A casa da democracia

Quanto ao que se tem passado com as casas da Câmara de Lisboa, e que Ana Sara Brito exemplarmente subsume, o que mais incomoda são as reacções dos que se dizem chocados ou surpreendidos. Não consigo imaginar que tipo de vida será a sua, como conseguiram tirar a carta de condução ou meramente levar um garfo à boca. Se nos pretendem convencer da sua ignorância e probidade em matéria de corrupção política, para mais autárquica, deveriam ser imediatamente riscados do mapa da honestidade.

O caso das casas é perfeito, pois nem o PCP escapa. A Câmara de Lisboa, por maioria de razão, é o microcosmo da política nacional. E o que se vê são comportamentos universais: quem tem poder, usa-o para seu benefício, para benefício dos familiares e amigos e para a manutenção desse mesmo poder. Dada a complexidade legal e regulamentar da prática governativa, administrativa e gestora, há sempre – mas sempre, sempre, sempre – espaço para cirandar por entre as gotas da chuva. Foi o que Ana Sara Brito resolveu fazer, clamando inocência pelo lado da legalidade alcançada. E ignorando com cegueira desoladora a dimensão ética (pelo menos) da sua situação. Ora, não há qualquer diferença entre a sua praxis e a dos partidos que têm sido coniventes uns com os outros no assalto ao tesouro público. É nisto que temos a sorte de poder sentar o PCP no banco de réus, para que não fique um só tijolo de pé neste edifício da traição a Portugal. O PCP, mesmo que nenhum dos seus representantes na Câmara tenha sido agente de injustiça, tinha a obrigação de denunciar o caso. Não só nunca o fez, como não o faz em tantas outras situações. E quando o PCP não o faz, não se deve esperar que o PS, PSD e CDS o venham a fazer; escuso de explicar para não ofender a tua inteligência. E aqui é meu o espanto: com tanta oportunidade para revelar os esquemas e meandros da corrupção em Portugal, porque não nasce um partido com essa missão ou estratégia? É espanto de muito curta duração, sim.

Desde os anos 90 que não voto em nenhum partido que tenha tido presença parlamentar. Não quero ser cúmplice de ogres e imbecis. Semana sim, semana não, Vasco Pulido Valente (honra lhe seja) diz-nos o mesmo: são todos iguais, e todos irrecuperáveis. Que fazer? Fazer política, ora. A casa da democracia, que é a da justiça e da liberdade, constrói-se com esse romantismo grego que começa em Homero – onde o herói pode até ficar assustado, mas jamais virará as costas ao inimigo. E quando entra no combate, que se faz com espada ou palavra, vai alegre à conquista da honra.

O inimigo de que falo sou eu. E tu.

31 thoughts on “A casa da democracia”

  1. val,
    Há um pragmatimo lusitano no contraponto desse romantismo grego de que falas, e tão bem. Vem das regras sociais do aceitável, duas ou três paragens antes ainda do terminal do correcto. E vem enraizado na gente de berço, quase nos genes (e porque não?). Condiciona o nosso gritar, graduando o protesto à medida dos decibéis autorizados, não pela lei mas pela conveniência geral que é ditada pelos interesses particulares. Parece confuso mas não é, vou tentar explicar melhor.

    Não se pode virar as costas a um inimigo que já lá está, alapado e encavado no e com o nosso simssenhor, o nosso relativizar tácito em função de muita prestação de frigorífico, plasma, BMW, Armani, Tunísia e Côte d’Azur. A conclusão dói também por isso, fora a dimensão do introduzido: não há romantismo grego que resista a um mundo Cofidis, que pena, que pena.
    Que pena, porra!

  2. Concordo e discordo.

    «E quando o PCP não o faz, não se deve esperar que o PS, PSD e CDS o venham a fazer; escuso de explicar para não ofender a tua inteligência. E aqui é meu o espanto: com tanta oportunidade para revelar os esquemas e meandros da corrupção em Portugal, porque não nasce um partido com essa missão ou estratégia?»

    Concordo com a justa ausência do BE nesta lista.

    Não compreendo a pergunta, pois a resposta é clara: o BE nasceu principalmente com esse propósito e corporizou-o, no seu melhor exemplo, em José Sá Fernandes.

    E é esse ímpeto justicialista do BE que o tornou um pária e um indesejável na “boa sociedade” dos canalhas do mundo da política, das academias, da comunicação social e, sobretudo, dos NEGÓCIOS!

