ele fica a dormir. Ao fim da tarde, não é raro encontrá-lo a um canto do sofá, a cama ainda por fazer. Com as amigas mostrava-se de um indecoro insinuante, roçando a inconveniência. Com os amigos, tornava-se uma presença castradora, corpo de silêncio ou de insónia, subindo de debaixo do sofá ou da cama. Enquanto ela se lava, toda a atenção dele se concentra no fascínio do jorro tombando, no nível da água subindo. Ele sabe: só depois ela lhe servirá o prato e lhe poderá tocar o pulso com a humidade do focinho. (Num gato diz-se azul a cor que em tudo o resto se diz cinzenta)»

(Editora: Exodus, Prefácio: Henrique Fialho)

No país dos comentadores

Particularmente para José António Saraiva, a hora mais escura da noite foi a que antecedeu o nascer do Sol. Há seis anos, publicou um texto que te convido a ler, ou a reler – e a comparar com o que os comentadores profissionais e reputados, ou amadores e desconhecidos, têm dito nos últimos dois e quatro anos. As coincidências são assustadoras, nem falta uma variante televisiva do Big Brother a despertar os enésimos e bacocos protestos. Tudo se repete: as mesmas personagens, as mesmas misérias, as mesmas queixas. Parece que só em Portugal vigora a lei de Fukuyama, com os comentadores numa amnésia nascida do desleixo intelectual e da promiscuidade com os omnipotentes poderes fácticos.

José António Saraiva é uma figura patusca, geneticamente predisposta para a hipérbole, e tinha idade para ter juízo quando chegou a 21 de Setembro de 2002 com 54 anos. Está ligado à época de ouro do Expresso, assim como ao declínio da sua relevância. Todas as semanas, pelo menos, publica qualquer coisa. Como já o faz há mais de 40 anos, é uma vítima da prolixidade. Ter de escrever por obrigação é tramado, ainda mais se for preciso elaborar opinião. Inevitavelmente, há opiniões que serão apenas a expressão ciclotímica da subjectividade. Os comentadores políticos estão condenados ao adultério: afirmam-se casados com a amada Sr.ª Verdade, mas há muito tempo que perderam o desejo por ela, preferem escapulir-se para o quarto da criada, a úbere serigaita Vaidade. Este flirt é fonte de folia nocturna, embriaguez recuperadora da eterna e irresponsável juventude. Eis uma condição psicológica propícia à megalomania, ao melodrama. Não espanta, então, que os comentadores políticos se descuidem com a cristalização do hábito e se dispam à nossa frente de vez em quando. E lá saltam as vergonhas tão humanas, tão vulgares. É o caso neste caso.

Antes de ter prometido superar as vendas do Expresso em poucos meses, e de jurar por escrito nunca vir a oferecer brindes (jura entretanto apagada), o arquitecto auto-nobelizável teve um dia menos optimista, mas igualmente delirante, e deu nisto, mais isto, mais aquilo e aqueloutro. Paradoxalmente, ler esta jeremiada depressiva – e simultaneamente exacta na sua lúcida acusação, mas estatelando-se ao comprido por ser superficial e ilusionista – funciona como acto de higiene. É um aviso, para quem dele precisar, de que nenhum comentador se substitui ao cidadão, não importando o meio onde escreva ou bote faladura.

A blogosfera aumentou exponencialmente esta lógica da lamúria como intervenção social preferida, por razões evidentes decorrentes do próprio meio. O resultado? Os intervenientes em blogues, e em caixas de comentários da comunicação social digital, juntam-se aos profissionais da opinião e tornam-se parte da política-espectáculo, da indústria da opinião, sendo totalmente ineficazes como força de construção cultural ou profilaxia cívica.

Estão por inventar as novas formas de pensar, e de agir, que saibam o que fazer com a liberdade de expressão e sua ubiquidade. A salvação nunca foi e nunca será individual – o que for individual, e não mais do que individual, chama-se loucura, inferno. É esse o país dos comentadores de opereta.