  3. Rui, se bem te entendo, estás a avisar-me para a inutilidade de tentar fazer política, pois a malta quer é consumir. Se for esse o caso, tenho uma notícia para ti: essa é a História do mundo, mas não tem de ser a minha história imunda. Enfim, quero ser algo mais do que um aparelho digestivo.
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    Marco, sem dúvida que essa foi a promessa do BE, mas não é a sua prática. Para um partido completamente implantado na política nacional, com um grupo parlamentar forte, com espaço mediático variado à disposição, os frutos são poucos e secos. Pura e simplesmente o BE não atacou o problema da corrupção. Se o tivesse feito, nós teríamos sabido, pois a corrupção é um fenómeno tão entranhado e vasto que a sua erradicação implica denunciar centenas de milhares de pessoas. E nada sabemos, nem sequer conseguiram fazer um directório/observatório dos casos principais e tê-lo activo e vigilante.

    Já agora, o Sá Fernandes é independente, não é nem nunca foi do BE, e não é crível que o venha a ser. Aliás, muitos no BE não o gramam e não gostaram nada do acordo feito com ele para Lisboa.

  4. upi,
    mal me entendes, sendo assim. Ou mal me expliquei, o mais provável. Avisar-te da inutilidade de intervir, buscar a mudança? Jamé, caríssimo. Era apenas um carpir dirigido aos políticos, essa excrescência da política que tende a infectar.

  5. sharky,
    aparelho por aparelho antes um diu, acredita em mim. Não só é sinónimo de poupança, como a vizinhança é imbatível para os amantes do lazer.
    Qualidade de vida, meu caro. Qualidade de vida.

  6. É o que eu digo ninguém passa ao crivo com malha de dois angstroms e meio nem sequer o pobre PCP última esperança e trunfo da ala dos namorados casados e divorciados viuvos e separados da denúncia das injustiças e falcatruas mas continua-se a amar a democracia depois dela meter os cornos a tanta gente.

    Que um doutor arranje nome para este virus que morre causando dor ao português médio que não desiste de ter paciência.

  7. Rui, tens razão, claro. Mas eu também.
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    Miguel Mata, embora com melhoras, continuas a falhar no principal: fazer sentido. Mas conta lá: queixas-te do quê, afinal?

  8. Ana Sara Brito, a única «implicada» citada no teu post, viveu 20 anos numa casa de duas assoalhadas que o Abecassis lhe arranjou. Sabe Deus como, porque, inicialmente, a casa que ela quis alugar nem sequer era da Câmara, tinha um proprietário, que a não podia alugar por um qualquer impedimento camarário. A Ana Sara Brito era uma enfermeira de poucos recursos que foi eleita na lista do PS para a CML no tempo do Abecassis, que era do CDS e que decidiu fazer o que estava ao seu alcance, e que então a ninguém repugnava, para lhe resolver o problema da casa. Falar de favoritismo político ou amiguismo ou outra coisa do género, neste caso, parece-me prova de grande ligeireza e de cedência aos ventos de demagogia que sopram. Onde está o favoritismo político? Onde está a corrupção partidária? O Abecassis era um homem generoso, dedicado, que tinha todos os defeitos, mas que nunca ninguém ousou acusar de corrupto ou corruptor. Arranjou uma solução qualquer para resolver o problema de habitação a uma adversária política, sua colega no executivo camarário. Ela deixou-se ficar na casa alugada a baixo custo, provavelmente muito para além do tempo justificado pelos motivos conjunturais que presidiram ao gesto generoso de Abecassis. A quem é que devemos culpar por isso? A ela? Só a ela? Ou sobretudo aos sucessivos executivos camarários, que não sabem sequer quantas casas a CML tem, nem por que motivos elas foram atribuídas a esta pessoa ou àquela família, nem quando, nem como? Esta maneira de olhar para histórias passadas e de julgá-las com a mentalidade de hoje, aplicando critérios e impondo requisitos que então não vigoravam, é-me francamente antipática, para não dizer outra coisa. Nunca vi esta senhora Brito na minha vida, nem moro em nenhuma casa camarária, mas mete-me um bocado de nojo ver como se pretende crucificar pessoas como ela, que não nasceu rica e que é uma pessoa séria e que muito fez pelos outros ao longo da vida.

  9. O teu comentário é um fartote, Nik. Foi escrito muito à pressa. Por isso basta citar-te para te contradizer:

    “Ela deixou-se ficar na casa alugada a baixo custo, provavelmente muito para além do tempo justificado pelos motivos conjunturais que presidiram ao gesto generoso de Abecassis.”

    Pois é disso que se fala, precisamente. O escândalo está nisso: na utilização abusiva de um bem público; cujo usufruto foi obtido, para mais, em condições de favor não acessíveis ao cidadão comum. Qual é aqui a parte que te está a escapar?

    Onde é que foste buscar essa das histórias passadas e mentalidade de hoje? As histórias são de hoje e a mentalidade é de sempre. Podendo, os que têm poder abusam do poder. Isso acontece em todo o lado e em todos os tempos. As implicações do teu raciocínio são ofensivas para a senhora, pois anulam a sua consciência. Onde esteve a sua noção de justiça durante 20 anos? Ficou refém da generosidade de compadre do Abecassis?

    E que disparate é esse do “mete-me um bocado de nojo ver como se pretende crucificar pessoas como ela, que não nasceu rica e que é uma pessoa séria e que muito fez pelos outros ao longo da vida”?!… Ela até pode ser uma santa, ter nascido numa gruta, que não é isso que está em causa. Por favor, olha os mínimos.

    Toda a gente sabe, incluindo a tua magnífica pessoa, que a corrupção também se faz inter-partidos. As pessoas que são eleitas para cargos públicos com algum poder passam a pertencer a um clube. Todo um sistema de recompensas e coações está montado para manter esse clube em funcionamento, e é ele que tem distribuído a maior parte da riqueza pública. O seu nome: amiguismo. Todos os que têm poder são amigos, porque todos precisam, ou irão precisar, de todos. Obviamente, haverá excepções, e obviamente o PCP será o mais imune ao sistema. Mas só porque o PCP tem o seu próprio sistema de recompensas e coações, não por ser um exemplo de democracia em acção. E repara como o PCP não põe em causa o sistema paralelo, o qual conhece por dentro – pois ele é, afinal, condição da subsistência do seu.

    É disto que se fala, homem, a propósito das 3200 casas entregues por amizade. Mas se achas o assunto nojento, é não te aproximares dele.

  10. Não neguei que tivesse havido abuso: parece-me que sim, que houve. Parece-me, só, não tenho a certeza absoluta, porque para sermos elementarmente justos, não devemos julgar uma pessoa na praça pública no desconhecimento dos detalhes do seu caso. Mas acho intolerável a maneira como se foi pescar uma história banalíssima do passado, uma coisa embebida no antigo poder discricionário a que os presidentes de câmara e todos os munícipes se habituaram, para lhe aplicar a lupa amplificadora com que hoje se vasculha tudo e para a julgar com os critérios mais apertados (e mais justos) hoje em vigor. Politiquice barata, no fundo.

    E que dizer da escandalosa incúria da administração camarária, que não cuida do seu património, que nem sequer o conhece? Num país normal, a CML teria confrontado a senhora há muitos anos com o injustificado da situação, dando-lhe um prazo para sair.

    Já agora: alguém levantou publicamente a questão dos cinquenta e um ateliers-residências dos Coruchéus, atribuídos pela CML (ainda no tempo da outra senhora, mas ainda hoje mantidos, se não ampliados) a artistas reconhecidos da nossa praça, pelo simples facto de serem artistas, e não pelo facto de serem pobres? Claro que não! Os vasculhadores lambuzadores passaram por esse assunto como gatos por brasas. Não mora lá gente da política, só artistas. Artistas que nem sequer se metem em política. Ao contrário do Baptista Bastos (mais nítido prevaricador), que se mete na política e, por isso mesmo, foi denunciado.

    Toda a política de atribuição de casas da Câmara tem que ser examinada, e não somente casos seleccionados, para parvos comerem. E entre os casos que vieram a público há situações muito distintas, com abusos escandalosos, sim, como o caso da senhora Isabel Soares, também do PS.

    Exigir mais justiça e mais transparência, sim! Fazer demagogia histérica com estes casos, não!