Vinte Linhas 282

Jacinto Baptista e António Valdemar também estão no falso centenário

Quando alguns comentadores tentam aqui no Blog vender a ideia de que o falso centenário do Sport Lisboa e Benfica é um assunto «menor» vem a propósito recordar o livro «Repórteres e reportagens de primeira página» de Jacinto Baptista e António Valdemar. Este trabalho, patrocinado pelo «Conselho de Imprensa», divide-se em dois volumes: 1901-1910 e 1910-1926. Na página 41 lá aparece «O primeiro Sporting-Benfica em 1907» e, pasme-se! dois reputados especialistas em História, dois homens que muito admiro (o primeiro com quem aprendi em 1978 tudo o que sei sobre jornalismo cultural e o segundo, felizmente ainda vivo, com quem muito aprendi sobre História da Arte) estes dois brilhantes jornalistas «emendaram» as fontes acrescentando um parêntesis recto (!) e as palavras «e Benfica» ao texto dos jornais «Diário de Notícias» e «O Século» do dia 2 de Dezembro de 1907. Na página 41 lá está a citação: «Realizaram-se ontem, no campo do Carcavelos, os desafios entre o Sporting Club de Portugal e o Sport Lisboa [e Benfica] e entre o Clube Internacional de Foot-ball e o Carcavelos Clube». Todos sabemos que não se emendam fontes em citação. As fontes são o que são; se a notícia refere «Sport Lisboa» é porque o Sport Lisboa e Benfica só viria a nascer em 13 de Setembro de 1908. Eu por acaso tenho o «D.N.» de 2-12-1907 em fotocópia mas não era preciso – o parêntesis recto diz tudo… Outra coisa menos intelectual mas igualmente grosseira foi uma reportagem de «A Bola» em 1 de Dezembro de 2007 sobre o «centenário do derby». O presidente do Sporting, desconhecedor da história do seu clube, esteve lá com o presidente do Benfica e tirou retratos. Só faltou mesmo o garrafão.

Paulo Portas é gay

A manchete do Correio da Manhã, acima exibida, não é um exemplo de sensacionalismo, porque a noção de sensacionalismo não chega para descrever o acto. Sensacionalismo seria ter feito um título como este: Grupo de jovens quer imitar PCC. Isto já seria exagerado e incorrecto o suficiente para despertar os instintos selvagens. Mas o que lemos é uma afirmação que junta os termos máfia, favelas e Portugal de forma assertiva. A notícia fala em centenas de brasileiros, estabelecidos na Margem Sul, organizados em bandos criminosos e apresentando perfis psicológicos de psicopatas sem recuperação. Estamos, então, perante um acto de terrorismo cívico, onde os responsáveis pelo jornal intencionalmente exploram as insuficiências educativas e disfunções cognitivas de largas faixas da sociedade. É triste, e jamais deixarei de me surpreender: constatar que há quem tire proveito da miséria.

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Um livro por semana 84

«Poemas da guerra» de José Niza

De 1969 a 1971 o autor integrou um batalhão militar em Angola. Ao chegar deparou-se com «O Carnaval em Zau Évua»: «Aqui o Carnaval é todo o ano/desde o içar da bandeira/ao cair do pano/trezentos soldados/mascarados/suam bem suados/bagas de suor de un confetti/amarelo verde e encarnado/que não é daqui/um clarim toca/várias vezes ao dia/Pavlov descobriu/que os reflexos condicionados/também serviam para os soldados/ eu vou estando/e não esqueço/adeus/até ao meu regresso». À sua volta uma onda de boatos: «Dói-me um dente / coitado tem um grande abcesso / ouvi dizer que era um tumor na cabeça / parece que já chamaram a família / a que horas é o funeral?» O alferes miliciano médico decide uma estratégia («Rir/é uma palavra capicua/que dá sorte/rir de tudo/até da morte») que envolve a música de J.S. Bach: «Amigo/séculos nos separam/e a tua música nos une/o tempo? /o que é o tempo/se a tua música vai existir/para além da tua vida/e da minha morte». Por fim despede-se de África já conhecida de viagens anteriores em 1958, 1960 e 1963: «Minha África Inútil/ sonho transformado em pesadelo/daqui te escrevo/ao pôr-do-sol/olhando este mar verde/sinfonia de capim em si bemol/daqui te escrevo/com a mágoa de te deixar assim/sozinha pobre sem futuro».

Lido em 2008 «Poemas da guerra» é um testemunho poético feito por alguém que viveu dois anos bem do lado de dentro dum certo tempo português: dos 12 mortos da «sua» guerra nenhum morreu em combate.

(Editora: O MIRANTE, Prefácio: Francisco Pinto Balsemão, Capa: José Nuno Niza)

Perder os três no quarto

Está tudo bem nesta iniciativa: os 3 da opinião airada, o convidado de peso (literalmente), o título eficaz, o excelente grafismo do anúncio (sim, também conta, porque tudo conta). Não se vai descobrir a pólvora na próxima terça-feira, mas poderá ser mais um rastilho para a titânica operação de terraplanagem da imbecilidade nacional. Pelo caminho, aproveita-se para conhecer uma nova livraria (caso não se conheça já, pois tem 1 ano), o que não irá fazer mal a ninguém.

Parabéns à Tinta da China e aos protagonistas. E votos de sucesso comercial para todos, pois.