  11. nik,
    consigo entender grande parte do teu raciocínio e até concordar, várias vezes. Mas espalhas-te com os Coruchéus. Porque razão havia de ser vasculhado aquilo que nada tem a vasculhar? Ou achas que a CML não tem nada que facilitar ateliers a artistas, (pagando, evidentemente), sobretudo sendo artistas reconhecidos como tu próprio admites?
    Não há qualquer favor nos Coruchéus nem escândalo que não seja a falta de mais dez complexos iguais. Em cada bairro.

  12. Não condeno nem disse que há escândalo nos Coruchéus. Disse, ou impliquei, que há favor. E há. Tu chamas facilitar. Eu chamo favor, porque os artistas ou não pagam nada ou pagam tostões para lá viverem e trabalharem, ao contrário de muita gente válida em Lisboa que não tem onde viver nem onde trabalhar. Os artistas devem ser os únicos favorecidos?

    Fizeram um quarteirão para artistas? Muito bem. Mas porque é que um escritor ou um músico não pode pedir uma casa à Câmara, alegando os mesmos motivos pelos quais os artistas plásticos são favorecidos?

    O que eu digo é isto, que é muito simples: toda a política de atribuição de casas da Câmara tem que ser examinada. Tornada mais transparente e mais justa, depois de discutida a sério, com rigor e equidade, sem fins polítiqueiros.

  13. Ele há tanto filho da mãe à solta e impune nessa selva lisboeta, feras insaciáveis que nunca deram nada a ninguém, predadores que não se apiedam de nenhuma miséria, e é sobre a Ana Sara Brito que se abatem os holofotes, porque a CML se esqueceu de a mandar embora das míseras duas assoalhadas da Rua do Salitre. É injusto e feio.

  14. Rui, o caso do Baptista-Bastos é outro que cheira muito mal. Ele sonegou informações, o que só piora a suspeita.
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    Nik, estás em fuga para a frente. Mas vais ao pé-coxinho. Primeiro, se achas que há abuso, não podes considerar ilegítima a atenção dada ao caso. Aliás, é pelo perfil modesto da figura e do bem, a tal casinha coitadinha, que ele se apresenta paradigmático. Falar da senhora em causa corresponde ao momento em que o fenómeno se torna público e exige responsabilizações. Segundo, invocares outros casos supostamente maiores para esconder este é algo que te torna conivente com a corrupção. Como sabes sem ser preciso explicar-te. Terceiro, é da incúria de toda a CML, de todos os partidos com representantes eleitos, que se está a falar ao falar da Ana Sara Brito. E que fez ela? Fez uma conferência de imprensa, ladeada pelos figurões da Câmara, onde anunciou que está tudo legal. Óptimo, mas como ainda não chegámos ao Brasil, estar legal não significa que esteja bem. Por isso, também por isso, e especialmente por isso, há que falar do seu caso.

    Já agora, também estás contra os processos que envolvem Santana Lopes, Helena Lopes da Costa e Miguel Almeida?

  15. Caro Valupi,

    O homem da meia-maratona não me impressiona em nada. Para mal do país, já o mesmo não direi dos atributos de imagem das duas expostas e promissoras princesas, uma seguramente será Rainha. É fácil adivinhar a qual. Parabéns.

    Sobre a casa da democracia, a coisa é séria e cheira muito mal, tão mais pestilento quanto mais se escava. O andor ainda só está no adro.

    Para trás ficou a questão dos “alhos e bugalhos”, mas não esquecida, promessa.

    “Quanto ao que se tem passado com as casas da Câmara de Lisboa, e que Ana Sara Brito exemplarmente subsume”…

    A Vereadora, enfermeira reformada com 3.350 euros mês, segundo o Público, não esclarece o legítimo proprietário da casa que habita, é muito grave. Mais informa o mesmo jornal, ir o Presidente da Câmara pedir permissão para publicar a lista de todos os abonados. Lindo.

    Neste momento há vários generais na reforma com urticária, as várias comissões de serviço em África não deram para tanto, será só ex-enfermeira ou também Ex-vereadora?

    A verdade é de que quanto a casas do Estado os militares não são anjinhos nenhuns.

    “ E quando o PCP não o faz, (obrigação de denunciar o caso) não se deve esperar que o PS, PSD e CDS o venham a fazer, escuso de explicar para não ofender a tua (de todos) inteligência”…

    Cheira a manobra a notícia da demarche do senhor Presidente. Então se nada aconteceu a um ministro que divulgou os nomes das secretas, de quem tem medo o Ex-ministro e advogado lustroso?

    Em relação ao dito do mal, o menos é isto com efeito, agir sem honestidade.”Cícero”
    Da injustiça existem dois tipos: um, o daqueles que fazem o mal; o outro, o daqueles que podendo evitá-lo, nada fazem.”Cícero”

    “Desde os anos 90 que não voto em nenhum partido que tenha tido presença parlamentar. Não quero ser cúmplice de ogres e imbecis”.

    É sempre bom saber. “A legitimidade vale por si própria, a dúvida pressupõe um juízo injusto”. “Cícero”

  16. Val, a fuga em frente é desse lado. É especialidade tua.

    Val e rvn: leiam a coluna de hoje do BB no DN. Talvez vos faça pensar, talvez não. Há pessoas que são impermeáveis a factos quando já têm uma opinião blindada por palpites ou pior. Lá fala ele do caso dos Coruchéus, que eu referi aqui ontem, de Belém, da Casa dos Jornalistas e outros, casos de que não é possível passar por cima assobiando para o lado, enquanto se crucificam pessoas decentes e dedicadas à colectividade. Porque é que se aceita que um artista plástico goze de favorecimentos extraordinários e depois se grita ao escândalo quando um escritor e jornalista, como o BB (de quem pessoalmente, literariamente e politicamente nunca gostei, diga-se), pede para ter um favorecimento semelhante, aliás idêntico ao que outros jornalistas auferem? Também não estou a defender o Sampaio, personagem de quem sempre abominei a vacuidade e a presunção. Não nego que tivesse havido uma margem de abuso, de falta de ética, mas é preciso ponderar bem toda a situação.

    Val, eu disse que há situações muito distintas entre os casos que o Expresso trouxe a público, apostando na amálgama manipuladora. É uma injustiça meter a Isabel Soares, a Ana Sara Brito e o BB no mesmo saco. Quem acusa tem que ser justo como um juiz, ou perde toda a credibilidade.

  17. ramalho santos, muito bem lembrado, o Cícero.
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    Nik, não há qualquer possibilidade de tapar o Sol com a peneira: o caso da Ana Sara Brito é o caso da Ana Sara Brito. Se, para além do dela, existem também outros 3199 casos, mais os casos dos artistas, mais o diabo a sete, pois que venham todos. Eu, cidadão, com os impostos em dia, quero ter acesso a toda a informação, quero conhecer o que se tem feito com o dinheiro do meu trabalho.

    O que tu propões é que me parece ainda pior do que o mal já descoberto: varrer para debaixo do tapete, ou passar com a esponja. Repara: quem não deve, não teme. Mas tu estás a dizer que era melhor não conhecer o que se passa, só porque achas que alguns dos envolvidos serão “pessoas decentes e dedicadas à colectividade”. Meu caro, de “pessoas decentes e dedicadas à colectividade” está a corrupção cheia.

  18. “Se, para além do dela, existem também outros 3199 casos, mais os casos dos artistas, mais o diabo a sete, pois que venham todos. Eu, cidadão, com os impostos em dia, quero ter acesso a toda a informação, quero conhecer o que se tem feito com o dinheiro do meu trabalho.”
    Subscrevo inteiramente. Varrer para debaixo do tapete foi coisa que nunca disse nem propus.
    Em relação à ASB, não subscrevo. Não queres distinguir casos que são diferentes, queres participar na amálgama. Tudo bem.
    Quanto aos supostos 3200 casos, o Expresso, depois de atirar o número para o ar em título de 1ª página, dizia lá dentro num cantinho escuro que 40% dessas “casas dispersas” da CML estavam desocupadas. Escândalo esse dez vezes maior do que o que puseram na 1ª página, não sei se estás de acordo comigo. São cerca mil e quinhentas casas da Câmara desocupadas.

  19. E tu insistes, mesmo depois de teres admitido que era um abuso. O caso da ASB só veio a público por causa dos processos à matilha do PSD. E o que se conhece já permite juízo: grave falha ética, pelo menos. Portanto, falar dela não tem como consequência o esquecimento dos outros casos, bem pelo contrário. Fala-se dela porque estamos perante a obrigação de nos responsabilizarmos todos pelo que se vai conhecendo. Eu, como munícipe, considero-me lesado pela situação que ASB protagonizou.

    Todas as outras temáticas relativas à gestão do património imobiliário camarário são merecedoras de atenção, investigação, debate e decisão, obviamente. Agora, essa tua atitude de disparar contra o mensageiro – acusando de partidarite aquilo que é o mais essencial acto da cidadania: assumir e exigir responsabilidades – é surpreendentemente um colossal erro, pois é desse desleixo e conivência que nasce o marasmo cívico e político donde parece que não conseguimos sair. A culpa morre sempre solteira em Portugal, desgraça que perpetua a desgraça.

  20. Adoro este combate contra a corrupção, este esticar de argumentos.

    Mais: adoro esta convicção de que a essência do combate contra a corrupção se faz estigmatizando certos bárbaros, como é o caso da Sara Brito e do Batista Bastos. Crucificados estes, dormiremos descansados, cumprido que foi o nosso dever.

    Claro que os referidos bárbaros são quem são. Mas isso é mera coincidência, que independência de avaliação não deve faltar por aqui.

    Já agora: os ateliers dos Coruchéus são mesmo… ateliers e não residências-ateliers, como erradamente se escreve aqui ou ali. Pelo que pessoalmente conheço, são um espaço (uma assoalhada) de trabalho, com uma modesta casa de banho. Nada mais.

  21. Essa tua indignação pelo provável abuso ou falta de ética de Ana Sara Brito é chocantemente excessiva e, por isso mesmo, injusta. Seria ridícula se não houvesse uma pessoa de carne e osso na berlinda. O mesmo para o caso do BB.

    Já te apontei várias outras situações muito mais escandalosas nesse campo, como a existência de 1500 casas camarárias desocupadas, mas continuas a assobiar para o lado. Aí não há responsáveis? A incúria da Câmara já pode morrer solteira?

    Já se falou do discricionarismo institucionalizado há muito praticado na atribuição de uma parte das casas camarárias que não são de habitação social, mas que caem nos braços do município por uma variedade de razões. Esse poder discricionário dos presidentes das câmaras não é ilegal ou, pelo menos, nunca o foi até agora. Será obrigatoriamente fonte de imoralidade? Então porquê?

    Já se falou da velha política de atribuição de casas a profissionais da área da cultura e de como isso não pode ser ignorado quando se abordam casos individuais de escritores ou jornalistas como, por exemplo, o BB.

    Mas não. Apeteceu-te insistir na amálgama, na pessoalização, no casamento da culpa com nomes de pobres, na teoria do complot desses pobres contra o bolso do contribuinte. Pois, se calhar nunca omitiste uns cobres na declaração de IRS, daí o teu fundamentalismo contra quem não presta contas.

    Serás daquelas pessoas para quem os maiores ladrões não são os banqueiros do BCP nem os empresários de obras públicas ou da saúde que roubam milhões ao Estado, mas os malandros que roubam para comer?

    Deves estar mas é a sonhar: quem é que te acusou, a ti ou a quem quer que seja, de partidarite? Falei em manipulação da informação, falei em baixa politiquice, nunca falei de partidarite, que pouco ou nada tem a ver com este caso. Pelo contrário, e pior do que partidarite, o que me parece ver aqui é aquela sanha anti-políticos e anti-partidos que anda sempre de par com denúncias de corrupção generalizada e que leva à criação de um clima paranóico contra a política em geral e a democracia em particular.

  22. a. moura pinto, não te entendi. És livre de tentar outra vez.
    __

    Nik, entraste no delírio. Agora vens dizer que o abuso ou falta de ética é “provável”, quando lá para cima era um facto. Como ficamos? Que pensas afinal sobre o caso dela? O teu disparate corre solto, pois o problema é mesmo esse de existir uma pessoa de carne e osso. E depois outra, e outra, e outra. Quantas pessoas muito mais pobres, mesmo miseráveis, não teriam tido muito mais razões para ficar com a casa da Sara Brito? E porque caralho se demora 20 anos para dar uma conferência de imprensa sobre o assunto? Onde é que está aqui o excesso de indignação se é a própria a ter de dar explicações públicas, apoiada em peso pelos dirigentes coligados na Câmara? Ridícula é a tua cegueira.

    Já acusaste a discussão deste caso de ser demagogia histérica, algo nojento, politiquice barata, coisa injusta e feia, e sei lá que mais. Não falaste em partidarite? Parabéns à prima. Mas o que disseste nada acrescenta ao entendimento da situação, apenas diz de ti. Para a comunidade, o problema mantém-se: quem é que assume a responsabilidade por uma situação indefensável? Pelos vistos, pessoas como tu nem querem ouvir falar do assunto, e têm o desplante de invocar a extensão da injúria com sua legitimadora. Isso é que nunca, Nik, o mal feito não pode justificar a feitura do mal. Se Ana Sara Brito tem a sua situação legal em ordem, isso não diz nada sobre a moralidade da sua legalidade. É isso que alguns querem discutir, porque não concebem o exercício da política sem a fundamentação ética.

    Como não te resta mais nada, atiras-te ao obsceno. Achas que uma minha eventual fuga aos impostos possibilita que as enfermeiras pobres e com 20 anos de carreira autárquica e partidária, acabando a ganhar reformas que 90% dos portugueses nunca conheceu como salário, usufruam de favores tão especiais dos presidentes das Câmaras que até envolvem a resolução de berbicachos com privados. É extraordinária a tua concepção do que é a justiça.

    A sanha anti-políticos e anti-partidos é o que resulta dessa anomia com que, estranhamente, queres conviver. Reclamar pelos direitos dos mais pobres é, pelo contrário, o que está na origem da democracia.

  23. meus amigos,
    recebi e publiquei agora mesmo, lembrei-me de vocês dois que é como quem diz nós todos, aqui neste post. Não querem espreitar? Uma bela achega, (não minha) digo eu.

  24. Val, és obstinado. Se me lesses com algum cuidado, coisa que nunca fazes, verias que sou sempre prudente nos meus juízos públicos sobre pessoas concretas. Digo: “parece-me que”, digo: “aparentemente”, etc. Confere. Não mudei nem meia vírgula na minha maneira de encarar toda esta história. Só que não faço juízos sumários nem tento depois defendê-los obstinadamente. Tento ver todos os lados da questão. Tento ser justo.

    Sobre o BB, acho que ele pediu uma casa à Câmara (o que para mim não tem nada de imoral, muitos outros artistas, escritores, jornalistas, etc. auferem favorers semelhantes) quando tinha dinheiro suficiente para comprar outra em Constância (o que, isso sim, acho pouco ético, se vier a confirmar-se). Mas o pior, no caso do BB, não é nada disto, é o vir simultaneamente para a praça pública defender as virtudes republicanas que andam tão ofendidas, coitadinhas, já não há ética, é só bandalheira, coisa e tal, só o Eanes é que se aproveita (e ele BB, como ficava implícito).

    Não exijo a figuras públicas nenhum fundamentalismo ético, como os jornalistas fazem para vender as suas escandaleiras periódicas. Acho também uma grande hipocrisia demagógica o sr. Khadafi quando chegou ao poder ter declarado que a última pessoa a ter uma casa na Líbia seria o seu próprio pai. Não gosto de homens muito virtuosos e impolutos no poder, ditadores com os cotovelos do casaco puídos, autocratas sanguinários que usam botas para poupar no aquecimento eléctrico. Tão honestos, tão honestos, que nem sequer deixaram uma reforma à governanta que trabalhou para eles mais de 40 anos.

  25. Nik, és tu quem tem de se ler a si próprio com mais cuidado. Escreveste que este caso configurava um ataque ignominioso. Contudo, a tua prudência nos juízos públicos sobre pessoas concretas aplica um passe de mágica nos 20 anos em que “provavelmente” ela terá abusado do favor. Entretanto, todos os que se pronunciaram publicamente em relação ao escândalo apontam o próprio favor como sendo abusivo na origem, ninguém está sequer a falar do óbvio: 20 anos de usufruto daquela casa, para uma pessoa que ganhava mais do que a enormíssima maioria dos portugueses e trabalhava para a Câmara ao serviço do povo (!!), é um roubo e uma injustiça.

    Tu achas que não, que é ao contrário: injustiça é estar a falar no assunto da coitadinha da enfermeira já vereadora com acesso aos favores do presidente. Talvez essa distorção se explique pelo que dizes neste passo:

    “Não exijo a figuras públicas nenhum fundamentalismo ético, como os jornalistas fazem para vender as suas escandaleiras periódicas.”

    Não faço ideia do que seja um “fundamentalismo ético”, nem sou jornalista. Eu limitei-me a pedir que a política seja fundamentada na ética. Se com isso feri as tuas convicções, não serei eu a ficar mal no retrato.

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